Etiquetas

Faço hoje um parentesis na poesia para transcrever três bem-humoradas cartas de Camilo Castelo Branco (1825 – 1890) sobre a compra de um burro e sua devolução à procedência pois “revelou furias lascivas, dom-juanescas, a cada femia que encontrava”.

Conservei a ortografia da primeira edição das cartas, respeitadora do manuscrito.

 Meu presado Am.0

Se fôr capaz de ler esta carta sem se rir, está V. Ex.cia á prova do humorismo indigena.

Os meus medicos, suspeitosos de que as m.as pernas vão paralysar, mandam-me dar passeios a cavallo.

Eu tenho um, como recordação de bons tempos; mas já não me atrevo a montal-o. Aconselharam me a equitação em burro, pacifico, sem manhas, nem erothismos mto violentos. É impossivel encontrar no Minho um burro em taes condiçoens; por que, alguns que ainda existem, são abbades. Mandaram-me procural-o no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio academico da Mealhada e dos Fornos.

Lido isto. V. Ex.cia encarrega um dos seus carreiros de me comprar um jumento, nas condiçoens therapeuticas acima referidas – burro que não exceda 6 ou 7 libras. Apalavrado que esteja, envio a V. Ex.cia a qta que me designar, e o burro vem pa Famalicão, tomar pte nas minhas contemplaçoens bucolicas por estas montanhas.

Pergunta-me agora V. Excia em que ponto da carta lhe cumpria rir-se? É na estouvanice de o ir distrahir das suas leituras pedindo-lhe que me compre um burro.

Vou ler o seu livrinho, na certeza de que encontro novidades.

Peço-lhe a finesa de depor aos pés de sua Exma Esposa os meus respeitos.

De V. Ex.

Velho am.o obg.do

Camillo Castello Br.o

19/3/1886


Meu exmo amigo

Vejo que é mais facil encontrar ahi e aqui uma dusia de viscondes do que um burro regular. Talvez se desse a evolução darwinista. A gente vê passar o visconde e não vê o burro incluso. Requer-se o olho scientifico, experimental que V. Ex. não tem nem eu.

Muito lhe agradeço o resultado das suas pesquisas. Hoje deve V. Ex.cia receber um vale de 24$ rs para pagar o meu companheiro de excursoens e travessias por estas serras.

O burro queira V. Ex. enviar-m’o pela viaferrea. Não vejo melhor meio de transporte, nem deveremos esperar a navegação aeria, salvo se V. Ex.cia vir que elle, batendo as azas do genio, pode esvoaçar até aqui, como o negro melro da cantiga. V. Ex.a terá a bonde de me avisar do dia em que o illustre peregrino chega a Famalicão para as auctorides o cumprimentarem na gare.

Dei-lhe o incommodo de responder ao meu teleg. e não pude ir a Coimbra. fui hontem ao Bom Jesus ver o Peito de Carv.o e regressei mto doente. Mal posso já sahir de casa. Se V. Ex.cia me quizer ver, tem de vir aqui.

Peço os meus respeitos para sua ex.ma Esposa, minha Senhora.

De V. Ex.cia

Amo obgm.o

Camillo Castello Br.o

8/4/1886


Meu presado Am.o e Ex.mo Sr.

Cá está o onagro. Não o posso ver porque estou de cama com rheumatismo; mas ouço-o ornear valentemt.e. Desde Famalicão  até aqui, não obstante ter passado mal a noite, revelou furias lascivas, dom-juanescas, a cada femia que encontrava. Logo que chegou, investiu para dois garranos que tenho. O deabo tem dentro d’elle o que quer que seja do Marquez de Vallada. Parece mmo um christão! Meu filho Nuno veio dizer-me á cama que não consentia que eu o montasse (o burro) em qto lhe durasse a crise erothica.

Assim farei pa não ser victima de paixoens que me escangalharam a mim, sem ser de todo burro.

Remetto-lhe, meu presado amigo, 2:250 rs. Vão inclusos n’essa qta fabulosa os teleg. apensos ao burro.

Mil agradecimentos e mil desejos de lhe provar qto sou

De V. Ex.

Am.o grato

Camillo Castello Bro

20/4/1886

E quatro dias depois foi o burro despachado à procedência por indecente e má figura, supõe-se:

Meu presado Amigo

e Ex.mo Sr.

Como supplemento ás Notas diplomaticas sobre o burro, salvo seja, vai esta como recibo das 5 libras, reis 22$500.

A posteride, alem de ver que fomos de boas contas, maravilhar-se-ha vendo quaes eram as preocupações de dois escriptores assas methaphisicos. Se V. Ex.cia conservar esse pachiderme, e elle render o espirito em sua casa, peço-lhe que o embalsame e lhe ponha entre as orelhas a nossa correspondencia. Elle fez gemer os arames do telegrapho, e promettia fazer-me gemer com as costelas fracturadas. Oxalá que a final V. Ex.cia não seja victima d’esse burro e nunca lhe sacrifique a dedicada jumenta do olho unico.

De V. Ex.cia

Velho Amigo

Camillo

26/4/1886

Não é este o burro da história mas provavelmente, com este olhar lânguido, semelha uma das fêmeas que provocou as fúrias eróticas do burro.

As cartas, dirigidas a Adelino das Neves e Melo, amigo de longa data e residente em Coimbra, foram publicadas pela primeira vez por J. M. Teixeira de Carvalho em 1922. Famosas desde então têm conhecido diversas edições.

Os problemas de saúde de Camilo, que acabaram por o levar ao suicidio, são bem conhecidos, mas à data das cartas não tinham ainda atingido os paroxismos que a correspondência de 1889 e 1890 revela.

Já antes desta operação de aquisição de burro, Camilo recebera o conselho médico de se exercitar a cavalo, e numa carta do ano anterior, datada de 10/4/1885 e dirigida ao amigo Manuel Negrão, vivendo à época em Mosteiró, surge o pedido de compra de “egua, cavallo, garrano etc.,”.

Diz a carta:

Meu Negrão.

A medicina manda-me cavalgar. Tenho um garrano de 20 annos, indigno de confiança. Ha muito que o jubilei com mais um terço do ordenado. Em feira não compro burro, porque o compral-o é espiga certa. Queria que tu por ahi me comprasses besta conhecida – egua, cavallo, garrano etc., coisa que se pareça comigo nos annos e na pacatez, e que não exceda 12 libras. Ha eguas abbaciais excellentes. Não discuto quanto ao tamanho, nem idade. Forte de pernas para prescindir da mão de rêdea, e nada de pulmoeira.

Lembras-te da orça que comprei ao José Augusto? Aquillo a cada passo, na angustia dos seus bofes, era uma trovoada… que não ha ahi dizel-o sem offensa do nariz.

Esta carta foi publicada pela primeira vez pelo Visconde de Villa-Moura em 1913 no livro Camillo Inédito, prefaciado e anotado pelo editor.

As cartas de Camilo são um mundo fascinante sobre o homem, sobre os seus contemporâneos e sobre a riqueza vocabular e expressiva da lingua. Enquanto tesouro da literatura portuguesa e retrato único do homem, aguardam uma edição crítica que as enquadre no tempo e na biografia do escritor.

Tendo sido publicadas de forma avulsa em revistas e colectâneas desde a morte do escritor e sobretudo no inicio do século XX, foram por duas vezes reunidas, uma por Alexandre Cabral para Livros Horizonte e outra por Justino Mendes de Almeida para a edição em papel biblia da Lello& Irmão Editores, sem que a totalidade das cartas conhecidas tenha sido incluida, nem, quando era possivel, a contraparte epistolográfica dos destinatários. Permanecem assim, ainda cheias de valor, algumas das edições avulsas anotadas e comentadas com preciosos detalhes sobre os personagens a as peripécias a que se referem.

Anúncios