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Larry Rivers - Popcorn 1970

É um prazer sempre renovado perder-me na poesia de Camões (1524-10 Junho 1580). Aos poemas familiares que cantam na cabeça nas mais inesperadas situações, e se renovam a cada leitura, acrescentam-se outros, fugazes, que no trivial da ideia nos levam ao encontro do homem por detrás do génio. Desses,  transcrevo hoje três redondilhas em voltas sobre mote, onde de ardências de amor e esquivanças femininas se trata.

 

Começo com um poema de dúbio sentido onde calores masculinos se disfarçam.

Esforçaram-se especialistas em encontrar fundamento histórico para explicar a letra desta redondilha. Por mim é sem questão: é uma gabarolice em torno da firmeza da erecção do poeta e um convite ao acto sem destinatária identificada.

 

Mote

 

Quem disser que a barca pende,

dir-lhe-ei, mana, que mente.

 

 

Volta

 

Se vos quereis embarcar

e para isso estais no cais,

entrai logo; que tardais?

Olhai que está preiamar!

E se outrem, por vos fretar,

vos disser que esta que pende,

dir-lhe-ei, mana, que mente.

 

Esta barca é de carreira,

tem seus aparelhos novos;

não há como ela outra em Povos,

boa de leme e veleira.

Mas, se por ser a primeira,

aos disser alguém que pende,

dir-lhe-ei, mana, que mente.

Notas

V. 12 — Povos — localidade do concelho de Vila Franca, próxima do rio Tejo.

 

Agora, para a doença que ataca homens e mulheres, o conselho com o remédio óbvio: Eu cá sinto a vossa dor / e, se vós sintis a minha, / dai e tomai a mezinha.

O mote explica o assunto do poema de forma cabal.

 

A üa dama que estava doente

 

Mote

 

Da doença em que ardeis

eu fora vossa mezinha

só com vós serdes a minha.

 

 

Voltas

 

É muito para notar

cura tão bem acertada,

que podereis ser curada

somente com me curar.

Se quereis, Dama, trocar,

ambos temos a mezinha:

eu a vossa, e vós a minha.

 

Olhai que não quer Amor

(por que fiquemos iguais),

pois meu ardor não curais,

que se cure vosso ardor.

Eu cá sinto a vossa dor

e, se vós sintis a minha,

dai e tomai a mezinha.

 

Notas

V. 2 — mezinha — remédio

V. 13 — pois — já que; não curais — não tratais.

V. 13-14 — ardor — tomado no duplo sentido de paixão e febre.

 

Termino com as promessas e esquivas de uma Catarina: Mas pois folgais de mentir, / prometendo de me ver, / eu vos deixo o prometer, / deixai-me vós o cumprir: / Haveis então de sentir / quanto fica mais contente / o que cumpre que o que mente.

 

Mote alheio

 

Catarina bem promete…

Eramá! como ela mente!

 

Voltas Próprias

 

Catarina é mais fermosa

para mim que a luz do dia;

mas mais fermosa seria,

se não fosse mentirosa.

Hoje a vejo piadosa;

amanhã tão diferente,

que sempre cuido que mente.

 

Catarina me mentiu

muitas vezes, sem ter lei;

mas todas lhe perdoei

por ûa só que cumpriu.

Se, como me consentiu

falar, o mais me consente,

nunca mais direi que mente.

 

Má, mentirosa, malvada,

dizei: para que mentis?

Prometeis, e não cumpris.

Pois, sem cumprir, tudo é nada.

Não sois bem aconselhada;

que quem promete, se mente,

o que perde não no sente.

 

Jurou-me aquela cadela

de vir, pela alma que tinha.

Enganou-me: tem a minha;

dá-lhe pouco de perdê-la.

A vida gasto após ela

porque ma dá, se promete;

mas tira-ma, quando mente.

 

Tudo vos consentiria

quanto quisésseis fazer,

se esse vosso prometer

fosse por me ter um dia;

todo então me desfaria

convosco; e vós, de contente,

zombaríeis de quem mente.

 

Prometeu-me ontem de vir,

nunca mais apareceu;

creio que não prometeu

senão só por me mentir.

Faz-me enfim chorar e rir:

rio, quando me promete;

mas choro, quando me mente.

 

Mas pois folgais de mentir,

prometendo de me ver,

eu vos deixo o prometer,

deixai-me vós o cumprir:

Haveis então de sentir

quanto fica mais contente

o que cumpre que o que mente.

 

Notas

Eramá! — interjeição usada na língua popular do tempo, como se vê em Gil Vicente, às vezes com a forma ieramá (nota da edição das Redondilhas de Hernani Cidade).

 

V. 13 — cumprir tem na época, entre outros, o sentido de satisfazer, dar satisfação.

V. 15 — o mais me consente — consente-me mais que falar-lhe.

V. 21 — bem aconselhada — de bom conselho, previdente, sensata.

V. 23 — nem sabe o que perde.

V. 24 — cadela — na Comédia de el-rei Seleuco encontra-se este falar namorado: ” Vossos descuidos? Cadela! / Ah, minh’alma  Sois tão bela…”— É possível que o sentido não fosse então meramente depreciativo, como hoje.

V. 33-34 — trocadilho entre vários sentidos: prometer, por me ter, por meter. — no texto o verbo prometer vem sempre grafado com a forma pormeter.

V. 41 — se não só por — a não ser para.

V. 45 — mas pois — mas visto que.

V. 48 — vide nota ao V. 13.

Transcrição dos poemas e notas de Luis de Camões, Lírica Completa I, prefácio e notas de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, 1980.

A imagem de abertura mostra uma obra de Larry Rivers (1923-2002).

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