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Dizia há tempo alguém na televisão que desde a antiguidade clássica muita gente dormiu sobre a Grécia, e geneticamente os gregos hoje são diferentes dos gregos da antiguidade. Certamente. Mas há uma impregnação na pele em quem nasceu nos lugares repletos de historia que não se explica. Sinto-o quando na minha Tavira natal me perco nas ruelas medievais do morro de Santa Maria, ocupado em continuidade desde os Fenícios do tempo da Grécia arcaica, seguidamente por romanos, depois árabes vindos do Magrebe, judeus, e finalmente os cristãos medievais. Desta amálgama descende toda a população que por lá tem vivido.

A atmosfera do lugar, quando transmite um sentimento de pertença, constitui uma raiz sob a pele onde cada um se agarra. Não tenho dúvidas que o mesmo acontece com gregos hoje, nascidos na Grécia, em que essa ligação se fará sentir.

Agora que o mundo da economia se encontra suspenso das escolhas políticas dos gregos, trago ao blog um fragmento poético de Odysséas Elytis (1911-1995), poeta nacional grego do século XX, retirado do poema Áxion Estí (Louvada Seja).
Poema de recriação de uma tradição ancestral, recusa o metro convencional e desenvolve-se como uma escrita moderna falando do mundo que é o seu e de todos nós. O poema valeu ao autor a gloria nacional e o Prémio Nobel.
Escolho um fragmento entre tantos desejado, onde um eco especial de Trabalhos e Dias de Hesíodo se ouve, e com ele talvez convença algum leitor a procurar o poema na sua totalidade.

Mas antes de ouvir vento ou música
ao pôr-me a caminho para o ar livre

(eu subia uma areia vermelha sem fim
com o calcanhar apagando a História)

lutava com os lençóis Aquilo que procurava era
inocente e trémulo como a vinha
e fundo e sem marcas como a outra face do céu

Uma pouca de alma dentro da argila

Então falou e fez-se o mar
E eu vi e maravilhei-me

E nele semeou pequenos mundos à minha imagem e semelhança

Cavalos de pedra de crina erecta
e sossegadas ânforas
e colunas de golfinhos oblíquas

Íos Sikinos Séfiros Mílos

“Cada palavra com sua andorinha
para te trazer a Primavera no Verão” disse
E muitas oliveiras

pra que peneirem com as mãos a luz
e esta leve se derrame sobre o teu sono

e muitas as cigarras

para que não as sintas
tal como não sentes o pulso no teu punho

mas pouca água

para que a tenhas por divina e entendas o que significa a sua fala

e a árvore só consigo

sem rebanho
para que a faças amiga
e conheças o seu verdadeiro nome

rala sob os teus pés a terra

para que não tenhas onde alargar raízes
e não pares de buscar um pouco de fundo

e vasto por cima o céu

para que por ti sózinho leias a infinidade

ESTE
o mundo, o pequeno, o grande!

Noticia bibliográfica

O poema LOUVADA SEJA (ÁXION ESTÍ) foi publicado em tradução e posfácio de Manuel Resende, por Assírio & Alvim em 2004, de onde retirei o fragmento transcrito.

Nota final

Enquanto escrevia este texto ouvia em fundo o Concerto de Atenas de Charles Lloyd e Maria Farantouri, gravado ao vivo em Junho de 2010 e editado em cd por ECM.
Leitor curioso que tenha possibilidade, não deixe de ouvir deste concerto, no cd1, o Hino à Santíssima Trindade, peça do século III, bizantina e de ancestrais raízes helénicas, cantada na voz misteriosa de Maria Farantouri, a que o saxofone de Charles Lloyd acrescenta uma atmosfera de sonho e encanto. Ainda que todo o concerto seja uma pérola única e valha cada minuto da sua audição, esta peça é especial.

 

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