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O tempo da leitura do blog não é o da urgência dos dias, embora por vezes o seu conteúdo faça presente o efémero da actualidade.

Recentemente, num artigo norte-americano, argumentava-se como a empatia selectiva pode destruir as sociedades democráticas. O pretexto era a radicalização social nos EUA em torno da emigração. Por empatia selectiva entendia-se no artigo este crescente sentimento de pertença a um dos lados com quem havia identificação, sendo que “os outros” tinham certamente o que mereciam.

Recordava o autor como nos seus tempos de escola nos anos 70, os alunos eram convidados a imaginar a vida passada desses emigrantes que, fugindo ao sofrimento e à guerra, procuravam nos EUA o futuro que no berço natal não tinham, e assim desenvolver a empatia com esses recém-chegados e facilitar a sua integração.

Talvez na sociedade norte-americana tenha existido uma deliberado atitude de ensaiar imaginar a vida do outro, as suas dificuldades e razões, que levou ao acolhimento da emigração com abertura. Nas velhas sociedades europeias, o que sempre houve foi outra coisa: a caridade pelos necessitados, e a solidariedade com os aflitos, quando o inesperado sobre eles cai. A empatia no sentido da abertura descrita acima nunca foi um traço social visível. E por isso, Wislawa Szymborska (1923-2013) pode escrever com propriedade no seu poema O ódio:

Reparem como é eficiente,
e como se conserva bem
o ódio no nosso século.

Estamos hoje desarmados para lidar com o ódio.

Numa série policial italiana, Carlo & Malik, agora disponível no Netflix, as questões da emigração, albanesa e ex-iugoslava primeiro, migrantes africanos pelo Mediterrâneo depois, e o seu cruzamento com a sociedade italiana actual, presentes nos argumentos, são pistas para melhor compreender as divisões políticas e seus fenómenos populistas que hoje atravessam Itália. A série cumpre os mínimos do género. Aos personagens e situações humanas falta a espessura que as histórias de Andrea Camilleri com o Comissário Montalbano (visto recentemente na RTP2) possuem, mas o racismo latente e instalado na sociedade italiana, a par da extrema generosidade de tantos, que quotidianamente podemos observar, estão lá. Surgem delinquentes, tanto emigrantes quanto nativos italianos, como gente que aportou a Itália em busca da esperança de viver a vida no quadro de um trabalho honrado Tão só! Mas o ódio que encontram nestas sociedades está nelas e bem fundo,


E se adormece, nunca é num sono eterno.
A insónia não lhe rouba as forças, antes lhas acrescenta.

como escalpeliza com precisão cirúrgica Wislawa Szymborska no mesmo poema, que tenho vindo a citar e a seguir transcrevo integralmente.

Evidentemente ódio gera ódio e por aí entrados, parar é cada vez mais difícil:

Religião ou não —
contanto ajoelhe para o arranque.
Pátria ou não pátria —
contanto se atire correndo para a frente.
De início é bom e é justiça.
Depois seu próprio impulso lhe basta.
Ódio. O ódio.
De face arrepanhada num esgar de êxtase amoroso.

O que refiro para Itália é, no essencial, o que noutras sociedades europeias também existe. Há quem argumente que os fenómenos de xenofobia observados em sociedades do leste europeu devem ser enquadrados na necessidade de afirmação de uma identidade nacional que tardou em ganhar autonomia. Para sociedades como a francesa ou a britânica, a explicação a procurar terá que ser necessariamente outra.
Não está o mundo para generalizações, e um separar de águas em bons de um lado e maus do outro nunca foi de bom conselho:

Quantos voluntários leva atrás de si a dúvida?
Leva-se só a si mesma, ela que sabe das suas.

A realidade tem nuances, e com elas precisamos contar para escolher o nosso lugar no mundo.

 

O ódio

Reparem como é eficiente,
e como se conserva bem
o ódio no nosso século.
Na leveza com que encara as maiores dificuldades.
No fácil que lhe é saltar, precipitar-se.

Não é como os outros sentimentos.
Mais velho e mais novo do que eles, ao mesmo tempo.
A dar ele próprio à luz as razões
que o acordam para a vida.
E se adormece, nunca é num sono eterno.
A insónia não lhe rouba as forças, antes lhas acrescenta.

Religião ou não —
contanto ajoelhe para o arranque.
Pátria ou não pátria —
contanto se atire correndo para a frente.
De início é bom e é justiça.
Depois seu próprio impulso lhe basta.
Ódio. O ódio.
De face arrepanhada num esgar de êxtase amoroso.

Pobres dos outros sentimentos —
frouxos e enfermiços.
Desde quando pode uma confraria destas contar com multidões?
Já alguma vez a piedade cortou a meta em primeiro?
Quantos voluntários leva atrás de si a dúvida?
Leva-se só a si mesma, ela que sabe das suas.

Tradução de Júlio Sousa Gomes
in Paisagem com grão de areia, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1998.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Aurelio Bulzatti (1954), Os Emigrantes, de 2005. Óleo s/tela, colecção do artista.

Os personagens que figuram a imagem de abertura são as vítimas do ódio de que fala o poema de Wislawa Szymborska: civilização ocidental no conforto do seu bem-estar, figurada nos arranha-céus, e a gente perseguida que tem de seu o que traz vestido no corpo (aqui um judeu e uma mulher muçulmana, símbolos de guerra de religiões. Outros poderiam ser). A imagem traz ainda a manifestação da esperança de concórdia entre os desavindos das quase eternas guerras do médio-oriente.

Reconhecer o essencial do confronto de hoje (eu odeio-os porque têm o que não tenho, de um lado; do outro: eu odeio-os porque vêm tirar o que é meu) é provavelmente um dos caminhos para ultrapassar esta dicotomia e vencer o ódio.

 

 

 

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