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Olhar cada fotografia de Henri Cartier-Bresson (1908-2004) devolve-me de forma quase pungente, a irremediável passagem do tempo. Vi-as jovem adulto na excitação surpresa da descoberta de uma linguagem fotográfica desconhecida. Vejo-as de novo e meço a distância a que aqueles mundos fotografados estão do hoje; ou não!
No cerca de meio século que durou o seu fotografar, a partir do inicio dos anos 30 do século XX, pelo mundo houve guerras, houve paz, houve miséria e abundância, e existiram sobretudo sonhos, hoje desfeitos e entalados numa espécie de eterno retorno do animal que há em nós.
São frágeis as aquisições culturais, ainda que o homem só o seja no quadro de uma cultura que lhe dê o sentido do viver com os outros. E é esta aproximação ao sentido de viver com os outros que encontro nas fotografias de Henri Cartier-Bresson.
Nunca é o anedótico que fala. Sendo todas e cada uma das suas fotos conhecidas, instantâneos peculiares onde a surpresa ao olhar se conserva, mesmo depois de observadas dezenas de vezes, é nesse tempo suspenso cada vez mais longe de nós que a reflexão se detém. Outros terão falado da composição plástica de cada imagem, do equilíbrio dos volumes no rectângulo fotografado, na forma como o jogo de sombras no quadro urbano contribui para a atmosfera da cena, e tudo isso é verdade, e uma lição permanentemente disponível para quem fotografa. Mas o que faz delas as obras-primas para lá da técnica, é o olhar sobre o humano. A gente que nelas nos surge, dos duques de Windsor ao deserdado do mundo, fazendo de todos semelhantes entre si, na exposição de um olhar, de uma atitude, de um estar que é afinal uma forma de ser. E ao vê-las instala-se em nós a sensação de que passámos a conhecer aquelas pessoas. São sempre pessoas, nunca são gente.
Deixo-vos com uma curta escolha.

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