A prostituição na poesia (4) – 3 poemas no final século XIX

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A chegada do naturalismo à poesia na década de 70 do século XIX trouxe a prostituição como assunto poético. São muitos os poemas, de qualidade variada, a abordar o assunto. Mas são dois poetas naturais do Brasil, de entre o que conheço, quem, com enorme elegância trata a matéria em poesia.  São eles  Fontoura Xavier (1856-1922) no soneto Estudo Anatómico, à época publicado numa revista no Brasil e tornado famoso, e Gonçalves Crespo (1846-1883) com o poema Dulce.

Fontoura Xavier (1856-1922)


Estudo anatómico

Entrei no anfiteatro da ciência,

Atraído por mera fantasia,

E aprouve-me estudar anatomia,

Por dar um novo pasto à inteligência.

 

Discorria com toda a sapiência

O lente numa mesa onde jazia

Uma imóvel matéria, humida e fria,

A que outrora animara humana essência.

 

Fôra uma meretriz; o rosto belo

Pude timido olhá-lo com respeito

Por entre as negras ondas de cabelo.

 

A convite do lente, contrafeito,

Rasguei-a com a ponta do escalpelo

E não vi coração dentro do peito!

1876

Rima ABBA ABBA CDC DCD


Gonçalves Crespo (1846-1883)

Dulce

(Imitação)

Vi-a um dia na rua. Flutuante

Ao desdem lhe caía a loura trança;

Como a luz dum farol, essa criança

Levou-me atraz de si… triste bacante!

 

Era o seu nome Dulce. O povo rude

Apontava-a mofando, quando a via.

Docemente sorrindo, ela dizia:

“Tu sabes que te amei, santa virtude!”

 

Um dia a quis beijar; fugiu-me triste:

Dulce me chamam, disse, que amargura!

Este corpo que vês, é sanie impura,

Nem mais amargo fel  no mundo existe.

 

“Que torva história a minha! É breve, atende:

Por minha mãe, que a fome alucinava,

Lançada fui no abismo! Então amava…

Hoje sou Dulce, a lama que se vende…”

É verdade que João Penha (1839-1919)  no soneto Entre mundanas  não fica em desfavor no aplomb com que desenvolve a história e, por outro lado, mostra também ele, a mesma mestria na versificação.

João Penha (1839-1919)


Entre mundanas

– Filha das tristes ervas, nus os pés,

Andrajosa, mas bela de semblante,

Seduziu-me um devasso, um falso amante.

E nada tinha que perder aos dez.

 

Fui atriz e cantora de cafés,

Mas mudava, indecisa, a cada instante.

Depois, fui o que sou: mundana ovante,

Com trem montado, alto estadão, librés.

 

Mas tu que eras um anjo, um serafim!

És pois, de quem te queira! Que piedade!

E por quanto te dás? – por um sequim.

 

-por um sequim em plena mocidade!

De dia e noite uma tarefa assim!

Tu rebaixas a nossa dignidade!

 Rima ABBA ABBA CDC DCD

São três perspectivas afastadas sobre o fenómeno social da prostituição. Temos a indiferença distanciada de João Penha enquanto Fontoura Xavier nos dá a perspectiva do anatomista social imbuído da Alma Nova que parte da sua poesia revela. Por outro lado, Gonçalves Crespo, numa atenção à singularidade do humano, mostra-nos, com a delicadeza que a sua poesia contém, a tragédia associada tantas vezes, no passado como hoje, à prostituição feminina.

Evidentemente, o soneto Metempsicose de Antero de Quental composto na mesma época, é um caso à parte, constituindo na forma, na profundidade da ideia e desenvolvimento do assunto, uma obra-prima absoluta da poesia em lingua portuguesa e já detalhadamente abordado aqui no blog

AQUI

Tanto  a poesia de João Penha como de Gonçalves Crespo já foram alvo da atenção do blog e para esses artigos remeto o leitor.

João Penha   e  Gonçalves Crespo

A poesia de Foutoura Xavier aparece no blog pela primeira vez e talvez surja a  ocasião de a ela voltar.

Noticia bibliográfica

 Estudo anatómico  foi publicado em Opalas com edição definitiva e aumentada 1905

Dulce foi publicado em Miniaturas e nas Obras Completas do poeta na edição de 1897

 Entre mundanas foi publicado em Echos do Passado, 1912

Paisagens: música de John Cage e pintura de Paul Klee

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Convido os visitantes do blog a ouvir a musica de John Gage (1912-1992) enquanto olham a pintura de Paul Klee (1879-1940).

Da música para piano preparado de John Cage (1912-1992) escolhi In a landscape na interpretação de Stephen Drury. A peça foi composta em 1948. Outros, que não eu, falarão com propriedade técnica desta música. Eu, enquanto ouvinte, embalo-me na paz da sua atmosfera e ouço-a, em repetição, horas sem fim.

John Cage (1912-1992)In a landscape para piano preparado

Em Lisboa com Cesário Verde — Eugénio de Andrade a pretexto dos jacarandás

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Passeamos pelas ruas de Lisboa neste verão de Maio, e o inesperado do azul dos jacarandás floridos, fundido com o céu, enche-nos o olhar.

Este ano aconteceu mais cedo, e a cidade dos poetas estará vestida de azul até aos Santos Populares se a natureza cumprir a sua função.

Em pausa de passeio aqui fica esta visita de Eugénio de Andrade (1923 – 2005) a Lisboa.

EM LISBOA COM CESÁRIO VERDE

Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que os gatos persas;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura à do Tejo, em flor também,

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro um rumor distante

de passos ou aves, nem eu sei já bem.

Só ele ajusta a luz feliz dos seus

versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

dum verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio e a musica,

o sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar silaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

à suprema perfeição da lingua.

1986

Lisboa é pouco frequente na poesia de Eugénio de Andrade, embora sendo a sua uma escrita da terra onde a memória dos lugares perpassa, uma que outra passagem por Lisboa foi pretexto de poema, tal este LISBOA:

 

LISBOA

Esta névoa sobre a cidade, o rio,

as gaivotas doutros dias, barcos, gente

apressada ou com o tempo todo para perder,

esta névoa onde começa a luz de Lisboa,

rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água,

nada mais quero de degrau em degrau.

 

Noticia bibliográfica:

Os poemas foram transcritos de POESIA E PROSA [1940 – 1986],  3ª edição  aumentada, editado por Circulo de Leitores em 1987.

Camilo e o burro em três cartas memoráveis

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Faço hoje um parentesis na poesia para transcrever três bem-humoradas cartas de Camilo Castelo Branco (1825 – 1890) sobre a compra de um burro e sua devolução à procedência pois “revelou furias lascivas, dom-juanescas, a cada femia que encontrava”.

Conservei a ortografia da primeira edição das cartas, respeitadora do manuscrito.

 Meu presado Am.0

Se fôr capaz de ler esta carta sem se rir, está V. Ex.cia á prova do humorismo indigena.

Os meus medicos, suspeitosos de que as m.as pernas vão paralysar, mandam-me dar passeios a cavallo.

Eu tenho um, como recordação de bons tempos; mas já não me atrevo a montal-o. Aconselharam me a equitação em burro, pacifico, sem manhas, nem erothismos mto violentos. É impossivel encontrar no Minho um burro em taes condiçoens; por que, alguns que ainda existem, são abbades. Mandaram-me procural-o no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio academico da Mealhada e dos Fornos.

Lido isto. V. Ex.cia encarrega um dos seus carreiros de me comprar um jumento, nas condiçoens therapeuticas acima referidas – burro que não exceda 6 ou 7 libras. Apalavrado que esteja, envio a V. Ex.cia a qta que me designar, e o burro vem pa Famalicão, tomar pte nas minhas contemplaçoens bucolicas por estas montanhas.

Pergunta-me agora V. Excia em que ponto da carta lhe cumpria rir-se? É na estouvanice de o ir distrahir das suas leituras pedindo-lhe que me compre um burro.

Vou ler o seu livrinho, na certeza de que encontro novidades.

Peço-lhe a finesa de depor aos pés de sua Exma Esposa os meus respeitos.

De V. Ex.

Velho am.o obg.do

Camillo Castello Br.o

19/3/1886


Meu exmo amigo

Vejo que é mais facil encontrar ahi e aqui uma dusia de viscondes do que um burro regular. Talvez se desse a evolução darwinista. A gente vê passar o visconde e não vê o burro incluso. Requer-se o olho scientifico, experimental que V. Ex. não tem nem eu.

Muito lhe agradeço o resultado das suas pesquisas. Hoje deve V. Ex.cia receber um vale de 24$ rs para pagar o meu companheiro de excursoens e travessias por estas serras.

O burro queira V. Ex. enviar-m’o pela viaferrea. Não vejo melhor meio de transporte, nem deveremos esperar a navegação aeria, salvo se V. Ex.cia vir que elle, batendo as azas do genio, pode esvoaçar até aqui, como o negro melro da cantiga. V. Ex.a terá a bonde de me avisar do dia em que o illustre peregrino chega a Famalicão para as auctorides o cumprimentarem na gare.

Dei-lhe o incommodo de responder ao meu teleg. e não pude ir a Coimbra. fui hontem ao Bom Jesus ver o Peito de Carv.o e regressei mto doente. Mal posso já sahir de casa. Se V. Ex.cia me quizer ver, tem de vir aqui.

Peço os meus respeitos para sua ex.ma Esposa, minha Senhora.

De V. Ex.cia

Amo obgm.o

Camillo Castello Br.o

8/4/1886


Meu presado Am.o e Ex.mo Sr.

Cá está o onagro. Não o posso ver porque estou de cama com rheumatismo; mas ouço-o ornear valentemt.e. Desde Famalicão  até aqui, não obstante ter passado mal a noite, revelou furias lascivas, dom-juanescas, a cada femia que encontrava. Logo que chegou, investiu para dois garranos que tenho. O deabo tem dentro d’elle o que quer que seja do Marquez de Vallada. Parece mmo um christão! Meu filho Nuno veio dizer-me á cama que não consentia que eu o montasse (o burro) em qto lhe durasse a crise erothica.

Assim farei pa não ser victima de paixoens que me escangalharam a mim, sem ser de todo burro.

Remetto-lhe, meu presado amigo, 2:250 rs. Vão inclusos n’essa qta fabulosa os teleg. apensos ao burro.

Mil agradecimentos e mil desejos de lhe provar qto sou

De V. Ex.

Am.o grato

Camillo Castello Bro

20/4/1886

E quatro dias depois foi o burro despachado à procedência por indecente e má figura, supõe-se:

Meu presado Amigo

e Ex.mo Sr.

Como supplemento ás Notas diplomaticas sobre o burro, salvo seja, vai esta como recibo das 5 libras, reis 22$500.

A posteride, alem de ver que fomos de boas contas, maravilhar-se-ha vendo quaes eram as preocupações de dois escriptores assas methaphisicos. Se V. Ex.cia conservar esse pachiderme, e elle render o espirito em sua casa, peço-lhe que o embalsame e lhe ponha entre as orelhas a nossa correspondencia. Elle fez gemer os arames do telegrapho, e promettia fazer-me gemer com as costelas fracturadas. Oxalá que a final V. Ex.cia não seja victima d’esse burro e nunca lhe sacrifique a dedicada jumenta do olho unico.

De V. Ex.cia

Velho Amigo

Camillo

26/4/1886

Não é este o burro da história mas provavelmente, com este olhar lânguido, semelha uma das fêmeas que provocou as fúrias eróticas do burro.

As cartas, dirigidas a Adelino das Neves e Melo, amigo de longa data e residente em Coimbra, foram publicadas pela primeira vez por J. M. Teixeira de Carvalho em 1922. Famosas desde então têm conhecido diversas edições.

Os problemas de saúde de Camilo, que acabaram por o levar ao suicidio, são bem conhecidos, mas à data das cartas não tinham ainda atingido os paroxismos que a correspondência de 1889 e 1890 revela.

Já antes desta operação de aquisição de burro, Camilo recebera o conselho médico de se exercitar a cavalo, e numa carta do ano anterior, datada de 10/4/1885 e dirigida ao amigo Manuel Negrão, vivendo à época em Mosteiró, surge o pedido de compra de “egua, cavallo, garrano etc.,”.

Diz a carta:

Meu Negrão.

A medicina manda-me cavalgar. Tenho um garrano de 20 annos, indigno de confiança. Ha muito que o jubilei com mais um terço do ordenado. Em feira não compro burro, porque o compral-o é espiga certa. Queria que tu por ahi me comprasses besta conhecida – egua, cavallo, garrano etc., coisa que se pareça comigo nos annos e na pacatez, e que não exceda 12 libras. Ha eguas abbaciais excellentes. Não discuto quanto ao tamanho, nem idade. Forte de pernas para prescindir da mão de rêdea, e nada de pulmoeira.

Lembras-te da orça que comprei ao José Augusto? Aquillo a cada passo, na angustia dos seus bofes, era uma trovoada… que não ha ahi dizel-o sem offensa do nariz.

Esta carta foi publicada pela primeira vez pelo Visconde de Villa-Moura em 1913 no livro Camillo Inédito, prefaciado e anotado pelo editor.

As cartas de Camilo são um mundo fascinante sobre o homem, sobre os seus contemporâneos e sobre a riqueza vocabular e expressiva da lingua. Enquanto tesouro da literatura portuguesa e retrato único do homem, aguardam uma edição crítica que as enquadre no tempo e na biografia do escritor.

Tendo sido publicadas de forma avulsa em revistas e colectâneas desde a morte do escritor e sobretudo no inicio do século XX, foram por duas vezes reunidas, uma por Alexandre Cabral para Livros Horizonte e outra por Justino Mendes de Almeida para a edição em papel biblia da Lello& Irmão Editores, sem que a totalidade das cartas conhecidas tenha sido incluida, nem, quando era possivel, a contraparte epistolográfica dos destinatários. Permanecem assim, ainda cheias de valor, algumas das edições avulsas anotadas e comentadas com preciosos detalhes sobre os personagens a as peripécias a que se referem.

Os treze anos – o poema de António Feliciano de Castilho e a voz de Amália

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Neste passeio pela poesia dos românticos faço hoje paragem em António Feliciano de Castilho (1800 – 1875) acompanhado de Amália Rodrigues.

A personalidade literária e humana do poeta é de tal forma gigantesca e o domínio que exerceu sobre o panorama literário português e brasileiro nos 50 anos da vida activa foi tal, que seria estulticia pretender abordá-lo em poucas linhas. Lá virá com o cuidado que merece.

Hoje apenas transcrevo na integra o poema OS TREZE ANOS, cantilena como o autor sub-titulou, composto aos 40 anos, em 1840, e que Amália cantou parcialmente como Pedro Gaiteiro com a musica de Alain Oulman.

Pedro Gaiteiro na voz de Amália


OS TREZE ANOS

 Cantilena

Hortas da calçada do duque, Páscoa do espírito santo de 1840

Já tenho treze anos, / Que os fiz por Janeiro:

Madrinha, casai-me, / Com Pedro gaiteiro.

 

Já sou mulherzinha; / Já trago sombreiro;

Já bailo ao domingo / Co’as mais no terreiro.

 

Já não sou Anita, / Como era primeiro,

Sou a senhora Ana, / Que mora no outeiro.

 

Nos serões já canto, / Nas feiras já feiro,

Já não me dá beijos / Qualquer passageiro.

 

Quando levo as patas, / E as deito ao ribeiro,

Olho tudo à roda / De cima do outeiro,

 

E só se não vejo / Ninguém pelo arneiro,

Me banho co’as patas / Ao pé do salgueiro.

 

Miro-me nas águas / Rostinho trigueiro,

Que mata d’amores / A muito vaqueiro.

 

Miro-me olhos pretos / E um riso fagueiro,

Que diz a cantiga / Que são cativeiro.

 

Em tudo, madrinha, / Já por derradeiro

Me vejo mui outra / Da que era primeiro.

 

O meu gibão largo / D’arminho e cordeiro

Já o dei à neta / Do Brás cabaneiro,

 

Dizendo-lhe – Toma / Gibão domingueiro,

D’ilhoses de prata, / D’arminho e cordeiro.

 

A mim já me aperta, / E a ti te é laceiro;

Tu brincas co’as outras, / E eu danço em terreiro.

 

Já sou mulherzinha, / Já trago sombreiro;

Já tenho treze anos, / Que os fiz por Janeiro.

 

Já não sou Anita, / Sou a Ana do outeiro;

Madrinha, casai-me, / Com Pedro gaiteiro.

 

Não quero o sargento, / Que é muito guerreiro,

De barbas mui feras, / E olhar sobranceiro.

 

O mineiro é velho; / Não quero o mineiro:

Mais valem treze anos / Que todo o dinheiro.

 

Tão pouco me agrado / Do pobre moleiro,

Que vive na azenha / Como um prisioneiro.

 

Marido pretendo / De humor galhofeiro,

Que viva por festas, / Que brilhe em terreiro.

 

Que em ele assomando / Co’o tamborileiro,

Logo se alvorote / O lugar inteiro.

 

Que todos acorram / Por vê-lo primeiro;

E todas perguntem / Se ainda é solteiro.

 

E eu sempre com ele, / Romeira e romeiro,

Vivendo de bodas, / Bailando ao pandeiro.

 

Ai, vida de gostos! / Ai céu verdadeiro!

Ai Páscoa florida, / Que dura ano inteiro!

 

Da parte, madrinha, / De Deus vos requeiro;

Casai-me hoje mesmo / Com Pedro Gaiteiro.

 

OS TREZE ANOS foi publicada em 1844 no livro Escavações Poéticas, livro que o próprio autor chama no prólogo … um museu de fragmentos desconexos.

Num poema em que o autor faz correr a inspiração para um retrato de adolescente, a sua versificação sem mácula ganha um sabor genuinamente popular.

OS TREZE ANOS não é um poema representativo da obra poética de António Feliciano de Castilho (1800 – 1875), embora estas criações de aparente desenfado surjam uma  vez por outra entre os diversos exercícios poéticos a que se entrega, pretendendo plasmar em português uma arte poética solidamente teorizada.

Noutra ocasião à sua poesia voltarei.

Meditação poética sobre A Nuvem em 1847

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Com a poesia romântica encontramos pela primeira vez, na literatura em português, a emoção da natureza e da paisagem.

Embora na poesia arcádica a paisagem estivesse presente, e mesmo antes, nomeadamente nas éclogas, tratava-se de um cenário para enquadrar a emoção amorosa do(s) protagonista(s).

É em Glaura: Poemas Eróticos, livro de poemas do brasileiro Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749 – 1814) que a natureza e a paisagem surgem a disputar a  primazia ao relato dos acidentes da paixão, num registo ainda respeitador do cânone arcádico.

Com os românticos, sobretudo da segunda geração, a paisagem e a variedade da natureza são o objecto mesmo da emoção poética.

O luar, a voz e os humores do oceano, a montanha, a variedade da luz no ciclo solar, as paisagens e sons familiares da infância, tudo isto se torna assunto de poesia de par com o questionamento do eu, num registo de meditação, de uma emoção fugaz, de uma saudade.

Ilustro estas considerações com um notável poema A Nuvem, retirado de O Trovador


A NUVEM

Pelo sol ainda afagada,

Pequena nuvem dourada

Vai adejando apressada

Lá nas campinas do ar.

D’onde vens, ó nuvem pura,

Co’a viração, que murmura

Na montanha na verdura,

Na face argentea do mar?

 

Nas asas do meio dia

Vens tu acaso sombria

Perder-te em melancolia

Nos campos de Portugal?

Vens do Tejo ver as flores?

Ou vens matar-me d’amores

Ao rever as tuas cores

No Mondego de cristal?

 

Tu, que os braços vaporosos

Em brancos flocos mimosos

Estendes tão amorosos

Lá para o setentrião;

Vais nos gelos de brilhantes,

Em caverna de diamantes,

Ver uns olhos cintilantes,

Que prendem teu coração?

 

Vais matar uma saudade

Entre a neve em soledade,

Ou vais travar amisade

C’uma estrela glacial?

Ou no polo diamantino

Vais vestir-te d’ouro fino

Lá no brilho purpurino

D’uma aurora boreal?

 

Quanto invejo, ó nuvem leve,

Tuas asas cor de neve,

E o beijo que o céu te deve

D’essas roupas de marfim!

Quanto invejo os vôos teus

Pelos caminhos dos céus,

E o meigo sorrir de Deus

Nesse raio carmesim!

 

Lá do espaço nos retiros

Onde fazes os teus giros,

Não ouves tu os suspiros

Que te envia o trovador?

Ou tu lá nessas alturas

Não te doem magoas duras;

Nem afectos nem ternuras,

Nada move o teu amor?

 

Oh! se à terra tu baixando

Me conduzisses voando

No seio macio e brando

Às etéreas regiões!

Ou se ao menos c’um gemido,

Da pobre lira saido

A um ente estremecido

Desses as minhas canções!

 

Mas tu roças o horizonte,

Ao norte levas a fronte,

Vais já mui longe do monte

Em que te vi despontar;

Corre, corre, ó nuvem pura,

Co’a viração que murmura

Da montanha na verdura,

Na face argentea do mar.

 

Corre, voa, que a tormenta

Sobre as montanhas se assenta,

Já o trovão arrebenta

Nas serranias do norte;

Corre, vôa, que o bafejo

Que ora te dá doce beijo,

Pode num rápido ensejo

Mudar-se em tufão de morte!

Outubro de 1847

Luis Correia Caldeira


Luis Correia Caldeira (1827 – 1859) é hoje um poeta esquecido, com referência fugaz em entrelinhas ou notas de rodapé nas histórias da literatura. Morreu novo, com 32 anos. Foi curta a vida para o génio que os contemporâneos lhe viam.

Ficou-nos uma produção poética escassa, espalhada por revistas da época, de dificil acesso, em que O Trovador recolhe cinco de um período pouco além da adolescencia.

Poesias como A Voz do Oceano ou os poemas que o poeta antevia publicar em Flores da Biblia quais sejam Mar Morto, ou sobretudo Jerusalém, constituem um conjunto raro na poesia portuguesa, e do melhor escrito em português à época, pela elegância do verso, pela originalidade da ideia e pela emoção em crescendo a que a sua leitura conduz.

A extensão destes poemas inviabiliza a sua transcrição no blog. Fica o alerta para os curiosos se porventura com este nome se depararem.

Os economistas e o senso comum – uma fábula de Henrique O’Neill

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Certo bacharel formado

Depois de muita canseira

Voltou a casa enfronhado

Na ciência financeira,

Com fumaças de estadista,

De sagaz economista,

Inventor de panaceias,

De altos e belos

Castelos,

Tendo só por fundamento

As movediças areias.

A mãe nele se revia

Ao ver tão grande talento.

O pai, que pouco sabia,

Mas tinha clara razão,

Deu-lhe um dia

Uma lição.

Estavam todos três sentados

A jantar.

Vêm franguinhos assados,

Mas só dois; o que notar

O velho fez à mulher.

Quis mostrar

O seu saber

Dizendo então o rapaz:

– “Onde há dois há um também

Que, com os outros, três perfaz.”

Volta-lhe o pai: – “ Dizes bem:

Come pois tu o terceiro,

Que o segundo e o primeiro

Como-os eu mais tua mãe.”

 

Estou velho. E em toda a vida

Sempre vi que nesta lida

De provar

Que pode um povo gastar

À larga mais do que tem,

O futuro antecipando,

Andavam economistas

(ou modernos alquimistas)

Até que vinha a verdade,

Sem piedade

Com tudo em terra pregando,

Fatalmente conseguir

Ficarem  poucos a rir

E a maior parte a chorar.

 

Ou cedo ou tarde descamba

Quem dançar

Na corda bamba.

 

Henrique O’Neill publicou esta fábula na 1ª edição do seu livro In Memorian, em 1887, saído sem identificação do autor.

In Memorian é um livro de poesias e 53 fábulas. Terá havido um 2ªedição do livro em 1889 (que não conheço), de onde foram retiradas as fábulas e acrescentadas mais poesias.

A parte monumental da obra de Henrique O’Neill, é o Fabulário, gigantesca colecção de mais de 300 fábulas, umas de invenção própria, outras adaptadas de assuntos conhecidos desde Esopo e Fedro, que continuam a ler-se, na sua maior parte com o encanto da memória da infância.

Poeta do grupo O Trovador, sobre a sua poesia correm alguns juizos, talvez apressados, de negrume e morbidez, ao não realçarem a ironia que subjaz muitos dos seus poemas.

Como exemplo transcrevo o soneto À minha perna:

À MINHA PERNA

Depois de trinta dias de doença que teve o autor

seis meses de cama e o deixou coxo

Perna minha gentil, nunca te viste

Tanto tempo estendida em cama quente;

Não te vás amuar eternamente

Nem fique eu num só pé, cegonha triste.

 

Desceste escadas tantas e as subiste

A dois e dois degraus, perna valente;

E agora há trinta dias estás doente,

Diabo-coxo a ser me reduziste!

 

Vê lá, cruel, se pode merecer-te

Alguma cousa a desgraçada irmã

Com o peso todo d’este corpo inerte.

 

Se de todo a ciência não for vã:

Possa eu, perna minha, sempre ver-te

Fugir-lhe, caso um dia ficas sã.

O leitor, mesmo desprevenido, terá reparado como o eco do soneto de Camões, Alma minha, gentil, que te partiste, percorre todo este soneto À minha perna, numa saborosa brincadeira entre as perdas: da amada para Camões, da perna para O’Neill.

Liberdade, um poema romântico

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O único propósito pelo qual o poder pode ser exercido rectamente sobre um qualquer membro de uma comunidade, contra sua vontade, é como forma de prevenir danos sobre outrem

Sobre si próprio, sobre o seu próprio corpo ou mente, o individuo é soberano.

Apenas há pouco mais de 150 anos foi a ideia de liberdade formulada nestes termos, e foi John Stuart Mill quem a organizou na forma filosófica em que hoje a discutimos.

Publicado em 1859, On Liberty não mais deixou de interrogar os homens confrontando-os com os valores morais que legitimam o ser humano.

No entanto, antes desta notável organização argumentativa, o conceito apresentava-se difuso e dificilmente articulável entre a esfera pessoal, a esfera social, o individuo e o colectivo.

Reflexo desta debilidade conceptual é o poema que hoje escolhi.

A geração que viveu a juventude na primeira metade do século XIX em Portugal, conheceu, vividos ou por memória próxima, os conturbados 50 anos entre as invasões francesas e o triunfo final do constitucionalismo.

Nesta viragem do mundo antigo para uma sociedade nova, triunfou literariamente o romantismo.

Nos seus propósitos de incorporar uma identidade nacional e construir uma linguagem artistica próximo do povo, surgiram criações poéticas despidas de sofisticação conceptual ou de linguagem, mas onde, ainda hoje, encontramos uma saborosa atmosfera de simplicidade.

A versificação aproximou-se das fórmulas populares, os assuntos retomaram a ingenuidade dos romances contados à lareira, a rima procurou-se sonora, e o resultado faz com que a leitura flua. Lidos sem preconceitos de escola ou ideologia, muitos destes poemas proporcionam ao amante de poesia genuinos momentos de prazer.

Em Liberdade, por qualquer padrão uma poesia menor, o atabalhoado dos conceitos e a cadência das imagens, escolhidos com um propósito de metrificação, acaba por nos revelar um jovem a quem a eloquência poética faltou, mas onde o confuso conceito de liberdade espreita para dominar a vida adulta.

Liberdade

Liberdade, nome santo,

Meu primeiro, doce canto,

Minha sacra inspiração,

Nome em glória e sangue imerso,

Que eu ouvia inda no berço

Pronunciar com devoção.

 

Liberdade, eco bendito,

Doce sonho do proscrito,

Do cativo entre grilhões,

Doce sonho d’esperança,

Sonho, às vezes de vingança

Nesta quadra de traições.

 

Mega estrela d’almo[i] alento

Baptizada em mar sangrento,

Ora envolta em claro véu,

Ora pálida, amarela,

Como a lâmpada, que vela

Junto à cruz do mausoléu.

 

Sonho, estrela, nome ou canto,

Que os mortais adoram tanto,

Que adorado sempre tem,

Que adorou já Roma e Grécia,

Que pregou Bruto e Lucrécia,

E o senhor nado em Belém.

 

Liberdade, virgem linda,

– Virgem sim, que ousado ainda

O mortal te não gosou,

– Eu te adoro, ó liberdade,

Como Deus ama a verdade,

Como Cristo a Deus amou.

 

Eu te adoro, virgem bela,

Como a noite adora a estrela,

Como o aflito as solidões,

Como Newton o infinito,

– Como a patria ama o proscrito,

Como a pátria amou Camões;

 

Como a mãe adora o filho,

Como a flor da aurora o brilho,

Como a luz da aurora a flor,

Como o árabe o deserto,

O pirata o mar incerto,

De que é rei, de que é senhor.

 

Adorei-te, ó liberdade,

Quando em frágil, terna idade

– Deus e mãe – balbuciei,

Quando a mãe – Deus – me dizia;

Quando infante eu não sabia

Vã ciência que hoje sei.

 

Quando vi a vez primeira

Vir bater, bater na beira

Livre a onda, livre o mar:

Quando rir, farto e contente,

Vi o rico, e o indigente

Pedir pão e soluçar.

 

Quando após calmoso dia

Ia só, cismar eu ia

Sonhos vãos, doces visões:

Quando negra estava a noite,

Quando o vento era um acoite,

Dando voz às solidões.

 

Quando a meiga donzela,

Mais que o sol, que a aurora bela,

Quando a vez primeira amei,

Quando tive um vão desejo,

Quando quis furtar-lhe um beijo,

Quando ingrata lhe chamei.

 

Quando vi seu riso brando,

Suas lágrimas e quando

Pranto e risos lhe volvi:

Quando em tardes d’almo estio

Fui sentar-me ao pé do rio

No país onde nasci.

 

No murmúrio da corrente,

No raiar do sol ardente,

Nos vãos sonhos que eu sonhei,

No fragor da tempestade,

Sempre, sempre, ó liberdade,

Sempre, sempre, te adorei.

 

Nos sorrisos da donzela,

No fulgir da pura estrela,

Nos rocios[ii] da manhã,

No tugúrio que defeca,

No cair da folha seca,

No pairar da sombra vã.

 

No som do ermo campanário,

Que flutua ao sôpro vário

Da ligeira viração,

No rezar das preces santas,

No tufão que açoita as plantas,

No som rouco do trovão.

 

Liberdade, a luta imensa

Que revolve o mundo, é crença

Na tua santa, eterna lei;

Quando a terra, o céu divino,

Soltam juntos o teu hino,

O teu hino eu cantarei.

 

O clamor da humanidade

Diz bem alto – Liberdade,

Como a brisa, o vento, a flor.

Minha voz não é tão forte,

Mas serei até à morte,

Liberdade, o teu cantor.

 

O autor do poema foi A de Serpa (António de Serpa Pimentel (1825 – 1900)  membro do grupo de O Trovador. Nasceu em Coimbra, onde estudou matemática. Foi professor da Escola Politécnica, chefe do Partido Regenerador a seguir à morte de Fontes Pereira de Melo, ministro de várias pastas e chefe do governo formado na sequência do Ultimatum Inglês de 1890.

Como nota de actualidade refiro que o nosso poeta, enquanto politico activo a partir da queda de Costa Cabral em 1851, teve a iniciativa de propôr a criação da Caixa Geral de Depósitos em meados da década de 70.

Os seus poemas foram reunidos em Poesias (1851).

Este poema Liberdade foi publicado em 1849 a abrir o livro COLLECÇÃO DE POESIAS, com poemas de vários jovens autores, numa edição da Imprensa Nacional.


[i] criador

[ii] orvalho

Herois e fantasias medievais de regresso com um poema-versão de Alexandre Herculano (1810 – 1877)

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O universo medieval, nos seus valores, onde se movem herois maiores que a vida cruzando o sobrenatural, continua popular. É ver o exito actual nos EUA da série Game of Thrones, depois do sucesso planetário, e também em Portugal, da saga literária Song of Ice and Fire de George R.R. Martin que lhe deu origem.

Para quem, como eu, segue as aventuras do Robin dos Bosques de Errol Flynn com um entusiasmo infantil, se embeveceu na adolescência com as aventuras escritas por Sir Walter Scott, e hoje vibra com a paixão e loucura de Lucia di Lammermoor na opera do mesmo nome, encontrar a poesia romântica do primeiro século XIX de atmosfera medieva, onde damas e cavaleiros vivem paixão, ciúme e morte, assombrados por fantasmas de amantes preteridos, é como a descoberta de um novo escritor policial, um prazer inesperado.

Levado por esse prazer, transcrevo hoje a versão livre que Alexandre Herculano (1810 – 1877) fez sobre um poema de M. G. Lewis, Afonso e Isolina, respeitando a sequência do argumento.

 Afonso e Isolina

Balada livremente traduzida do inglês de Lewis pelo Sr. Alexandre Herculano de Carvalho

1

De Isolina a mui formosa

Já se parte o seu guerreiro

–  A Palestina me chama,

Adeus que sou Cavaleiro.

 

2

Sinto senhora, os teus choros,

E nessas lágrimas creio:

Mas hei medo a novo amante,

De inconstâncias me arreceio.

 

3

– Afonso não te arreceies

Não tens que te arrecear:

Juro amar-te vivo ou morto,

Mais ninguém me há-de gozar.

 

4

Tua sombra me apareça

Se eu quebrar o juramento,

Comigo se ponha à mesa

No dia do casamento.

 

5

Ali declare em voz alta

Que o seu direito requer:

Para o sepulcro me arraste,

Gritando – és minha mulher… –

 

6

Largos anos são passados,

Quando extremado infanção

De Isolina a mui formosa

Se afoita a pedir a mão.

 

7

Graças e amores são prendas,

Nele Isolina as vê todas:

Finezas quebraram juras:

Grande turba acode às bodas.

 

8

Rompem com o banquete aplausos,

Aplausos à noiva bela,

Quando entra desconhecido

Que vem sentar-se ao pé dela.

 

9

Seu ar de agoiro, armas negras,

Altura descomunal,

Intimam geral respeito

Infundem terror geral.

 

10

Ninguém conhecê-lo pode

Que o elmo bem o encobria;

Voltado contra Isolina,

Imovel, nada dizia.

 

11

Isolina, a mui formosa,

Convulsa esta fala fez:

– Erguei, Senhor, a viseira,

Deixai a triste mudez.

 

12

Em dia de regozijos

Que vindes vós agoirar?

Cavaleiro que assim usa

Não sabe as armas honrar. –

 

13

Fez-lhe o incógnito a vontade.

Toda a sala absorta pasma!

Que levantada a viseira,

Se viu medonho fantasma.

 

14

Pálido, em pé, e crescendo,

Diz à trémula Isolina: –

Lembrada estarásd de Afonso

Que morreu na Palestina.

 

15

Fugir de novos amores

Outrora lhe prometias,

Juravas que, vivo ou morto,

Leall te conservarias.

 

16

Tu me convidaste à boda,

O teu convite aceitei:

Palavras que me hás ditado

Palavras são que eu direi

 

17

Meu fantasma aqui declara

Que o seu direito requer:

Para a cova me acompanha,

Vem, vem, que és minha mulher… –

 

18

Com a torpe mão arrasta

A infiel que em vão bradava:

Nenhum deles já se via,

Seu clamor inda soava.

 

19

Em prantos de noite e dia

Breve o Infanção se finou:

Lá no Castelo desero

Ninguém depois habitou.

 

20

Salvo que nas longas noites

Noiva em pranto ali se via.

E trás ela hediondo espectro

Que nas garras a prendia.

Noticia bibliográfica

Este poema não foi recolhido nas Poesias de Alexandre Herculano pela primeira vez publicadas em 1850, e onde o autor reuniu a sua produção poética.

 O poema foi publicado em 1836 pela Tipografia Lisbonense inserido no livro.

A Noite do Castelo e os Ciúmes do Bardo, Poemas seguidos da Confissão de Amélia traduzida de Mlle Delfine Gay”.

As obras do livro são da autoria de António Feliciano de Castilho, e é o próprio quem, em extensa nota, explica a coincidência de o seu poema A Noite do Castelo versar o mesmo assunto do poema de Lewis, e qual a forma como tal veio ao seu conhecimento através de Alexandre Herculano. Daí a inclusão desta versão de Alonzo e Imogene, em português Afonso e Isolina, no livro.

O poema original Alonzo e Imogene foi inserido no romance The Monk, de Matthew Gregory Lewis, publicado em 1796, e encontra-se no seu capitulo 9. O poema surge na história apenas para impressionar os protagonistas, não a integrando no seu desenvolvimento ficcional.

The Monk  é um romance gótico-fantástico contemporâneo dos romances de Ann Radcliff, e faz parte de um género ficcional popular à época, e a seguir desenvolvido por Mary Shelley em romances ainda hoje famosos como Frankenstein.

Os romances de Ann Radcliff penso estarem hoje esquecidos ainda que na minha adolescência se encontrassem traduzidos nas edições Romano Torres, lado a lado com Walter Scott e outros.

Para o leitor curioso, e que domina a língua inglesa, aqui fica o que suponho ser a versão original do poema. A ressalva deve-se apenas a que não tive acesso à 1ªedição do livro e como tal, não garanto que tenha sido esta a versão que Alexandre Herculano conheceu quando do seu exílio em Inglaterra integrando o grupo de refugiados liberais.

A Warrior so bold, and a Virgin so bright
Conversed, as They sat on the green:
They gazed on each other with tender delight;
Alonzo the Brave was the name of the Knight,
The Maid’s was the Fair Imogine.

`And Oh!’ said the Youth, `since to-morrow I go
To fight in a far distant land,
Your tears for my absence soon leaving to flow,
Some Other will court you, and you will bestow
On a wealthier Suitor your hand.’

`Oh! hush these suspicions,’ Fair Imogine said,
`Offensive to Love and to me!
For if ye be living, or if ye be dead,
I swear by the Virgin, that none in your stead
Shall Husband of Imogine be.

`If e’er I by lust or by wealth led aside
Forget my Alonzo the Brave,
God grant, that to punish my falsehood and pride
Your Ghost at the Marriage may sit by my side,
May tax me with perjury, claim me as Bride,
And bear me away to the Grave!’

To Palestine hastened the Hero so bold;
His Love, She lamented him sore:
But scarce had a twelve-month elapsed, when behold,
A Baron all covered with jewels and gold
Arrived at Fair Imogine’s door.

His treasure, his presents, his spacious domain
Soon made her untrue to her vows:
He dazzled her eyes; He bewildered her brain;
He caught her affections so light and so vain,
And carried her home as his Spouse.

And now had the Marriage been blest by the Priest;
The revelry now was begun:
The Tables, they groaned with the weight of the Feast;
Nor yet had the laughter and merriment ceased,
When the Bell of the Castle told, — `One!’

Then first with amazement Fair Imogine found
That a Stranger was placed by her side:
His air was terrific; He uttered no sound;
He spoke not, He moved not, He looked not around,
But earnestly gazed on the Bride.

His vizor was closed, and gigantic his height;
His armour was sable to view:
All pleasure and laughter were hushed at his sight;
The Dogs as They eyed him drew back in affright,
The Lights in the chamber burned blue!

His presence all bosoms appeared to dismay;
The Guests sat in silence and fear.
At length spoke the Bride, while She trembled; `I pray,
Sir Knight, that your Helmet aside you would lay,
And deign to partake of our chear.’

The Lady is silent: The Stranger complies.
His vizor lie slowly unclosed:
Oh! God! what a sight met Fair Imogine’s eyes!
What words can express her dismay and surprize,
When a Skeleton’s head was exposed.

All present then uttered a terrified shout;
All turned with disgust from the scene.
The worms, They crept in, and the worms, They crept out,
And sported his eyes and his temples about,
While the Spectre addressed Imogine.

`Behold me, Thou false one! Behold me!’ He cried;
`Remember Alonzo the Brave!
God grants, that to punish thy falsehood and pride
My Ghost at thy marriage should sit by thy side,
Should tax thee with perjury, claim thee as Bride
And bear thee away to the Grave!’

Thus saying, his arms round the Lady He wound,
While loudly She shrieked in dismay;
Then sank with his prey through the wide-yawning ground:
Nor ever again was Fair Imogine found,
Or the Spectre who bore her away.

Not long lived the Baron; and none since that time
To inhabit the Castle presume:
For Chronicles tell, that by order sublime
There Imogine suffers the pain of her crime,
And mourns her deplorable doom.

At midnight four times in each year does her Spright
When Mortals in slumber are bound,
Arrayed in her bridal apparel of white,
Appear in the Hall with the Skeleton-Knight,
And shriek, as He whirls her around.

While They drink out of skulls newly torn from the grave,
Dancing round them the Spectres are seen:
Their liquor is blood, and this horrible Stave
They howl. — `To the health of Alonzo the Brave,
And his Consort, the False Imogine!’

 

A Nova Poesia Portuguesa em 1854

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Tal como a nossa, todas as épocas têm uma Nova Poesia Portuguesa.

Atenho-me hoje à Nova Poesia Portuguesa em 1854 pela mão de Camilo Castelo Branco (1825-1890).

Publicou o nosso autor em Maio de 1854 uma folha impressa com 8 páginas, O Bico de Gaz. Foi publicação de número único e hoje é das mais raras peças da bibliografia camiliana, juntamente com  A Infanta Capelista. No final do século XIX conheciam-se apenas 4 exemplares de O Bico de Gaz.

Em O Bico de Gaz, ironia, sarcasmo e sátira têm roda livre. O jornal foi inteiramente escrito por Camilo e um dos artigos respeita a A Vespa do Parnaso!, publicação de versos satíricos da autoria de Faustino Xavier de Novaes (1820-1869), surgida na altura, no Porto, e assinada POR UM MORDOMO DAS ALMAS DE CAMPANHÃ que vem de colarinhos tesos meter a fala ao bucho ao seu juiz, autor das FOLHAS CAIDAS.

A Vespa do Parnaso! pretendia deliberadamente evocar o livro de poesia de Camilo publicado já no inicio desse ano de 1854,  FOLHAS CAÍDAS, APANHADAS NA LAMA, assinadas por O AMIGO JUIZ DAS ALMAS DE CAMPANHÃ. O livro de Camilo é uma feroz sátira aos costumes do tempo e às personalidades enfatuadas do seu dinheiro e ignorância, surgidos com a mudança da situação politica. Deixo como exemplo estas quadras do poema AOS BARÕES:

...

Vossa avó de pé descalço,/ traz canastra com toucinho/ pão de broa corpulenta, borracha de verde pinho.

Inda ontem eu vi isto!…/ e vocês sus patuscões, / devem espantar-se comigo/ de serem hoje barões!

Burros ficam sempre burros,/ embora tragam selim, / cravado de diamantes / e estofado de cetim.

O brilhar dessas comendas/ não vos muda a condição:/ o instinto vos arrasta/ para o côvado e balcão.

É vasta e fascinante a produção de Camilo fora do romace e novela, nestes primeiros anos da década de 50, e a sátira aos costumes do tempo ocupa aí um lugar privilegiado.

O propósito do artigo em O Bico de Gaz foi saudar na publicação de A Vespa do Parnaso!, a nova poesia portuguesa em 1854, ou pelo menos o poder demolidor da sátira nessa nova poesia, da qual Novaes era um dos expoentes, além de editor de O Bardo desde 1852.

Acompanha a apresentação um poema extraído de A Vespa do Parnaso!, O BARÃO E O DOUTOR, onde se relata uma conversa entre um médico e um barão de recente fornada. Escrito em forma corrida, o diálogo mosta a ignorância da lingua e a vacuidade de conversação social com laivos de pretensão a conversa culta, onde o dislate impera. O barão é dado às letras e gosta de se istruir.

Deixo agora o leitor com a apresentação de A Vespa do Parnaso!  feita por Camilo em O Bico de Gaz, o qual, de caminho, refere, em resumo, a sua opinião sobre a poesia dos tempos antigos.

Como é de(ver), nada presta antes do que nós fizémos. As vaidades juvenis, e Camilo tinha à data 29 anos feitos a 16 de Março,  falam sempre da mesma maneira qualquer que seja a época.

Vamos ao texto:

A imprensa do Porto custa-lhe a conceber, mas, quando concebe, vem sempre à luz do mundo literário com um parto robusto, esperançoso, e digno dos pais.

A vespa do Parnaso, recém-nascida, ocupa o espirito público, e inaugura uma nova época nos fastos da poesia.

No principio, quando os patriarcas do género humano fizeram versos, beberam as inspirações na magestade da natureza, no pasmo dos corpos luminosos, que rolam no espaço, e no terror da mão omnipotente de Jeová.

Depois a Grécia inventou os deuses. A poesia alteava-se a regiões do mito, embelezava a mentira pagã dos grandes modelos, e arranjava com Marte, Cupido, Neptuno, e Platão um pastel de onzenices parvas, cujos restos nossos pais amargaram no sonetos insofriveis da escola arcadiana.

Veio a escola romantica. Os arcanjos e as estrelas, os silfos e os arrebóis, as brisas e os crepuscúlos, o murmurio das fontes e o ciciar da ramagem, o hino da floresta e a nuvem de cetim, e muitas outras coisas bonitas proscreveram as fórmulas eruditas e compactas da mitologia de insonsa memória.

Era esta a poesia dominante, quando a Vespa do Parnaso, sob o modesto título, que só por si espreme um epigrama nas bochechas dos antiquários, apareceu radiosa como todas as ideias novas.

A índole desta ligeira colecção de poemas extrema-se de todas as escolas para fundar uma, peculiarmente sua.

Quem lhe arrebata os voos, e lhe faísca o lume do entusiasmo sonoroso são os marotos de todo o género, os estupidos de todas as formas, os imbecis de todos os quilates, e os pedantes de toda a força de bestialidade conhecida.

Já vêem que o género é inteiramente novo.

A poesia, assim concebida, torna-se d’um proveito real para a sociedade. O sumo do ridículo, espremido nas faces que a vergonha encontra de porcelana, há-de coar-lhe na alma de cântaro, áquele que, apesar das grandes orelhas, tem de enterrar a carapuça até ao pescoço.

Convidamos a geração nova a impregnar-se, se assim posso exprimir-me, do sabor picante da Vespa do Parnaso.

Ao acaso transcrevemos, com permissão do seu autor, uma poesia que nos deu momentos de conscienciosa gargalhada, sendo certo que não é nosso costume rir de bagatelas:

O BARÃO E O DOUTOR.

       B. – Senhor Doutor, dá licença? –

       D. – Não sei quem é que está aí! – 

       B. – Seu criado – eu vou entrando…

       D. – Oh! Vossência por aqui!


        A Senhora Baronesa

       Como passa? – Tem saúde?…

       Quis ir ontem visitá-la…

       Tive que fazer, não pude.


        B. – Eu le digo… vai andando;

       Mas sempre com suas teimas,

       Não quer tomar o remédio

       Que le deu pras almorreimas


        Tem-se queixado do Omnibus, 

       Anda muito incomodada;

      Mas tem lá seus carrapichos,   

       E então, não quer tomar nada.


        D. – Pois, Senhor, queira Vossência 

       Ver se pode resolvê-la

       A entregar-se à Medicina,

       Que eu amanhã irei vê-la.


        Vá-lhe dando alguns passeios,

       Roubando-a à meditação;

       Que é sempre, nessas moléstias,

       Proveitosa a distração.


       B. – Ai… bô… bô!… alguns passeios!…

       Ela em casa nunca está;

       Não há por i uma festa 

       Onde eu com ela não vá!


        Já foi à Foz ver o hydroppico,

       E onte fomos ó triato

       E por sinal, que chegamos

       No fim do purmeiro acto. 


       A propósto, meu amigo, 

       Que me diz à Companhia?

       Aquela Lucrécia Borges   

       Foi bem… apois  não iria?


        Olhe qu’aquele… o… Finório

       Qu’é cunhado da Jordana,

       Canta bem… é bô maritmo

       E nunca… nunca se engana!


       E o outro tenor baixito,

       Chamo-le o basso profundo,

       Tamém é bô  … e bem mostra

       Que tem pratega do mundo. 


       E a Jordana! Isso é que canta

       Com’eu inda não ouvi!

       Não sei por que esses janotas

       Dão mais palmas à Ponti!


        D. – A Ponti é como artista

       Cousa muito sup’rior,

       B. – O quê?… melhor qu’a Jordana?…

       Nada… nada… não senhor!


        A Ponti, não gosto dela;

       – Não digo qu’é mau contralto; 

       Mas é muito presumida…

       A outra canta mais alto.


        Não faz uns tais gargarejos

       Mas quem sabe o que ela foi?…

       Tem um cantar grosso e forte,

       Qu’as vezes parece um boi!


        Quando, há dias, dava palmas

       À Ponti, certo magote,

       Enfim – pequenas misérias – 

       Disse eu lá do cambarote.  


        É gente que não entende,

       Gosta duma bacatela

       A Ponti se é boa dama,

       Eu não engraço com ela!


        Diga-me – que livro é esse,

       Que lia quando eu cheguei?

       D. – Era o Hahnemann. – B. – Conheço,

       Grande poeta… bem sei!


        O Senhor Doutor se lesse

       A Fremosa Mangalona,

       Havia de gostar muito;

       Olhe que é muito ratona!


        E quando quiser bons livros

       Faça favor d’ir por lá:

       Também tenho o Calros Mano…  

       Eu l’os  mandarei pra cá.

 

      D. – São bons livros – eu conheço-o;

       Fico obrigado a Vossência;

       Mas o tempo que me resta

       Emprego-o só na ciência.


        B. – Na ciência?… e é livro?

       E quantos balumes tem?… 

       Ah!… já sei… eu ‘stava tolo…

       São quatro… tenho-os tamém!


        Olhe que eu sou dado às letras,

       E gosto de me istruir

       Pois de falar?… quando falo

       Todos gostam de m’ouvir.


        Mas passemos a oitra coisa:

       Estes retratos quem são?

       Vamos cá dar volta à sala,

       E faça-me a explicação.


        Daquele estão-me a dar ares;

       Não será um meu besinho?

       D. – É Lamennais. – B. É o mesmo,

      Já lhe merquei muito binho.


        Ora diga-me – e aquele

       Que tem anéis no cabelo?

       Aquele home  é estrangeiro,

       Que eu não me lembro de vê-lo.


       D. – De certo não, que é antigo,

       Já não é dos tempos seus;

       Nem é possível, Vossência

       Ter visto o Rei dos Judeus.


        B. – O Rei dos Judeus! – É este? – 

      Oh que soberbo tratante!

       Não sei como quer em casa

       Um retrato semelhante!…

       Eu cá sou escrupuloso

       Nisto de religião:

      O Rei dos Judeus! – Arruda! 

       E na casa dum cristão!…


        Este sim… não é o Bispo?…

       O D. Jiromeno? … é… 

       Morreu… coitado… era um home 

      Em que eu tinha muita fé.


        E por via das exéquias…

       Por se meter a pregar,

       É que se foi… que era rijo,

       Inda podia durar.


       D. – Eu não sei que lhe viesse

       Daí, moléstia de morte!

       Com o estudo… a vigília…

       Podia bem, que era forte!


        B. – Mas olhe cá, meu amigo,

      Aqui pra nós: – qu’ é vigília?…

       D. – Falta de sono. – B. – Isso, isso…

       Tudo por causa da Emília… 


        Um home que tem idade

       E quer fazer de rapaz,

      Metido nesses excessos,

       Não sabe a asneira que faz!


        Enfim, Doutor, vou-me à praça,

       Que deve agora estar cheia:

       – Até à noite, qu’ habemos 

      De bêr-nos   na Sumboleia.  

Supus desnecessário um glossário para os dislates do barão. Para os não iniciados registo apenas que Lucrécia Borga se refere à opera de Donizetti Lucrécia Borgia.

Noticia bibliográfica:

A Vespa do Parnaso! É um raro folheto com 53 páginas. Os poemas de Faustino Xavier de Novaes foram posteriormente incluidos nas suas Poesias. O frontespicio de A Vespa do Parnaso! acompanha este artigo.

O conteúdo de O Bico de Gaz, a menos do poema de Novaes, pode encontrar-se no volume II dos Dispersos de Camilo publicados por Júlio Dias da Costa em 1925 na Imprensa da Universidade de Coimbra.

 O DICIONÁRIO DE CAMILO CASTELO BRANCO de Alexandre Cabral, publicado, em 2ªedição revista e aumentada em 2003, pela Editorial Caminho é, com pequenissimas excepções, fonte de confiança sobre Camilo, os homens e as obras do seu tempo.

Nota à margem

É possivel que Camilo, com a cultura e o sarcasmo que lhe são conhecidos, quisesse significar o ânus com a expressão O Bico de Gaz, pois é a forma como o orgão é conhecido por terras do Ceará, no Brasil, de onde vinham enriquecidos alguns “Brasileiros” fustigados, por esses anos, na sua prosa e poesia.