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Gerhard Richter -Profil Profile 1997Trago-vos hoje de Herberto Helder (1930), no dia do 83º aniversário do poeta, uma espécie de poema-testamento publicado no seu último livro, Servidões (1ª edição em Maio de 2013).

Num livro com poemas a oscilar entre memória e balanço de vida, são de novo as questões da palavra poética que grande parte dos poemas interroga:

escrevi num curto poema trémulo e severo,

sete ou nove linhas,

e a densa delicadeza dessas linhas

era cortada por uma ferida cega,

mas aquilo que o alimentava e unia

—fundo, devastador, incompreensível—

nem eu sabia o que era:

talvez a técnica atenção da morte

vigiasse arte tão breve, tão furtiva

 

Vamos então ao prometido, na minha leitura, poema-testamento:

 

irmãos humanos que depois de mim vivereis,

eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,

fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,

porque nestas idades já não nunca,

nem leituras embrumadas,

nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem

visitas extraterrestres de mulheres

exorbitantemente

nuas, cruas, sexuais, luminosas,

só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,

é como trabalhar: stanca,

lavorare stanca,

queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,

e só tínhamos que perder a alma,

hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,

enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!

livros, je les aí lus tous, e como de costume a carne é insondável,

estou mais pobre do que ao comêço,

e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,

meia volta, e já era,

irmãos futuros do gênio de Villon e do meu gênero baixo,

não peço piedade, apenas peço:

não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,

inclitamente vergonhosa,

que em testamento vos deixou esta montanha de merda:

o mundo como vontade e representação que afinal é como era,

como há-de ser: alta,

alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,

merda eminentíssima:

daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,

cada qual obrando a sua própria magia:

merda que há-de medrar melhor na memória do mundo

Leitores curiosos da poesia de Herberto Helder, há mais dela no blog.

Para poupar a pesquisa, seguem-se as ligações:
1) https://viciodapoesia.wordpress.com/2011/07/16/de-ferias-ate-agosto-deixo-vos-com-herberto-helder/

2) https://viciodapoesia.wordpress.com/2011/10/29/dois-olhares-sobre-a-mulher/

3) https://viciodapoesia.wordpress.com/2013/03/08/herberto-helder-e-o-amor-em-visita-no-dia-da-mulher/

4) https://viciodapoesia.wordpress.com/2012/11/26/sobre-traducao-de-poesia-poema-de-zbigniew-herbert-1924-1998/

5) https://viciodapoesia.wordpress.com/2011/08/05/nascemos-para-o-sono-poema-do-ciclo-nauatle-mudado-para-portugues-por-herberto-helder/

6) https://viciodapoesia.wordpress.com/2013/06/04/visita-da-mulher-amada-poema-de-herberto-helder-a-partir-de-poema-arabico-andaluz/

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gerhard Richter (1932), titulada Profil Profile

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