Glosa de Sophia a um poema de Pessoa

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Torso de Dorífero de Policleto de Argos

Nos primeiros meses de vida do blog, há cerca de três anos, publiquei no artigo De vez em quando, PESSOA. Hoje, DÁ A SURPRESA DE SER, um poema menos conhecido do poeta. Venho agora com uma Glosa de Sophia de Mello Breyner Andressen (1919-2004) a esse mesmo poema, escrita em 1968(?).

Sophia segue quase estrofe a estrofe o poema de Pessoa mas desta vez o objecto da admiração é um homem e não uma mulher como em Pessoa.

O erotismo que ressoa em ambos os poemas, ainda que em Sophia de forma ténue, é pouco frequente na obra destes poetas, mas na poesia de Sophia, no seu apreço pelo belo consubstanciado na arte grega antiga, ele implicitamente surge.

 

 

GLOSA

Dá a surpresa de ser

É alto de um loiro escuro

Faz bem só pensar em ver

Seu gesto firme e seguro

 

Tem qualquer coisa de mastro

Tem qualquer coisa de sol

Saber que existe sossega

Como no mar o farol

 

Há qualquer coisa de rude

Em sua beleza extrema

Como saber a crueza

Que há no dentro do poema

 

Tem qualquer coisa de limpo

Apetece como o sal

Espanta que seja real

Sua perfeição de Olimpo

 

Há qualquer coisa de toiro

Na largura dos seus ombros

Navegam brilhos e assombros

No obscuro do seu loiro

1968(?)

 

O poema Glosa foi publicado pela primeira vez em Ilhas (1989) e transcrito de Obra Poética, Editorial Caminho, Lisboa, 2001.

 

De vez em quando, PESSOA. Hoje, DÁ A SURPRESA DE SER.

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A pretexto do poema Glosa de Sophia de Mello Breyner Andressen que vem no artigo seguinte, republico este artigo onde no final se encontra o poema de Fernando Pessoa glosado por Sophia nesse seu poema.

HOJE QUE A TARDE É CALMA e o céu tranquilo,

E a noite chega sem que eu saiba bem,

Quero considerar-me e ver aquilo

Que sou, e o que sou o que é que tem.

Leio o poeta em mim:

Como alguém distraído na viagem, / Segui por dois caminhos par a par. / Fui com o mundo parte da paisagem; / Comigo fui sem ver nem recordar.

Retomo o poema:

Olho por todo o meu passado e vejo / Que fui quem foi aquilo em torno meu, / Salvo o que o vago e incógnito desejo / De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Chegados aqui, onde hoje estou, conheço / Que sou diverso no que informe estou. / No meu próprio caminho me atravesso. / Não conheço quem fui no que hoje sou.

De novo constato: não gosto da poesia de Fernando Pessoa. Não gosto no sentido em que me deleito com a lírica de Camões. No entanto, a poesia de Pessoa tem-me revelado mais sobre mim que provavelmente qualquer outra escrita.

AQUI, NESTE SOSSEGO e apartamento, / Nesta quieta solidão sem fim, / Sem cuidado ou tormento / Que ocupe este momento, / Da vida e mundo volto-me p’ra mim.

 

Tão breve sombra do que pude ser / Me encontro, tão perdida semelhança / Com minha vida por acontecer, …

Interrompo o poema aqui. Esta leitura incomoda-me. Mas volto sempre lá, privilégio tão só da arte, continuar irresistível. Mas não transforma a leitura num prazer. Daí definitivamente afirmar “não gosto da poesia de Fernando Pessoa” sabendo que sem ela, eu, provavelmente, seria outra pessoa.

Nos meus vinte anos, ortónimo e heterónimos foram, durante quase um ano, minha leitura de cabeceira. Pegava-lhes, lia um pouco e largava incomodado. No dia seguinte não resistia e voltava a eles. Hoje:


CONVERSO ÀS VEZES comigo / E esse diálogo a sós / Com o impossivel amigo / Que sonha cada um de nós,

 

Vai de clareira em abrigo / Ouvido, visto, veloz / Das expressões que consigo / Das sombras a que dá voz.

 

E a perfeita consonância / De quem fala com quem ouve / Aquece a lume de infância /

A casa em que ainda chove, / E eu durmo a alada distância / Da conversa que não houve.

Mas engana-se quem suponha que tanto o poeta como eu apenas olhamos para o umbigo. De mim calo por pudor, mas ao poeta, faminto do relevo tapado,  Ó fome, quando é que eu como?, veja-se como o deixou aquela loura nos idos de Setembro de 1930:


 

DÁ A SURPRESA DE SER

É alta, de um louro escuro.

Faz bem só pensar em ver

Seu corpo meio maduro.


Seus seios altos parecem

(Se ela estivesse deitada)

Dois montinhos que amanhecem

Sem ter que haver madrugada.


E a mão do seu braço branco

Assenta em palmo espalhado

Sobre a Saliência do flanco

Do seu relevo tapado.


Apetece como um barco.

Tem qualquer coisa de gomo.

Meu Deus, quando é que eu embarco?

Ó fome, quando é que eu como?

Não sei se o poeta comeu, mas aquele pobre moço, de quem a seguir conto a história, não comeu, apenas sonhou, e vejam o que aconteceu:

Fodê-la era o seu sonho recorrente.

Extasiado,

pensava na maravilha

de poder ainda um dia

gozar tamanha ventura.

E assim, mal acordava

voltava a dormir sorrindo

envolto na fantasia

de sonhar a alegria

que em vida nunca teria.

Em vão a fome e a sede

o chamaram à razão.

Morreu abraçado ao sonho

num sossego de ilusão.

Despeço-me com a convicção que sonhos destes valem a morte que trazem.

Noticia bibliográfica:

Os poemas transcritos foram publicados pela 1ªvez nas edições seguintes:

AQUI, NESTE SOSSEGO e apartamento (15-5-1923) – Poemas de Fernando Pessoa, tomo III 1921-1930, edição crítica, vol I, IN-CM, 2001 (transcrição parcial)

CONVERSO ÀS VEZES COMIGO(25.11-1924)  – Poemas de Fernando Pessoa, tomo III 1921-1930, edição crítica, vol I, IN-CM, 2001

DÁ A SURPRESA DE SER (10-9-1930) – Poesias, 1942

HOJE QUE A TARDE É CALMA(1-8-1931)  – Revista de Portugal nº4, 1938 (transcrição parcial)

As transcrições foram efectuadas da edição em 3 volumes da Poesia de Fernando Pessoa publicada pela Assírio & Alvim e preparada por Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine.

O resto do texto, o crime, é de minha responsabilidade.

Dia de anos — reflexão poética de João de Deus

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Erich LedererSão habitualmente datas de júbilo os dias de aniversário de amigos. Em poesia, e ao longo do século XIX, foram frequentes os poemas oferecidos pelos poetas nos álbuns das pessoas de suas relações. Poucos merecerão hoje em dia a atenção do leitor. Não é o caso desta saborosa invectiva de João de Deus (1830–1896):

Com que então caiu na asneira / De fazer na quinta-feira / Vinte e seis anos! Que tolo!

Quando são merecedores de atenção, ainda hoje, os poemas são reflexões sobre o passar do tempo, os ensinamentos da vida, e algumas vezes relatos de agruras pessoais como se encontram em Filinto Elisio (1734-1819) ou Francisco Joaquim Bingre (1763–1856).

No poema de João de Deus que escolhi, essa reflexão é feita nas duas ultimas sextilhas em tom brincado, assegurando ao poema uma frescura que o faz parecer eternamente novo. Ora leia:

Dia de anos

Com que então caiu na asneira

De fazer na quinta-feira

Vinte e seis anos! Que tolo!

Ainda se os desfizesse…

Mas fazê-los não parece

De quem tem muito miolo!

 

Não sei quem foi que me disse

Que fez a mesma tolice

Aqui o ano passado…

Agora o que vem, aposto,

Como lhe tomou o gosto,

Que faz, o mesmo? Coitado!

 

Não faça tal porque os anos

Que nos trazem? Desenganos

Que fazem a gente velho:

Faça outra coisa; que em suma

Não fazer coisa nenhuma,

Também lhe não aconselho.

 

Mas anos, não caia nessa!

Olhe que a gente começa

Às vezes por brincadeira,

Mas depois se se habitua,

Já não tem vontade sua

E fá-los queira ou não queira!

O poema encontra-se em qualquer edição de Campo de Flores e a imagem de abertura é de Egon Schiele (1890-1918).

 

O moderno Adão – pintura de Sandor Bortnyik e fragmento de Bernardo Soares

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Sandor Bortnyik  - O novo Adão 1924

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Fragmentário e inapreensível, o Livro do Desasocego é obra em que por vezes mergulho. E de lá recolhi esta reflexão do heterónimo de Fernando Pessoa, Bernardo Soares, a pretexto do vestir.

As questões de aparência que há dias interroguei a propósito do retrato de Antonietta Gonzalez regressam hoje pela mão dos caprichos da moda.

Assunto tratado habitualmente como futilidade social, mereceria certamente uma atenção nas suas componentes psicológicas, na medida em que permite ou impede uma integração e reconhecimento de grupo.

No jogo entre a afirmação da individualidade e a necessidade de aceitação no grupo social com que nos identificamos se movem as escolhas do vestir de cada um de nós. E aí entra a moda do tempo em que vivemos.

Nos nossos dias é matéria de preocupação individual, negócio mundial, e idiossincrasia geográfica, a tal ponto que consoante os escalões etários se encontra um vestir em Berlim ou Nova Iorque que devolve uma imagem da cidade e é factor de integração entre quem a elas acorre vindo das diferentes partes do mundo.

Matéria vasta, e abordável de variados pontos de vista, aqui paro com a totalidade da reflexão pessoana na voz de Bernardo Soares, cujo fragmento citei a abrir.

 Trata-se do fragmento 119, transcrito da edição crítica de Livro do Desasocego preparada por Jerónimo Pizzaro, Tomo I, INCM, Lisboa 2010. Conservei a ortografia do texto.

                [1915?]

As coisas / modernas / são

(1) A evolução dos espelhos.

(2) Os guarda-fatos.

Passámos a ser creaturas vestidas, de corpo e alma.

E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual estabeleceu-se. Passámos a ter a alma essencialmente vestida, assim como passámos — homens, corpos — à categoria de animaes vestidos.

Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também a complicação d’esse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quasi nenhuma relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com as dos seus movimentos.

Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, atravez de uma razão social, eu responderia mudamente apontando para um espelho, para um cabide e para uma caneta com tinta.


O moderno Adão que abre o artigo foi pintado pelo húngaro Sandor Bortnyik (1893-1976), e  de quem há tempos deixei no blog a pintura de um fabuloso motociclista.

Ambrósio, tenho um desejo de poesia! com poema de Camilo Pessanha

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A publicidade contamina-nos a imaginação e anúncios há que à força de os ouvir repetidamente acabam por nos soar na cabeça sem pretexto. Foi o caso de um popular e quase eterno anúncio de televisão a chocolates e que deu o mote a este post. Era um anúncio aos bombons Ferrero Rocher e durante anos passou na televisão por alturas do Natal.

Para os leitores do Brasil onde não sei se o anúncio é ou foi visto, descrevo sucinta e aproximadamente o que dele retive.

Num grande plano, um Rolls-Royce ou semelhante, e um motorista vestido a rigor. No banco de trás uma bela balzaquiana sentada diz languidamente para o motorista: Ambrósio, tenho um desejo de requinte, ou algo parecido. O motorista virando-se ligeiramente no banco da frente onde conduz estende-lhe uma caixa de chocolates.

É esta a fonte para a prosa que anos vai escrevi aqui e a seguir recordo aos novos leitores do blog.

– Ambrósio, tenho um desejo de poesia! clamava a condessa, lânguida, reclinada no banco de trás do carro em que seguiam.

Ambrósio, mordomo/chauffeur para todo o serviço, começa a declamar “A porra do Soriano

– Essa não, essa não!

– Mas senhora, vós costumais apreciar bastante o assunto.

– Sim, mas apetece-me algo mais requintado. Que tens para me oferecer?

Ambrósio, fazendo-se desentendido:

– Talvez Tabacaria?

(Come chocolates pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafisica no mundo senão chocolates


– Que horror Ambrósio, logo Álvaro de Campos! Não, não, já me bastam os Ferrero Rocher. Procura qualquer coisa de gosto mais delicado, talvez oriental…

– Será que madame aprecia Camilo Pessanha?

– Não sei, não conheço. Diz lá:

DESEJOS

Se medito no gozo que promette

A sua boca fresca e pequenina

E o seio mergulhado em renda fina,

Sob a curva ligeira do corpete,


Desejo nun’s transportes de gigante,

Estreitál-a de rijo entre meus braços,

Até quasi esmagar n’estes abraços

A sua carne branca e palpitante;


Como, d’Asia nos bosques tropicaes,

Apertam em spiral auri-luzente,

Os musculos herculeos da serpente

Aos troncos das palmeiras collossaes…


E como ao depois, quando o cançaço

A sepulta na morna lethargia,

Dormitando repousa todo o dia

Á sombra da palmeira o corpo lasso;


Eu quizera também, adormecido,

Dos phantasmas da febre ver o mar,

Mas sempre sob o azul do seu olhar,

Envolto no calor do seu vestido;


Como os ebrios chineses delirantes

Aspiram, já dormindo, o fumo quieto

Que o seu longo cachimbo predilecto

No ambiente espalhava pouco antes…

Entre o desejo e o ópio, ficaremos sem saber o que aconteceu à condessa e ao mordomo, mas podemos meditar no gozo que promete…

Noticia bibliográfica: O poema de Camilo Pessanha foi retirado da modelar Edição Crítica de CLEPSYDRA preparada por Paulo Franchetti e editada por Relógio D’Água Editores em 1995.


Retratos extraordinários — Antonietta Gonzalez pintada por Lavínia Fontana

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Lavinia FONTANA - Retrato de Antonietta Gonzalez

Há um indizível sobre o humano que alguns retratos revelam e os torna irresistíveis ao olhar.

Este retrato da jovem Antonietta Gonzalez pintado por Lavínia Fontana (1552-1614) revela-nos a firmeza e diria até, orgulho, no olhar de uma rapariga por detrás de uma aparência se não repelente, pelo menos incómoda. E no entanto se fosse um homem barbado, aquilo que é o inusitado do retrato passaria a ser aceitável e até, diria, quase banal. E é aí que esta pintura nos interroga: na maneira como reagimos ao diferente, ao “outro”. Até onde, nas nossas vidas conseguimos conviver naturalmente com quem se apresenta fora da norma? E faz sentido essa resistência? É baseada em valores? Porque nos incomoda o diferente? Perguntas para que procuro frequentemente resposta. Elas, as perguntas, aí ficam, leitor.

Antonietta Gonzalez, filha de uma família atingida pela doença hypertrichosis lanuginosa, viveu e foi aceite na corte de Henrique II de França, e aí foi considerada, embora, parece, o aspecto dos rostos fosse motivo de curiosidade e espanto entre os estrangeiros que visitavam a corte francesa à época. Hoje, as técnicas de depilação permitiriam certamente tornear esta peculiaridade física, e a jovem Antonietta poderia deixar ver o seu penetrante olhar sem o filtro da horrenda barba que a acompanhava

A

Herberto Helder — um poema de Servidões

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Gerhard Richter -Profil Profile 1997Trago-vos hoje de Herberto Helder (1930), no dia do 83º aniversário do poeta, uma espécie de poema-testamento publicado no seu último livro, Servidões (1ª edição em Maio de 2013).

Num livro com poemas a oscilar entre memória e balanço de vida, são de novo as questões da palavra poética que grande parte dos poemas interroga:

escrevi num curto poema trémulo e severo,

sete ou nove linhas,

e a densa delicadeza dessas linhas

era cortada por uma ferida cega,

mas aquilo que o alimentava e unia

—fundo, devastador, incompreensível—

nem eu sabia o que era:

talvez a técnica atenção da morte

vigiasse arte tão breve, tão furtiva

 

Vamos então ao prometido, na minha leitura, poema-testamento:

 

irmãos humanos que depois de mim vivereis,

eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,

fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,

porque nestas idades já não nunca,

nem leituras embrumadas,

nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem

visitas extraterrestres de mulheres

exorbitantemente

nuas, cruas, sexuais, luminosas,

só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,

é como trabalhar: stanca,

lavorare stanca,

queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,

e só tínhamos que perder a alma,

hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,

enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!

livros, je les aí lus tous, e como de costume a carne é insondável,

estou mais pobre do que ao comêço,

e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,

meia volta, e já era,

irmãos futuros do gênio de Villon e do meu gênero baixo,

não peço piedade, apenas peço:

não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,

inclitamente vergonhosa,

que em testamento vos deixou esta montanha de merda:

o mundo como vontade e representação que afinal é como era,

como há-de ser: alta,

alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,

merda eminentíssima:

daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,

cada qual obrando a sua própria magia:

merda que há-de medrar melhor na memória do mundo

Leitores curiosos da poesia de Herberto Helder, há mais dela no blog.

Para poupar a pesquisa, seguem-se as ligações:
1) https://viciodapoesia.wordpress.com/2011/07/16/de-ferias-ate-agosto-deixo-vos-com-herberto-helder/

2) https://viciodapoesia.wordpress.com/2011/10/29/dois-olhares-sobre-a-mulher/

3) https://viciodapoesia.wordpress.com/2013/03/08/herberto-helder-e-o-amor-em-visita-no-dia-da-mulher/

4) https://viciodapoesia.wordpress.com/2012/11/26/sobre-traducao-de-poesia-poema-de-zbigniew-herbert-1924-1998/

5) https://viciodapoesia.wordpress.com/2011/08/05/nascemos-para-o-sono-poema-do-ciclo-nauatle-mudado-para-portugues-por-herberto-helder/

6) https://viciodapoesia.wordpress.com/2013/06/04/visita-da-mulher-amada-poema-de-herberto-helder-a-partir-de-poema-arabico-andaluz/

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gerhard Richter (1932), titulada Profil Profile

O Balouço de Fragonard lido por Jorge de Sena

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Fragonard - O Balouço II 1767

Como balouça, como adeja, como

é galanteio o gesto com que, obsceno,

o amante se deleita olhando apenas!


Com estes três versos capta Jorge de Sena (1918-1978) o sentimento que primeiro invade quem olha esta pintura de Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). Exemplo de excelência sobre a capacidade de a pintura no estático da sua natureza transmitir o movimento, ela dá-nos mais: dá a a ver a vida sem preocupação, levada no vai-vem da sedução, envolvida por uma atmosfera de harmonia. É um exemplo raro de uma pintura feliz, e com ela vos desejo bom fim-de-semana.

Como balouça pelos ares no espaço

entre arvoredo que tremula e saias

que lânguidas esvoaçam indiscretas!

Que pernas se entrevêem, e que mais

não vê o que indiscreto se reclina

no gozo de escondido se mostrar!

Que olhar e que sapato pelos ares,

na luz difusa como névoa ardente

do palpitar de entranhas na folhagem!

Como um jardim se emprenha de volúpia,

torcendo-se nos ramos e nos gestos,

nos dedos que se afilam, e nas sombras!

Que roupas se demoram e constrangem

o sexo e os seios que avolumam presos,

e adivinhados na malícia tensa!

Que estátuas e que muros se balouçam

nessa vertigem de que as cordas são

tão córnea a graça de um feliz marido!

Como balouça, como adeja, como

é galanteio o gesto com que, obsceno,

o amante se deleita olhando apenas!

Como ele a despe e como ela resiste

no olhar que pousa enviesado e arguto

sabendo quantas rendas a rasgar!

Como do mundo nada importa mais!

Assis, 8 Abril 61

Publicado pela primeira vez em Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena, 1963, e transcrito de Poesia II, Moraes Editores, Lisboa, Maio de 1978.

A pintura que abre o artigo é conhecida como O Balouço II. Para quem não conheça O Balouço I, com ela fecho o artigo.

Fragonard - O Balouço I

O funcionário cansado — poema de António Ramos Rosa

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Lucian Freud John Minton 1952

Na vasta e irregular obra poética de António Ramos Rosa (1924-2013), o poema O Funcionário Cansado, publicado no primeiro livro do autor, ocupa um lugar singular numa obra em que o intenso do prazer repercute no maior esplendor.

Poema sobre a solidão onde a desistência de escolher fazer o que a vida nos chama se espelha, diz-nos de forma pungente da dor de perder os sonhos.

Poema atento ao homem e ao mundo, despido de redundâncias de forma, brilha na expressão com que nos dá conta de uma vida entre nada e coisa nenhuma, para parafrasear Irene Lisboa com cuja poesia o poema se aparenta. É sem dúvida um dos grandes poemas do século XX português.

O Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado de um dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música.
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

Lucian Freud Interior in Paddington 1951

São de pinturas de Lucien Freud (1922-2011) as imagens que acompanham o artigo.

 

MÁQUINAS QUE SENTEM, OS LEITORES DO BLOG, etc…

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Quando o blog se aproximava do primeiro ano de existência os leitores eram poucos quando comparados com a média recente de mais de 500 visitas diárias, mas ainda assim me surpreendia que existissem, o que me levou a escrever esta brincadeira que agora recordo para os novos leitores que todos os dias chegam.

Continuo surpreendido por o blog ter leitores. Não sei quem são. Chegam, partem, às vezes voltam (talvez) e apenas deixam o rasto estatístico da sua passagem.

Gosto assim, desta cumplicidade silenciosa que me deixa livre para escrever no eter, sem rostos destinatários, neste solilóquio aberto ao mundo.

Escrevo rostos mas não só, pois ganhei o convencimento de que pelo menos um dos computadores do Google é não só leitor do blog, como seu entusiasta, e com preferências poéticas.

Parece-me estar a ver-lhe um ar de dúvida, leitor. Não acredita? Eu conto.

Todos os dias o Google envia leitores novos ao blog. Até aí nada de especial. Como o blog regista as palavras-chave e frases usadas para o encontrar, a partir de certa altura surpreendi-me por alguém que pesquisava algo sobre “peixe espada prenha” ser encaminhado para o blog, mas a coisa passou.

Raramente presto atenção aos motivos das pesquisas que trouxeram leitores ao blog. Provavelmente abrem a página, vêm que é poesia e partem, é a minha convicção. No entanto, comecei a ver que os artigos consultados em consequência de pesquisas eram apenas 3 ou 4.

Fui dando uma atenção divertida a este jogo de computador em prol da poesia e vendo como os pesquisadores eram empurrados para ler poesia. Comecei a suspeitar que algo se passaria. Maquinas que sentem? Era a minha suspeita

A suspeita esclareceu-se em torno do poema de Francisco Bugalho que em tempos aqui coloquei e cujo primeiro verso é “Caricias sábias minhas mãos buscaram”.

Até certa altura, nas estatísticas, os artigos mais procurados eram os poemas eróticos de José Régio que aqui deixei. Aí por volta de Agosto, o poema de Francisco Bugalho saltou para o primeiro lugar e lá se mantém.

De alguma forma surpreendido, pois não é poeta de fama, acabei por constatar que a procura do artigo era todos os dias sugerida por, pelo menos, um computador do Google, independentemente do que a pessoa procurava.

Interrogo-me se o acariciar das teclas ao escrever transmitirá algum frisson àquelas memórias electrónicas. Quem saberá? O que sei é que pelas pesquisas mais surpreendentes o motor de busca do Google lá oferece este post ao leitor.

Não fui fazendo qualquer registo de palavras-chave ou frases de procura. No entanto, uma houve que me surpreendeu, tão completamente, que a guardei.

Alguém procurava “como arrumar panelas de cobre” e o computador, zás, “Carícias sábias minhas mãos buscaram”. Não imagino a surpresa do procurador. Quero crer que eventualmente gostou, pois hoje alguém chegou ao blog procurando “panelas de cobre”. Se foi o mesmo(a), daqui o cumprimento. Procurar panelas e encontrar poesia, não é para todos.

Agora voltando aos computadores do Google, começo a suspeitar que também interpretam metáforas, mas talvez nem todos, pois aquele artigo com os trabalhos de mão do poema de Barbosa Bacelar, embora menos vezes,  é frequentemente atirado para a frente dos pesquisadores e estes, às vezes, lá vão.

O que segue é que nesta comunicação homem-máquina me pareceu ouvi-los reclamar sobre a antiguidade da poesia que aqui deixo, cheia de teias de aranha, tudo do século passado, etc. Pretendiam algo mais consentâneo com esta era tecnológica. Resolvi fazer-lhes a vontade e vamos ver se esta Erótica do Salto pedida de empréstimo a GONÇALO M. TAVARES os satisfaz.

A Erótica do Salto.

Todo o salto é ERÓTICA.

SOU EU-CARNE EM direcção alta ao OUTRO-CARNE.

SALTO. Sou alto. SALTO.

A Erótica do Alto.

A Morte?

Deus vem buscar-nos.

O Salto do Alto.

À Manifestação do Eros em Deus chamamos Morte.

O Salto sobre nós do ALTO.

Assalto.

Leu? Palavras para quê? É um artista português. Tem talvez um pouco de impaciência juvenil a mais, o que não sei se, de todo, agrada às mulheres, a acreditar no que nos canta Juliette Greco na sua eterna canção “Deshabillez-moi”: “pas trop vite”, “souplesse” e por aí fora. Mas talvez o OUTRO-CARNE não seja mulher, pois como o autor em outro lugar referiu, O Homem ou é tonto, ou é mulher, e aí , esta conversa não faz sentido.

Espero, pelo menos, que para as máquinas a quem dirijo o poema o sentido seja claro. Na verdade a erogenia das máquinas é-me desconhecida.

Darei noticia da recepção do poema neste universo tecnológico, se as houver.

Noticia Bibliográfica:

O poema transcrito é o nº30 do livro INVESTIGAÇÕES NOVALIS de GONÇALO M. TAVARES publicado pela Difel em Maio de 2002. O livro recebeu o PRÉMIO DE REVELAÇÃO APE/IPBL – POESIA/1999. O júri era constituído por Armando Silva Carvalho / João Rui de Sousa / José Antunes Ribeiro.

Respeitei escrupulosamente as maiúsculas e minúsculas da impressão do poema no livro referido.