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Category Archives: Convite à fotografia

A MULHER segundo Vinicius de Moraes

02 Sexta-feira Dez 2011

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Ruth Bernhard, Vinicius de Moraes

… e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Infatigável cantor da mulher, Vinicius de Moraes (1913-1980) dá-nos neste Receita de Mulher um retrato ideal do feminino, onde alguma ironia perpassa a espaços.

Simultaneamente retrato, desejo e conselhos, à medida que lemos o poema somos enviados para Arte de Amar de Ovídio, não por qualquer imitação, mas por uma semelhante qualidade de inspiração sobre o ser e o fazer do amor, onde certa afinidade de assunto se revela.

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

O poema Receita de Mulher foi publicado em plaquette em 1957.

Deixo AQUI a ligação para a sua edição original  disponibilizada on-line por Brasiliana USP, biblioteca digital mantida pela Universidade de S. Paulo no Brasil.

Nota

A fotografia é de Ruth Bernhard (1905-2006), autora de algumas das mais belas fotos de nus femininos da história da fotografia. Viveu 101 anos. A foto foi tirada provavelmente em 1962.

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Soneto 2 de Fernando Assis Pacheco

05 Sábado Nov 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Erótica, Poetas e Poemas

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Fernando Assis Pacheco

Soneto 2

Os trabalhos de amor são os mais leves

de quantos algum dia pratiquei

na cama as alegrias fazem lei

e se me queixo é só de serem breves

 

eu vivo atado às tuas mãos suaves

num nó de que este corpo já não sai

ferve o arco do sol a tarde cai

ardem voando pelo céu as aves

 

mágoas outrora muitas fabriquei

e em países salobros jornadeei

ao dorso das tristezas almocreves

 

a vez em que te amei um outro fui

comigo fiz a paz nada mais dói

e os trabalhos de amor nunca são graves

 Lisboa

12-X93, 23-XII-93

Soneto 2 de Fernando Assis Pacheco (1937-1995) publicado em RESPIRAÇÃO ASSISTIDA, edição Assírio & Alvim, 2003.

 

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Algumas fotos de Ansel Adams

31 Segunda-feira Out 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia

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Ansel Adams

Ansel Adams (1902-1984), mestre absoluto da fotografia de paisagem em preto e branco, quaisquer novas considerações sobre as suas fotos são pura redundância.

Olhemos apenas, uma vez e outra, a infinita gama de cinzentos que cada paisagem pode esconder. E de caminho deslumbrarmo-nos com os enquadramentos, fazendo de cada rectangulo fotografado um exemplar de equilibrio plastico na captação de volumes, a que a luz confere uma voluptuosa profundidade.

Estas são escolhas quase ao acaso de um acervo deslumbrante para qualquer amante da fotografia de paisagem.

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Algumas fotos de Edward S. Curtis

10 Segunda-feira Out 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia

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Edward S. Curtis

É sempre com alguma perplexidade que olho as fotos de retrato de nativos norte-americanos feitas por Edward S. Curtis (1868-1952) entre finais do século XIX e inicio do século XX.

Mostram uma humanidade tão estranha à que conheci ou me foi próxima que as perguntas surgem em catadupa ao olhar aqueles rostos.

Que pensavam sobre o mundo, sobre si próprios, sobre a sociedade em que viviam, sobre as questões ontológicas da existência, sobre as relações familiares e entre sexos?

Tudo perguntas que ficam por responder. Mas a forma de trajar, as decorações capilares, enfeites e adornos na face, algo dirão a quem tenha a chave para os perceber.

À época das fotos ou pouco depois, Marcel Proust escrevia Em Busca do Tempo Perdido e em Viena, por exemplo, fervilhavam as vanguardas artísticas, e as descobertas de Freud faziam furor. Que aproxima estas duas humanidades, a humanidade que protagoniza a saga de certa burguesia francesa ou austríaca, e estas pessoas, dignitários nas respectivas sociedades, dispondo de outros meios materiais de sobrevivência, mas sobretudo nos antípodas das aquisições culturais destas sociedades europeias suas contemporâneas.

As mulheres são belas quando jovens, envelhecem como toda a humanidade à época, e os homens apresentam a firmeza de olhar que se espera de quem tem responsabilidades. E no entanto, olhamo-los e não os sentimos iguais a nós. É a pergunta que me faço ao vê-las.

Escolhi algumas fotos entre as que mais me impressionam para dar conta desta minha perplexidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois desta viagem, deixo a quem a fez, a liberdade de apreciar quantas das opções de moda destes personagens estão hoje integrados no visual original das nossas sociedades.

As fotos foram calibradas por mim, em alguns casos, a partir dos negativos digitalizados disponibilizados pela Bibliteca do Congresso Norte-Americano

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A fotografia de Jack Delano

22 Segunda-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia

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Jack Delano

É possivel que a fortuna mediática e critica de Jack Delano (1914-1997) esteja a mudar. Há poucos meses fui surpreendido com uma sua fotografia, que guardo entre as fotos que admiro sobremaneira, na capa de uma edição paperbacck de Coração, Solitário Caçador, de Carson McCullers. O acerto da escolha é notável tendo em conta o assunto do livro e a foto é daquelas que faz apetecer comprar o livro para a ver. É esta.

A obra de Jack Delano conhecida é-o, sobretudo, através do trabalho para a FSA (Farm Security Administation Photography program) programa fotográfico da iniciativa do governo dos Estados Unidos na década de 30 do século XX, para documentar os efeitos da Grande Depressão. Trabalharam neste programa quase todos os fotógrafos que fizeram a glória da fotografia americana, incluindo Dorothea Lange, fotógrafa daquela mãe migrante que permanece como ícon da fotografia do século XX.

No final da década  de 30 e inicio doa anos 40, Jack Delano, ainda no âmbito da FSA, fez as primeiras experiências com cor em fotografia, e é desse espólio, cujos negativos são disponibilizados pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano, que editei o conjunto de fotos deste artigo. São de minha responsabilidade os balanços de cor, não tendo tocado nos enquadramentos.

Enquanto nos retratos individuais impressiona a forma como a dignidade dos fotografados foi captada  nas infra-humanas condições de vida que experimentavam, nas fotos de grupo em trabalho há uma espécie de bailado no enquadranmento de gentes e ferramentas transmitindo a possibilidade da beleza mesmo nas mais duras condições, sem mascarar a natureza documental do trabalho fotográfico.

Nestas primeiras tentativas com a cor em fotografia, vale a pena atentar no cuidado da composição cromática contribuindo para o equilibrio da imagem, resultando em todas as fotos numa enorme originalidade, com destaque para as primeira e última foto do artigo.

Todas e cada uma das fotos merecem uma análise detalhada para além dos limites e propósitos do blog.

Tenha o artigo chamado a atenção para um fotógrafo maior com obra pouco conhecida e sinto-me recompensado.

A página da Wikipédia sobre Delano dá noticia sucinta sobre a biografia e a obra do fotógrafo de origem ucraniana, que foi também compositor.

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A assim chamada vida – poema de Czeslaw Milosz

02 Terça-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Czeslaw Milosz

 

A assim chamada vida

A assim chamada vida, quer dizer

tudo o que é assunto de telenovela

não lhe parecia digno de relatar.

Mesmo que quisesse falar, não o sabia.

Admiravam-no as histórias intrincadas de homens e mulheres

que se iam arrastando até à deslembrança coruscante.

Ele próprio só sabia cerrar os dentes, aguentar e

esperar que a velhice inviabilizasse os dramas,

que a novela de amores, ódios, tentações e traições

rebentasse como uma bola de sabão.

Czeslaw Milosz (1911-2004)

Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, publicada em Alguns gostam de poesia, Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa, 2004.

SO-CALLED LIFE

So-called life: everything that provides material for a soap opera,

he didn’t think was worth relating,

or maybe he wanted to tell it and couldn’t.

He was surprised by the tangled tales of men and women,

stretching out to a flickering oblivion.

He himself only knew how to clench his teeth and bear it,

to wait, until old age took from the dramas their meaning,

and the soap opera of loves, hatreds, temptations

and betrayals, dropped off to sleep.

O poema pertence ao ultimo livro do poeta, THIS (2000) e foi recolhido em New and Collected Poems (1931-2001) em edição da PENGUIN, na serie Modern Classics, em 2001.

 

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Em Lisboa com Cesário Verde — Eugénio de Andrade a pretexto dos jacarandás

16 Segunda-feira Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Eugénio de Andrade, jacarandás

Passeamos pelas ruas de Lisboa neste verão de Maio, e o inesperado do azul dos jacarandás floridos, fundido com o céu, enche-nos o olhar.

Este ano aconteceu mais cedo, e a cidade dos poetas estará vestida de azul até aos Santos Populares se a natureza cumprir a sua função.

Em pausa de passeio aqui fica esta visita de Eugénio de Andrade (1923 – 2005) a Lisboa.

EM LISBOA COM CESÁRIO VERDE

Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que os gatos persas;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura à do Tejo, em flor também,

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro um rumor distante

de passos ou aves, nem eu sei já bem.

Só ele ajusta a luz feliz dos seus

versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

dum verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio e a musica,

o sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar silaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

à suprema perfeição da lingua.

1986

Lisboa é pouco frequente na poesia de Eugénio de Andrade, embora sendo a sua uma escrita da terra onde a memória dos lugares perpassa, uma que outra passagem por Lisboa foi pretexto de poema, tal este LISBOA:

 

LISBOA

Esta névoa sobre a cidade, o rio,

as gaivotas doutros dias, barcos, gente

apressada ou com o tempo todo para perder,

esta névoa onde começa a luz de Lisboa,

rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,

nada mais quero de degrau em degrau.

 

Noticia bibliográfica:

Os poemas foram transcritos de POESIA E PROSA [1940 – 1986],  3ª edição  aumentada, editado por Circulo de Leitores em 1987.

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Manhã, ergo cogito – Um poema de Fiama

23 Quarta-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Fiama Hasse Pais brandão

Hoje a vida levou-me ao encontro de campos e prados logo pela manhã.

Andando, acabei por chegar ao mar.  O oceano, sereno, deixava ver um horizonte sem mácula.

Encontro em Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007) os poemas próximo desta atmosfera plácida e escolho

 

Manhã, ergo cogito


A janela pálida reflorida

no ar cada vez mais visivel.

Também o prado revive

longe, depois de ter bebido

a sua água que dá

ao ar visibilidade.

Tão nítido, estendido numa colina.

 


Noticia bibliográfica:

O poema de Fiama Hasse Pais Brandão pertence ao grupo ENTRE OS ÂMAGOS incluído em Obra Breve e publicado por Editorial Teorema em 1991.

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Portas em Tavira e um poema de José Régio

21 Segunda-feira Mar 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Crónicas, Poesia Portuguesa do sec. XX

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José Régio, Tavira

Razões familiares ligam-me a Tavira especialmente nas oitenta e duas Primaveras decorridas desde 21 de Março de 1928. É um pouco da história deste período que estas portas contam.

Enquanto acesso à entrada num mundo, qualquer que ele seja, a porta marca um corte entre um antes e um depois.

Entre o eterno e o efémero decorrem os dias de uma vida, no silencioso suceder das estações, qual fluir do rio que corre na minha cidade, ia dizer aldeia como Pessoa, ainda que a ligação do poeta a Tavira seja através de Álvaro de Campos e não do seu mestre Caeiro.

Afinal é em José Régio e no seu livro Música Ligeira que encontro o poema adequado a transmitir esta serenidade primaveril, satisfeita de uma vida vivida sem deliberadamente prejudicar ninguém:

Viver à beira da morte

No gosto de mais um dia,

Nem eu diria

Que tão pouco me conforte.

 

Mas para quem

Não tem senão esse pouco,

Seria louco

Perder o pouco que tem.

 

Gozar o que, sem futuro,

Perdura uns breves instantes,

Não era dantes,

Mas hoje, é o bem que procuro.

 

Mais uma vez brilha o Sol!

E é de prever que à tardinha

Desponte a Lua, vizinha

Do resplendor do arrebol.

 

Talvez que a noite comprida

Traga outra manhã, depois.

Um dia e outro, são dois.

Não são dois dias a vida?

 

Nem eu diria

Que tão pouco me conforte:

Viver à beira da morte

No gosto de mais um dia.

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A mulher grávida — poema de Jaime Cortesão

13 Quarta-feira Jan 2010

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Convite à fotografia

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carlos mendonça lopes, Jaime Cortesão

“Pesa um silencio d’alto sobre o mundo” e o poeta submisso ao milagre da vida, ergue-nos esta mulher símbolo, sem forma, sem beleza outra que ser a maravilha da origem do mundo

A mulher grávida

Eu sou a mulher pejada.

Minha boca apetecida,

Com outra boca colada,

Deu beijos para dar Vida.

 

Em mim é santo o Desejo,

É santo por ser fecundo:

Puz toda a alma num beijo,

E fui a origem do mundo.

 

Olhai: caminho por entre

Todo o povo sem receio,

Pois trago um filho no ventre

E uma fonte em cada seio.

 

Quem sentir vida tam alta

Não se furte, não a esconda;

Vêde-a … em meu ventre se exalta,

Sobe toda numa onda.

 

Um filho todas as vezes,

Que é de mãe enternecida,

Trá-lo o ventre nove meses

E o coração toda a vida.

 

Que imenso poder eu tenho

– Dar vida por ser o amor;

Não há poeta tamanho,

Nem génio mais criador!

 

E por meu ventre sagrado

Vou falar: escutai bem.

Fala o verbo revelado

No meu instinto de mãe.

 

Eu vejo para além da vista,

Ouço pra além dos ouvidos:

Oh! Que terra nunca vista,

Que heróis jamais concebidos!

 

Ouço em mim vozes estranhas,

A minha Alma deita luz …

Trago nas minhas entranhas

Outro menino Jesus.

 

Meu Filho amostra-me a face,

Faze-te Aurora nascida,

Embora a luz me queimasse,

Inda que eu perdesse a Vida.

 

Sou o Céu da Madrugada,

A minha carne anda em brilho;

Sinto-me ébria de Alvorada

Rompe o Sol: nasce o meu filho!

O poema é de Jaime Cortesão (1884 – 1960) e foi publicado em 1914 no livro Glória Humilde.

A poesia de Jaime Cortesão ressuma uma sensualidade embrulhada por vezes numa aura mística ligando o sexo ao transcendente da condição humana.

Em Glória Humilde há um esforço de aproximação e ligação à natureza, onde se procura dar a ver o carácter sagrado dos gestos essenciais da vida. Mas é sobretudo no livro Divina Voluptuosidade fazendo supor ao leitor a eternidade no paraíso como uma espécie de orgasmo perpétuo, que chegamos ao carácter sagrado do sexo, de alguma forma aflorado neste canto à gravidez enquanto origem do mundo.

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