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Entre as cem melhores poesias líricas portuguesas de sempre escolhidas por Carolina Michaëlis de Vasconcellos no inicio do século XX, encontra-se um ramalhete de quadras populares, das quais  escolho treze, em correspondência com a idade casadoira para a mulher nestes tempos ancestrais.

Os assuntos resumem-se a Deus e o Amor, ou religião e sexo como se preferir, e em algumas cruzam-se ambos.

Uma das quadras justifica um destaque especial pela exemplaridade como esclarece o mistério da sagrada concepção de Cristo, resolvendo-o na concisão argumentativa de quatro versos:

No ventre da virgem-mãe
Encarnou divina graça:
Entrou e saiu por ela
Como o sol pela vidraça.  

Entre os sofrimentos e alegrias do Amor encontram-se:

Quem canta, seu mal espanta;
Quem chora seu mal aumenta:
Eu canto para espalhar
A paixão que me atormenta.

Eu não quero nem brincando
Dizer adeus a ninguém:
Quem parte, leva saudades,
Quem fica, saudades tem.

Das lagrimas faço contas
Para rezar as escuras.
Oh morte que tanto tardas!
Oh vida que tanto duras!

Nesta ultima cruza-se já com o amor, a religião, que na quadra seguinte apresenta uma argumentação originalíssima:

Fui-me confessar ao Carmo,
Confessei que andava amando;
Deram-me por penitencia…
Que fosse continuando.

E dando ao assunto um carácter quase ontológico surge-nos esta outra quadra:

Tu chamas-me tua vida,
Tua alma quero eu ser,
Que a vida morre com o corpo
E a alma eterna há-de ser!

Vejamos ainda um outro aspecto, este o da condição da mulher no que ao sexo se refere:

Coitadinho do que nasce
No mundo para ser mulher:
Se é bonita, tem seu erro,
Se é feia, ninguém a quer.

Altas torres tem teu peito,
Nas mais altas já eu vi.
Não se me dá que outrem suba
Escadas que eu já desci.

Candeia de quatro bicos
Alumia aos quatro cantos:
Mal empregada a menina
Que é amada por tantos!

Temos agora o cruzamento das infidelidades sexuais, por assim dizer, com as práticas religiosas, numa pouco ortodoxa associação:

Eu amava-te, menina,
Se não fora um senão:
Seres pia de agua benta
Onde todos põem a mão.

E com esta quadra chegamos ao grupo em que a crença é abordada no seu cruzamento com o amor.

Por te amar deixei a Deus;
Vê lá que gloria perdi:
Agora vejo-me só,
Sem Deus, sem gloria, sem ti.

Já pedi a morte a Deus,
Ele disse que m’a não dava,
Que pedisse a salvação,
Que[pois] a morte certa estava.

Terminemos com chave de ouro conhecendo uma quadra que encerra de forma exemplar um conceito popular de Deus:

Embora o que Deus nos deu
Caiba numa mão fechada,
O pouco com Deus é muito,
O muito sem Deus é nada.

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