Etiquetas

,

Alessandro ALLORI

As história mitológicas e sacras permitiram, sem escândalo das consciências, a inclusão de nus femininos na pintura europeia dos séculos XVI e XVII.
Hoje a história que me trás, e foi pretexto de belas obras de arte, é a de Susana, contada na Bíblia, no Livro de Daniel, Capítulo 13, e considerada apócrifa por Protestantes, ainda que os Católicos a aceitem.
Susana, chantageada por dois velhos que a observavam nua no banho, exigindo-lhe que com eles tivesse relações sexuais, recusou. Falsamente acusada, foi condenada à morte. O aparecimento de Daniel a mando de Deus, ao questionar os juizes sobre a fiabilidade da acusação, permitiu conhecer o falso testemunho dos acusadores e salvar Susana da morte.

À parte as questões morais de falso testemunho e do seu móbil, o episódio dá conta da evidência do desejo sexual até bem entrada a velhice, coisa que as nossas sociedades, hoje, tendem a escamotear, o os próprios têm pudor muitas vezes em assumir.

As pinturas escolhidas mostram o momento do assédio dos velhos à bela e jovem Susana relatado no episódio bíblico como segue:

17    [Susana]Disse às jovens: «Trazei-me óleo e unguentos e fechai as por­tas do jardim, para eu tomar banho.»
18    Fizeram o que ela tinha mandado e, tendo fechado as portas do jar­dim, saíram pela porta tra­seira, para irem procurar o que lhes tinha sido pedido; não sabiam que os anciãos estavam lá escondidos.
19    Logo que elas saíram, os dois homens precipitaram-se para junto de Susana
20    e disseram-lhe: «As por­tas do jardim estão fechadas, nin­guém nos vê. Nós ardemos de desejo por ti. Aceita e entrega-te a nós.
21    Se não quiseres, vamos denunciar-te. Di­­re­­­mos que um rapaz estava con­tigo e que foi por isso mesmo que tu man­daste embora as criadas.»
22    Su­sana bradou angustiada: «Estou su­jeita a aflições de todos os lados! Se faço isso, é para mim a morte. Se não o faço, nem mesmo assim vos escapa­rei.
23    Mas é preferível para mim cair em vossas mãos sem ter feito nada, do que pecar aos olhos do Se­nhor.»

É uma instrutiva ocupação degustar a forma como surgem pintadas as mais diversas reacções de Susana ao assédio de que é alvo, dando com isso conta de como a pintura evoluiu da beleza formal de Tintoretto à expressão emocional em Van Dick, no quase século que estas pinturas percorrem.

GENTILESCHI, Artemisia 1610Artemisia GENTILESCHI – 1610

TINTORETTO 1555TINTORETTO – 1555

BADALOCCHIO, Sisto 1609Sisto BADALOCCHIO – 1609

RENI, Guido 1620Guido RENI – 1620

REMBRANDT Harmenszoon van Rijn 1647 detalheREMBRANDT – 1647 (detalhe)

Seguem-se 3 Susanas por Rubens, em 1608, 1610, 1611 respectivamente.

RUBENS, Peter Paul 1608

RUBENS, Peter Paul 1610

RUBENS, Peter Paul 1611

Termino com esta obra-prima de Sir Anthony Van Dyck, onde a cena bíblica ganha a espessura de realidade quotidiana no misto de recusa e medo em Susana e na segurança de autoridade dos velhos, na imposição da vontade.

DYCK, Sir Anthony van 1621

À falta de uma tradução literal do texto, incluo a seguir a versão católica da história de Susana, constante da chamada Bíblia dos Capuchinhos, permitindo o seu conhecimento a quem o não possua.

Inocência de Susana
1    Ha­via um homem chamado Joa­q­uim, que habitava na Babilónia.
2    Ti­­nha desposado uma mulher de nome Susana, filha de Hilquias, mui­­t­­o bela e piedosa para com o Senhor,
3    pois tinha sido educada pelos pais, que eram justos, de har­monia com a Lei de Moisés. 4    Joa­quim era muito rico. Contíguo à sua casa, tinha um pomar; e com frequência se reuniam em casa dele os judeus, pois que entre todos os seus compatriotas gozava de parti­cular consideração.
5    Tinham sido nomeados juízes, naquele ano, dois anciãos do povo. A eles justamente se aplicava a pala­vra do Senhor: «A iniquidade veio da Babilónia, de anciãos e juízes, que passavam por dirigir o povo.»
6    Estas duas personagens frequenta­vam a casa de Joaquim, onde vi­nham pro­curá-los todos os que tinham qual­quer contenda.
7    À hora do meio-dia, quando toda esta gente se tinha reti­rado, Susana ia passear para o jar­dim do marido.
8    Os dois anciãos viam-na todos os dias, por ocasião do passeio, de maneira que a sua paixão se acendeu por ela.
9    Perde­ram a justa noção das coisas, afastaram os olhos para não olha­rem para o céu e não se lembrarem da verdadeira regra de conduta.
10    Os dois consumiam-se de pai­xão por Susana, mas sem contarem um ao outro a sua própria emoção.
11    Ti­nham vergonha de, reciprocamente, comu­ni­ca­rem o desejo que os domi­nava de a possuírem.
12    Todos os dias, inquie­tos, procuravam ocasião para a obser­var.
13    Uma vez, disseram um ao outro: «Vamos para casa, pois é a hora de almoçar.» Saíram cada um por seu lado.
14    Mas voltaram os dois atrás e encontraram-se num mesmo lugar. Ao interrogarem-se mutua­mente sobre o motivo do regresso, conf­essaram um ao outro o seu desejo. Combinaram, então, um mo­mento em que pudes­sem encon­trar Susana só. Eles estuda­vam a oca­sião propícia.
15    Um dia, como de costume, che­gou Susana, acompanhada apenas por duas criadas, e preparava-se para tomar banho no jardim, pois fazia calor.
16    Não havia aí ninguém senão os dois anciãos que, escondi­dos, a es­piavam.
17    Disse às jovens: «Trazei-me óleo e unguentos e fechai as por­tas do jardim, para eu tomar banho.»
18    Fizeram o que ela tinha mandado e, tendo fechado as portas do jar­dim, saíram pela porta tra­seira, para irem procurar o que lhes tinha sido pedido; não sabiam que os anciãos estavam lá escondidos.
19    Logo que elas saíram, os dois homens precipitaram-se para junto de Susana
20    e disseram-lhe: «As por­tas do jardim estão fechadas, nin­guém nos vê. Nós ardemos de desejo por ti. Aceita e entrega-te a nós.
21    Se não quiseres, vamos denunciar-te. Di­­re­­­mos que um rapaz estava con­tigo e que foi por isso mesmo que tu man­daste embora as criadas.»
22    Su­sana bradou angustiada: «Estou su­jeita a aflições de todos os lados! Se faço isso, é para mim a morte. Se não o faço, nem mesmo assim vos escapa­rei.
23    Mas é preferível para mim cair em vossas mãos sem ter feito nada, do que pecar aos olhos do Se­nhor.»
24    Susana, então, soltou altos gri­tos e os dois an­ciãos gritaram tam­bém com ela.
25    E um deles, cor­rendo para as portas do jardim, abriu-as.
26    As pessoas da casa, ao ouvirem esta gritaria, precipitaram-se pela porta traseira para ver o que tinha acontecido.
27    Logo que os anciãos falaram, os criados coraram de ver­go­nha, pois jamais se tinha dito coisa semelhante de Susana.
28    No dia se­guinte, os dois anciãos, dominados pelo desejo criminoso contra a vida de Susana, vieram à reunião que ti­nha lugar em casa de Joaquim, seu marido.
29    Disseram diante de toda a gente: «Que se vá procurar Susana, filha de Hilquias, a mulher de Joa­quim!» Foram procurá-la.
30    E veio com os seus pais, os filhos e os mem­bros da sua família.
31    Susana era de fi­gura delicada e bela de rosto.
32    Por­que estava velada, estes ho­mens per­ver­s­­os, para ao menos se saciarem com a sua beleza, exigiram que levantasse o véu.
33    Choravam todos os seus, ass­im como todos os que a conheciam.

Susana acusada pelos anciãos  
34    Os dois anciãos levantaram-se diante de todo o povo e puseram a mão sobre a cabeça de Susana,
35    en­quanto ela, desfeita em lágrimas, mas de coração cheio de confiança no Senhor, olhava para o céu.
36    Dis­s­eram então os anciãos: «Quando pas­seávamos a sós pelo jardim, entrou ela com duas criadas; e depois de ter fechado as portas, mandou embora as criadas.
37    Então, um jovem, que estava lá escondido, aproximou-se e pecou com ela. 38    Encontrávamo-nos a um canto do jardim. Perante seme­lhante atrevimento, corremos para eles e surpreendemo-los em flagran­te delito.
39    Não pudemos ter mão no rapaz, porque era mais forte do que nós, abriu a porta e escapou-se.
40    A ela apanhámo-la; mas, quando a in­terrogámos para saber quem era esse rapaz, 41    recusou responder-nos. Somos testemunhas disto.»
Dando crédito a estes homens, que eram anciãos e juízes do povo, a assembleia condenou Susana à mor­te.
42    Esta, então, em altos brados dis­se: «Deus eterno, que sondas os segre­dos, que conheces os acontecimentos antes que se dêem,
43    Tu sabes que proferiram um falso testemunho con­tra mim. Vou morrer sem ter feito nada daquilo que maldosamente inventaram contra mim.»

Daniel defende a casta Susana  
44    Deus ouviu a sua oração.
45    Quando a conduziam para a morte, o Senhor despertou a alma límpida de um rapa­zinho, chamado Daniel,
46    que gritou com voz forte: «Estou inocente da morte dessa mulher!»
47    Toda a gente se voltou para ele e disse: «Que é que isso quer dizer?»
48    E, diri­gindo-se para o meio deles, afirmou: «Israe­l­­i­tas! Estais loucos, para con­de­nardes uma filha de Israel, sem examinar­des nem reconhecerdes a verdade?
49    Reco­meçai o julgamento, porque é um falso testemunho o que estes dois homens declararam con­tra ela.»
50    O povo apressou-se a voltar. Os an­­ciãos disseram a Daniel: «Vem, senta-te no meio de nós e esclarece-nos, porque Deus te deu maturi­dade!»
51    Bradou Daniel: «Separai-os para longe um do outro e eu os jul­garei.»
52    Separaram-nos. Daniel, então, chamou o primeiro e disse-lhe: «Ve­lho perverso! Eis que se manifestam agora os pecados que cometeste ou­trora em julgamentos injustos,
53    ao condenares os inocentes, absolvendo os culpados, quando o Senhor disse: ‘Não farás com que morra o inocente ou o justo.’
54    Vamos! Se realmente os viste, diz-nos debaixo de que árvore os viste entreterem-se um com o outro.»
«Sob um lentisco.» – respondeu.
55    Retorquiu Daniel: «Pois bem! Aí está a mentira, que pagarás com a tua cabeça. Eis que o anjo do Se­nhor, conforme a sentença divina, te vai rachar a meio!»
56    Afastaram o homem, e Daniel mandou vir o outro e disse-lhe: «Tu és um filho de Canaã e não um judeu. Foi a beleza que te seduziu e a pai­xão que te per­verteu.
57    É assim que sem­pre tendes procedido com as filhas de Israel, que, por medo, entravam em relação convosco. Uma filha de Judá, porém, não consentiu na vossa perversi­dade.
58    Vamos, diz-me: sob que árvore os surpreendeste em ati­tude de se uni­rem?»
«Sob um carvalho.»
59    Respon­deu Daniel: «Pois bem! Também tu forjaste uma mentira que te vai cus­tar a vida. Eis que o anjo do Senhor, de espada em punho, se dispõe a cortar-te ao meio, para vos aniqui­lar.»
60    Logo a multidão deu grandes bra­dos, e bendizia a Deus que salva os que põem nele a sua esperança.
61    Toda a gente, então, se insurgiu contra os dois anciãos que Daniel tinha convencido de falso testemu­nho, pelas suas próprias declarações e deu-se-lhes o mesmo tratamento que eles tinham infligido ao seu pró­ximo.
62    De harmonia com a Lei de Moisés, mataram-nos. Deste modo, foi poupada naquele dia uma vida ino­c­ente.
63    Hilquias e sua esposa louvaram a Deus por sua filha, Susana, com Joaquim, esposo dela, e todos os pa­rentes, pois não tinham encontrado qualquer desonestidade na sua con­duta.
64    Daniel, daí em diante, gozou de elevada consideração entre os com­patriotas.

Anúncios