Dois poemas de Jaime Gil de Biedma

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Gosto da poesia de Jaime Gil de Biedma (1929-1990), naquele casamento entre a preocupação social e a reflexão intimista, onde o erotismo tantas vezes transborda.
Já aqui deixei do poeta, o ano passado, Pandémica e Celeste. Era Verão, as memórias assaltavam-me, e a poesia surgiu como lenitivo. Hoje não é exactamente o caso, ainda que seja Verão.
Com a economia a dominar-nos a atenção, pensei trazer-vos do poeta Apologia e Petição, poema sobre fatalidade e mau governo, dando conta das tragédias de países e povos. Serve o poema para Espanha, hoje, mas também para nós, basta ler onde está Espanha, Portugal. Mas resolvi de outro modo. No mesmo livro, Moralidades, onde este Apologia e Petição se encontra, existem entre outros, dois poemas onde o efémero do amor e a sua nostalgia se dão a ler. E foram esses que acabei por decidir transcrever.

São poemas em que a passagem do tempo sobre o amor se reflecte. Primeiro na constância, em Manhã de ontem, de hoje:

Eu penso
em como passou o tempo,
e recordo-te assim.

depois, na nostalgia do quase amor se um encontro fugaz, em Paris, postal do céu:

Era nos bons tempos da minha juventude,

e da formosa história
de quase amor.

Afinal, amor que deixou marcas:

Como sonho vivido há muito tempo,
como aquela canção
desses dias, assim volta ao coração,
num instante, numa intensidade, a história
do nosso amor,

É provável que aquela canção / desses dias fosse Les feuilles mortes, noutro poema do livro explicitamente evocada: Elegia e recordação da canção francesa, e de que aqui no blog existe a versão de Juliette Greco . De Brassens, cujas canções são referidas em Paris, postal do céu, poderá o leitor encontrar uma canção – Le Blason – aqui no blog. Mas é tempo de passar aos poemas na integra.

Manhã de ontem, de hoje

É a chuva sobre o mar.
E à janela aberta,
contemplando-a descansas
a fronte na vidraça.

Imagens de uns segundos,
quieto no contraluz,
claro, teu corpo fulge,
inda pla noite nu.

E voltas-te para mim,
a sorrir-me. Eu penso
em como passou o tempo,
e recordo-te assim.

Paris, postal do céu

Agora, vou contar-vos
como também estive em Paris, e fui ditoso.

Era nos bons tempos da minha juventude,
nos anos de abundância
do coração, quando deixar para trás os pais e a pátria
é sentir-se mais livre para sempre, e fui
no Verão, naquele Verão
da greve e das primeiras canções de Brassens,
e da formosa história
de quase amor.

Ainda vive na minha memória aquela noite,
recém-chegado. Contemplo ainda,
sob a Pont Saint Michel, pela mão, em silêncio,
a grande lua de Agosto suspensa entre as torres
de Notre Dame, e azul
de um impossível o rio tantas vezes sonhado
It’s too romantic, como tu me disseste
ao afastar os lábios.

Em que sítio perdido
do teu país, em que recanto da América do Norte
e no quarto de quem, às horas mais soturnas,
quando sonhes morrer não importa em que braços,
e chegará, tal como
agora a mim me chega, esse calor de gentes
e a luz daquele céu tão rumoroso
tranquilo, sobre o Sena?

Como sonho vivido há muito tempo,
como aquela canção
desses dias, assim volta ao coração,
num instante, numa intensidade, a história
do nosso amor,
a confundir os dias e suas noites,
os momentos felizes,
as censuras

e aquela viagem — a caminho da cama —
num vagão do Metro Étoile-Nation.

O livro Moralidades foi publicado no México em 1966, só tendo surgido em Espanha, ao que julgo, 1985 por dificuldades com a censura franquista.
As traduções são de José Bento e podem encontrar-se em Antologia Poética, 2ª edição revista e aumentada publicada por Edições Cotovia, Lisboa em 2003

Louvada seja – a Grécia de Odysséas Elytis

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Dizia há tempo alguém na televisão que desde a antiguidade clássica muita gente dormiu sobre a Grécia, e geneticamente os gregos hoje são diferentes dos gregos da antiguidade. Certamente. Mas há uma impregnação na pele em quem nasceu nos lugares repletos de historia que não se explica. Sinto-o quando na minha Tavira natal me perco nas ruelas medievais do morro de Santa Maria, ocupado em continuidade desde os Fenícios do tempo da Grécia arcaica, seguidamente por romanos, depois árabes vindos do Magrebe, judeus, e finalmente os cristãos medievais. Desta amálgama descende toda a população que por lá tem vivido.

A atmosfera do lugar, quando transmite um sentimento de pertença, constitui uma raiz sob a pele onde cada um se agarra. Não tenho dúvidas que o mesmo acontece com gregos hoje, nascidos na Grécia, em que essa ligação se fará sentir.

Agora que o mundo da economia se encontra suspenso das escolhas políticas dos gregos, trago ao blog um fragmento poético de Odysséas Elytis (1911-1995), poeta nacional grego do século XX, retirado do poema Áxion Estí (Louvada Seja).
Poema de recriação de uma tradição ancestral, recusa o metro convencional e desenvolve-se como uma escrita moderna falando do mundo que é o seu e de todos nós. O poema valeu ao autor a gloria nacional e o Prémio Nobel.
Escolho um fragmento entre tantos desejado, onde um eco especial de Trabalhos e Dias de Hesíodo se ouve, e com ele talvez convença algum leitor a procurar o poema na sua totalidade.

Mas antes de ouvir vento ou música
ao pôr-me a caminho para o ar livre

(eu subia uma areia vermelha sem fim
com o calcanhar apagando a História)

lutava com os lençóis Aquilo que procurava era
inocente e trémulo como a vinha
e fundo e sem marcas como a outra face do céu

Uma pouca de alma dentro da argila

Então falou e fez-se o mar
E eu vi e maravilhei-me

E nele semeou pequenos mundos à minha imagem e semelhança

Cavalos de pedra de crina erecta
e sossegadas ânforas
e colunas de golfinhos oblíquas

Íos Sikinos Séfiros Mílos

“Cada palavra com sua andorinha
para te trazer a Primavera no Verão” disse
E muitas oliveiras

pra que peneirem com as mãos a luz
e esta leve se derrame sobre o teu sono

e muitas as cigarras

para que não as sintas
tal como não sentes o pulso no teu punho

mas pouca água

para que a tenhas por divina e entendas o que significa a sua fala

e a árvore só consigo

sem rebanho
para que a faças amiga
e conheças o seu verdadeiro nome

rala sob os teus pés a terra

para que não tenhas onde alargar raízes
e não pares de buscar um pouco de fundo

e vasto por cima o céu

para que por ti sózinho leias a infinidade

ESTE
o mundo, o pequeno, o grande!

Noticia bibliográfica

O poema LOUVADA SEJA (ÁXION ESTÍ) foi publicado em tradução e posfácio de Manuel Resende, por Assírio & Alvim em 2004, de onde retirei o fragmento transcrito.

Nota final

Enquanto escrevia este texto ouvia em fundo o Concerto de Atenas de Charles Lloyd e Maria Farantouri, gravado ao vivo em Junho de 2010 e editado em cd por ECM.
Leitor curioso que tenha possibilidade, não deixe de ouvir deste concerto, no cd1, o Hino à Santíssima Trindade, peça do século III, bizantina e de ancestrais raízes helénicas, cantada na voz misteriosa de Maria Farantouri, a que o saxofone de Charles Lloyd acrescenta uma atmosfera de sonho e encanto. Ainda que todo o concerto seja uma pérola única e valha cada minuto da sua audição, esta peça é especial.

 

O poeta salvo pelo amor – 6 sonetos de Bocage

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De Bocage, contemporâneo de Goethe de quem deixei antes o livro do amor, chegam hoje alguns sonetos escritos na graça peculiar da poesia arcádica, dando conta dos transtornos da paixão.
Sonetos onde a música do verso e a exemplaridade da construção estrófica se sobrepõem à estranheza para os nosso ouvidos do século XXI, desta particular forma de dizer.

De suspirar em vão já fatigado, o poeta sonha que a morte o visita. Mas não será aí o fim do poeta.

Ao ver a morte erguer Curva foice no punho descarnado, enquanto lhe dizia:

Eu venho terminar tua agonia: / Morre, não penes mais, ó desgraçado.

surge o deus Amor, e imperioso ordena à Morte:

Emprega noutro objecto os teus rigores,
Que esta vida infeliz está guardada
Para vitima só de meus furores.

Para aqui chegarmos, vamos primeiro acompanhar o poeta na descoberta do amor,

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

e no desejo da sua consumação:

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

(e já noutro dia, com o poema de Parny, vimos o que nesta poesia do século XVIII significa Destas copadas árvores o abrigo.)

Enquanto espera, consome-se nas ânsias loucas da paixão:

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.

Leremos do sofrimento sem esperança a que o amor conduz, fazendo o sofredor apenas desejar a morte:

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

para que no final, salvo dela pelo deus Amor, possamos participar da ansiedade com que aguarda a consumação sexual da sua paixão.

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz: longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores
Hei-de, enfim, possuir; porém segredo.

Durante a espera pede segredo aos ventos, Zéfiros, para que não levem a Júpiter o eco dos frouxos ais, brandos queixumes ouvidos durante o sexo, pois Júpiter, com a sua reputação de come tudo, irá querer reservar para si o banquete do amor de Nise:

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Nao leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o Pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.

Nos sonetos temos Marília, Nise, Jónia, nomes convencionais para uma mesma ou varias paixões. É irrelevante. São poesias desligadas de destinatário, onde apenas a forma de dar corpo ao sentimento conta. E esse, no século XVIII como agora, é o mesmo. Tal como é a mesma, a forma de o viver. Apenas como o exprimimos mudou.

Vamos então aos poemas que já é tempo.

I

Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu Fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!

Ó ledos olhos, cuja luz parece
Ténue raio do Sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vénus? É mentira:
Sois de Marília, sois dos meus Amores.

II

Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores,
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste.

Varrendo os ares o subtil Nordeste,
Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!

III

Enquanto o Sábio arreiga o pensamento
Nos fenómenos teus, ó Natureza,
Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
Volve o subtil geométrico instrumento;

Enquanto alçando a mais o entendimento,
Estuda os vastos céus, e com certeza
Reconhece dos astros a grandeza,
A distância, o lugar, e o movimento;

Enquanto o Sábio, enfim, mas sabiamente
Se remonta nas asas do sentido
À corte do Senhor omnipotente;

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.

IV

Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a Noite escura e feia:
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas costumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

V

De suspirar em vão já fatigado,
Dando tréguas a meus males, eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
Da Morte o gesto lívido e mirrado.

Curva foice no punho descarnado
Sustentava a cruel e me dizia:
“Eu venho terminar tua agonia:
Morre, não penes mais, ó desgraçado.”

Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada,
Que armado de cruentos passadores
Aparece, e lhe diz com voz irada:

“Emprega noutro objecto os teus rigores,
Que esta vida infeliz está guardada
Para vitima só de meus furores.”

VI

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz: longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores
Hei-de, enfim, possuir; porém segredo.

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Nao leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o Pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.

Urban Views – fotografias

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Tão longo silêncio no blog deveu-se à preparação do livro de fotografias URBAN VIEWS que acabei de publicar em versão iBook para iPad e iPhone e em impressão a pedido em grande formato de 30×30 cm através do site bulrb.com.

Deixo o link para os leitores que tiverem curiosidade de o folhear.

LINK para URBAN VIEWS

Por algum tempo o livro ficará disponível para visualização integral no site do editor.

O humano olhar de Henri Cartier-Bresson

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Olhar cada fotografia de Henri Cartier-Bresson (1908-2004) devolve-me de forma quase pungente, a irremediável passagem do tempo. Vi-as jovem adulto na excitação surpresa da descoberta de uma linguagem fotográfica desconhecida. Vejo-as de novo e meço a distância a que aqueles mundos fotografados estão do hoje; ou não!
No cerca de meio século que durou o seu fotografar, a partir do inicio dos anos 30 do século XX, pelo mundo houve guerras, houve paz, houve miséria e abundância, e existiram sobretudo sonhos, hoje desfeitos e entalados numa espécie de eterno retorno do animal que há em nós.
São frágeis as aquisições culturais, ainda que o homem só o seja no quadro de uma cultura que lhe dê o sentido do viver com os outros. E é esta aproximação ao sentido de viver com os outros que encontro nas fotografias de Henri Cartier-Bresson.
Nunca é o anedótico que fala. Sendo todas e cada uma das suas fotos conhecidas, instantâneos peculiares onde a surpresa ao olhar se conserva, mesmo depois de observadas dezenas de vezes, é nesse tempo suspenso cada vez mais longe de nós que a reflexão se detém. Outros terão falado da composição plástica de cada imagem, do equilíbrio dos volumes no rectângulo fotografado, na forma como o jogo de sombras no quadro urbano contribui para a atmosfera da cena, e tudo isso é verdade, e uma lição permanentemente disponível para quem fotografa. Mas o que faz delas as obras-primas para lá da técnica, é o olhar sobre o humano. A gente que nelas nos surge, dos duques de Windsor ao deserdado do mundo, fazendo de todos semelhantes entre si, na exposição de um olhar, de uma atitude, de um estar que é afinal uma forma de ser. E ao vê-las instala-se em nós a sensação de que passámos a conhecer aquelas pessoas. São sempre pessoas, nunca são gente.
Deixo-vos com uma curta escolha.

Do banho como fonte de pecado: Leandro de Sevilha (537-600)

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Escreveu o Bispo Leandro de Sevilha (537-600) o livro “A instrução das virgens” para oferecer a sua irmã Florentina quando esta entrou como monja para um convento.

Vasto acervo de ensinamentos a transmitir por um homem conhecedor do mundo a uma jovem mulher prestes a ser entregue à contemplação do Todo-poderoso, nele respigo um aspecto que hoje talvez passe desapercebido, mas foi matéria de controvérsia por séculos: o banho ou antes, o prazer do próprio corpo decorrente da caricia do banho. São estas, considerações sobre o banho privado, e para sentirem como o bispo tinha provavelmente razão, o artigo vai ilustrado com 2 pinturas da Escola de Fontainebleau de entre o final do século XV e principio do século XVI, quando estas coisas já podiam se pintadas para gáudio e contemplação real.

Vamos então às considerações bispais:

Não te hás-de banhar por gosto ou para dar formosura ao corpo, senão apenas como remédio para a saúde. Quer dizer, usarás o banho quando a doença o exija, não quando o prazer o apeteça. Se o tomas quando não seja preciso, pecarás, pois está escrito: Não ponhais a vossa solicitude na concupiscência da carne.

A solicitude carnal que provém da concupiscência conceptua-se como vicio; não, por outro lado, os cuidados necessários para restabelecer a saúde. Por tal motivo, que não te arraste a banhar-te com frequência o prazer corporal, senão somente as exigências da enfermidade, e estarás livre de culpa se unicamente actuares por imperativo da necessidade.

(solicitude é aqui empregue no sentido de “afã ou diligencia em tratar ou conseguir algum fim”, de acordo com o Dicionário De Morais)

Sabeis agora, vós, leitor, que não te arraste a banhar-te com frequência o prazer corporal, e provavelmente é o que acontece com alguns nossos contemporâneos a ajuizar pela atmosfera em hora de ponta no metro ou em certas carreiras de autocarros.

No entanto, os conselhos do bispo não devem ter tido generalizada aplicação, ainda que o espectro do pecado lá estivesse, e o prazer do banho terá continuado a desfrutar-se, falam-nos dele as pinturas aqui mostradas.

Para final de conversa deixo o leitor com a contemplação do visível prazer do banho captado por Cartier-Bresson algures nos anos 30 ou 40.

Ovídio — tarde de amores

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Sabe quem a pratica, do gozo, do aconchego da sesta. De toda a volúpia que o principio da tarde desvela após refeição prazenteira. Um peixe grelhado, um vinho, suculenta fruta em remate, e depois o leito.

E aperto-a contra mim… Que sucedeu depois?
Fatigados, por fim, repousámos os dois…

São segredos que as terras quentes conhecem desde a mais remota antiguidade, sobremaneira apetecidos nestas escaldantes tardes de verão. É a essa antiguidade que hoje vou buscar um relato poético de Ovídio (43 a.C – 17 d.C. ) dando conta dos prazeres de uma dessas tardes de prazer, e com o poeta comungo:

Que sempre se repita, em todos os meus dias,
um meio-dia igual a este meio-dia!

Eis a bela tradução de David Mourão-Ferreira (1927-1996)

Era intenso o calor. Do meio-dia passava.
Deitei-me sobre a cama a ver se repousava…
Na cerrada janela apenas uma fresta
permitia filtrar-se uma luz de floresta;
ou, antes, uma luz que mais par’cia irmã
da que antecede a noite ou precede a manhã…
É a luz que convém à jovem reservada,
para que em seu pudor não fique perturbada.

Eis que chega Corina, a túnica cingida,
sobre o pescoço branco uma trança caída…
(Semirámis? Laís? Dir-se-ia uma delas…
Só pode comparar-se às que foram mais belas!)
A túnica lhe arranco, embora de tão leve
nem sequer me constranja o tecido que a veste.
Tenta ainda lutar a fim de se cobrir,
mas o que mais deseja é deixar-se despir…
E quando fica, enfim, de pé, sem nenhum véu,
nem um defeito só vejo no corpo seu!
Oh, que ombros divinais! Oh, que braços divinos!
Que ventre tão perfeito! E que peitos erguidos!
Coxas tão juvenis! Ancas? Bem mais maduras…
Pra quê enumerar, se toda é formosura?
E aperto-a contra mim… Que sucedeu depois?
Fatigados, por fim, repousámos os dois…

Que sempre se repita, em todos os meus dias,
um meio-dia igual a este meio-dia!

Amores, Livro I, 5

Foi ao pintor da gente feliz, Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), que fui buscar a ilustração para esta bela memória poética.

Versos de Parny e tradução portuguesa de E.A. Vidal

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Chegados os dias de verão como o que hoje nos assaltou, surge uma irresistível vontade de correr para os parques e namorar à sombra das árvores.

Hoje, a vida urbana, os hábitos e a gente em redor, tudo está longe do que acontecia séculos passados. Apesar disso, desses tempos remotos chegam-nos por vezes relatos em que uma frescura quase nossa contemporânea se conserva. É o caso do poema que hoje vos trago, na versão original francesa do último quartel do século XVIII e a sua tradução/adaptação portuguesa de meados do século XIX.

Dá ele conta da inscrição numa árvore de um momento de felicidade irrepetível (?) e afinal, é ainda uma prática usual nos nossos dias.

VERSOS

Entalhados numa laranjeira
(Trad. de Parny)

Laranjeira que encobriste

Os meus êxtases d’amor,

Guarda em ti sempre estes versos:

São de ternura um penhor.

 

E dize aos que a tua sombra

Buscarem na primavera,

Que, se o júbilo matasse,

Há muito que eu já morrera!

Agosto de [18]64
 

O poema traduz, com adaptação, uma das POÉSIES ÉROTIQUES do Chevalier de Parny, publicadas em 1778 tinha o autor 25 anos.

A tradução, respeitando no espírito o original, muda a árvore de murta para laranjeira. No entanto, os dois últimos versos estão consideravelmente atenuados em relação ao original:

Que si l’on mouroit de plaisir, / Se de prazer se morresse,
Je serois mort sous ton ombrage. / À tua sombra eu já morrera.

Mas veja-se o poema original:

VERS GRAVÉS SUR UN MYRTE.

Myrte heureux, dont la voûte épaisse

Servit de voile à nos amours,

Reçois et conserve toujours

Ces vers enfans de ma tendresse;

Et dis à ceux qu’un doux loisir

Amènera dans ce bocage

Que si l’on mouroit de plaisir,

Je serois mort sous ton ombrage.

Como curiosidade refiro que, mais à frente no livro POÉSIES ÉROTIQUES, o poeta num outro poema apaga as inscrições na árvore, pois afinal “o tempo desuniu os corações que a casca da árvore ainda unia”.

A versão portuguesa do poema é de E. A. Vidal, na verdade Eduardo Augusto Vidal (1841-1907) e escreveu-a quando moço nos 23 anos.

Apresentado à sociedade e ao mundo por Bulhão Pato nas páginas da Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, Eduardo Augusto Vidal, que assina E. A. Vidal, aí deixou alguns poemas e prosas, das quais a segunda e terceira das Cartas Obscuras são um prodígio de graça, sobre o casamento de um Sr. Esperidião.

Este nosso poeta editou poesia em livro, Harmonias da Madrugada (1859), Folhas Soltas (1865) e Cantos do Estio (1868) de onde retirei o poema transcrito. A um talvez sucesso de estima seguiu-se um provavelmente merecido repouso de esquecimento que agora perturbei para trazer aos leitores do blog esta sua poesia.

 Sobre o autor do poema original, Chevalier Evariste de Forges de Parny  (1753-1814) hoje pouco se sabe e lê, ainda que tenha sido provavelmente popular entre os românticos portugueses, pela presença aqui e ali nas obras dos nossos poetas, de versões de poemas seus.

Deixo-vos com mais um poema de Parny, O Dia Seguinte, recolhido no mesmo conjunto de poesias eróticas, acompanhado de uma versão literal para os leitores não familiarizados com a lingua francesa.

Trata o poema do dia seguinte à estreia nos prazeres do sexo da nossa já conhecida Leonor, a qual, como seria de norma, ao doce remorso do “encantador pecado” acrescenta o desejo de a ele voltar.

Le Lendemain /O Dia Seguinte

Enfin, ma chère Eléonore, / “Enfim, querida Leonor,

Tu l’as connu ce péché si charmant. / Conheceste-o, este encantador pecado.

Que tu craignais même en le désirant : / Que temias mesmo ao desejá-lo:

En le goûtant, tu le craignais encore. / Tendo-o saboreado, ainda o temes.

Eh bien, dis-moi, qu’a-t-il de si effrayant? / Pois bem, diz-me, que tem de tão assustador?

Que laisse-t-il après lui dans ton âme? / Que te fica na alma depois dele?

Un léger trouble, un tendre souvenir, / Uma ligeira turbação, uma terna lembrança,

L’étonnement de sa nouvelle flamme, / A surpresa da sua nova chama,

Un doux regret, et surtout un désir. ” / Um doce remorso, e sobretudo un desejo


da fermosa benfeitoria (rimas obscenas) – livro e e-book

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É com entusiasmo que vos falo da estreia em livro do meu heterónimo, Carlos Mendonça Lopes, com este da fermosa benfeitoria (rimas obscenas).

Somos da mesma idade embora ele insista em parecer mais novo. Quando me falou da ideia de publicar este livro, pensei: que falta de senso! Apesar de me parecer bom rapaz, tem às vezes pancada. E esta de insistir em publicar rimas obscenas, não lembrava ao diabo. Espero bem que brevemente dê a lume coisa mais séria. Mas o que segue é que, para lá do que está escrito no livro, e haverá quem goste e quem deteste (é a vida!), o livro ficou muito bonito. É também opinião de quem já o viu.
Deu-se ao trabalho de apresentar estas rimas seguindo o exemplo de Camilo Castelo Branco na abertura do livro Nostalgias, com um aviso aos distraídos:

Parafraseando Camilo Castelo Branco no seu Nostalgias (Ultima Prosa Rimada)  direi que estas rimas obscenas, a que não chamarei “poesias”, para não desflorar as virginais transcendencias da Grande Arte…   foram escritas como exercícios de desenfado ao correr dos anos, sem qualquer pretexto directo. As afinidades identificadas tornaram-se evidentes a posteriori, e dão conta de um demorado convívio com a poesia erótica do cânone ocidental.

Mas afinal de que trata o livro? perguntará o leitor cheio de curiosidade. Eis o assunto:

Num diálogo com alguma herança poética europeia entre a antiguidade clássica e o século XIX, e tomando o sexo por assunto, da fermosa benfeitoria  (rimas obscenas), ilustrado  com a reprodução de 16 pinturas da erótica japonesa de oitocentos, reúne  rimas originais de sabor popular, ecoando o mito do pintor  e  modelo  forjado  no século  XIX,  a poesia erótica  de Paul Verlaine,  os contos libertinos de La Fontaine,  a poesia de Catulo  e  Ovídio,  e os  poetas  Bocage  e  Junqueiro. Termina  com uma epifania decorrente da religião. No final as evocações poéticas são convenientemente dilucidadas.

Justifica-se o homem, para publicar este livro, ter aprendido com uma ex-namorada que o sexo deve ser matéria de conversação social. Ora aí tem leitor(a): Quando numa conversa de amigo(s) o leitor(a) puxa do seu iPhone ou iPad e começa a mostrar o livro, as imagens, as rimas, ou então, na sala, tira o livro da estante e o folheia, já está! A conversa instala-se e vai por aí adiante. O limite é o céu.

Aproveite e não se arrependerá, corra a comprá-lo. Encontra-o à venda fazendo click com o rato sobre o nome do livro ao longo do texto, ou aqui.

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A compra é simples. Segue as instruções do site, e abre a versão e-book do livro no iTunes em qualquer dos seus computadores, ou em iBook nos iPad e iPhone.

Ao abrir, começa a folhear e esquece-se do tempo. Serão horas de prazer de ver e ler. É, leitor(a), garanto-lhe, um livro de que não se irá cansar. A ele voltará uma e outra vez, a propósito ou sem propósito, apenas para desenfado em momento de tédio, ou em repouso de actividades mais intensas. Será o dinheiro mais bem gasto em livro electrónico que lhe aconteceu. Pretexto para conversa, assunto para diversão em grupo, as ocasiões para o usar e falar dele surgirão a cada passo. Vá por mim, e não se arrependerá. E isto enquanto espera pela luxuosa versão em papel de qualidade fotográfica, encadernado a tecido preto com sobrecapa a cores, que fará um sucesso na sua sala ou no seu quarto, e que também comprou, aqui.

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Quer ter uma ideia do livro? Ora veja:

Visualização parcial do livro da fermosa benfeitoria (rimas obscenas)

E se gostou do que viu,  partilhe com quem conhecer. Verá que lhe vão agradecer.

A ilustrações do livro são a reprodução de 16 pinturas eróticas japonesas sobre seda, do século XIX, de minha colecção, e que o poeta pediu de empréstimo para acompanhar as suas rimas. Três ou quatro delas já apareceram no blog e dão agora a volta ao mundo. As outras vêem pela primeira vez a luz da publicidade, no livro.

Peculiares retratos reais dos séc. XV e XVI

É conhecida dos leitores habituais do blog a minha paixão pela pintura de retrato. Na possibilidade de olhar o outro que a pintura de retrato proporciona, encontro o prazer de inventar para os retratados personalidades, gostos e maneiras de ser, que sendo sem correspondência com os observados, dão às pinturas uma vida que outros assuntos não permitem.

Há semanas chegaram ao blog retratos de algumas beldades do século XV. Do que cada retrato me inspirou não contei. Deixei a cada visitante o prazer desse exercício. Prometi regressar com as feias. Eis algumas.

Mulheres poderosas no seu tempo, talvez tenham sido belas, mas os retratos que delas nos chegaram não o deixam perceber. Imaginai, no entanto, leitor, como seria despertar pela manhã e encontrar na almofada ao lado semelhantes rostos. O resto vai por aí.

Para as leitoras, qualquer que seja a beleza do seu rosto, o espelho da realidade parece não trazer limites e permitir que quando perguntado: Há mulher mais feia que eu? O espelho responda sempre: Sim!

Eis a pintura que o comprova.

Nota sobre as pinturas

Como é habitual, os nomes dos ficheiros identificam as retratadas, basta passar o cursor sobre a pintura e o nome surge.

As imagens podem ser vistas ampliadas fazendo click sobre cada uma.