Cielito Lindo num poema de Ángel González

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De vilegiatura por terras do SE algarvio, as memórias são inevitáveis, e a proximidade de Espanha traz a familiaridade de uma vida com as gentes e a cultura.

Na infância, nestas remotas terras isoladas do pais, onde a radio apenas chegava a espaços e com fraco sinal, as emissoras de Espanha eram omnipresentes e inevitavelmente cresci ouvindo as canções que ali passavam. Estou por tal forma impregnado delas que ouvi-las traz-me de volta o perfume dos tempos encantados.

Os acasos da leitura de poesia, que por estes dias é em castelhano, fizeram-me encontrar um poema de Ángel González (1925-2008), Canción, glosa y cuestiones, onde ecoa uma dessas canções, Cielito Lindo, na ironia saborosa do grande poeta.

Canción, glosa y cuestiones

Ese lugar que tienes,
cielito lindo,
entre las piernas,
ese lugar tan íntimo
y querido
És un lugar común.

Por lo citado y por lo concurrido.

Al fin, nada me importa:
me gusta en cualquier caso.

Pero hay algo que intriga.

Cómo
solar tan diminuto
puede ser compartido
por una poblatión tan numerosa?

Qué estatutos regulan el prodigio?

A canção deu a volta ao mundo na voz de Nat King Cole, mas é outra a versão familiar da minha infância, e essa, é cantada por um trio masculino, Los 3 Paraguaios.

Deixo-vos com ela:

Nota talvez necessária: Cielito lindo é uma forma de tratamento carinhosa para alguém de quem gostamos.

Ramalhete de Quadras Populares

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Entre as cem melhores poesias líricas portuguesas de sempre escolhidas por Carolina Michaëlis de Vasconcellos no inicio do século XX, encontra-se um ramalhete de quadras populares, das quais  escolho treze, em correspondência com a idade casadoira para a mulher nestes tempos ancestrais.

Os assuntos resumem-se a Deus e o Amor, ou religião e sexo como se preferir, e em algumas cruzam-se ambos.

Uma das quadras justifica um destaque especial pela exemplaridade como esclarece o mistério da sagrada concepção de Cristo, resolvendo-o na concisão argumentativa de quatro versos:

No ventre da virgem-mãe
Encarnou divina graça:
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça.  

Entre os sofrimentos e alegrias do Amor encontram-se:

Quem canta, seu mal espanta;
Quem chora seu mal aumenta:
Eu canto para espalhar
A paixão que me atormenta.

Eu não quero nem brincando
Dizer adeus a ninguém:
Quem parte, leva saudades,
Quem fica, saudades tem.

Das lagrimas faço contas
Para rezar as escuras.
Oh morte que tanto tardas!
Oh vida que tanto duras!

Nesta ultima cruza-se já com o amor, a religião, que na quadra seguinte apresenta uma argumentação originalíssima:

Fui-me confessar ao Carmo,
Confessei que andava amando;
Deram-me por penitencia…
Que fosse continuando.

E dando ao assunto um carácter quase ontológico surge-nos esta outra quadra:

Tu chamas-me tua vida,
Tua alma quero eu ser,
Que a vida morre com o corpo
E a alma eterna há-de ser!

Vejamos ainda um outro aspecto, este o da condição da mulher no que ao sexo se refere:

Coitadinho do que nasce
No mundo para ser mulher:
Se é bonita, tem seu erro,
Se é feia, ninguém a quer.

Altas torres tem teu peito,
Nas mais altas já eu vi.
Não se me dá que outrem suba
Escadas que eu já desci.

Candeia de quatro bicos
Alumia aos quatro cantos:
Mal empregada a menina
Que é amada por tantos!

Temos agora o cruzamento das infidelidades sexuais, por assim dizer, com as práticas religiosas, numa pouco ortodoxa associação:

Eu amava-te, menina,
Se não fora um senão:
Seres pia de agua benta
Onde todos põem a mão.

E com esta quadra chegamos ao grupo em que a crença é abordada no seu cruzamento com o amor.

Por te amar deixei a Deus;
Vê lá que gloria perdi:
Agora vejo-me só,
Sem Deus, sem gloria, sem ti.

Já pedi a morte a Deus,
Ele disse que m’a não dava,
Que pedisse a salvação,
Que[pois] a morte certa estava.

Terminemos com chave de ouro conhecendo uma quadra que encerra de forma exemplar um conceito popular de Deus:

Embora o que Deus nos deu
Caiba numa mão fechada,
O pouco com Deus é muito,
O muito sem Deus é nada.

As Fadas – Poema de Antero de Quental

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Nestes tempos de Verão,  quando as férias apelam à fantasia, aqui  fica  um convite para viajar ao mundo encantado das fadas com a inspiração de Antero de Quental.

Revela-nos o poema segredos só conhecidos de poucos adultos, apenas daqueles que ainda sabem que a Cinderela casa mesmo com o Principe e acreditam que:  a fortuna da gente / Está às vezes somente / Numa palavra que diz; / Por uma palavra, engraça / Uma fada com quem passa, / E torna-o logo feliz.

Mas cuidado, pois as fadas quando se zangam:  têm vinganças terriveis! /Semeiam coisas horriveis, / Que nascem logo no chão… / Linguas de fogo que estalam! / Sapos com asas que falam! / Um anão preto! Um dragão!

 Ou deitam sortes na gente… / O nariz faz-se serpente, / A dar pulos, a crescer… / É-se morcego ou veado… / E anda-se assim encantado, / Enquanto a fada quiser!

 Eis

AS FADAS

As fadas… eu creio nelas!

Umas são moças e belas,

Outras, velhas de pasmar…

Umas vivem nos rochedos,

Outras, pelos arvoredos,

Outras, à beira do mar…

 

Algumas em fonte fria

Escondem-se, enquanto é dia,

Saem só ao escurecer…

Outras, debaixo da terra,

Nas grutas verdes da serra,

É que se vão esconder…

 

O vestir… são tais riquezas,

Que rainhas, nem princesas

Nenhuma assim se vestiu!

Porque as riquezas das fadas

São sabidas, celebradas

Por toda a gente que as viu…

 

Quando a noite é clara e amena

E a lua vai mais serena,

Qualquer as pode espreitar,

Fazendo rodas, ocupadas

Em dobar suas meadas

De ouro e de prata, ao luar.

 

O luar é os seus amores!

Sentadinhas entre as flores

Horas se ficam sem fim,

Cantando suas cantigas,

Fiando suas estrigas,

Em roca de oiro e marfim.

 

Eu sei os nomes de algumas:

Viviana ama as espumas

Das ondas nos areais,

Vive junto ao mar, sozinha,

Mas costuma ser madrinha

Nos batizados reais.

 

Morgana é muito enganosa;

Às vezes, moça e formosa,

E outras, velha, a rir, a rir…

Ora festiva, ora grave,

E voa como uma ave,

Se a gente lhe quer bulir.

 

Que direi de Melusina?

De Titânia, a pequenina,

Que dorme sobre um jasmim?

De cem outras, cuja glória

Enche as páginas da história

Dos reinos de el-rei Merlin?

 

Umas têm mando nos ares;

Outras, na terra, nos mares;

E todas trazem na mão

Aquela vara famosa,

A vara maravilhosa,

A varinha de condão.

 

O que elas querem, num pronto,

Fez-se ali!  parece um conto…

Mesmo de fadas… eu sei!

São condões que dão à gente,

Ou dinheiro reluzente

Ou joias, que nem um rei!

 

A mais pobre criancinha

Se quis ser sua madrinha,

Uma fada… ai, que feliz!

São palácios, num momento…

Beleza, que é um portento…

Riqueza, que nem se diz…

 

Ou então, prendas, talento,

Ciência, discernimento,

Graças, chiste, discrição…

Vê-se o pobre inocentinho

Feito um sábio, um adivinho,

Que aos mais sábios vai à mão!

 

Mas, com tudo isto, as fadas

São muito desconfiadas;

Quem as vê não há-de rir.

Querem elas que as respeitem,

E não gostam que as espreitem,

Nem se lhes há-de mentir.

 

Quem as ofende… Cautela!

A mais risonha, a mais bela,

Torna-se logo tão má,

Tão cruel, tão vingativa!

É inimiga agressiva,

É serpente que ali está!

 

E têm vinganças terriveis!

Semeiam coisas horriveis,

Que nascem logo no chão…

Linguas de fogo que estalam!

Sapos com asas que falam!

Um anão preto! Um dragão!

 

Ou deitam sortes na gente…

O nariz faz-se serpente,

A dar pulos, a crescer…

É-se morcego ou veado…

E anda-se assim encantado,

Enquanto a fada quiser!

 

Por isso quem por estradas

For, de noite, e vir as fadas

Nos altos mirando o céu,

Deve com jeito falar-lhes

Muito cortez e tirar-lhes

Até ao chão o chapéu.

 

Porque a fortuna da gente

Está às vezes somente

Numa palavra que diz;

Por uma palavra, engraça

Uma fada com quem passa,

E torna-o logo feliz.

 

Quantas vezes já deitado,

Mas sem sono, inda acordado

Me ponho a considerar

Que condão eu pediria,

Se uma fada, um belo dia,

Me quisesse a mim fadar…

 

O que seria? Um tesouro?

Um reino? Um vestido de ouro?

Ou um leito de marfim?

Ou um palácio encantado,

Com seu lago prateado

E com pavões no jardim?

 

Ou podia, se eu quisesse,

Pedir também que me desse

Um condão, para falar

A lingua dos passarinhos,

Que conversam nos seus ninhos…

Ou então, saber voar!

 

Oh, se esta noite sonhando,

Alguma fada, engraçando

Comigo (podia ser!)

Me tocasse da varinha,

E  fosse minha madrinha

Mesmo a dormir, sem a ver…

 

E que amanhã acordasse

E me achasse… eu sei? Me achasse

Feito um principe, um emir!…

Até já, imaginando,

Se estão meus olhos fechando…

Deixa-me já, já dormir!

 
Noticia Bibliográfica

O poema foi composto para uma colectânea – Tesouro poético da infância – que Antero de Quental coordenou, e foi mais tarde recolhido em Raios de Extinta Luz, livro póstumo publicado em 1892, organizado por Teófilo Braga e onde este recolheu todas as poesias de Quental que conseguiu, mesmo algumas que o poeta tinha deliberadamente destruído mas das quais tinham subsistido cópias em mãos de terceiros.

Fernando Pessoa – Carta da Corcunda para o Serralheiro lida por Maria do Céu Guerra

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Publicado pela primeira vez em PESSOA POR CONHECER, Carta da Corcunda para o Serralheiro é um texto pungente e na elegância aterradora da sua sinceridade, aperta o coração ouvi-lo lido por Maria do Céu Guerra.

Hoje tenho a honra e o enorme privilégio de poder facultar aos leitores do blog uma gravação dessa leitura.

A carta da Corcunda para o Serralheiro

Senhor António:

O senhor nunca ha de ver esta carta. Nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o nao saiba, porque se não escrevo abafo.

O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto á janella quando o senhor passa para a officina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarella, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquella rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja d’ella mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir á rua e fallar comsigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecel-o de fallar.

O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguem que gostasse de mim como se gosta das pessoas que teem o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e tambem tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguem.

Eu gostava de morrer depois de lhe fallar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe fallar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.

Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quiz mal a ninguem. Alem d’isso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove annos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta edade, e doente, e sem ninguem que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me doe, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.

Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter – e agora menos que nem vida tenho – gostava de saber tudo.

Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vae ler isto, e mesmo que lesse nem sabia que era comsigo e nao ligava importancia em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só á janella, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguem que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a familia, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos ás avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.

Houve um dia que o senhor vinha para a officina e um gato se pegou á pancada com um cão aqui defronte da janella, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim para a janella, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a unica vez que o senhor esteve a sós commigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.

Tantas vezes, o senhor não imagina, andei á espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.

Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar á altura da janella.. passo todo o dia a ver illustrações e revistas de modas que emprestam á minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquella saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu ás vezes me envergonha de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.

Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguem julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distrahida.

Ainda me lembro d’aquelle dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o proprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ella mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi porisso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.

Não é por ser corcunda que estou aqui sempre á janella, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de rheumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralytica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me acceitar que o senhor não imagina. Eu ás vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janella abaixo, mas eu que figura teria a cahir da janella? Até  quem me visse cahir ria e a janella é tam baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas á vela e a corcunda a sahir pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.

(…)

– e emfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta? [texto não lido]

O senhor que anda de um lado para o outro não sabr qual é o peso de a gente não ser ninguem. Eu estou á janella todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gosar e fallar a esta e áquella, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui á janella por tirar de lá.

O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saude o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornaes o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e teem baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos medicos, e outros partem para as suas casas aqui e alli, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e ha artigos assignados por outros e retratos e annuncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isso o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janella de limpar o signal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da agua.

Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus na rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vae se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.

A Margarida costureira diz que lhe fallou uma vez, que lhe fallou torto porque o senhor se metteu com ella na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque metter-se alguem comnosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguem acha que eu sou nada a não ser uma especie de gente que está para aqui a encher o vão da janella e a aborrecer tudo que me vê, valha me Deus.

O Antonio (é o mesmo nome que o seu, mas que differença!) o Antonio da officina de automoveis disse uma vez a meu pae que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não ha direito a viver, que quem não trabalha não come e não ha direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar á janella com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralytica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir á vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.

Adeus senhor Antonio, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.

Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.

Ahi tem e estou a chorar.

Maria José

 

Este impressionante texto que Pessoa, ao contrário do que habitualmente lhe acontecia, completou e dactilografou é, se bem que inesperado, o auto-retrato mais acabado – e terrivel! – dessa “grande alma” que se sentia “ninguém”., são palavras da editora do texto, Teresa Rita Lopes, que um pouco antes escrevia:

A comiseração de Pessoa por si próprio vai atingir o seu mais alto grau e a sua expressão mais despersonalizada no monólogo duma Maria José, que incarna de forma extrema, metaforicamente, o ser aleijado, aborto do destino, que se vê ser na Carta da Corcunda para o Serralheiro.

Maria José é a voz feminina que, como tal, mais longamente se faz ouvir no universo pessoano. É a metáfora de uma alma “à janela”, como a do monólogo em situação incluído no Livro do Desassossego mas que é muito mais que a página de um diário:

Se a nossa vida fosse um eterno estar à janela, se assim ficassemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crepusculo dolorindo a curva dos montes. Se assim ficassemos para além de sempre! (LD, 1,p.312, Atica 1982)

E acrescenta, mais longe, evocando como se o esquecesse um tu ausente:

Dói-me a alma… Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe… um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti…

A voz feminina da Carta da Corcunda para o Serralheiro, assim mesmo intitulada, atinge o ponto máximo nessa escala da despersonalização que Pessoa percorria em todos os sentidos, estacionando em todos os degraus. Incarna esse “ninguém” que, na sua própria pessoa, Pessoa sofria sentir-se ser e que mima em Marcos Alves, Vicente Guedes (o da vida nulla), Bernado Soares (que todos os dias se proclama “ninguém”), Frederick Wyatt (o “coitadinho”), Barão de Teive (cuja vida é uma “batalha perdida no mapa”) e em todos esses outros que são estilhaços do espelho partido que se tornou.

Transcrevi longamente o texto em que Teresa Rita Lopes apresenta a Carta da Corcunda para o Serralheiro no vol. I de PESSOA POR CONHECER, sobretudo por se tratar de uma publicação rara e serem escassos ou nulos os comentários de enquadramento do texto na obra do poeta.

Enquanto leitor não especialista, interessam-me menos os aspectos de personalidade do poeta e de que forma se encontram disseminados na sua obra, que o impacto em mim provocado pela força do texto. Depois de o ler, e sobretudo depois de o ter ouvido lido por Maria do Céu Guerra, não mais olhei a deficiência com a indiferença distante que involuntariamente era a minha.

É uma daquelas obras-primas absolutas de que não saimos incólumes quando com elas nos cruzamos. Um enorme obrigado à Maria do Céu Guerra por a ter trazido até nós.

Noticia Bibliográfica

PESSOA POR CONHECER I e II, é um conjunto em 2 volumes subtitulados: volume I – Roteiro para um expedição, e volume II – Textos para um novo mapa. Foram publicados por Editorial Estampa em 1990, e neles Teresa Rita Lopes deu o ponto de partida para a divulgação organizada da obra de Pessoa, como hoje a conhecemos na sua maior parte.

Nota: Na transcrição da Carta… conservei a ortografia da edição, a qual é a do dactiloescrito do poeta.

Matsuo Bashö – Haiku 963

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Bashö – Haiku 963 (versão em caracteres latinos)

matsu sugi o

homete ya kaze no

kaoru oto

Verão de 1691

traduzido à letra para inglês:

pine cedar [object] / praise <>wind of / smell sound

arrisco uma versão em português:

pinheiro e cedro

admirar o vento

cheirar o som

O haiku enquanto forma poética possui um vasto conjunto de técnicas de construção (alguns autores identificaram 33 no tempo de Bashö) que não vem ao caso elucidar aqui. No entanto, vale a pena referir um aspecto, que por tão básico, deve ser prévio à leitura de haikai e que é o seguinte: um haiku deve conter duas partes a que chamaremos a frase e o fragmento. Uma tradução correcta de um haiku deve fazer um corte claro entre estas duas partes através do uso aproporiado da gramática. Alguns tradutores, quando não conseguem este corte claro usam a pontuação.

Na versão que propomos o corte gramatical estabelece-se entre os substantivos pinheiro e cedro e a acção através dos verbos em admirar o vento / cheirar o som.

Prévert, Les Feuilles Mortes e Juliette Greco

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Alguns poemas encontram na musica a forma de chegar ao coração dos homens. Um deles, Les Feuilles Mortes de Jacques Prévert, companhia inseparável do meu cancioneiro, aqui recordo na voz de Juliette Greco, incluindo uma tradução literal que arrisco, uma vez que o desconhecimento do francês é hoje generalizado.

Les Feuilles Mortes na voz de Juliette Greco

” Les Feuilles Mortes “
Jacques Prévert – 1945

Oh ! je voudrais tant que tu te souviennes/Oh! queria tanto que te recordasses
Des jours heureux où nous étions amis./dos dias felizes quando éramos amigos.
En ce temps-là la vie était plus belle,/Nesse tempo a vida era mais bela,

Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui./ e o sol mais brilhante que hoje.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle./As folhas mortas agarram-se à pá.
Tu vois, je n’ai pas oublié…/Vês, não esqueci…
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,/ As folhas mortas agarram-se à pá,
Les souvenirs et les regrets aussi/as recordações e os remorsos também
Et le vent du nord les emporte/e o vento norte norte transporta-os
Dans la nuit froide de l’oubli./na noite fria do esquecimento.
Tu vois, je n’ai pas oublié/ Vês, não esqueci
La chanson que tu me chantais./a canção que tu me cantavas.

[Refrain:]
C’est une chanson qui nous ressemble./É uma canção que nos semelha.
Toi, tu m’aimais et je t’aimais/ Tu, tu me amavas e eu te amava
Et nous vivions tous deux ensemble,/e viviamos os dois juntos,
Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais./ tu que me amavas, eu que te amava.
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment,/Mas a vida separa os que se amam,
Tout doucement, sans faire de bruit/docemente, sem fazer ruido
Et la mer efface sur le sable/e o mar apaga na areia
Les pas des amants désunis./os passos dos amantes desunidos.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,/ as folhas mortas agarram-se à pá,
Les souvenirs et les regrets aussi/ as recordações e os remorsos também
Mais mon amour silencieux et fidèle/mas o meu amor silencioso e fiel
Sourit toujours et remercie la vie./continua a sorrir e agradece à vida.
Je t’aimais tant, tu étais si jolie./Amava-te tanto, eras tão bonita.
Comment veux-tu que je t’oublie ?/Como queres que te esqueça?
En ce temps-là, la vie était plus belle/ Nesse tempo, a vida era mais bela
Et le soleil plus brûlant qu’aujourd’hui./e o sol mais ardente que hoje.
Tu étais ma plus douce amie/ Eras a minha mais doce amiga
Mais je n’ai que faire des regrets/mas não tenho senão que lamentar
Et la chanson que tu chantais,/e a canção que cantavas,
Toujours, toujours je l’entendrai !/sempre, sempre a ouvirei!

Poema todo ele de melancolia, em que o outono dos amores e da vida se cruza com as folhas caídas, e o vento norte nos transporta pela noite fria do esquecimento, ouvir este Les Feuilles Mortes na voz de Juliette Greco é uma emoção repetidamente saboreada. Tanta vida naquela voz.

Voz que noutra canção nos guia nos segredos dos preliminares do amor, ao cantar Desabillez-moi.

Desabillez-moi na voz de Juliette Greco

Sendo uma canção que toda a vida a artista cantou, quando jovem há uma veemência que bem passados os oitenta (nasceu em 1927), tem o sabor dos vinhos amadurecidos com o tempo.

No final de 2009, quando se apresentou no CCB, arriscou cantar esta canção. Antes teve o cuidado de alertar a audiência para a consciência que tinha da estranheza de interpretar semelhante canção nesta idade da vida.

Foi um dos momentos mais comoventes do concerto, sentir aquela audiência quase toda formada por gente a quem há muito a juventude escapou, vibrar num frémito de recordação de prazeres talvez perdidos, ou apenas sonhados.

É a voz o veículo destas emoções, e quando não envelhece, a experiência torna-a na evidência do sublime.

Na memória desse concerto escrevi este  relato

Deshabillez-moi

C’est la belle Juliette qui chante.

Ouvimos, olhamos, e não nos libertamos mais.

Canta-nos na cabeça no mais inesperado dos momentos.

Os olhos, do tamanho do mundo, revelam os mistérios do amor.

O gesto,

o braço levantado,

a figura de negro até aos pés

transporta mais erotismo que uma striper em palco.

A voz, talvez rouca,

desencadeia tempestades

onde a razão se perde

E vamos ao fundo do abismo para a não perder.

Depois canta “j’arrive”

e é a morte que nos visita

Na dor da despedida e da perda.

O teatro da voz é mais verdadeiro que a vida.

Façamos agora uma pequena volta por quase 50 anos de interpretações felizmente conservadas,  pour notre bonheur, com um pequeno grupo de canções com Paris em fundo e um perfume de acordeon, num balanço reminiscente de bal musette, que estiveram na origem do mito da boémia parisiense de final dos anos 50 e anos 60.

Paris-Canaille na voz de Juliette Greco

Sous le ciel de Paris na voz de Juliette Greco

Il n’y a plus d’après na voz de Juliette Greco

Accordeon na voz de Juliette Greco

 

Tenha valido a pena o passeio, espero.

Nota: A fotogravura de Juliette Greco que ilustra o artigo é de Erwin Blumenfeld, 1951.

Nascemos para o sono – Poema do Ciclo Nauatle mudado para português por Herberto Helder

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NASCEMOS PARA O SONO

Nascemos para o sono,

nascemos para o sonho.

Não foi para viver que viemos sobre a terra.

Breve apenas seremos erva que reverdece:

verdes os corações e as pétalas estendidas.

Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.

 

Poema mexicano do ciclo Nauatle mudado para português por Herberto Helder, transcrito do livro O BEBEDOR NOCTURNO e publicado por Assírio & Alvim em 2010.

O náhuatl, em português nauatle, é uma lingua pré-colombiana ainda hoje falada em algumas partes do México.

A poesia em náhuatl tem características cosmogónicas, explicando a origem do universo e fixando o lugar e papel do homem nele.

Pensamentos Nocturnos – poema de Li Po também conhecido por Li Bai ou Li Pai

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Lemos com as ferramentas de que dispomos: a nossa experiência e os nossos conhecimentos e cultura.
Para um leitor ocidental não familiarizado com a civilização chinesa, o encontro com a sua poesia clássica é quase sempre um choque. A simplicidade da linguagem aliada à profundidade da ideia transmitem-lhe uma irresistível atracção. Penetrar-lhe a historia e a dimensão filosófica,  isso é trabalho de uma vida.

Chega ao blog a poesia chinesa clássica  com um poema de Li Po (701-762) ou Li Bai ou ainda Li Pai consoante as edições, e também conhecido por Li T’ai-po, que segundo Arthur Cooper, tradutor para a Penguin de Li Po e Tu Fu, deve ser o mais conhecido de todos os poemas da literatura chinesa, e, sobretudo, entre os chineses da Diáspora. Diz ainda o tradutor, enfatizando esta sua opinião, que pode acontecer ao leitor ser surpreendido pela declamação do poema por um qualquer empregado de restaurante mais amistoso.

O poema faz parte  da colecção de poesia clássica chinesa  Ch’ien-chia-shih que literalmente significa Poemas de um Milhar de Mestres, apesar de conter poesias de cerca de 100 poetas e comummente traduzida por Poemas dos Mestres.

É um dos clássicos da literatura chinesa e durante oito séculos esta antologia da poesia dos períodos Tang (618-907)  e Song (960-1279) fez parte da educação de qualquer estudante na China.

A versão que transcrevo de Pensamentos Nocturnos é a de Gil de Carvalho publicada em Uma Antologia de Poesia Chinesa por Assírio & Alvim em 2010.

PENSAMENTOS NOCTURNOS

 Diante da cama

Brilha o luar

Que mais parece

Gelo no chão.

 

Se levanto a cabeça

Contemplo a Lua.

Ao baixá-la

Sonho com a terra natal.

Acrescento 3 versões em inglês, uma de Arthur Cooper, outra de David Hinton e uma terceira de Red Pine, todos eles conceituados tradutores de poesia clássica chinesa no mundo anglo-saxónico.

QUIET NIGHT THOUGHTS  (versão de Arthur Cooper)

 Before my bed

there is bright moonlight

So that it seems

like frost on the ground:

 

Lifting my head

I watch the bright moon,

Lowering my head

I dream that I’m home.


THOUGHTS IN NIGHT QUIET   
(versão de David Hinton)

Seeing moonlight here at my bed,

and thinking it’s frost on the ground,

 

I look up, gaze at the mountain moon,

then back, dreaming of my old home.

 

Deixei para o final a versão em inglês de que mais gosto, pois conseguindo traduzir o poema, simultaneamente escreve poesia de direito próprio em inglês, o que acontece para português com a leitura superlativa de Gil de Carvalho:

 

THOUGHTS ON A QUIET NIGHT  (versão de Red Pine)

Before my bed the light is so bright

it looks like a layer of frost

lifting my head I gaze at the moon

lying back down I think of home

Se existirem leitores do blog que leiam chinês, encontram a seguir o poema em caracteres chineses, e se porventura quiserem tentar um outra versão em português, ela é bem-vinda.

 

Noticia sobre a vida de Li Po encontra-se na net com abundância, sendo certo que as divergências que possam surgir decorrem também do desconhecimento factual que subsiste sobre ela, existindo ainda controversia sobre a parte de realidade e a parte de fábula.

Noticia bibliográfica:

 Uma Antologia de Poesia Chinesa – por Gil de Carvalho, edição Assírio & Alvim, 2010

 LI PO and TU FU Poems – Selecção e tradução de Arthur Cooper, edição Penguin Classics, 1973

 The Selected Poems of Li Po – Translated by David Hinton, edição ANVIL PRESS POETRY, 1998

 Poems of the Masters – China’s Classic Anthology of T’ang and Sung Dynasty Verse – translated by RED PINE, edição Copper Canyon Press, 2003

A assim chamada vida – poema de Czeslaw Milosz

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A assim chamada vida

A assim chamada vida, quer dizer

tudo o que é assunto de telenovela

não lhe parecia digno de relatar.

Mesmo que quisesse falar, não o sabia.

Admiravam-no as histórias intrincadas de homens e mulheres

que se iam arrastando até à deslembrança coruscante.

Ele próprio só sabia cerrar os dentes, aguentar e

esperar que a velhice inviabilizasse os dramas,

que a novela de amores, ódios, tentações e traições

rebentasse como uma bola de sabão.

Czeslaw Milosz (1911-2004)

Tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, publicada em Alguns gostam de poesia, Antologia, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, Cavalo de Ferro Editores, Lisboa, 2004.

SO-CALLED LIFE

So-called life: everything that provides material for a soap opera,

he didn’t think was worth relating,

or maybe he wanted to tell it and couldn’t.

He was surprised by the tangled tales of men and women,

stretching out to a flickering oblivion.

He himself only knew how to clench his teeth and bear it,

to wait, until old age took from the dramas their meaning,

and the soap opera of loves, hatreds, temptations

and betrayals, dropped off to sleep.

O poema pertence ao ultimo livro do poeta, THIS (2000) e foi recolhido em New and Collected Poems (1931-2001) em edição da PENGUIN, na serie Modern Classics, em 2001.

 

A vida é bela, quem precisa de Proust

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Para estes tempos de Verão, quando o remanso à beira-mar traz em balburdia as recordações, nada como este poema de Roger Wolfe (1962) para situar no lugar certo o que é na verdade importante.


ES TARDE YA EN LA NOCHE

 Es tarde ya en la noche

y la playa está desierta.

Rompe el mar

sobre las rocas.

Un aire cálido,

espeso de salitre

y de recuerdos,

me baña la cabeza.

Cierro los ojos.

Inhalo.

Me dejo llevar.

Y luego pienso,

como casi siempre

que me pasan estas cosas,

en Proust.

Pero no he leído

a Proust.

Qué importa.

La vida es bella.

Quién necesita

a Proust.

Talvez seja desnecessário acrescentar que o Proust do poema é Marcel Proust, o autor da saga em 7 volumes “Em Busca do Tempo Perdido

Arrisco agora uma tradução para o leitor a quem o castelhano seja completamente estranho:

É já tarde na noite

e a praia está deserta.

Rebenta o mar

sobre os rochedos.

Um ar cálido,

espesso de salitre

e de lembranças,

banha-me a cabeça.

Fecho os olhos.

Inalo.

Deixo-me levar.

E logo penso,

como quase sempre

que me ocorrem estas coisas,

em Proust.

Mas não li Proust.

Que importa.

A vida é bela.

Quem precisa

de Proust.

E acrescento outra tradução, desta vez de Luis Filipe Parrado publicada no nº5 da Revista Criatura em Outubro de 2010, com pequenas nuances quando a tradução literal não é possivel

Já é tarde na noite

e a praia está deserta.

Quebra-se o mar

Contra as rochas.

Um ar cálido,

espesso de salitre

e de recordações,

banha-me a cabeça.

Fecho os olhos.

Inalo.

Deixo-me levar.

E penso logo,

como quase sempre

quando me acontecem estas coisas,

em Proust.

Mas eu nunca li

Proust.

Que importa.

A vida é bela.

Quem precisa

de Proust.

Roger Wolfe (1962) nascido em Inglaterra, vive em Espanha desde os 4 anos. Com varios livros de poesia publicados, direi dela, com Luis Alberto de Cuenca, que “ à força de verdade humana, de coragem expressiva e de rigor estrutural ficou a viver para sempre na nossa memória”.

O poema foi publicado no livro MENSAJES EN BOTELLAS ROTAS em 1996 pela Editora RENACIMIENTO de Sevilha, a qual também publicou do poeta, em 2007, a preciosa antologia DÍAS SIN PAN.