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vicio da poesia

Monthly Archives: Agosto 2014

É amanhã que vou viver — um epigrama de Marcial

29 Sexta-feira Ago 2014

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Marcial

Iluminura 09x500

Não é de hoje, nem de ontem, uma espécie de insatisfação entre o quotidiano vivido e o desejo do que afinal nos importa mais, levando o pensamento a confortar-se com o amanhã que virá.

Na forma lapidar do epigrama, e fazendo uso de uma espécie de redução ao absurdo sobre o onde o amanhã se encontra, Marcial (40-102) exorta-nos a viver ontem o que desejamos, pois o hoje pode já ser tarde, fazendo-nos lembrar que o amanhã pode não existir.

 

Marcial, Livro V, epigrama 58

 

“É amanhã que vou viver, é amanhã” — dizes, Póstumo, sempre.

Diz-me cá: esse amanhã, Póstumo, quando é que chega?

A que distância fica esse amanhã? onde pára? ou aonde se deve procurar?

Se calhar junto dos Partos ou dos Arménios se esconde?

Esse amanhã já tem a idade de Príamo ou Néstor.

Esse amanhã, diz-me cá, por quanto se pode comprar?

É amanhã que vais viver? Viver hoje, Póstumo, já é tarde:

sensato é quem, Póstumo, viveu ontem.

 

Tradução de Paulo Sérgio Ferreira

in Marcial, Epigramas, vol II, Edições 70, Lisboa, 2000.

 

Depois da tradução a partir do original latino, entrego o leitor à versão de David Mourão-Ferreira onde o intemporal do poema se capta, transmitindo-nos na sua verdade poética a reflexão sobre a urgência de viver o que importa para lá da espuma dos dias.

 

Marcial, Livro V, epigrama 58

 

“Amanhã”, dizes tu. “Viverei amanhã.”

Quando virá, porém, esse tal amanhã?

Ah! que sabemos nós do dia de amanhã?

Em que reino se esconde o rosto de amanhã?

Que idade tem ao certo o vulto de amanhã?

É coisa que se venda? É coisa que se compre?

Que certeza tens tu de estar vivo amanhã?

 

Tarde já é viver no próprio dia de hoje.

Mais sábio é começar a vivermos desde ontem.

 

in Vozes da Poesia Europeia — I

Colóquio Letras, nº163, Jan-Abr 2003.

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Num vergel mui deleitoso — poema de Frei Diego de Valência

26 Terça-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Frei Diego de Valência

William-Adolphe-Bouguereau 500pxAfasto-me das graves matérias com que ultimamente tenho ocupado o blog, para dar conta de mais uma inventiva forma de falar poeticamente do amor e do prazer de o fruir.

O poema, incluído no século XV por Baena no seu Cancioneiro, foi considerado, na autorizada opinião de Menendez Pelayo, o melhor poema de amor deste cancioneiro.

É, pois, a voz e inspiração de Diego de Valência (c.1350-c.1412), franciscano e homem tido no seu tempo como sábio de vários saberes, que vos trago. Autor de poemas filosóficos e teológicos, não fugiu ao erótico e mesmo ao burlesco e obsceno.

Pelo que deixou escrito, os saberes do amor não lhe deviam ser estranhos, ainda que no poema de hoje, talvez para salvar aparências, refira:

…

A entrada do vergel

a mim foi sempre defesa,

mas, amigos, não me pesa

por bem saber o que há nele;

 

Encontramos a abrir o poema um vergel [pomar, jardim, horto] por metáfora do sexo de uma jovem mulher onde:

 

Maçãs e muitas romãs / o cercam por toda a parte; / não há homem que se farte / de suas frutas temporãs; / …

 

Não é de forma alguma abusiva a leitura do poema como metáfora do acto sexual e do seu prazer, e nela sou acompanhado por outros.

Ao ler o poema com esta chave, e em remate do gozo erótico, conclui o nosso autor:

 

…

é mais doce do que o mel

o orvalho que dele mana,

que toda a tristeza sana

o prazer que mana dele.

 

Temos assim que para início do acto o nosso poeta nos conta:

 

Num vergel mui deleitoso / entrei por minha ventura, / onde achei toda a doçura / e prazer muito gostoso;

…

 

Em tempos sem contraceptivos, o risco de gravidez está presente, e o nosso poeta lembra-o logo a seguir:

 

…

e causado por natura, / de morar mui perigoso.

…

 

No resto segue o detalhe dos prazeres com imagens de fruta — não há homem que se farte — e harmonias concorrentes com o canto dos pássaros — que fazem dormir de amores. —, acrescentando em remate a explícita referência de quanta doçura emana das fontes onde o prazer vive, e que referi antes.

 

Frei Diego de Valência (c.1350-c.1412)

 

1.9.6.1 — Estes versos fez o dito Mestre Frei Diego por amor e louvores de uma donzela que era mui formosa e respalndecente, da qual estava mui enamorado.

 

Num vergel mui deleitoso

entrei por minha ventura,

onde achei toda a doçura

e prazer muito gostoso;

a entrada foi escura

e causado por natura,

de morar mui perigoso.

 

Em muito espessa montanha

este vergel foi plantado,

por toda a parte cercado

por ribeira muito estranha:

quem alguma vez se banha

em sua fonte perenal,

pelo curso natural,

tanta doçura o engana.

 

Maçãs e muitas romãs

o cercam por toda a parte;

não há homem que se farte

de suas frutas temporãs;

mas, amigos, não são sãs

para quem delas muito usa,

pois gozando-as não se escusa

a que não faltem maçãs.

 

Calhandras e ruisenhores

nele cantam noite e dia,

fazendo alta melodia

além variações multicolores;

e outras aves melhores

papagaios, filomelas;

cantam sereias serenas

que fazem dormir de amores.

 

A entrada do vergel

a mim foi sempre defesa,

mas, amigos, não me pesa

por bem saber o que há nele;

é mais doce do que o mel

o orvalho que dele mana,

que toda a tristeza sana

o prazer que mana dele.

 

(Cancioneiro de Baena)

Tradução de José Bento, Antologia da Poesia Espanhola das Origens ao Século XIX, Assírio & Alvim, Lisboa 2001.

Acrescento o original castelhano:

 

Este dezir fixo e ordenó el  dicho Maestro Fray Diego por amor e loores de una donzella que era muy fermosa e muy resplandeciente, de la cual era muy enamorado.

 

En un vergel deleitoso

fui entrar por mi ventura,

do fallé toda dulçura

e plazer muy sabroso;

……………………………….

la entrada fue escura,

obrado fue por natura

de morar muy peligroso.

 

En muy espesa montaña

este verger fue plantado,

de todas partes cercado

de ribera muy estraña;

al que una vez se baña

en su fuente perenal,

segun curso natural,

a duçura lo engaña.

 

Pumas e muchas milgranas

lo cercan de toda parte,

non sé home que se farte

de las sus frutas tempranas;

mas, amigos, non son sanas

para quien de ellas mucho usa,

que usando non se escusa

que non menguen las mançanas.

 

Calandras e ruiseñores

en él cantan noche e día,

e fazen grant melodía

en deslayos e discores,

e otras aves mejores,

papagayos, filomenas,

en él cantan las serenas

que adormecen con amores.

 

La entrada del vergel

a mí fué siempre defesa,

mas, amigos, non me pesa

por saber cuanto es en él;

es mas dulce que la miel

el rocío que d’él mana,

que toda tristeza sana

el plazer que sale d’él.

 

Versão sumariamente modernizada por Álvaro Alonso em Poesía de Cancionero, Ediciones Cátedra, Madrid, 1999.

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Alguma poesia de Adélia Prado

24 Domingo Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Adélia Prado, Rufino Tamayo

Tamayo Rufino - Homem e mulher 1981Esconde-se no relato do trivial que o quotidiano contém, e constitui a substância aparente da poesia de Adélia Prado (1935), uma sabedoria dos seres e da vida que em cada poema, numa volta da história contada, salta para uma compreensão profunda do que é existir.

Poesia que de morte e vida se constrói, e do sentimento de o viver, em seres humanos crentes de Deus e do inexplicável mistério que o mundo consigo carrega.

Mais que interrogar-se, cada poema constata perspectivas diversas do mosaico humano que no mundo passa, e a quem lê transmite uma como que verdade essencial.

Alguns fragmentos um pouco ao acaso:

Tamayo Rufino - A janela indiscreta 1975

No erotismo contido do poema Bairro:

…

com aquela cara de invencível fraqueza

para os pecados capitais.

…

 

 

Na memória da mulher que uma vez o foi no poema O Vestido:

…

Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,

meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

…

 

Na morte de quem amamos em As mortes sucessivas:

…

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

…

 

Na identificação de pertença ao mundo que nos coube no poema Linhagem:

…

Todos extremamente pecadores, arrependidos

até à pública confissão de seus pecados

que um deles pronunciou como se fosse todos:

‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu

porque eu. Todo homem erra.

Quem não errou vai errar.’

…

 

 

Numa espécie de oração popular de aflição em Responsório:

 

Santo António

procurai para mim a carteira perdida,

vós que estais desafadigado,

gozando junto de Deus a recompensa dos justos.

Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,

documentos e um retrato

onde apareço cansada, com uma cara

que ninguém olhará mais de uma vez

…

 

Poderia continuar por aí fora. Deixo-vos os poemas citados.

Tamayo Rufino - Homem e a sua sombra 1971Bairro

 

O rapaz acabou de almoçar

e palita os dentes na coberta.

O passarinho recisca e joga no cabelo do moço

excrementos e casca de alpiste.

Eu acho feio palitar os dentes,

o rapaz só tem escola primária

e fala errado que arranha.

Mas tem um quadril de homem tão sedutor

que eu fico amando ele perdidamente.

Rapazes desses

gostam muito de comer ligeiro:

bife com arroz, rodela de tomate,

e ir ao cinema

com aquela cara de invencível fraqueza

para os pecados capitais.

Me põe tão íntima, simples,

tão à flor da pele o amor,

o samba-canção,

o facto de que vamos morrer

e como é bom a geladeira,

o crucifixo que mamãe lhe deu,

o cordão de ouro sobre o frágil peito

Ele esgravata os dentes com o palito,

esgravata é meu coração de cadela.

 

in O coração disparado, 1978

Tamayo Rufino - Mulher compondo o cabelo 1944

O Vestido

 

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça

meu vestido estampado em fundo preto.

É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas

à ponta de longas hastes delicadas.

Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,

meu vestido de amante.

Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.

É só tocá-lo, e volatiliza-se a memória guardada:

eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.

De tempo e traça meu vestido me guarda.

 

in Bagagem, 1976

Tamayo Rufino - Três personagens 1970

As mortes sucessivas

 

Quando minha irmã morreu eu chorei muito

e me consolei depressa. Tinha um vestido novo

e moitas no quintal onde eu ia existir.

Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.

Tinha uma perturbação recém-achada:

meus seios conformavam dois montículos

e eu fiquei muito nua,

cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.

Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.

Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,

parentes, que me lembrassem sua fala,

seu modo de apertar os lábios e ter certeza.

Reproduzi o encolhido do seu corpo

em seu último sono e repeti as palavras

que ele disse quando toquei seus pés:

‘deixa, tá bom assim’.

Quem me consolará desta lembrança?

Meus seios se cumpriram

e as moitas onde existo

são pura sarça ardente de memória.

 

in Bagagem, 1976

Tamayo Rufino - Familia brincando 1971

Linhagem

 

Minha árvore genealógica

me transmitiu fidalguias,

gestos memoráveis:

meu pai, no dia do seu próprio casamento,

largou minha mãe sozinha e foi pro baile.

Minha mãe tinha um vestido só, mas

que porte, que pernas, que meias de seda mereceu!

Meu avô paterno negociava com tomates verdes,

não deu certo. Derrubou mato pra fazer carvão,

até ao fim da vida, os poros pretos de cinza:

‘Não me enterrem na Jaguara. Na Jaguara, não.’

Meu avô materno teve um pequeno armazém,

uma pedra no rim,

sentiu cólica e frio em demasia,

no cofre de pau guardava queijo e moedas.

Jamais pensaram em escrever um livro.

Todos extremamente pecadores, arrependidos

até à pública confissão de seus pecados

que um deles pronunciou como se fosse todos:

‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu

porque eu. Todo homem erra.

Quem não errou vai errar.’

Esta sentença não lapidar, porque eivada

dos soluços próprios da hora em que foi chorada,

permaneceu inédita, até eu,

cuja mãe e avós morreram cedo,

de parto, sem discursar,

a transmitisse a meus futuros,

enormemente admirada

de uma dor razão alta,

de uma dor dão funda,

de uma dor tão bela,

entre tomates verdes e carvão,

bolor de queijo e cólica.

 

in O coração disparado, 1978

Tamayo Rufino - Anuncio de cortesia 1934

Responsório

 

Santo António

procurai para mim a carteira perdida,

vós que estais desafadigado,

gozando junto de Deus a recompensa dos justos.

Estão nela a paga do meu trabalho por um mês,

documentos e um retrato

onde apareço cansada, com uma cara

que ninguém olhará mais de uma vez

a não ser vós, que já em vida

vos apiedáveis dos tormentos humanos:

sumiu a agulha da bordadeira,

sumiu o namorado,

o navio no alto-mar,

sumiu o dinheiro no ar.

Tenho que comprar coisas, pagar contas,

dívidas de existir neste planeta convulso.

Prometo-vos uma vela de cera,

um terço do meu salário

e outro que rezarei

pra entoar vossos louvores, ó Martelo dos Hereges,

cuja língua restou fresca

entre vossos ossos intacta.

Servo do Senhor, procurai para mim a carteira perdida

e, se tal aprouver a Deus para a salvação da minha alma,

procurai antes me ensinar

a viver como vós,

como um pobre de Deus,

Amen!

 

in O Pelicano, 1987

Tamayo Rufino - Duas mulheres em repouso 1984

Termino com uma peculiar visão de como Deus é a medida de tudo:

 

Tamayo Rufino - Cabeça que sorri 1973

Parâmetro

 

Deus é mais belo que eu.

E não é jovem.

Isto, sim, é consolo

 

in A faca no peito, 1988

Tamayo Rufino - Fantasma 1982

Acompanham o artigo imagens de pintura de Rufino Tamayo (1899-1991).

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Elogio do Homem – fragmento de Antígona de Sófocles

18 Segunda-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Antígona, Grécia, Irmãos Limbourg, Sófocles

Très Riches Heures 06Assistimos hoje, nas tragédias aéreas e outras em que mortes acontecem, à angústia e ansiedade dos familiares das vítimas em recuperar os corpos dos seus e providenciar-lhes sepultura. É algo que parece uma necessidade humana interior, e funciona com castigo insuportável ser impedido de o fazer.

Essa é a motivação de Antígona na tragédia do mesmo nome de Sófocles (497/6-406/5 a.C.) ao desobedecer à ordem de Creonte, dando sepultura ao irmão morto, e com isso enfrentando o castigo de ser emparedada viva.

Além da terrível consequência pessoal com origem na motivação afectiva, são vastas para o homem enquanto ser social as implicações que atravessam o conflito vivido no desenrolar da tragédia.

Confrontam-se nela a fonte do poder e o seu exercício, a necessidade de obediência à lei para a estabilidade de uma sociedade organizada, e os limites da vontade de quem manda, exigindo o equilíbrio entre exercício legítimo de poder e arbítrio.

Pelo meio temos, numa fala do coro que permanece entre os mais famosos poemas do legado grego, o registo de quanto o ser humano é capaz, recordando no final que apenas a morte nos faz parar.

Très Riches Heures 03Como refere Maria Helena da Rocha Pereira (MHRP) em nota à sua tradução que abaixo transcrevo, na ode o coro celebra as conquistas do homem: a navegação, a agricultura, a caça, a pesca, a domesticação dos animais, a fala, o pensamento, a política, a construção de casas, a medicina.

De então para cá, se o essencial das conquistas que propiciam a continuidade da espécie se mantém, é sobretudo na luta contra a doença que nos nossos dias as aptidões humanas se mostram mais efectivas, e seriam permanente motivo de espanto e admiração se por pouco parássemos a olhar para trás, sem necessidade de recuar muito no tempo.

Très Riches Heures 09O texto de Antígona (442 a.C.) de Sófocles tem feito correr rios de tinta, ocupado pensadores, e estimulado a criação artística. Leitores curiosos encontram em Antigonas de George Steiner um panorama desta vastidão. Acresce que a peça é de leitura compulsiva e de avassalador efeito, pelo menos na tradução de MHRP.

Termino citando Ruy Belo num poema que há pouco tempo trouxe ao blog:

O desafio de antígona e de prometeu

é hoje ainda o nosso desafio

embora como um rio o tempo haja corrido

Do sono da desperta Grécia  vv. 27-29

Très Riches Heures 10Se já referi a tradução de MHRP, que mais à frente virá, fazendo justiça ao poema com uma fiel tradução a partir do grego, começo  no entanto, com uma outra versão, pela mão da inspiração poética de David Mourão-Ferreira:

 

Elogio do Homem

 

Inúmeras são do mundo as maravilhas,

mas nenhuma que ao homem se compare:

é vê-lo sobre as ondas, entre as ilhas,

as águas percorrer do branco mar;

ou é vê-lo, diante da mãe-Terra,

sem pausa revolvê-la com seus potros,

fazendo que dos grãos que a terra encerra

em frutos se desdobrem todos, todos!

 

Ele, só, captura com seus laços,

ou com redes que faz entrelaçadas,

os pássaros ligeiros dos espaços,

os peixes que se ocultam entre as vagas…

E consegue os cavalos ir domando,

adrede utilizando suas manhas;

ao bicho mais feroz torná-lo manso,

como acontece ao touro das montanhas.

 

Sob tectos, se abriga da friagem;

sob tectos, das chuvas inclementes…

E vede: o pensamento, a linguagem

sua conquista são exclusivamente.

É o Ser dos recursos infindáveis:

até contra o futuro se faz forte;

e cura-se de males incuráveis…

Aquilo que o detém? Somente a Morte.

 

Antígona vv. 332-62

 

Tradução de David Mourão-Ferreira in Vozes da poesia europeia – I

Très Riches Heures 07E agora a tradução da Prof. Rocha Pereira:

 

Coro

 

Muitos prodígios há: porém nenhum

maior do que o homem.

Esse, co’o sopro invernoso do Noto (1),

passando entre as vagas

fundas como abismos,

o cinzento mar ultrapassou. E a terra

imortal, dos deuses a mais sublime,

trabalha-a sem fim,

volvendo o arado, ano após ano,

com a raça dos cavalos laborando.

 

E das aves as tribos descuidadas,

a raça das feras,

em côncavas redes

a fauna marinha, apanha-as e prende-as

o engenho do homem.

Dos animais do monte, que no mato

habitam, com arte se apodera;

domina o cavalo

de longas crinas, o jugo lhe põe,

vence o touro indomável das alturas.

 

A fala e o alado pensamento,

as normas que regulam as cidades

sozinho aprendeu;

da geada do céu, da chuva inclemente

e sem refúgio, os dardos evita,

de tudo capaz.

Na vida não avança sem recursos.

Ao Hades somente

não pode fugir.

De doenças invencíveis os meios

de escapar já com outros meditou.

 

Da sua arte o engenho subtil

p’ra além do que se espera, ora o leva

ao bem, ora ao mal;

se da terra preza as leis e dos deuses

na justiça faz fé, grande é a cidade;

mas logo a perde

quem por audácia incorre no erro.

 

(1) vento sul

 

Fragmento de Antígona, vv. 332-371

 

Sófocles, Antígona, 3ª edição, INIC, Coimbra, 1992.

Très Riches Heures 02Acompanham o artigo algumas das iluminuras dos irmãos Limbourg para o livro Les Très Riches Heures du Duc de Berry (1416) dando conta de tarefas do calendário agrícola: sementeiras, colheitas, vindima.

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Dos Deveres em política — um poema de Salvador Espriu

15 Sexta-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas, Prosa

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Cícero, Grécia, Platão, Salvador Espriu

Ambrogio LORENZETTI - efeitos do bom governo na cidade 1

Terá talvez havido um tempo em que a política era entendida generalizadamente como o serviço dos outros. É escassa a memória histórica de tal. Mas lembrar o que deve ser nunca é perda de tempo. Escreveu-o o romano Cícero (106-43 a. C.) em Dos Deveres com quem inicio o artigo, citando o grego Platão (428/7-328/7a. C.),  e lembra-o Salvador Espriu (1913-1985), o poeta catalão, de quem depois transcrevo o poema XXIV de A Pele de Touro em tradução de Manuel de Seabra.

 

... os que se preparam para governar a república ( Res publica) devem observar dois preceitos de Platão. Um é que devem cuidar tanto dos interesses dos seus concidadãos que todos os seus actos se devem aferir por esta medida, esquecendo o seu próprio bem-estar; o outro, é que cuidem de todo o corpo da Res publica, a fim de, ao tratarem de uma parte, não abandonarem as restantes. Pois tal como a tutela, assim a administração da Res publica deve ser conduzida, não para vantagem daqueles a quem está entregue, mas daqueles que lhes foram confiados.

(Cícero, Dos Deveres I.25.85)

 

A Pele de Touro — poema XXIV

 

Se te chamam a guiar

um breve momento

do caminhar milenário

das gerações,

afasta o oiro,

o sono e o nome.

Também a pompa

vã das palavras,

a vergonha do ventre

e das honrarias.

Imporás

a verdade

até à morte,

sem a ajuda

de nenhum consolo.

Não esperes nunca

deixar lembrança,

porque és apenas

o mais humilde

dos servidores.

O desvalido

e o que sofre

sempre serão

os teus únicos senhores.

Excepto Deus,

que te pôs

debaixo dos pés

de todos.

 

Salvador Espriu, A Pele de Touro, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1975.

 

O fragmento de Cícero, em tradução de Maria Helena da Rocha Pereira, foi transcrito de Romana, Antologia da Cultura Latina, 6ª edição aumentada, Babel, Lisboa, 2010.

A obra encontra-se integralmente traduzida em Edições 70, Lisboa.

 

Abre o artigo uma imagem do fresco de Ambrogio Lorenzetti (c. 1290-1348), Alegoria do Bom e do Mau Governo, no Palácio Cívico de Siena, mostrando os efeitos do bom governo na vida da cidade.

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Janelas de Matisse para o poema Varanda de Sophia

13 Quarta-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Matisse, Sophia de Mello Breyner Andresen

Matisse - janela 1

Noutra varanda assim num Setembro de outrora

Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava

Amei a vida como coisa sagrada

E a juventude me foi eternidade

Matisse - janela 2Acontece-me com frequência associar o intenso lirismo de poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) à aparente fragilidade  das pinturas de Matisse (1869-1964) onde a indecisão do desenho se casa com a intensidade tantas vezes eufórica do colorido.

Matisse - janela 3São pintura de uma perene alegria e de alguém que certamente amou a vida como coisa sagrada para tomar o verso de Sophia do poema Varandas, pretexto desta visita a Matisse.

Matisse - janela 4

VARANDAS

 

É na varanda que os poemas emergem

Quando se azula o rio e brilha

O verde-escuro do cipreste — quando

Sobre as águas se recorta a branca escultura

Quasi oriental quasi marinha

Da torre aérea e branca

E a manhã toda aberta

Se torna irisada e divina

E sobre a página do caderno o poema se alinha

 

Noutra varanda assim num Setembro de outrora

Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava

Amei a vida como coisa sagrada

E a juventude me foi eternidade

Matisse - janela 5À feérica paleta junta-se a poesia de harmonia entre a intimidade do eu e a beleza do mundo exterior que pelas janelas abertas nos é mostrado. São mundos onde o frenético da existência está ausente e ganhamos, ao vê-los, a certeza de que é seguramente possível viver de outra maneira.

Matisse - janela 6Matisse - janela 7

Matisse - janela 8O poema foi inicialmente publicado no livro O Búzio de Cós e Outros Poemas, 1997, e transcrito de Obra Poética, Editorial Caminho, 2ª edição, Lisboa 2001.

Matisse - janela 9

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Cleantes de Assos — Hino a Zeus

11 Segunda-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia Grega

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Cleantes de Assos, Grécia, Peter Paul Rubens

Anónimo - atribuido a Rubens - Hercules FarneseAProvavelmente, para o ser humano que pensa, o mais difícil é aceitar quanto o seu conhecimento do mundo será sempre apenas parcial, e nessa medida, a verdade que o conduz será sempre vulnerável ao que não sabe e desconhece. É esta a limitação que introduz incerteza nas nossas vidas e leva ao conceito de algo absoluto, exterior a nós, onde as dúvidas não existem. O que no caso dos gregos antigos é o conceito de Zeus, deus de poder absoluto que tudo sabe e à sua semelhança fez o homem:

 

Em ti está a nossa origem; a sorte de ser a imagem de um deus,

só a nós coube, entre tantos seres mortais que vivem e rastejam sobre a terra.

 

Cito parte da reflexão que o filósofo estóico Cleante de Assos (séc. IV-III a. C.) desenvolve no Hino a Zeus, único texto seu com dimensão chegado até nós, e que a seguir transcrevo em tradução de Maria Helena da Rocha Pereira.

 

É um conceito de um deus regulador que o poema desenvolve, a quem se pede a salvação dos homens da ignorância, e lhes conceda a sabedoria que permite viver com honra:

 

salva os homens da funesta ignorância,

sacode-a, ó pai, da sua alma, concede-lhes que obtenham

a sabedoria com cujo apoio tudo governas com justiça,

a fim de que, honrados, te correspondamos com honra,

 

Pelo meio é dada conta dos comportamentos daqueles para quem esta vontade sobrenatural não faz lei:

 

São eles mesmos, insensatos, que se precipitam cada um para seu mal,

uns com uma pressa funesta de alcançar fama,

outros voltados para a ganância desordenada,

outros ainda para a licença e os doces prazeres físicos;

 

É de novo um entendimento do divino como regulador de comportamentos que aqui lemos, como também já acontecia com o fragmento de teatro filosófico de Crítias que em artigo anterior transcrevi. Mas em Cleantes encontramos não a fala de um ateu, mas um crente agradecido pois entende-se feito à imagem do deus, no que é a invenção maior da mitologia grega.

 

Cleantes de Assos (séc. IV-III a. C.)

 

Hino a Zeus

 

Ó mais glorioso dos imortais, deus de muitos nomes e sempre poderoso,

Zeus, senhor da natureza, que tudo governas com leis,

salve! Pois a todos os mortais é lícito falar-te.

Em ti está a nossa origem; a sorte de ser a imagem de um deus,

só a nós coube, entre tantos seres mortais que vivem e rastejam sobre a terra.

Por isso te entoarei um hino e cantarei sempre o teu poder.

A ti obedece todo este mundo que gira em torno da Terra,

por onde quer que o leves, e de boa mente te é submisso.

Seguras nas invictas mãos, como teu servidor,

o raio incandescente e de dois gumes, sempre vivo.

Sob o seu impulso, caminha toda a obra da natureza:

com ele diriges a tua Palavra universal, que passa através de tudo,

misturando-se com o astro luminoso maior, e também com os menores.

Não se faz sobre a terra obra alguma sem ti, ó deus,

nem sobre o etéreo pólo divino, nem sobre o mar,

excepto os actos dos malvados na sua demência.

Mas tu sabes ajustar mesmo o que é discordante

e ordenar o que é caótico, e ódio em ti é amor.

E assim harmonizaste tudo o que é nobre com o que é vil, numa só unidade,

de modo a originar uma Palavra eterna de tudo,

a que fogem aqueles dos mortais que são inferiores,

insensatos, sempre a almejar a posse do bem,

sem verem nem atenderem à lei universal do deus,

em cuja obediência seriam connosco felizes.

São eles mesmos, insensatos, que se precipitam cada um para seu mal,

uns com uma pressa funesta de alcançar fama,

outros voltados para a ganância desordenada,

outros ainda para a licença e os doces prazeres físicos;

procedem sem pensar, arrastados de um lado para o outro,

apressando-se com vigor para que suceda o contrário dos teus desejos.

Mas ó Zeus remunerador de tudo, senhor das nuvens negras e do raio coruscante,

salva os homens da funesta ignorância,

sacode-a, ó pai, da sua alma, concede-lhes que obtenham

a sabedoria com cujo apoio tudo governas com justiça,

a fim de que, honrados, te correspondamos com honra,

cantando sem cessar as tuas obras, como cumpre

a um mortal, já que, nem para homens nem para deuses,

há maior honra do que celebrar sempre a tua lei universal.

 

in Hélade, 8ªedicao, Edições Asa, 2003.

 

Abre o artigo um desenho anónimo, atribuido a Peter Paul Rubens (1577-1640) conhecido como o Hércules Farnese.

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Ruy Belo — a interrogação define a nossa livre condição

07 Quinta-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Grécia, Ruy Belo

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Em síntese, apanágio da poesia, Ruy Belo (1933-1978) dá conta no poema Do sono da desperta Grécia, de quanto somos devedores hoje, da herança grega:

 

… / Em busca da verdade o homem chega / às noções de justiça e liberdade / …

 

Poderia citar todo o poema, o que era evidentemente uma redundância. Destaco apenas alguns versos que pela penetração da ideia e formulação poética, se tornam exemplares:

 

… / Pela primeira vez o homem se interroga / sem livro algum sagrado sob a sua inteligência / …

 

… E nós ainda hoje nos interrogamos / a interrogação define a nossa livre condição / …

 

Sobre a herança cultural diz o poeta:

 

… sófocles roubando / aos dias desse tempo intemporais conflitos / chegados até nós na força do teatro

 

… / e a tragédia a arte o pensamento / desvendam o destino a divindade o universo / …

 

… / O desafio de antígona e de prometeu / é hoje ainda o nosso desafio / embora como um rio o tempo haja corrido / …

 

A eles irei, a Antígona e a Prometeu Agrilhoado, por estes dias.

 

Antes de vos deixar, acrescento a tradução que Maria Helena da Rocha Pereira (MHRP) fez do Epitáfio das Termópilas de Simónides de Ceos (séc VI-V a. C.) incluído no poema, a qual evidencia a diferença entre uma aproximação literal e a aproximação poética ao original noutra língua:

 

“Diz em lacedemónia ó estrangeiro

que morremos aqui para servir a lei”

 

escreveu o poeta. E agora a tradução de MHRP (frg. 92 Diehl):

 

Estrangeiro, vai contar aos Lacedemónios que jazemos

      aqui, por obedecermos às suas normas.

 

in Helade, 8ª edição, ASA Editores, 2003.

 

Do sono da desperta Grécia

 

Nenhuma voz em esparta nem no oriente

se dirigira ainda aos homens do futuro

quando da acrópole de atenas péricles hierático

falou: “ainda que o declínio as coisas

todas humanas ameace sabei vós ó vindouros

que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade”

Eram palavras novas sob a mesma

abóbada celeste outrora aberta em estrelas

sobre a cabeça do emissário de argos

que aguardava o sinal da rendição de tróia

e sobre o dramaturgo sófocles roubando

aos dias desse tempo intemporais conflitos

chegados até nós na força do teatro

Apoiada na sua longilínea lança

a deusa atenas pensa ainda para nós

Pela primeira vez o homem se interroga

sem livro algum sagrado sob a sua inteligência

e a tragédia a arte o pensamento

desvendam o destino a divindade o universo

Em busca da verdade o homem chega

às noções de justiça e liberdade

Após quatro milénios de uma sujeição servil

o homem olha os deuses face a face

e desafia a força do tirano

E nós ainda hoje nos interrogamos

a interrogação define a nossa livre condição

O desafio de antígona e de prometeu

é hoje ainda o nosso desafio

embora como um rio o tempo haja corrido

“Diz em lacedemónia ó estrangeiro

que morremos aqui para servir a lei”

“E se esta noite é uma noite do destino

bendita seja ela pois é condição da aurora”

Palavras seculares vivas ainda agora

Uma grécia secreta dorme em cada coração

na noite que precede a inevitável manhã

Poema publicado pela primeira vez em Transporte no Tempo, Livraria Moraes Editores, Lisboa, 1973.

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Retratos extraordinários — Carta de Amor por François Clouet

05 Terça-feira Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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François Clouet

François Clouet The love letter 1570 - colecção do museu Thyssen de MadridÉ no jogo de olhares que esta pintura de François Clouet (1516-1572) atinge a dimensão ímpar de retrato de grupo.

Só o rosto dos personagens aqui interessa. Sem cenário distractivo, a pintura remete para o essencial do retrato: captar sentimentos e estados de espírito que dão a ver, ou a supor, o que pela alma do(s) retratados passa.

Vestidos (ou despidos) com o que socialmente os define, estes retratados a menos de meio corpo contam-nos uma história no enigma dos seus olhares e sorrisos.

 

Podemos especular sobre a natureza da relação que envolve os personagens:

 5030THYSSEN- 092

a bela e jovem mulher ao centro, segura do seu valor, sorrindo, mais com os olhos que com a boca, olha-nos frontalmente entre irónica e divertida com o que entre os outros dois se passa, e será algo que provavelmente ela também quer e se faz difícil por aceitar, requestada pelo jovem em condições que apenas a carta exibida na mão da velha mulher poderia desvendar, o que nunca o saberemos.

 5030THYSSEN- 092

À pintura chamaram Carta de amor (ca. 1570). Será uma carta de amor esse papel dobrado e exibido no ar com uma intenção de olhar que sugere na mulher velha uma alcoviteira? A ser assim, uma alcoviteira, tratar-se-ia antes de convencer a jovem das excelências do pretendente e das condições de contrato nela escritas.

 5030THYSSEN- 092

O jovem, no olhar guloso, e também um pouco ansioso da resposta, dá bem conta do desejo que o move, provavelmente capaz de prometer o céu e o inferno para o conseguir. Garboso e aperaltado (veja-se a moda tão actual da argola na orelha), exibe no sorriso a confiança de quem é usualmente bem sucedido com as mulheres.

 5030THYSSEN- 092

Trata-se de uma pintura profana por onde cobiça e desejo passeiam, dados a ver pela segurança de um desenho rigoroso e sem supérfluos, com um equilíbrio cromático que transforma a sua e contemplação num imenso prazer.

O leitor curioso encontra-a (ou encontrava) num corredor do primeiro andar do museu Thyssen-Bornemisza em Madrid, e se a procurar precisará ir atento, pois trata-se de uma pintura pequena (41,5 x 55cm) em zona de passagem sem destaque especial.

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Um fragmento de Crítias

03 Domingo Ago 2014

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia Grega

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Bruegel o Velho, Crítias

Bruegel - O peixe graúdo come o peixe miúdo 600px

É dos recuados tempos da Grécia Clássica que uma reflexão lúcida sobre a necessidade de deuses para regular as sociedades humanas nos chega. Refiro-me ao fragmento de uma obra de Crítias (aluno de Sócrates e protagonista de um dos diálogos de Platão), único que se conhece, e a seguir transcrevo.

Como certeiramente notou Ruy Belo, é na Grécia arcaica que,

… / Pela primeira vez o homem se interroga / sem livro algum sagrado sob a sua inteligência / …

São versos do poema Do sono da desperta Grécia, onde o poeta desenvolve uma profunda reflexão sobre a herança da civilização grega antiga.

 

A reflexão de Crítias, reflexão de um ateu no séc. V a.C., não é uma reflexão paradigmática da relação dos gregos antigos com a mitologia ou o sentimento religioso, ainda que deste praticamente nada saibamos a não ser o que até nós chegou por via da poesia e do teatro, sobretudo, e é, como se sabe, diferente de informação documental objectiva.

No que ao fragmento de Crítias respeita, ressaltaria quanto ele torna evidente a necessidade de regulação nas sociedades humanas como forma de suster o governo da lei do mais forte, sendo que, quando tal se revela impossível, é o além que esperamos nos acuda.

 

Fragmento de Crítias   Houve um tempo em que a vida humana não estava organizada e, à maneira dos animais, a força é que mandava, pois nenhum prémio havia para os bons, nem para os maus havia castigo. Só mais tarde os humanos decidiram estabelecer leis repressivas a fim de que a justiça imperasse e a insolência fosse dominada. Se alguém lesasse outro, isso era considerado delito. Mas, como as leis só conseguiam evitar aquelas acções violentas que eram praticadas às claras, e não as que se praticavam às escondidas, então, parece-me, um indivíduo avisado e sábio teve a ideia de introduzir entre os mortais a crença nos deuses, a fim de amedrontar os maus, se cometessem alguma má acção às escondidas, por palavras ou em pensamento. Introduziu assim a divindade, dizendo que há um ser que floresce com força imperessivel que ouve e vê com o espírito e o pensamento e tudo alcança e tem natureza divina, que ouve tudo o que é dito entre os mortais e é capaz de ver tudo o que se faz. Que, se silenciares algum mal em que medites, isso não escapará aos deuses, tal é a sua inteligência. Dizendo isto, tornou mais atraentes os seus ensinamentos e mentiu, ocultando a verdade sobre as palavras. Disse também — para, dizendo-o, amedrontar mais os homens — que os deuses habitam lá onde julgou que existiam os terrores para os mortais e as vantagens para a sua triste existência: na abóbada celeste, onde se vêem os raios, os terríveis ruídos do trovão e o clarão brilhante do céu estrelado, belos ornamentos que o tempo produziu. É lá que brilha a massa incandescente dos astros e de lá vem a chuva suave que cai sobre a terra. Criou assim belamente os temores por meio de palavras, colocou a divindade num ambiente adequado e, pelo medo, acabou com a injustiça.   Assim, creio, houve um homem que primeiramente convenceu os mortais a acreditar na existência duma raça divina.

in Antologia da Poesia Grega Clássica, tradução e notas complementares de Albano Martins, Edições Afrontamento, Julho 2011.

 

Abre o artigo um filosófico desenho de Bruegel o Velho (1525-1569), denominado O peixe graúdo come o peixe miúdo, dando afinal conta de como numa sociedade desregulada, a lei do mais forte domina, sem o limite do castigo que a justiça, dos homens ou dos deuses, pode aplicar.

 

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