Soneto 29 de Shakespeare em português por Jorge de Sena e Vasco Graça Moura

Etiquetas

Talvez o Soneto 29 de Shakespeare (1564-1616) seja o mais camoniano dos seus sonetos pela atmosfera de desengano do mundo, embora nele, e contrariamente a Luís de Camões (1524-1580) onde o amor é fonte de profunda desilusão, Shakespeare fale sobre como o amor pode trazer uma luz de esperança e transformar em felicidade uma existência desiludida da sorte e dos humanos.

Transcrevo o original, e versões em português por Jorge de Sena (1919-1978) e Vasco Graça Moura (1942-2014), ambas rimadas, constituindo notáveis expressões de virtuosismo poético.

A tradução de Jorge de Sena, com liberdades mínimas, dá-nos em português um soneto próximo da letra do original:

 

Soneto 29

 

Quando em desgraça aos olhos dos humanos,

sozinho choro o meu maldito estado,

e ao surdo céu gritando vou meus danos,

e a mim me vejo e amaldiçoo o Fado,

 

sonhando-me outro, rico de esperanças,

co’a imagem del’ , como el’ tão respeitado,

invejo as artes de um, d’outro as usanças,

do que mais gosto menos sou tentado.

 

Mas se ao pensar assim, quase me odiando,

acaso penso em ti, logo meu estado,

como ave, às portas celestiais cantando,

se ergue da terra, quando o sol é nado.

 

Pois que lembrar-te, amor, tem tal valia,

que nem com grandes Reis me trocaria.

 

Tradução de Jorge de Sena

Transcrito de Poesia de 26 Séculos, Antologia, tradução, prefácio e notas de Jorge de Sena, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

Igualmente próximo do original, Vasco Graça Moura faz uma recreação poética numa linguagem com atmosfera seiscentista, de enorme atracção:

 

Soneto 29

 

De mal com os humanos e a Fortuna,

choro sozinho o meu banido estado.

Meu vão clamor o céu surdo importuna

e olhando para mim maldigo o fado.

A querer ser mais rico em esperança,

como outros em amigos e talento,

invejando arte de um, doutro a pujança,

do que mais gosto menos me contento.

Se assim medito e quase me abomino,

penso feliz em ti e meus pesares

(qual cotovia em voo matutino

deixando a terra) então cantam nos ares.

   Tão rico me é teu doce amor lembrado,

   que nem com reis trocava o meu estado.

 

Tradução de Vasco Graça Moura

in Os Sonetos de Shakespeare, versão integral, Bertrand Editora, 2007.

A cada leitor a sua preferência.

 

 

Termino com o poema original:

 

 

Sonnet 29

 

When in disgrace with fortune and men’s eyes

I all alone beweep my outcast state,

And trouble deaf heaven with my bootless cries,

And look upon myself, and curse my fate,

Wishing me like to one more rich in hope,

Featured like him, like him with friends possessed,

Desiring this man’s art, and that man’s scope,

With what I most enjoy contented least;

Yet in these thoughts my self almost despising,

Haply I think on thee, and then my state,

Like to the lark at break of day arising

From sullen earth, sings hymns at heaven’s gate;

   For thy sweet love remembered such wealth brings

   That then I scorn to change my state with kings.

 

Transcrito de The Oxford Shakespeare, Complete Sonnets and Poems, Oxford 2002.

Abre o artigo a imagem de um desenho de Peter Paul Rubens (1577-1649), Retrato de rapariga.

As cadeias do amor num epigrama de Paulo Silenciário e o seu eco em António Dinis da Cruz e Silva

Etiquetas

,

A força com que o amor nos prende é um mistério que tem permanecido insolúvel pelos séculos. Pensar que com ele rompemos tão logo o queiramos é a ilusão dos neófitos. A curiosidade de o experimentar leva ao desejo de o conhecer melhor. À medida que a ele nos entregamos fazem-se mais fortes as amarras com que nos prende. Invisíveis são, mas estão lá, e rompê-las acaba por ser a custo emocional elevado.

Fazendo uso de uma metáfora impressiva, Paulo Silenciário (séc. VI) primeiro, e António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) numa paráfrase do poema daquele, mostram-no de forma eloquente:

Epigrama de Paulo Silenciário

 

O cabelo

 

Arrancando um cabelo da dourada cabeleira,

Dóris atou as minhas mãos como um prisioneiro de guerra.

A princípio ri às gargalhadas, pensando

que sacudiria facilmente as cadeias da minha Dóris.

Mas, sem forças para as romper, comecei a gemer

como se estivesse preso por grilhetas de ferro.

E agora, três vezes infeliz, vivo suspenso de um cabelo,

seguindo amarrado para onde a minha amante me leva.

 

Tradução de Albano Martins

in Antologia da Poesia Grega Clássica, Edições Afrontamento, Porto, 2011.

 

 

Soneto de António Dinis da Cruz e Silva

Centúria II

Soneto XCI

 

Parafraseando o epigrama grego de Paulo Silenciário

 

Estava eu com Licori à sombra fria

De um florido murtal de Amor tratando;

A Ninfa, seu poder exagerando,

Mil prodígios contou, de que eu me ria.

 

Ela porque eu pagasse a zombaria,

E de Amor fosse a força em mim provando,

Um cabelo das tranças arrancando,

Ambas as mãos com ele me prendia.

 

Zombei eu ao princípio destes laços;

Pois ao ver sua frágil contextura

Cri, que pronto os faria em mil pedaços.

 

Mas logo conheci minha loucura;

Que depois quis em vão soltar os braços,

E a prisão cada vez sinto mais dura.

 

Obras de António Dinis da Cruz e Silva vol. II, edição de Maria Luísa Malaquias Urbano, Edições Colibri, Lisboa 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Egon Schiele (1890-1918), Nu feminino e masculino de 1913.

Ricardo Reis — entre carpe diem e cadáver adiado que procria

Etiquetas

,

Os versos impressivos não nos devem fazer esquecer a dimensão do real e o multifacetado que a vida é. No entanto, o gosto da língua tornada poesia tem um apelo por vezes irresistível, fazendo, se distraídos, a vida saber ao que a poesia conta. E hoje, Fernando Pessoa (1888-1935), por via do heterónimo Ricardo Reis quase nos convence da nossa nulidade e apagamento, no peculiar e recorrente entendimento do eu que atravessa a sua poesia:

…/ Perene flui a interminável hora / Que nos confessa nulos. / …

ou ainda:

… / Que é qualquer vida? Breves sóis e sono. / …

 

Nos três poemas que escolhi e hoje transcrevo, surgem diferentes formas de, com ligeiras variações, dizer o mesmo: Nada fica de nada. Nada somos. / …

 

Logo no primeiro poema lemos:

 

… / No mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos. Colhe / O dia, porque és ele.

 

para no segundo poema encontrarmos: Sereno aguarda o fim que pouco tarda. / …

 

e no poema com que encerro esta volta: … / O que fazemos é o que somos. .. / … cadáveres / Adiados que procriam.

 

 

O diálogo do que somos com o que lemos é parte essencial de um aprofundar do conhecimento de si, levando à reflexão sobre o porquê de certa leitura se nos acomodar e aqueloutra nos deixar indiferentes ou mesmo incomodar.

 

 

Eis os poemas:

 

 [Uns, com os olhos postos no passado]

 

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.

 

Porque tão longe ir pôr o que está perto —

A segurança nossa? Este é o dia,

Esta é a hora, este o momento, isto

É quem somos, e é tudo.

 

Perene flui a interminável hora

Que nos confessa nulos. No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.

28-8-1933

 

Odes de Ricardo Reis, Obras Completas de Fernando Pessoa, Edição Ática, Lisboa, 1978.

 

 

[Sereno aguarda o fim que pouco tarda]

 

Sereno aguarda o fim que pouco tarda.

Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.

        Quanto pensas emprega

        Em não muito pensares.

 

Ao nauta o mar obscuro e a rota clara.

Tu, na confusa solidão da vida,

        A ti mesmo te elege

        (Não sabes de outro) o porto.

31-7-1932

 

Odes de Ricardo Reis, Obras Completas de Fernando Pessoa, Edição Ática, Lisboa, 1978.

 

 

[Nada fica de nada. Nada somos.] [2]

 

Nada fica de nada. Nada somos.

Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos

Da irrespirável treva que nos pesa

        Da húmida* terra imposta.

 

Leis feitas, estátuas altas, odes findas —

Tudo tem cova sua. Se nós, carnes

A que um íntimo sol dá sangue, temos

        Poente, porque não elas?

 

O que fazemos é o que somos. Nada

Nos cria, nos governa e nos acaba.

Somos contos contando contos, cadáveres

        Adiados que procriam.

28-9-1932

 

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994.  – 168a.

* A edição Ática que referi antes lê no manuscrito humilde em vez de húmida.

 

 

Em apêndice, e como curiosidade para o leitor exigente, transcrevo outra versão do último poema:

 

[Nada fica de nada. Nada somos.] [1]

 

Nada fica de nada. Nada somos.

Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos

Da irrespirável treva que nos pese

        Da húmida* terra imposta,

Cadáveres adiados que procriam.

 

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —

Tudo tem cova sua. Se nós, carnes

A que um íntimo sol dá sangue, temos

        Poente, porque não elas?

Somos contos contando contos, nada.

28-9-1932

 

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1994.  – 168.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Carlo Carrá (1881-1966), O menino-prodígio, 1915.

 

Odes anacreonticas de José Agostinho de Macedo

Etiquetas

Foi com uma crescente surpresa que mergulhei na leitura das Odes Anacreonticas de José Agostinho de Macedo (1761-1831).

A biografia do homem, o seu perfil trauliteiro passado à historia, e a vasta produção poética de duvidoso interesse hoje, mantiveram-me arredado desta leitura, na presunção de ausência do sentimento poético necessário a abordar com sensibilidade as temáticas do prazer e do gosto de viver que as odes anacreonticas em voga no séc. XVIII reclamavam.

À medida que a leitura prosseguia e os poemas se sucediam, constactei como a delicadeza do sentimento ia de par com alguma novidade nos argumentos de sedução para além do usual neste tipo de composições. É essa novidade argumentativa que escolho mostrar, transcrevendo três odes.

 

Na ode XVI é a apologia do prazer em detrimento do estudo o que encontramos, desafiando o poeta a bela Marcia, a o estudo (artes) abandonar:

São nada as artes, mais vale

Um dia só de prazer.

 

Na ode LXXXVII encontramos uma curiosa fuga ao compromisso formal na recusa de um anel de noivado entre o namorado e a namorada, invocando a perda de liberdade que ele traz, pois o importante é o amor e não o compromisso dele:

Se já lançaste cadeias

De amor ao meu coração,

Para que queres um laço

Visível na minha mão?

 

Termino a escolha com a ode XCII, e uma temática mais convencional neste tipo de poesia: a beleza da amada, aqui medida pela beleza divina de Vénus, na confusão que o seu filho, Amor, faz entre a mãe, Vénus, e Marcia, a amada do poeta:

Cuidou (que fácil engano!)

Ser Vénus que ele buscava

Voa do cedro contente,

E a linda Marcia abraçava.

 

Amada mãe … diz, e Marcia

Ao colo o numen tomou;

E viu então Natureza,

Que Amor também s’enganou.

 

 

Eis os poemas:

 

 

Ode XIV

 

O estudo de Amor

 

Nasceste, Marcia formosa,

Nasceste só para amar;

Não queiras em tanto estudo

Rápida vida passar.

 

As doces horas do sono

Não queiras diminuir;

De nada presta a ciência,

Se não ensina a sentir.

 

Encaneceram os homens

Sem nada poder saber

São nada as artes, mais vale

Um dia só de prazer.

 

A rosa vive um momento,

E os nossos olhos encanta

Que nos importa esse cedro

Que altivo aos céus se levanta?

 

Agrada a pomba inocente

Que não se eleva no ar:

Deixa que as águias soberbas

Os astros vão devassar.

 

Do teu Pastor as endeixas

Traze contínuo na mão;

Que ao lado de uma beleza

Nunca achei graça a Platão.

 

Para uma eterna memória

Profundo estudo que vale?

Nos versos que tu me inspiras

Já tens um nome imortal.

 

 

Ode LXXXVII

 

O Anel oferecido

 

Não queiras, Marcia formosa

Tão liberal parecer

Podes com outros tesouros

A liberdade prender.

 

Tão precioso presente

Eu não te devo aceitar,

Pois queres com mais um laço

As minhas prisões dobrar.

 

Teus dons, ó Marcia, suspende;

Já não duvida ninguém

Que, além de ser teu amante

Sou teu escravo também.

 

Se já lançaste cadeias

De amor ao meu coração,

Para que queres um laço

Visível na minha mão?

 

 

Ode XCII

 

O engano d’Amor

 

Pelo aprazível vimeiro

Colhendo de um mirto a flor.

De cima de um verde cedro

Viu Marcia o tirano Amor.

 

Notou seu talhe donoso.

Seus olhos, claras estrelas;

Viu alvos jasmins, viu rosas

Nos lábios, nas faces belas.

 

Viu seu andar soberano

Das lindas graças cercado,

E à vista da linda Marcia

D’assombro o rio parado.

 

Cuidou (que fácil engano!)

Ser Vénus que ele buscava

Voa do cedro contente,

E a linda Marcia abraçava.

 

Amada mãe … diz, e Marcia

Ao colo o numen tomou;

E viu então Natureza,

Que Amor também s’enganou.

 

Confuso um pouco cupido

Dos braços se desprendeu,

E as asas equilibrando,

Os livres ares fendeu.

 

Que Amor menino se engane

Não me causa admiração.

Se até a julga celeste

Filosofia, e Razão.

 

in A Lyra Anacreontica, Impressão Régia, 1819.

Modernizei a ortografia.

Abre o artigo a imagem de um desenho de Hendrick Goltzius (1558-1617), Vénus entre Ceres e Baco.

O Porto num poema de Vasco Graça Moura e Jorge de Sena em coda

Etiquetas

,

É uma enorme alegria ver o renascer recente de urbes como Lisboa e Porto que durante longos anos foram sendo abandonadas e entregues à devastação do tempo e duma ignara gestão de prioridades económicas e sociais.

É ainda de uma cidade em abandono onde a usura do tempo tudo arrasta, que fala o poema de Vasco Graça Moura (1942-2014), Sobre a minha cidade.

Felizmente uma conjuntura económica favorável permitiu nos últimos anos a sua inversão, e hoje o Porto resplandece cada dia mais.

 

Sobre a minha cidade

 

sobre a minha cidade, falei-te ontem, mostrei-te

as esquinas do tempo, a imagem de fachadas

que ainda conheci, de outras que

eu próprio ignorava; sobre

 

a minha cidade e suas pedras, seus espaços

de árvores graves; e o que foi arrasado,

ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a

poluição dos homens; e o que foi

 

violentamente arrancado por negócios sucessivos,

erros, brutalidades: o que era e o que foi

o que é dentro de mim o seu obscuro,

imaginário ser: costumes e conflitos,

 

maneiras de falar, a gente

e a confusão das ruas, as casas do barredo;

sobre a minha cidade achei que tu

tiveste gratidão, a viste.

 

que percorreste as pontes que da minha

cidade a ti me trazem, entre

gaivotas alastrando e músicas diferentes,

e foste nascer nela.

 

Vasco Graça Moura — poema publicado em os rostos comunicantes, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1984.

 

 

Falar poeticamente de cidades não é necessariamente desenvolver uma descrição. Há também uma expressão da cidade na osmose dela com o individual que a habita e a faz, nela se fazendo, como escreve Jorge de Sena (1919-1978) no poema Metamorfose, espécie de desejo da cidade em si:

 

 

Metamorfose

 

Para a minha alma eu queria uma torre como esta,

assim alta,

assim de névoa acompanhando o rio.

 

Estou tão longe da margem que as pessoas passam

e as luzes se reflectem na água.

 

E contudo, a margem não pertence ao rio

nem o rio está em mim como a torre estaria

se eu a soubesse ter…

                                       uma luz desce o rio

                                       gente passa e não sabe

que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem

                                                           as nuvens não passem

                                                           tão alta tão alta

que a solidão possa tornar-se humana.

25/10/1942

 

Jorge de Sena — poema publicado em Coroa da Terra, 1946. Transcrito de Jorge de Sena, Obras Completas, Poesia 1, Babel, 2013.

Segundo Mecia de Sena, no poema o poeta refere-se à Torre dos Clérigos.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de James Holland (1799-1870), Torre dos Clérigos.

Amor e Medo — poema de Casimiro de Abreu

Etiquetas

Temos um problema sério no poema de Casimiro de Abreu (1839-1860), Amor e Medo. Senão vejamos: um jovem par de namorados encontra-se: estamos em meados do século XIX no Brasil, entre gente de classe média. Com os interditos sociais da época, nestes encontros nem pensar nas intimidades que o desejo e a juventude exigem. Não aguentando mais, o jovem parte. A namorada, despeitada suspira:

— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!

 

Afinal, como a jovem está equivocada, elucida-nos o poeta a seguir:

Como te enganas! meu amor é chama

Que se alimenta no voraz segredo,

 

 

E para que não tenhamos dúvidas do que a voracidade deste fogo seria capaz, aí temos em toda a segunda parte do poema a descrição detalhada:

Ai! se eu te visse em languidez sublime,

Olhos cerrados na volúpia doce,

Os braços frouxos — palpitante o seio!…

Trémula a fala a protestar baixinho…

Vermelha a boca, soluçando um beijo!…

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!

Ébrio e sedento na fugaz vertigem

 

 

É claro que coisa tão magnífica, para ter a cor da época, terá que vir embrulhada em vocábulos de vileza, e por isso, aqui estão:

Vil, machucara com meu dedo impuro

As pobres flores da grinalda virgem!

 

Vampiro infame, eu sorveria em beijos

Toda a inocência que teu lábio encerra,

E tu serias no lascivo abraço,

Anjo enlodado nos paúis da terra.

 

E pronto! Aí está consignado o que amor procura. Depois

… desperta no febril delírio,

— Olhos pisados — como um vão lamento,

Tu perguntaras: — que é da minha coroa?…

Eu te diria: —  Desfolhou-a o vento !…

 

 

Num aparte: não creio que à época, ou hoje, alguém tomasse à letra as óbvias metáforas de dedo impuro, grinalda virgem ou lascivo abraço, supondo que o rapaz com um qualquer dedo da mão impediria a rapariga de levar até ao casamento as flores da sua virgindade, desflorando tão preciosa grinalda com um vulgar abraço. É desnecessária qualquer explicação adicional, suponho. A última quadra citada traduz sem equívocos os acontecimentos… que sucederiam se o namorado não fugisse. E esse é o problema sério que referi a abrir: perante o desejo, deve o homem pensar com que cabeça?

O rapaz precisou da cabeça bem fria nesta aventura poética…

É tempo de ler o poema na totalidade:

 

 

Amor e Medo

 

Quando eu te fujo e me desvio cauto

Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,

Contigo dizes, suspirando amores:

— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!

 

Como te enganas! meu amor é chama

Que se alimenta no voraz segredo,

E se te fujo, é que te adoro louco…

És bela,— eu moço; tens amor,— eu medo!…

 

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,

Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.

Das folhas secas, do chorar das fontes,

Das horas longas a correr velozes.

 

O véu da noite me atormenta em dores,

A luz da aurora me entumece os seios,

E ao vento fresco do cair das tardes

Eu me estremeço de cruéis receios.

 

É que esse vento, que na várzea — ao longe,

Do colmo o fumo caprichoso ondeia,

Soprando um dia tornaria incêndio

A chama viva que teu riso ateia!

 

Ai! se abrazado crepitasse o cedro,

Cedendo ao raio que a tormenta envia,

Diz: — que seria da plantinha humilde

Que à sombra dele tão feliz crescia?

 

A labareda que se enrosca ao tronco

Torrara a planta qual queimara o galho,

E a pobre nunca reviver pudera

Chovesse embora paternal orvalho!

 

II

 

Ai! se eu te visse no calor da sesta,

A mão tremente no calor das tuas,

Amarrotado o teu vestido branco,

Soltos cabelos nas espáduas nuas!…

 

Ai! se eu te visse, Madalena pura,

Sobre o veludo reclinada a meio,

Olhos cerrados na volúpia doce,

Os braços frouxos — palpitante o seio.

 

Ai! se eu te visse em languidez sublime,

Na face as rosas virginais do pejo,

Trémula a fala a protestar baixinho…

Vermelha a boca, soluçando um beijo!…

 

Diz: — que seria da pureza de anjo,

Das vestes alvas, do candor das asas?

— Tu te queimaras, a pisar descalça,

— Criança louca, — sobre um chão de brasas!

 

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!

Ébrio e sedento na fugaz vertigem

Vil, machucara com meu dedo impuro

As pobres flores da grinalda virgem!

 

Vampiro infame, eu sorveria em beijos

Toda a inocência que teu lábio encerra,

E tu serias no lascivo abraço

Anjo enlodado nos paúis da terra.

 

Depois… desperta no febril delírio,

— Olhos pisados — como um vão lamento,

Tu perguntaras: — que é da minha coroa?…

Eu te diria: — Desfolhou-a o vento !…

 

Oh! não me chames coração de gelo!

Bem vês: traí-me no fatal segredo.

Se de ti fujo, é que te adoro e muito,

És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!…

Outubro — 1858

in Casimiro de Abreu, As Primaveras, Novíssima edição acrescentada de novas poesias e da Scena Dramática O Camões e o Jáo e Dois romances em prosa, Lisboa, Imprensa de J. G. de Sousa Neves, 1875.

Modernizei a ortografia.

Abre o artigo a imagem do detalhe de uma pintura de Edouard Manet (1832-1883), Chez le père Lathuille, de 1879. A pintura pertence ao Museu de Belas-Artes de Tournai.

A poesia de Safo por Eugénio de Andrade

Etiquetas

,

Divina lira fala,

torna-te voz…

(fr. 118 L-P)

 

Solta-se uma brisa suave à leitura dos poemas de Safo (séc. VII a. C) na versão de Eugénio de Andrade (1923-2005) e o encantamento cresce à medida que as folhas passam. Poema a poema surge uma atmosfera de magia naqueles fragmentos, pretexto para deixar o pensamento voar, e ao virar a última página é uma plenitude extasiada que nos invade.

São o amor, a natureza, as emoções, coisas simples e essenciais da vida a matéria mesma dos poemas, e lê-los assim em português é um privilégio absoluto.

Dou a medida destes superlativos com a transcrição de alguns dos LXXV poemas e fragmentos traduzidos.

Como já em artigo anterior escrevi, da poesia de Safo restam hoje apenas fragmentos, e tal com na escultura grega admiramos a sua beleza mutilada, nesta poesia saboreamos com comoção e embevecimento os restos que nos embalam a imaginação.

 

Poemas

 

II

Semelhante aos deuses me parece

o homem que diante de ti se senta

e, tão doce, a tua voz escuta,

 

ou amoroso riso — que tanto agita

meu coração de súbito, pois basta ver-te

para que nem atine com o que diga,

 

ou a língua se me torne inerte.

Um subtil fogo me arrepia a pele,

deixam de ver meus olhos, zunem meus ouvidos,

 

o suor inunda-me o corpo de frio,

e tremendo toda, mais verde que as ervas,

julgo que a morte não pode já tardar.

(fr. 31 L-P)

 

 

IX

Com pés ligeiros, assim dançavam

noutro tempo as raparigas de Creta

à roda do altar; frescas eram

e frágeis as flores da relva que pisavam.

(fr. 16 Alceu ou Safo)

 

 

XXIX

De novo me tortura e quebra os membros,

Eros, doce-amarga indomável serpente.

(fr. 130 L-P)

 

 

XXXII

Outra vez Eros me agita o coração —

assim nos montes

o vento sacode os carvalhos.

(fr. 47 L-P)

 

 

XLII

Eros, para além da dor

tece a mentira

(fr. 172, 188)

 

 

XLIII

Quem é belo é belo de ver, e basta;

mas quem é bom subitamente será belo.

(fr. 50 L-P)

 

 

LXXV

O que eu quero é morrer, morrer!

Ela em lágrimas banhada dizia-me

 

ao partir: “Ah, Safo, que sorte tão cruel.

Juro-te, é contra minha vontade

que te abandono!”

 

Eu respondi-lhe: “Adeus,

sê feliz e lembra-te de mim.

Bem sabes quanto te quis.

 

Mas se esqueceres (e tu

esquecerás…) deixa-me que lembre,

entre tantas, algumas horas belas:

 

as grinaldas tecidas, lado a lado,

de rosas, violetas e alguma

flor de açafrão sobre o teu cabelo;

 

os colares de corolas várias

e fragrantes

em redor do colo delicado;

 

as essências de ervas raras

e um perfume real

derramado sobre a pele;

 

o leito onde o desejo

profundamente apaziguavas

ao meu lado…”

(fr. 94 vi. 1-23 L-P)

 

 

Para o leitor ter a medida do virtuosismo poético da versão de Eugénio de Andrade no fr. 31, (poema II) leia agora a tradução de Frederico Lourenço, o celebrado tradutor de Ilíada, Odisseia, e vária poesia grega, tão fiel do original quanto o domínio do grego antigo pelo tradutor. Delas destaco como exemplo os versos finais do poema:

o suor inunda-me o corpo de frio,

e tremendo toda, mais verde que as ervas,

julgo que a morte não pode já tardar.

por Eugénio de Andrade

 

o suor escorre-me do corpo e o tremor

me toma toda. Fico mais verde do que a relva

e tenho a impressão de que por pouco

que não morro.

 

por Frederico Lourenço

 

 

Eis a tradução integral por Frederico Lourenço:

 

Ele, tu e eu

 

Aquele parece-me ser igual dos deuses,

o homem que à tua frente

está sentado e escuta de perto

a tua voz tão suave

 

e o teu riso maravilhoso. Na verdade isto

põe-me o coração a palpitar no peito.

Pois quando te olho num relance, já não

consigo falar:

 

a língua se me quebrou e um subtil

fogo de imediato se põe a correr debaixo da pele;

não vejo nada com os olhos, zunem-me

os ouvidos;

 

o suor escorre-me do corpo e o tremor

me toma toda. Fico mais verde do que a relva

e tenho a impressão de que por pouco

que não morro.

 

 

Nota bibliográfica

 

Eugénio de Andrade, Poemas e Fragmentos de Safo.

in Poesia e Prosa (1940-1986), 3.ª ed. aumentada, II vol, Círculo de Leitores, 1987.

 

Tradução de Frederico Lourenço in Poesia Grega de Álcman a Teócrito, Livros Cotovia, Lisboa, 2006.

Numeração dos fragmentos E. Lobel e D. Page, Poetarum Lesbiorum Fragmenta (L-P), Oxford, 1955.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Simeon Solomon (1840-1905), Safo e Erina num Jardim em Mitilene, de 1864.

A pintura pertence à colecção da Tate Britain.

 

Empatia e o poema de Wislawa Szymborska O ódio

Etiquetas

O tempo da leitura do blog não é o da urgência dos dias, embora por vezes o seu conteúdo faça presente o efémero da actualidade.

Recentemente, num artigo norte-americano, argumentava-se como a empatia selectiva pode destruir as sociedades democráticas. O pretexto era a radicalização social nos EUA em torno da emigração. Por empatia selectiva entendia-se no artigo este crescente sentimento de pertença a um dos lados com quem havia identificação, sendo que “os outros” tinham certamente o que mereciam.

Recordava o autor como nos seus tempos de escola nos anos 70, os alunos eram convidados a imaginar a vida passada desses emigrantes que, fugindo ao sofrimento e à guerra, procuravam nos EUA o futuro que no berço natal não tinham, e assim desenvolver a empatia com esses recém-chegados e facilitar a sua integração.

Talvez na sociedade norte-americana tenha existido uma deliberado atitude de ensaiar imaginar a vida do outro, as suas dificuldades e razões, que levou ao acolhimento da emigração com abertura. Nas velhas sociedades europeias, o que sempre houve foi outra coisa: a caridade pelos necessitados, e a solidariedade com os aflitos, quando o inesperado sobre eles cai. A empatia no sentido da abertura descrita acima nunca foi um traço social visível. E por isso, Wislawa Szymborska (1923-2013) pode escrever com propriedade no seu poema O ódio:

Reparem como é eficiente,
e como se conserva bem
o ódio no nosso século.

Estamos hoje desarmados para lidar com o ódio.

Numa série policial italiana, Carlo & Malik, agora disponível no Netflix, as questões da emigração, albanesa e ex-iugoslava primeiro, migrantes africanos pelo Mediterrâneo depois, e o seu cruzamento com a sociedade italiana actual, presentes nos argumentos, são pistas para melhor compreender as divisões políticas e seus fenómenos populistas que hoje atravessam Itália. A série cumpre os mínimos do género. Aos personagens e situações humanas falta a espessura que as histórias de Andrea Camilleri com o Comissário Montalbano (visto recentemente na RTP2) possuem, mas o racismo latente e instalado na sociedade italiana, a par da extrema generosidade de tantos, que quotidianamente podemos observar, estão lá. Surgem delinquentes, tanto emigrantes quanto nativos italianos, como gente que aportou a Itália em busca da esperança de viver a vida no quadro de um trabalho honrado Tão só! Mas o ódio que encontram nestas sociedades está nelas e bem fundo,


E se adormece, nunca é num sono eterno.
A insónia não lhe rouba as forças, antes lhas acrescenta.

como escalpeliza com precisão cirúrgica Wislawa Szymborska no mesmo poema, que tenho vindo a citar e a seguir transcrevo integralmente.

Evidentemente ódio gera ódio e por aí entrados, parar é cada vez mais difícil:

Religião ou não —
contanto ajoelhe para o arranque.
Pátria ou não pátria —
contanto se atire correndo para a frente.
De início é bom e é justiça.
Depois seu próprio impulso lhe basta.
Ódio. O ódio.
De face arrepanhada num esgar de êxtase amoroso.

O que refiro para Itália é, no essencial, o que noutras sociedades europeias também existe. Há quem argumente que os fenómenos de xenofobia observados em sociedades do leste europeu devem ser enquadrados na necessidade de afirmação de uma identidade nacional que tardou em ganhar autonomia. Para sociedades como a francesa ou a britânica, a explicação a procurar terá que ser necessariamente outra.
Não está o mundo para generalizações, e um separar de águas em bons de um lado e maus do outro nunca foi de bom conselho:

Quantos voluntários leva atrás de si a dúvida?
Leva-se só a si mesma, ela que sabe das suas.

A realidade tem nuances, e com elas precisamos contar para escolher o nosso lugar no mundo.

 

O ódio

Reparem como é eficiente,
e como se conserva bem
o ódio no nosso século.
Na leveza com que encara as maiores dificuldades.
No fácil que lhe é saltar, precipitar-se.

Não é como os outros sentimentos.
Mais velho e mais novo do que eles, ao mesmo tempo.
A dar ele próprio à luz as razões
que o acordam para a vida.
E se adormece, nunca é num sono eterno.
A insónia não lhe rouba as forças, antes lhas acrescenta.

Religião ou não —
contanto ajoelhe para o arranque.
Pátria ou não pátria —
contanto se atire correndo para a frente.
De início é bom e é justiça.
Depois seu próprio impulso lhe basta.
Ódio. O ódio.
De face arrepanhada num esgar de êxtase amoroso.

Pobres dos outros sentimentos —
frouxos e enfermiços.
Desde quando pode uma confraria destas contar com multidões?
Já alguma vez a piedade cortou a meta em primeiro?
Quantos voluntários leva atrás de si a dúvida?
Leva-se só a si mesma, ela que sabe das suas.

Tradução de Júlio Sousa Gomes
in Paisagem com grão de areia, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1998.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Aurelio Bulzatti (1954), Os Emigrantes, de 2005. Óleo s/tela, colecção do artista.

Os personagens que figuram a imagem de abertura são as vítimas do ódio de que fala o poema de Wislawa Szymborska: civilização ocidental no conforto do seu bem-estar, figurada nos arranha-céus, e a gente perseguida que tem de seu o que traz vestido no corpo (aqui um judeu e uma mulher muçulmana, símbolos de guerra de religiões. Outros poderiam ser). A imagem traz ainda a manifestação da esperança de concórdia entre os desavindos das quase eternas guerras do médio-oriente.

Reconhecer o essencial do confronto de hoje (eu odeio-os porque têm o que não tenho, de um lado; do outro: eu odeio-os porque vêm tirar o que é meu) é provavelmente um dos caminhos para ultrapassar esta dicotomia e vencer o ódio.

 

 

 

Um apólogo de António Dinis da Cruz e Silva

Etiquetas

Comecemos com um esclarecimento aos menos informados do que é um apólogo:
Apólogo — historieta mais ou menos longa, que ilustra uma lição de sabedoria e cuja moralidade é expressa como conclusão. E para instrução e recreio de meninos e crescidos venho hoje com um apólogo de António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) cuja lição o poeta explica assim:


Deste conto consiste a inteligência
Em quanto erra e se engana tristemente
Quem se move a julgar pela aparência.

Deliciosa história de rato e gato onde o galo tem papel essencial, ela mostra-nos simultaneamente os riscos inesperados da vida quando levados pela curiosidade de a viver; o valor de bons conselhos; e como podemos ser ajudados pelos outros sem que nada peçam em troca.

O poema é uma pequena jóia de elegância narrativa e versificatória em rima perfeita emparelhada aabb, quase sempre rica, e às vezes rara, com a moralidade em rima alternada aba.

Apólogo IV

Um rato que a primeira vez saía
Do sombrio buraco, onde vivia,
Ao ver-se sobre a terra, quanto olhava
Espanto tudo, e admiração lhe dava.
Mas o que mais lhe tinha embelezado
Era a pele de um gato bem malhado,
Que meneando a cola, se dispunha
Nele a empolgar a retorcida unha:
Quando um galo emproado passeando
No meio de ambos se meteu cantando.
O ratinho de o ver, todo medroso,
No buraco se esconde pressuroso;
Onde a mãe, que impaciente há muito o espera,
Lhe pergunta o que viu e o detivera.
Mil coisas vi, que de prazer me encheram,
E ali (lhe torna o filho) me prenderam.
Mas entre todas, o que vi mais belo
Foi, mãe, um animal branco e amarelo,
Que os olhos tendo sobre mim pregados,
De longe me fazia mil agrados;
Mas outro que em dois pés só se sustinha,
E uma coroa na cabeça tinha,
Gritando a mim se volve cheio de ira,
E me matara, se lhe não fugira.
Então a mãe lhe diz: Filho inocente,
O animal, que te olhava brandamente,
Devorar-te queria, carniceiro;
E esse, de quem fugindo vens ligeiro,
Da morte te livrou, e foi tua guarda:
Dele não temas, do outro te resguarda.

Deste conto consiste a inteligência
Em quanto erra e se engana tristemente
Quem se move a julgar pela aparência.

 

Escolho publicar este artigo no Dia da Mãe em Portugal para uma homenagem singela às mães que guiam seus filhos nos primeiros passos da vida, alertando para os perigos que ela traz, ainda que raramente eles as levem em atenção, até que seja demasiado tarde. Acresce à homenagem o apreço com que contra ventos e marés, sejam os filhos patinhos feios ou cisnes, a eles se entregam vida fora, no esforço de que apenas o bem lhes aconteça.

 

Nota bibliográfica e iconográfica

Obras de António Diniz da Cruz e Silva vol. II, edição de Maria Luísa Malaquias Urbano, Edições Colibri, Lisboa 2001.

O número IV que acompanha o apólogo é o da edição referida acima.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Georg Schrimpf (1889-1938), Retrato de criança.

 

Lisboa por Gomes Leal

Etiquetas

É a uma espécie de jogo veja as diferenças que convido os leitores, ao transcrever o poema Lisboa de Gomes Leal (1848-1921).
Retrato de uma capital fim de século, parente da visão deixada por Cesário Verde (1855-1886) em O sentimento dum ocidental, sem a amplidão e a reflexão pessoal deste, é, no entanto, um poema/retrato onde da alegria ao sórdido, com ênfase na sensualidade, a vida decorre.

 

O desafio enunciado é triplo: comparar os retratos da cidade de final de oitocentos pintados por Gomes Leal e Cesário Verde, por um lado, e por outro a capital cosmopolita de início do século XXI, e encontrar tanto continuidades como roturas que dão a medida de quanto o nosso tempo é diferente do passado, e simultaneamente como nele radica.

(Nota: O poema de Cesário Verde encontra-se algures no blog, acessível aqui)

Lisboa

De certo, capital alguma do Ocidente
Tem mais afável sol, ou um céu mais clemente,
Mais colinas azuis, rio d’águas mais mansas,
Mais tristes procissões, mais pálidas crianças,
Mais igrejas e cães — e vargens, onde a esteira
Seja em tardes d’estio a flor da laranjeira!

A cidade é garrida e esbelta de manhã! —
É mais alegre então, mais límpida, mais sã.
Com certo ar virginal ostenta suas graças…
Há vida, confusão, murmúrios pelas praças.
— E, às vezes, em roupão, uma violeta bela
Vem regar o craveiro e assoma na janela.

A cidade é beata — e, às lúcidas estrelas,
O vicio, à noite, sai aos becos e às ruelas
Sorrindo, a perseguir burgueses e estrangeiros…
E à triste e dubia luz dos baços candeeiros,
— Em bairos imorais, onde se dão facadas —
Corre às vezes o sangue e o vinho nas calçadas.

As mulheres são gentis. — Umas altas, morenas,
Graves, sentimentais, amigas de novenas,
Ébrias de devoções, relêem as suas Horas.
— Outras fortes, viris, os olhos cor d’amoras,
Os lábios sensuais, cabelos bons, compridos,
— Às vezes, por enfado, enganam os maridos!

Os burgueses banais são gordos, chãos, contentes,
Amantes de cupido, egoistas, indolentes,
Graves nas procissões, nas festas, e nos lutos.
Bastante sensuais, bastante dissolutos,
Mas humildes cristãos!.. e, em místicos momentos,
— Tendo, ainda, crueis saudades dos conventos!

Viciosa ela se apraz num sono vegetal,
Adversa ao Pensamento e contrária ao Ideal.
— Mas, mau grado assim ser viciosa, egoista, à lua,
Como Nero também dá concertos na rua,
E, em noites de verão quando o luar consola,
— Põe ao peito a guitarra e a lírica viola.

No entanto a sua vida é quase intermitente,
Chafurda na inação, feliz, gorda, contente.
E, eclipsando as acções dos seus navegadores,
Abrilhanta a batota e as casas de penhores.
Faz guerra à Vida, à Acção, ao Ideal!.. e ao cabo
— É talvez a melhor amiga do Diabo!

in Claridades do Sul, segunda edição revista e aumentada, Empresa da História de Portugal, Lisboa, 1901.
Modernizei a ortografia.

 

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Carlos Botelho (1899-1982), Lisboa e o Tejo; Domingo, 1935, da colecção do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (MNACC).