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O universo medieval, nos seus valores, onde se movem herois maiores que a vida cruzando o sobrenatural, continua popular. É ver o exito actual nos EUA da série Game of Thrones, depois do sucesso planetário, e também em Portugal, da saga literária Song of Ice and Fire de George R.R. Martin que lhe deu origem.

Para quem, como eu, segue as aventuras do Robin dos Bosques de Errol Flynn com um entusiasmo infantil, se embeveceu na adolescência com as aventuras escritas por Sir Walter Scott, e hoje vibra com a paixão e loucura de Lucia di Lammermoor na opera do mesmo nome, encontrar a poesia romântica do primeiro século XIX de atmosfera medieva, onde damas e cavaleiros vivem paixão, ciúme e morte, assombrados por fantasmas de amantes preteridos, é como a descoberta de um novo escritor policial, um prazer inesperado.

Levado por esse prazer, transcrevo hoje a versão livre que Alexandre Herculano (1810 – 1877) fez sobre um poema de M. G. Lewis, Afonso e Isolina, respeitando a sequência do argumento.

 Afonso e Isolina

Balada livremente traduzida do inglês de Lewis pelo Sr. Alexandre Herculano de Carvalho

1

De Isolina a mui formosa

Já se parte o seu guerreiro

–  A Palestina me chama,

Adeus que sou Cavaleiro.

 

2

Sinto senhora, os teus choros,

E nessas lágrimas creio:

Mas hei medo a novo amante,

De inconstâncias me arreceio.

 

3

– Afonso não te arreceies

Não tens que te arrecear:

Juro amar-te vivo ou morto,

Mais ninguém me há-de gozar.

 

4

Tua sombra me apareça

Se eu quebrar o juramento,

Comigo se ponha à mesa

No dia do casamento.

 

5

Ali declare em voz alta

Que o seu direito requer:

Para o sepulcro me arraste,

Gritando – és minha mulher… –

 

6

Largos anos são passados,

Quando extremado infanção

De Isolina a mui formosa

Se afoita a pedir a mão.

 

7

Graças e amores são prendas,

Nele Isolina as vê todas:

Finezas quebraram juras:

Grande turba acode às bodas.

 

8

Rompem com o banquete aplausos,

Aplausos à noiva bela,

Quando entra desconhecido

Que vem sentar-se ao pé dela.

 

9

Seu ar de agoiro, armas negras,

Altura descomunal,

Intimam geral respeito

Infundem terror geral.

 

10

Ninguém conhecê-lo pode

Que o elmo bem o encobria;

Voltado contra Isolina,

Imovel, nada dizia.

 

11

Isolina, a mui formosa,

Convulsa esta fala fez:

– Erguei, Senhor, a viseira,

Deixai a triste mudez.

 

12

Em dia de regozijos

Que vindes vós agoirar?

Cavaleiro que assim usa

Não sabe as armas honrar. –

 

13

Fez-lhe o incógnito a vontade.

Toda a sala absorta pasma!

Que levantada a viseira,

Se viu medonho fantasma.

 

14

Pálido, em pé, e crescendo,

Diz à trémula Isolina: –

Lembrada estarásd de Afonso

Que morreu na Palestina.

 

15

Fugir de novos amores

Outrora lhe prometias,

Juravas que, vivo ou morto,

Leall te conservarias.

 

16

Tu me convidaste à boda,

O teu convite aceitei:

Palavras que me hás ditado

Palavras são que eu direi

 

17

Meu fantasma aqui declara

Que o seu direito requer:

Para a cova me acompanha,

Vem, vem, que és minha mulher… –

 

18

Com a torpe mão arrasta

A infiel que em vão bradava:

Nenhum deles já se via,

Seu clamor inda soava.

 

19

Em prantos de noite e dia

Breve o Infanção se finou:

Lá no Castelo desero

Ninguém depois habitou.

 

20

Salvo que nas longas noites

Noiva em pranto ali se via.

E trás ela hediondo espectro

Que nas garras a prendia.

Noticia bibliográfica

Este poema não foi recolhido nas Poesias de Alexandre Herculano pela primeira vez publicadas em 1850, e onde o autor reuniu a sua produção poética.

 O poema foi publicado em 1836 pela Tipografia Lisbonense inserido no livro.

A Noite do Castelo e os Ciúmes do Bardo, Poemas seguidos da Confissão de Amélia traduzida de Mlle Delfine Gay”.

As obras do livro são da autoria de António Feliciano de Castilho, e é o próprio quem, em extensa nota, explica a coincidência de o seu poema A Noite do Castelo versar o mesmo assunto do poema de Lewis, e qual a forma como tal veio ao seu conhecimento através de Alexandre Herculano. Daí a inclusão desta versão de Alonzo e Imogene, em português Afonso e Isolina, no livro.

O poema original Alonzo e Imogene foi inserido no romance The Monk, de Matthew Gregory Lewis, publicado em 1796, e encontra-se no seu capitulo 9. O poema surge na história apenas para impressionar os protagonistas, não a integrando no seu desenvolvimento ficcional.

The Monk  é um romance gótico-fantástico contemporâneo dos romances de Ann Radcliff, e faz parte de um género ficcional popular à época, e a seguir desenvolvido por Mary Shelley em romances ainda hoje famosos como Frankenstein.

Os romances de Ann Radcliff penso estarem hoje esquecidos ainda que na minha adolescência se encontrassem traduzidos nas edições Romano Torres, lado a lado com Walter Scott e outros.

Para o leitor curioso, e que domina a língua inglesa, aqui fica o que suponho ser a versão original do poema. A ressalva deve-se apenas a que não tive acesso à 1ªedição do livro e como tal, não garanto que tenha sido esta a versão que Alexandre Herculano conheceu quando do seu exílio em Inglaterra integrando o grupo de refugiados liberais.

A Warrior so bold, and a Virgin so bright
Conversed, as They sat on the green:
They gazed on each other with tender delight;
Alonzo the Brave was the name of the Knight,
The Maid’s was the Fair Imogine.

`And Oh!’ said the Youth, `since to-morrow I go
To fight in a far distant land,
Your tears for my absence soon leaving to flow,
Some Other will court you, and you will bestow
On a wealthier Suitor your hand.’

`Oh! hush these suspicions,’ Fair Imogine said,
`Offensive to Love and to me!
For if ye be living, or if ye be dead,
I swear by the Virgin, that none in your stead
Shall Husband of Imogine be.

`If e’er I by lust or by wealth led aside
Forget my Alonzo the Brave,
God grant, that to punish my falsehood and pride
Your Ghost at the Marriage may sit by my side,
May tax me with perjury, claim me as Bride,
And bear me away to the Grave!’

To Palestine hastened the Hero so bold;
His Love, She lamented him sore:
But scarce had a twelve-month elapsed, when behold,
A Baron all covered with jewels and gold
Arrived at Fair Imogine’s door.

His treasure, his presents, his spacious domain
Soon made her untrue to her vows:
He dazzled her eyes; He bewildered her brain;
He caught her affections so light and so vain,
And carried her home as his Spouse.

And now had the Marriage been blest by the Priest;
The revelry now was begun:
The Tables, they groaned with the weight of the Feast;
Nor yet had the laughter and merriment ceased,
When the Bell of the Castle told, — `One!’

Then first with amazement Fair Imogine found
That a Stranger was placed by her side:
His air was terrific; He uttered no sound;
He spoke not, He moved not, He looked not around,
But earnestly gazed on the Bride.

His vizor was closed, and gigantic his height;
His armour was sable to view:
All pleasure and laughter were hushed at his sight;
The Dogs as They eyed him drew back in affright,
The Lights in the chamber burned blue!

His presence all bosoms appeared to dismay;
The Guests sat in silence and fear.
At length spoke the Bride, while She trembled; `I pray,
Sir Knight, that your Helmet aside you would lay,
And deign to partake of our chear.’

The Lady is silent: The Stranger complies.
His vizor lie slowly unclosed:
Oh! God! what a sight met Fair Imogine’s eyes!
What words can express her dismay and surprize,
When a Skeleton’s head was exposed.

All present then uttered a terrified shout;
All turned with disgust from the scene.
The worms, They crept in, and the worms, They crept out,
And sported his eyes and his temples about,
While the Spectre addressed Imogine.

`Behold me, Thou false one! Behold me!’ He cried;
`Remember Alonzo the Brave!
God grants, that to punish thy falsehood and pride
My Ghost at thy marriage should sit by thy side,
Should tax thee with perjury, claim thee as Bride
And bear thee away to the Grave!’

Thus saying, his arms round the Lady He wound,
While loudly She shrieked in dismay;
Then sank with his prey through the wide-yawning ground:
Nor ever again was Fair Imogine found,
Or the Spectre who bore her away.

Not long lived the Baron; and none since that time
To inhabit the Castle presume:
For Chronicles tell, that by order sublime
There Imogine suffers the pain of her crime,
And mourns her deplorable doom.

At midnight four times in each year does her Spright
When Mortals in slumber are bound,
Arrayed in her bridal apparel of white,
Appear in the Hall with the Skeleton-Knight,
And shriek, as He whirls her around.

While They drink out of skulls newly torn from the grave,
Dancing round them the Spectres are seen:
Their liquor is blood, and this horrible Stave
They howl. — `To the health of Alonzo the Brave,
And his Consort, the False Imogine!’

 

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