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Bernard_Emile-Madeleine_in_the_Forest_of_Love 1888

Nos acasos felizes que a poesia proporciona, cruzam-se por vezes os poemas dando conta de uma intemporal unidade do sentir humano. É assim que, depois do poema anterior de António Manuel Couto Viana (1923-2010), Saudade de um corpo, me cai nos olhos uma mais geral e meditativa reflexão poética de A. C. Swinburne (1837-1909) sobre o que não fizemos na vida quando a possibilidade existia, deixando a oportunidade passar ao lado:

Tivesse eu sabido, quando a vida era um vento tépido e feliz,

Brando e ruidoso na aurora e na névoa brilhante do orvalho,

Que havia de chegar o tempo em que, suspirando os corações diriam:

“Tivesse eu sabido…”

Chega sempre, o tempo de olhar para trás e duvidar do acerto das escolhas. Há apenas que viver com elas, ainda que, por vezes sintamos que:

… a própria alma, à deriva e perdida como o vento, suspira:

“Tivesse eu sabido…”

 

Quem nos dera pela vida fora não vir a suspirar: “Tivesse eu sabido…”

 

 

 

“Tivesse eu sabido”

 

Tivesse eu sabido, quando a vida era um vento tépido e feliz,

Brando e ruidoso na aurora e na névoa brilhante do orvalho,

Que havia de chegar o tempo em que, suspirando os corações diriam:

“Tivesse eu sabido…”

 

Nem sequer as rosas rindo ao beijarem-se,

Nem, ao sol, o mais encantador riso ondulante do mar,

Teriam vindo fascinar a minha alma para que neles reparasse.

 

Agora o vento é como uma alma desterrada a rezar inutilmente

As preces que não conseguimos ouvir se o coração lhes resiste,

Agora que a minha própria alma, à deriva e perdida como o vento, suspira:

“Tivesse eu sabido…”
O poema, em tradução de Maria de Lourdes Guimarães, foi transcrito de Poemas, edição Relógio d’Água, Lisboa, 2006.

 

Termino com o original inglês:

 

‘Had I Wist’

 

Had I wist, when life was like a warm wind playing

Light and loud through sundawn and the dew’s bright mist,

How the time should come for hearts to sigh in saying

‘Had I wist’ —

 

Surely not the roses, laughing as they kissed,

Not the lovelier laugh of seas in sunshine swaying,

Should have lured my soul to look thereon and list.

 

Now the wind is like a soul cast out and praying

Vainly, prayers that pierce not ears when hearts resist:

Now mine own soul sighs, adrift as wind and straying,

‘Had I wist.’

 

Escrevia eu estas notas, e súbito irrompe o saxofone de Ben Webster e o piano de Art Tatum tocando uma intemporal versão de My one and only love. Não resisto a acrescentá-la ao artigo.


A abrir, a imagem de uma pintura de Emile Bernard (1868-1941), Madeleine na floresta do amor, de 1888.

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