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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

O presépio da minha infância

24 Segunda-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Cânone XXI, Convite à arte, Crónicas

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Fernando Pessoa, Natal

UNKNOWN MASTER, German 1420É a poesia de Fernando Pessoa um poço inesgotável, onde a cada mergulho a alma se nos prende e se desvenda. Nesta vasta obra há pouco sobre o Natal, mas basta o arqui-conhecido poema Natal. Na província neva/…, para ficar dito em definitivo o que em desolada solidão sente quem na vida caminha Coração oposto ao mundo.

NATAL  

Natal. Na província neva.
Nos lares aconchegados
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Era pela feira de Outubro que naquele virar dos anos cinquenta a chegada próxima do Natal nos conduzia, crianças de vida modesta numa sociedade de bens escassos.

Aí começava a preparação do presépio com a compra de figurinhas de barro, umas novas para acrescentar variedade à composição, outras para substituir algumas entretanto quebradas. Era o dinheiro amealhado em longos meses, às vezes todo o ano, que permitia essas compras. Depois seguiam-se os trabalhos de preparação e montagem do cenário para o presépio. Tratava-se de uma vasta estrutura com quase dois metros de frente e mais de um metro de fundo construída com réguas de madeira às quais se pregavam raízes de canas. Estas raízes de canas, tuberculos rijos e com formas caprichosas, permitiam uma arquitecuta espacial variada. Pregadas em anfiteatro, desciam das alturas ao fundo, e confluíam na gruta, em baixo e quase ao centro, na frente, onde nasceria o deus menino.
O propósito era criar um vasto cenário deixando imaginar montanhas e vales, por onde andaria e viveria gente, que à chegada do Natal saberiam da boa nova e desciam até à gruta para ver e adorar o deus nascido. Eram esta gente e animais, casas e alfaias, as figurinhas de barro compradas na feira. Ao cenário acrescentava-se musgo e searas (grãos de trigo postos a germinar semanas antes em tacinhas de vidro).
E como se fazia a base do cenário? Pregadas as raízes às tábuas na disposição que iria permitir o relevo, a esta estrutura colava-se papal Kraft, integralmente coberto de um dos lados com cola de farinha, a qual, uma vez seca fixava o papel às raízes e acrescentava-lhe a rigidez e resistência suficiente para nele pousar sem rasgar as figuras de barro.
A cola de farinha era feita com farinha e água, cozida ao fogo. Depois de bem seca a cola, toda a estrutura era pintada com uma solução de dioxénio, a qual por ser de um castanho transparente, permitia nuances de cor sobre o papel creme e já manchado pelo repasse da cola. Uma vez seco o dioxénio e ficando a contento o cenário de montanha que queríamos, tratava-se de polvilhar a estrutura com purpurina dourada e prateada de forma que surgissem reflexos na estrutura, quando iluminada.
Com todo este trabalho tinha passado Outubro e Novembro. Além de carrear todo o material, escolher e ensaiar o cenário a construir, havia também a construção em cartolina do castelo do presépio, e de casas para espalhar pela paisagem. O castelo era a obra-prima de cada ano a fazer, pela vastidão e variedade de torres e ameias, fazendo lembrar um castelo das iluminuras dos irmãos Limbourg, que em tempos deixei algures no blog.
Concluídas as tarefas, e de posse de todos os elementos: figuras, musgo, searas, luzes, tratava-se de as dispor no cenário e inaugurar o presépio, nem sempre no primeiro de Dezembro mas seguramente nos primeiros dias do mês. Quando era montado na montra da loja de meu pai, colocava-se um pano no exterior enquanto a montagem durava, e anos houve em que a miudagem apercebendo-se, ali se juntava e esperava a retirada do pano para primeiro ver o presépio e as suas novidades. Depois, ao longo dos dias, na saída da escola, lá passavam e ficavam a olhar, uns, sem mais, outros discutindo este ou aquele detalhe que gostavam ou não.

Era o tempo de pôr o sapato à chaminé na véspera de Natal à noite, e acreditar que por ali o Pai Natal desceria com um ou dois presentes e pouco mais de meia dúzia de pequenos chocolates, enchendo o sapatinho com os secretos sonhos que só ele conhecia. Hoje, as chaminés vedadas por exaustores não permitem, nem à mais tenra infância, a ilusão da descida do Pai Natal, dando forma a desejos acalentados longamente.

Este acreditar que a magia do bem é possível, acompanha pela vida quem a sentiu, e torna a esperança na felicidade, indestrutível.
Oxalá o mesmo se passe consigo, leitor.

Feliz Natal!

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Miguel Torga, um poema de Natal

22 Sábado Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Giotto, Miguel Torga

GIOTTO di Bondone 1310Embora no Ocidente a comemoração do Natal seja generalizada, a sua natureza e origem religiosa é muito menos tida em conta.
Esperada, organizada, e finalmente celebrada, a festa do Natal, para muitos é feita na ausência de Deus, ou como nos versos de Miguel Torga (1907-1995) se diz, no poema que vos trago:

O homem nem perguntou / Se Deus era necessário… / E Deus não representou.

Natal

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário…
E Deus não representou.

O poema foi publicado num dos volumes do Diário do poeta, que, longe da biblioteca, não consigo identificar, e se não erro, vem datado de 25 de Dezembro de 1950.

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Natal num poema de David Mourão-Ferreira

21 Sexta-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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David Mourão-Ferreira, Natal

 

BRONZINO, Agnolo Adoration of the Shepherds 1539-40Aproxima-se o Natal e apetece visitar a poesia escrita a seu pretexto.
É a possibilidade de recomeçar, deixar para trás os erros e recuperar a magia do futuro com os olhos da infância, o que sobretudo me atrai na espera do Natal e na sua celebração.
Às vezes basta um nada e o reencontro com esse encanto infantil vivido em torno do Natal regressa:

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa, / a trazer-me da água a infância ressurrecta.

A vida leva-nos mais vezes do que nós a ela,

E quanto mais na terra a terra me envolvia / mais da terra fazia o norte de quem erra.

e se a memória se liberta

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

cresce a vontade de encontrar a bússola que por outro caminho nos conduza

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

De tudo isto nos fala David Mourão-Ferreira (1927-1996) no poema Natal à Beira-Rio que acima esquartejei e agora transcrevo na totalidade.

Natal à Beira-Rio

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado…

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

1960

O poema abre o livro Cancioneiro de Natal que o poeta publicou em 1971 com 10 poemas onde a sua vivência do Natal se reflecte.

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Susana e os velhos ou o triunfo da virtude sobre a calúnia

15 Sábado Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Biblia, Livro de Daniel

Alessandro ALLORI

As história mitológicas e sacras permitiram, sem escândalo das consciências, a inclusão de nus femininos na pintura europeia dos séculos XVI e XVII.
Hoje a história que me trás, e foi pretexto de belas obras de arte, é a de Susana, contada na Bíblia, no Livro de Daniel, Capítulo 13, e considerada apócrifa por Protestantes, ainda que os Católicos a aceitem.
Susana, chantageada por dois velhos que a observavam nua no banho, exigindo-lhe que com eles tivesse relações sexuais, recusou. Falsamente acusada, foi condenada à morte. O aparecimento de Daniel a mando de Deus, ao questionar os juizes sobre a fiabilidade da acusação, permitiu conhecer o falso testemunho dos acusadores e salvar Susana da morte.

À parte as questões morais de falso testemunho e do seu móbil, o episódio dá conta da evidência do desejo sexual até bem entrada a velhice, coisa que as nossas sociedades, hoje, tendem a escamotear, o os próprios têm pudor muitas vezes em assumir.

As pinturas escolhidas mostram o momento do assédio dos velhos à bela e jovem Susana relatado no episódio bíblico como segue:

17    [Susana]Disse às jovens: «Trazei-me óleo e unguentos e fechai as por­tas do jardim, para eu tomar banho.»
18    Fizeram o que ela tinha mandado e, tendo fechado as portas do jar­dim, saíram pela porta tra­seira, para irem procurar o que lhes tinha sido pedido; não sabiam que os anciãos estavam lá escondidos.
19    Logo que elas saíram, os dois homens precipitaram-se para junto de Susana
20    e disseram-lhe: «As por­tas do jardim estão fechadas, nin­guém nos vê. Nós ardemos de desejo por ti. Aceita e entrega-te a nós.
21    Se não quiseres, vamos denunciar-te. Di­­re­­­mos que um rapaz estava con­tigo e que foi por isso mesmo que tu man­daste embora as criadas.»
22    Su­sana bradou angustiada: «Estou su­jeita a aflições de todos os lados! Se faço isso, é para mim a morte. Se não o faço, nem mesmo assim vos escapa­rei.
23    Mas é preferível para mim cair em vossas mãos sem ter feito nada, do que pecar aos olhos do Se­nhor.»

É uma instrutiva ocupação degustar a forma como surgem pintadas as mais diversas reacções de Susana ao assédio de que é alvo, dando com isso conta de como a pintura evoluiu da beleza formal de Tintoretto à expressão emocional em Van Dick, no quase século que estas pinturas percorrem.

GENTILESCHI, Artemisia 1610Artemisia GENTILESCHI – 1610

TINTORETTO 1555TINTORETTO – 1555

BADALOCCHIO, Sisto 1609Sisto BADALOCCHIO – 1609

RENI, Guido 1620Guido RENI – 1620

REMBRANDT Harmenszoon van Rijn 1647 detalheREMBRANDT – 1647 (detalhe)

Seguem-se 3 Susanas por Rubens, em 1608, 1610, 1611 respectivamente.

RUBENS, Peter Paul 1608

RUBENS, Peter Paul 1610

RUBENS, Peter Paul 1611

Termino com esta obra-prima de Sir Anthony Van Dyck, onde a cena bíblica ganha a espessura de realidade quotidiana no misto de recusa e medo em Susana e na segurança de autoridade dos velhos, na imposição da vontade.

DYCK, Sir Anthony van 1621

À falta de uma tradução literal do texto, incluo a seguir a versão católica da história de Susana, constante da chamada Bíblia dos Capuchinhos, permitindo o seu conhecimento a quem o não possua.

Inocência de Susana
1    Ha­via um homem chamado Joa­q­uim, que habitava na Babilónia.
2    Ti­­nha desposado uma mulher de nome Susana, filha de Hilquias, mui­­t­­o bela e piedosa para com o Senhor,
3    pois tinha sido educada pelos pais, que eram justos, de har­monia com a Lei de Moisés. 4    Joa­quim era muito rico. Contíguo à sua casa, tinha um pomar; e com frequência se reuniam em casa dele os judeus, pois que entre todos os seus compatriotas gozava de parti­cular consideração.
5    Tinham sido nomeados juízes, naquele ano, dois anciãos do povo. A eles justamente se aplicava a pala­vra do Senhor: «A iniquidade veio da Babilónia, de anciãos e juízes, que passavam por dirigir o povo.»
6    Estas duas personagens frequenta­vam a casa de Joaquim, onde vi­nham pro­curá-los todos os que tinham qual­quer contenda.
7    À hora do meio-dia, quando toda esta gente se tinha reti­rado, Susana ia passear para o jar­dim do marido.
8    Os dois anciãos viam-na todos os dias, por ocasião do passeio, de maneira que a sua paixão se acendeu por ela.
9    Perde­ram a justa noção das coisas, afastaram os olhos para não olha­rem para o céu e não se lembrarem da verdadeira regra de conduta.
10    Os dois consumiam-se de pai­xão por Susana, mas sem contarem um ao outro a sua própria emoção.
11    Ti­nham vergonha de, reciprocamente, comu­ni­ca­rem o desejo que os domi­nava de a possuírem.
12    Todos os dias, inquie­tos, procuravam ocasião para a obser­var.
13    Uma vez, disseram um ao outro: «Vamos para casa, pois é a hora de almoçar.» Saíram cada um por seu lado.
14    Mas voltaram os dois atrás e encontraram-se num mesmo lugar. Ao interrogarem-se mutua­mente sobre o motivo do regresso, conf­essaram um ao outro o seu desejo. Combinaram, então, um mo­mento em que pudes­sem encon­trar Susana só. Eles estuda­vam a oca­sião propícia.
15    Um dia, como de costume, che­gou Susana, acompanhada apenas por duas criadas, e preparava-se para tomar banho no jardim, pois fazia calor.
16    Não havia aí ninguém senão os dois anciãos que, escondi­dos, a es­piavam.
17    Disse às jovens: «Trazei-me óleo e unguentos e fechai as por­tas do jardim, para eu tomar banho.»
18    Fizeram o que ela tinha mandado e, tendo fechado as portas do jar­dim, saíram pela porta tra­seira, para irem procurar o que lhes tinha sido pedido; não sabiam que os anciãos estavam lá escondidos.
19    Logo que elas saíram, os dois homens precipitaram-se para junto de Susana
20    e disseram-lhe: «As por­tas do jardim estão fechadas, nin­guém nos vê. Nós ardemos de desejo por ti. Aceita e entrega-te a nós.
21    Se não quiseres, vamos denunciar-te. Di­­re­­­mos que um rapaz estava con­tigo e que foi por isso mesmo que tu man­daste embora as criadas.»
22    Su­sana bradou angustiada: «Estou su­jeita a aflições de todos os lados! Se faço isso, é para mim a morte. Se não o faço, nem mesmo assim vos escapa­rei.
23    Mas é preferível para mim cair em vossas mãos sem ter feito nada, do que pecar aos olhos do Se­nhor.»
24    Susana, então, soltou altos gri­tos e os dois an­ciãos gritaram tam­bém com ela.
25    E um deles, cor­rendo para as portas do jardim, abriu-as.
26    As pessoas da casa, ao ouvirem esta gritaria, precipitaram-se pela porta traseira para ver o que tinha acontecido.
27    Logo que os anciãos falaram, os criados coraram de ver­go­nha, pois jamais se tinha dito coisa semelhante de Susana.
28    No dia se­guinte, os dois anciãos, dominados pelo desejo criminoso contra a vida de Susana, vieram à reunião que ti­nha lugar em casa de Joaquim, seu marido.
29    Disseram diante de toda a gente: «Que se vá procurar Susana, filha de Hilquias, a mulher de Joa­quim!» Foram procurá-la.
30    E veio com os seus pais, os filhos e os mem­bros da sua família.
31    Susana era de fi­gura delicada e bela de rosto.
32    Por­que estava velada, estes ho­mens per­ver­s­­os, para ao menos se saciarem com a sua beleza, exigiram que levantasse o véu.
33    Choravam todos os seus, ass­im como todos os que a conheciam.

Susana acusada pelos anciãos  
34    Os dois anciãos levantaram-se diante de todo o povo e puseram a mão sobre a cabeça de Susana,
35    en­quanto ela, desfeita em lágrimas, mas de coração cheio de confiança no Senhor, olhava para o céu.
36    Dis­s­eram então os anciãos: «Quando pas­seávamos a sós pelo jardim, entrou ela com duas criadas; e depois de ter fechado as portas, mandou embora as criadas.
37    Então, um jovem, que estava lá escondido, aproximou-se e pecou com ela. 38    Encontrávamo-nos a um canto do jardim. Perante seme­lhante atrevimento, corremos para eles e surpreendemo-los em flagran­te delito.
39    Não pudemos ter mão no rapaz, porque era mais forte do que nós, abriu a porta e escapou-se.
40    A ela apanhámo-la; mas, quando a in­terrogámos para saber quem era esse rapaz, 41    recusou responder-nos. Somos testemunhas disto.»
Dando crédito a estes homens, que eram anciãos e juízes do povo, a assembleia condenou Susana à mor­te.
42    Esta, então, em altos brados dis­se: «Deus eterno, que sondas os segre­dos, que conheces os acontecimentos antes que se dêem,
43    Tu sabes que proferiram um falso testemunho con­tra mim. Vou morrer sem ter feito nada daquilo que maldosamente inventaram contra mim.»

Daniel defende a casta Susana  
44    Deus ouviu a sua oração.
45    Quando a conduziam para a morte, o Senhor despertou a alma límpida de um rapa­zinho, chamado Daniel,
46    que gritou com voz forte: «Estou inocente da morte dessa mulher!»
47    Toda a gente se voltou para ele e disse: «Que é que isso quer dizer?»
48    E, diri­gindo-se para o meio deles, afirmou: «Israe­l­­i­tas! Estais loucos, para con­de­nardes uma filha de Israel, sem examinar­des nem reconhecerdes a verdade?
49    Reco­meçai o julgamento, porque é um falso testemunho o que estes dois homens declararam con­tra ela.»
50    O povo apressou-se a voltar. Os an­­ciãos disseram a Daniel: «Vem, senta-te no meio de nós e esclarece-nos, porque Deus te deu maturi­dade!»
51    Bradou Daniel: «Separai-os para longe um do outro e eu os jul­garei.»
52    Separaram-nos. Daniel, então, chamou o primeiro e disse-lhe: «Ve­lho perverso! Eis que se manifestam agora os pecados que cometeste ou­trora em julgamentos injustos,
53    ao condenares os inocentes, absolvendo os culpados, quando o Senhor disse: ‘Não farás com que morra o inocente ou o justo.’
54    Vamos! Se realmente os viste, diz-nos debaixo de que árvore os viste entreterem-se um com o outro.»
«Sob um lentisco.» – respondeu.
55    Retorquiu Daniel: «Pois bem! Aí está a mentira, que pagarás com a tua cabeça. Eis que o anjo do Se­nhor, conforme a sentença divina, te vai rachar a meio!»
56    Afastaram o homem, e Daniel mandou vir o outro e disse-lhe: «Tu és um filho de Canaã e não um judeu. Foi a beleza que te seduziu e a pai­xão que te per­verteu.
57    É assim que sem­pre tendes procedido com as filhas de Israel, que, por medo, entravam em relação convosco. Uma filha de Judá, porém, não consentiu na vossa perversi­dade.
58    Vamos, diz-me: sob que árvore os surpreendeste em ati­tude de se uni­rem?»
«Sob um carvalho.»
59    Respon­deu Daniel: «Pois bem! Também tu forjaste uma mentira que te vai cus­tar a vida. Eis que o anjo do Senhor, de espada em punho, se dispõe a cortar-te ao meio, para vos aniqui­lar.»
60    Logo a multidão deu grandes bra­dos, e bendizia a Deus que salva os que põem nele a sua esperança.
61    Toda a gente, então, se insurgiu contra os dois anciãos que Daniel tinha convencido de falso testemu­nho, pelas suas próprias declarações e deu-se-lhes o mesmo tratamento que eles tinham infligido ao seu pró­ximo.
62    De harmonia com a Lei de Moisés, mataram-nos. Deste modo, foi poupada naquele dia uma vida ino­c­ente.
63    Hilquias e sua esposa louvaram a Deus por sua filha, Susana, com Joaquim, esposo dela, e todos os pa­rentes, pois não tinham encontrado qualquer desonestidade na sua con­duta.
64    Daniel, daí em diante, gozou de elevada consideração entre os com­patriotas.

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O dia deu em chuvoso – Fernando Pessoa pela voz de Álvaro de Campos

14 Sexta-feira Dez 2012

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Álvaro de Campos, Caillebotte, Fernando Pessoa

Cailleboute Rua de Paris 1877São parte do quotidiano de todos nós as reflexões sobre o estado do tempo, assunto neutro de comunicação social, sem outra consequência que a troca de algumas palavras em encontros de circunstância. A poucos é pretexto poético que valha a leitura. Não assim a este TRAPO:

Dêem-me o céu azul e o sol visível. / Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

poema de Álvaro de Campos, entre os poucos que Fernando Pessoa publicou em vida.

Trapo

    O dia deu em chuvoso.
    A manhã, contudo, esteve bastante azul.
    O dia deu em chuvoso.
    Desde manhã eu estava um pouco triste.
    Antecipação!  Tristeza?  Coisa nenhuma?
    Não sei: já ao acordar estava triste.
    O dia deu em chuvoso.

    Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
    Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
    Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
    Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
    Dêem-me o céu azul e o sol visível.
    Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
    Hoje quero só sossego.
    Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
    Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
    Não exageremos!
    Tenho efectivamente sono, sem explicação.
    O dia deu em chuvoso.

    Carinhos?  Afectos?  São memórias…
    É preciso ser-se criança para os ter…
    Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
    O dia deu em chuvoso.

    Boca bonita da filha do caseiro,
    Polpa de fruta de um coração por comer…
    Quando foi isso?  Não sei…
    No azul da manhã…

    O dia deu em chuvoso.

    10-09-1930

    Poema publicado na Revista Presença, Nº31-32, Março-Junho, 1931

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Pintura (2) – Mestre de Heiligenkreuz

10 Segunda-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Mestre de Heiligenkreuz, Sophia de Mello Breyner Andressen

Do Mestre de Heiligenkreuz, autor da pintura sobre a Anunciação com que abre o artigo anterior, eis uma extraordinária pintura de grupo ilustrando a morte de Santa Clara.

Pintor austríaco de quem pouco se sabe, terá estado activo no século XV.

MASTER of Heiligenkreuz - A morte de Santa Clara 1410Santa Clara de Assis, seguidora de S.Francisco de Assis, foi a fundadora da ordem das Clarissas. No momento da morte terá chamado ao leito as suas irmãs e seguidoras para as exortar a continuarem o caminho de pobreza proclamado pela ordem.

Para o apreciador de pintura, hoje, a história representada passa para segundo plano e impõe-se a reduzida paleta cromática transmitindo austeridade ao assunto. O desenho das silhuetas, na sua sofisticada elegância traduz uma modernidade estética que surpreende. Há um dinamismo na pintura proveniente do leve inclinar do corpo das protagonistas e da géstica de braços e mãos, que quase faz ouvir a conversa.

Banhada de uma serena beleza trazida pelas esbeltas mulheres que nela figuram, a pintura convida a um demorado olhar na pesquisa do segredo da sua tranquila paz.

Para Santa Clara de Assis escreveu Sophia de Mello Breyner Andressen (1919-2004) um poema / homenagem publicado do livro No Tempo Dividido, 1ª edição 1954, e que agora transcrevo.

SANTA CLARA DE ASSIS

Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.

Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.

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Anunciação e Advento – A Palavra da Biblia e a pintura ocidental

10 Segunda-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Biblia, S. Lucas

MASTER of Heiligenkreuz 1410Vou hoje ao encontro daqueles pesquisadores da net sobre o Advento, que os motores de busca enviam para o blog, e onde sobre o assunto pouco há.

As religiões cristãs celebraram no primeiro domingo de Dezembro, o inicio do Advento, ou a esperada vinda de Jesus à terra, que ocorrerá com o Natal, nascimento de seu significado.

A expectativa desta chegada, fixada no calendário litúrgico para as quatro semanas que antecedem o Natal, liga-se indissociavelmente ao anúncio feito a Maria pelo Anjo Gabriel, de que iria ser mãe do Filho de Deus, acontecimento conhecido como Anunciação.

Desde que consumada a divisão de cristãos entre católicos e as diferentes confissões reformadas, se para os católicos romanos a Anunciação se celebra a 25 de Março (com pequenas variações em função do período de Quaresma), nove meses antes do nascimento do Filho de Deus, para os seguidores da religião cristã reformada a omnipotência de Deus não exige esta duração, e as celebrações acabam por se confundir, associando-se Anunciação e Advento.

Na verdade, com a fixação dogmática pela Igreja Católica do dia 8 de Dezembro como celebração da Imaculada Concepção, as datas deste calendário acabam por criar alguma confusão ao leigo.

Nada nos Evangelhos permite uma calendarização, o que é natural, e em S. Lucas,I, 26:38, onde a Anunciação se relata na forma mais detalhada, estas questões de calendário não se colocam. Terão sido, talvez, necessidades de organização da pratica do culto a ditá-lo.

Aproveito e transcrevo a tradução da passagem de Lucas, I, 26:38, por João Ferreira Annes d’Almeida (primeiro tradutor da Bíblia para português no século XVI), na fixação do texto levada a cabo por José Tolentino Mendonça.

Lucas,I, 26:38

26 E no sexto mês foi o Anjo Gabriel enviado de Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré:

27. A uma virgem desposada com um varão, cujo nome era José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria.

28. E entrando o Anjo a ela, disse: Gozo hajas em graça aceita, o Senhor [é] contigo, bendita tu entre as mulheres.

29. E vendo[-o] ela, turbou-se muito de suas palavras, e considerava que saudação seria esta.

30. E disse-lhe o Anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus.

31. E vês aqui conceberás em o ventre, e parirás um filho, e chamarás seu nome Jesus.

32. Este será grande, e Filho do Altíssimo será chamado; E dar-lhe-á o Senhor Deus o trono de David seu pai.

33. E reinará em a casa de Jacob eternamente, e de seu Reino não haverá fim.

34. E disse Maria ao Anjo: Como se fará isto? Porquanto varão não conheço.

35. E respondendo o Anjo, disse-lhe: O Espirito Santo sobre ti virá, e a virtude do Altíssimo com sua sombra te cobrirá. Pelo que também o Santo que de ti há-de nascer, Filho de Deus chamado será.

36. E vês aqui Elisabeth tua prima também tem concebido um filho em sua velhice; e este é o sexto mês daquela, que a estéril chamada era.

37. Porque nenhuma coisa será a Deus impossível.

38. Entonces disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo tua palavra. E o Anjo se partiu dela.

Este passo dos Evangelhos foi largamente glosado na pintura ocidental. Seguem as imagens de uma escolha pessoal entre algumas das mais tocantes dessas obras e, porventura, menos conhecidas.

Mestre Alemão desconhecido 1330

Fra Fillipo Lippi 2

Irmãos Limbourg - Anunciação - 1410-16

Simone Martini 1333

FRANCESCO DI SIMONE DA SANTACROCE 1504

Book of Hours of Marie of Guelders Annunciation 1415

É hoje conhecimento apenas de especialistas a clara significação de cada um dos motivos que preenchendo o cenário, quadra os protagonistas desta história sacra. Entre outros, permanece para mim inexplicado o motivo porque em todas estas pinturas Maria se encontra a ler, ou com um livro aberto por perto, no momento da aparição do Anjo. Haverá algum leitor que o elucide?

 

 

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Pensamentos sobre o tempo – Paul Fleming (1609-1640)

06 Quinta-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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carlos mendonça lopes, Paul Fleming

O mundo cigiadoAinda que a colagem de abertura nos remeta para o nosso vigiado tempo, o convite poético é para uma reflexão intemporal sobre o enigma do tempo que a cada um cabe viver.

O poema de Paul Fleming (1609-1640) que vos trago, Pensamentos sobre o tempo, pode parecer a uma leitura superficial, apenas trocadilho em torno ao tempo, mas em segunda leitura, a reflexão desenvolve-se a seu pretexto:

E que será esse outro que de vós fará nada?

É à interrogação sobre a eternidade:

Ah, viesse aquele tempo em que tempo não há,
P’ra nos levar do nosso para os tempos de lá

e ao nosso efémero, que o poema nos conduz:

O tempo é o que vós sois, vós sois o que o tempo é,
Mas bem menos sois vós que aquilo que o tempo é.

Leia-se a totalidade do poema.

Pensamentos sobre o tempo

Vós viveis no tempo e o tempo não conheceis;
Do que sois e onde estais, vós, homens, não sabeis.
O que sabeis é só que num tempo nascestes
E que haveis de partir num tempo, tal viestes.
Mas o que foi o tempo que em si vos deu guarida?
E que será esse outro que de vós fará nada?
O tempo é tudo e nada, o homem a ele igual;
Mas sobre o tudo e o nada a duvida é geral.
O tempo morre em si, e de si renasceu.
Um vem de mim e de ti, outro és tu e sou eu.
O homem é no tempo, este nele também.
E no entanto o homem, quando ele fica, vai.
O tempo é o que vós sois, vós sois o que o tempo é,
Mas bem menos sois vós que aquilo que o tempo é.
Ah, viesse aquele tempo em que tempo não há,
P’ra nos levar do nosso para os tempos de lá
E a nós de nós mesmos, para podermos ser
Iguais àquele tempo que já deixou de ser!

Tradução de João Barrento

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O sorriso da Mona Lisa num poema de Kurt Tucholsky

30 Sexta-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Kurt Tucholsk, Leonardo da Vinci

Leonardo da Vinci - Mona LisaHá diálogos poéticos com a pintura que muitas vezes iluminam a obra iluminando-nos a nós, leitores dela, qual seja este poema de Kurt Tucholsky (1890-1935), contemporâneo de Fernando Pessoa, em que o sorriso de Mona Lisa, pintura de Leonardo da Vinci (1452-1519), se ilumina.

O sorriso da Mona Lisa

Não posso desviar de ti o olhar.
Pois, por sobre o homem que te guarda,
Estás suspensa, as mãos cruzadas devagar,
E sorris, calada.

És célebre como a tal Torre de Pisa,
O teu sorriso passa por ironia.
Sim… porque é que ri a Mona Lisa?
Ri-se de nós, por nós, apesar de nós, contra nós –
Ou que mais o teu riso diria?

Calma nos ensinas o que tem de acontecer.
Porque o teu retrato, Lisa, claro no-lo diz:
Quem deste mundo tanto pôde ver –
Cruza as mãos, cala e sorri, como tu sorris.

Tradução de Paulo Quintela

Para os leitores que dominem o alemão aqui fica o original do poema.

Das Lächeln der Mona Lisa

Ich kann den Blick nicht von dir wenden.
Denn über deinem Mann vom Dienst
hängst du mit sanft verschränkten Händen
und grienst.

Du bist berühmt wie jener Turm von Pisa,
dein Lächeln gilt für Ironie.
Ja … warum lacht die Mona Lisa?
Lacht sie über uns, wegen uns, trotz uns, mit uns, gegen uns –
oder wie –?

Du lehrst uns still, was zu geschehn hat.
Weil uns dein Bildnis, Lieschen, zeigt:
Wer viel von dieser Welt gesehn hat –
der lächelt, legt die Hände auf den Bauch und schweigt.

Como habitualmente, os leitores com curiosidade de saber mais sobre o poeta, encontram na Wikipédia informação fidedigna a que não sei acrescentar mais nada.

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Obra Digital (2002-2003)

27 Terça-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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carlos mendonça lopes

Obra Digital (2002-2003)

No inicio da década de 2000, com a vulgarização das primeiras máquinas fotográficas digitais e o aparecimento de programas de computador com ferramentas de desenho e manipulação de imagem, entreguei-me entusiasmado à criação digital. Esse trabalho culminou com uma exposição em Lisboa no ano de 2003.

São alguns dos trabalhos então expostos, e outros nunca mostrados publicamente que agora se reúnem em livro, constituindo um corpus de criação digital nos primórdios de uma nova era.

Entroncam estas criações na tradição da arte ocidental, em diálogo com ela, explorando o embrião do que viria a ser o mundo novo que hoje, dez anos passados, conhecemos.

O livro pode ser visto seguindo o link abaixo:

(fazendo click no icon mais à direita abaixo do livro, este pode ser visto em ecran inteiro)

Visualizar o livro em computador: aqui!

Pode ainda fazer download gratuito para iPad

Download para iPad aqui!

Enjoy!

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