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Gosto da poesia de Jaime Gil de Biedma (1929-1990), naquele casamento entre a preocupação social e a reflexão intimista, onde o erotismo tantas vezes transborda.
Já aqui deixei do poeta, o ano passado, Pandémica e Celeste. Era Verão, as memórias assaltavam-me, e a poesia surgiu como lenitivo. Hoje não é exactamente o caso, ainda que seja Verão.
Com a economia a dominar-nos a atenção, pensei trazer-vos do poeta Apologia e Petição, poema sobre fatalidade e mau governo, dando conta das tragédias de países e povos. Serve o poema para Espanha, hoje, mas também para nós, basta ler onde está Espanha, Portugal. Mas resolvi de outro modo. No mesmo livro, Moralidades, onde este Apologia e Petição se encontra, existem entre outros, dois poemas onde o efémero do amor e a sua nostalgia se dão a ler. E foram esses que acabei por decidir transcrever.

São poemas em que a passagem do tempo sobre o amor se reflecte. Primeiro na constância, em Manhã de ontem, de hoje:

Eu penso
em como passou o tempo,
e recordo-te assim.

depois, na nostalgia do quase amor se um encontro fugaz, em Paris, postal do céu:

Era nos bons tempos da minha juventude,

e da formosa história
de quase amor.

Afinal, amor que deixou marcas:

Como sonho vivido há muito tempo,
como aquela canção
desses dias, assim volta ao coração,
num instante, numa intensidade, a história
do nosso amor,

É provável que aquela canção / desses dias fosse Les feuilles mortes, noutro poema do livro explicitamente evocada: Elegia e recordação da canção francesa, e de que aqui no blog existe a versão de Juliette Greco . De Brassens, cujas canções são referidas em Paris, postal do céu, poderá o leitor encontrar uma canção – Le Blason – aqui no blog. Mas é tempo de passar aos poemas na integra.

Manhã de ontem, de hoje

É a chuva sobre o mar.
E à janela aberta,
contemplando-a descansas
a fronte na vidraça.

Imagens de uns segundos,
quieto no contraluz,
claro, teu corpo fulge,
inda pla noite nu.

E voltas-te para mim,
a sorrir-me. Eu penso
em como passou o tempo,
e recordo-te assim.

Paris, postal do céu

Agora, vou contar-vos
como também estive em Paris, e fui ditoso.

Era nos bons tempos da minha juventude,
nos anos de abundância
do coração, quando deixar para trás os pais e a pátria
é sentir-se mais livre para sempre, e fui
no Verão, naquele Verão
da greve e das primeiras canções de Brassens,
e da formosa história
de quase amor.

Ainda vive na minha memória aquela noite,
recém-chegado. Contemplo ainda,
sob a Pont Saint Michel, pela mão, em silêncio,
a grande lua de Agosto suspensa entre as torres
de Notre Dame, e azul
de um impossível o rio tantas vezes sonhado
It’s too romantic, como tu me disseste
ao afastar os lábios.

Em que sítio perdido
do teu país, em que recanto da América do Norte
e no quarto de quem, às horas mais soturnas,
quando sonhes morrer não importa em que braços,
e chegará, tal como
agora a mim me chega, esse calor de gentes
e a luz daquele céu tão rumoroso
tranquilo, sobre o Sena?

Como sonho vivido há muito tempo,
como aquela canção
desses dias, assim volta ao coração,
num instante, numa intensidade, a história
do nosso amor,
a confundir os dias e suas noites,
os momentos felizes,
as censuras

e aquela viagem — a caminho da cama —
num vagão do Metro Étoile-Nation.

O livro Moralidades foi publicado no México em 1966, só tendo surgido em Espanha, ao que julgo, 1985 por dificuldades com a censura franquista.
As traduções são de José Bento e podem encontrar-se em Antologia Poética, 2ª edição revista e aumentada publicada por Edições Cotovia, Lisboa em 2003

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