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Pollock - Numero 8 1949

Epigrama

 

Prometeu, quando fez o homem primeiro,

Macho e fêmea, dous corpos fez, pegados:

Porém Jove um composto assim inteiro

Partiu em dois terníssimos bocados.

Daqui nos vem andarmos sempre ao cheiro

Dos membros, que nos foram arrancados.

— Ei-la — (nos diz o Coração) — É aquela —

Mas vamos a prová-la, e nunca é ela.

 

 

A exigência de uma sólida cultura clássica, a dureza do verso, a persistente recusa no uso da rima, sobretudo nas odes, tudo contribui para afastar o leitor moderno da poesia de Filinto Elíseo (1734-1819). E contudo, que grande poeta!

 

É no fluir encantatória do verso (aqui com rima) que reside todo o fascínio do Anfiguri de Filinto Elíseo que mais à frente transcrevo.

Género poético raro, de difícil factura com sucesso, este anfiguri antecipa todas as vanguardas literárias que o século XX conheceu e nos próximos artigos ilustrarei. É simultaneamente poesia dadaista e surrealista no conteúdo, e experimental no exercício sobre a palavra que tão caro foi às vanguardas poéticas ao longo do século XX.

 

Hoje as preocupações poéticas de criadores centram-se sobretudo nos relatos do “eu e o mundo” no tom sério que, supõem, convém à poesia. O non-sense, o absurdo, ou tão só o trabalho sobre a palavra, se têm cultores, não têm leitores.

Voltando ao que me ocupa hoje, define o dicionário anfiguri como obra literária de sentido confuso; e assim será. Mas ser de sentido confuso não significa ser sem sentido. E é aí que o desafio se coloca: perscrutar os sentidos possíveis num anfiguri que seja também, como é aqui o caso, um poema, notável pela organização rítmica da palavra, essência mesma da poesia.

Pollck- Fora da rede numero 7 1949

ANFIGURI

 

Dá cá o presunto,

Rapaz enfeitado:

Quem não comeu bocado

Não morre de fome.

Morreu Lobisomem

Em camas de neve

Co’a pena que escreve

Decretos de Amor

Que quis com primor

Em rico tapete

Depor o sainete

Da concha Ciprina.

Eu vi a Menina,

Que vence as formosas

C’os lírios, e rosas,

Falar de sob-capa

A bichos do Papa.

Foi muito daninho

Às cepas do Minho

O sol deste inverno:

Quem pôs o governo

Nas mãos da criança

Não canta nem dança;

Mas põe geringonça

Nos papos da Onça.

Garrido estribilho,

Com palha de milho

Vai mui penitente

Nas pelas da gente

Sorver a mostarda,

Que trouxe a Bastarda

Nas garras do lobo.

O magro Farrobo

Nas altas ameias,

Sem ligas, sem meias

Gritou tartamudo:

“Trazei-me veludo

De pelo encarnado

Que dê mau olhado

A três feiticeiros.”

Os velhos gaiteiros

Rebentam de riso

Co’as trovas de guizo

Na vã carapuça.

Bem vai quem se aguça

Por ver o chavelho

Do bom scaravelho

Pintado de azul;

E a penca ao Taful

Da parda caraça,

Que bem se almofaça

C’o texto da Glosa.

E viva essa Moça,

Que compra o rebique,

E diz no despique:

“São bons carapaus.”

Ásados maraus

Com pança balofa

Refrescam a fofa

Nas costas do Alfeito.

Mas foi mui bem feito

Trazerem castanhas

De avulsas maranhas

Do monte Pegú.

O Cucurucú

Despindo as baetas

Mostrou carapetas

Nos Alpes gulosos.

Vieram gostosos

Os nabos Turquinos

Trazer aos meninos

As torres da Sé.

Não ouve, não vê

Cruel rapazia

Dragão que assobia

Deserto e Filhota.

O Céu se encapota

Com manto de sarro

E chove catarro

Por gordas goteiras.

Sacode as peneiras

Brincam Demonico;

Lá leva no bico

Barbudo alguidar.

Mandei bugiar

O homem de ferro,

Que vai como um perro

Capar os picanços.

Passeiam mui mansos

Subtis Jesuítas

Varrendo as Mesquitas

De São Sarabando

Aqui vão quebrando

Os ecos das bombas,

Que estouram nas trombas

Dos Rinocerontes.

Com seis Faetontes

Nas pregas da cauda

Compunha uma lauda

De vãos palavrões

Para as Conclusões

O grande Enxobregas,

Que estanca as bodegas

Da esconsa Prosódia.

Gentil palinódia

Discanta o Sultão

No grão Casarão

Que Merlim lhe acabou.

Aqui me mandou

O seu mensageiro

O mui marralheiro

Autor da matraca,

Que intrépido ataca

Com seus consoantes

Os versos tonantes

Sem tais maravalhas;

E afia as navalhas

Trombudo Censor,

Sem pejo, sem dor.

Eu nestes entrementes

Vos lanço a seus dentes

Versículos louquinhos.

Pollck - pintura 1945

Para despedida, hoje, da poesia de Filinto Elíseo, termino com outro epigrama do poeta.

Epigrama

 

Entender de comércio é gran venida

Para dourar com cabedais a vida:

Val mais que tenças, mais que bons morgados.

Saibam que Filis d’alugar seu leito,

Que apenas lhe custou vinte cruzados,

Tira dez mil, cada ano, de proveito.

Poemas transcritos de Obras Completas, volume I, edição APPACDM, Braga, 1998, integrado em Obras Clássicas da Literatura Portuguesa, edição de Fernando Moreira a partir da 2ª edição, Paris, 1817.

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Jackson Pollock (1912-1956).

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