W.B.Yeats — o amante diz da rosa no seu coração

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Rosa vermelha 500pxA rosa como imagem condensada do belo, do harmonioso, do desejável, surge aqui e ali na obra de W.B.Yeats (1865-1939):

 

A rosa do mundo

 

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?

Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,

Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,

Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,

E morreram os filhos de Usna.

 

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:

Entre humanas almas, que se agitam e quebram

Como as pálidas águas em seu fluxo invernal,

Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,

Vive este solitário rosto.

 

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:

Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,

Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;

Ele fez do mundo um caminho de erva

Para os seus errantes pés.

 

Na complexidade mítica da sua poesia, estes poemas em que da rosa se fala, ainda que dedicados a Maud Gonne ou sobre a sua pessoa escritos, são também evocações da Irlanda, sugerindo esse intenso amor pela mulher que o recusa, e pela terra cuja independência política ela combativamente defende, qual o poema A rosa na cruz do tempo que a seguir transcrevo.

 

A rosa na cruz do tempo

 

Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias!

Aproxima-te, vem até mim, enquanto de outrora os tempos canto:

O de Cuchulain, em luta com a maré inclemente;

O do Druida sombrio, filho dos bosques, de olhos calmos,

Esse que alimentou os sonhos de Fergus e a indizível ruína;

É a tua tristeza o que antiquíssimas estrelas

Dançando com sandálias de prata sobre o mar,

Cantam em sua alta e solitária melodia.

Aproxima-te pois, agora que já não me cega o destino do homem,

E posso encontrar sob os ramos do amor e do ódio,

E nas mais simples coisas que vivem apenas um dia,

A eterna beleza errante, errando ainda.

 

Aproxima-te, vem até mim, vem — Ah, deixa-me algum espaço

Que de seu hálito a rosa encha!

Que não seja eu quem não ouve o que implora;

O verme indefeso e oculto em seu pequeno esconderijo,

A ratazana que entre as ervas de mim foge,

E a terrível esperança mortal que labuta e morre;

Que seja eu quem ouve as estranhas coisas ditas

Por Deus aos luminosos corações dos mortos antigos,

E aprende essa língua que os homens ignoram.

Vem até mim; antes de partir queria o

Velho Eire cantar e cantar de outrora os tempos:

Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias.

 

E nesta curta visita à obra de W.B.Yeats, termino com o poema O amante diz da rosa no seu coração, que terá sido dedicado pelo poeta a Maud Gonne, paixão a quem por três vezes, sem sucesso,  propôs casamento, segundo rezam as crónicas biográficas, e é um intemporal poema de amor onde se diz como

Tudo quanto é feio, destruído, todas as coisas gastas, velhas,

Maculam a tua imagem que engendra uma rosa no fundo do meu coração.

 

O amante diz da rosa no seu coração

 

Tudo quanto é feio, destruído, todas as coisas gastas, velhas,

O grito de uma criança à beira do caminho, o rangido de uma carroça que se arrasta,

O pesado andar do lavrador, passo a passo sobre o limo invernal,

Maculam a tua imagem que engendra uma rosa no fundo do meu coração.

 

Tão grande é a mácula das coisas torpes que não pode ser descrita;

A minha ânsia é tudo reconstruir e sentar-me num verde outeiro solitário,

Com a terra, o céu, a água renovados, como um cofre de ouro

Para os meus sonhos da tua imagem que floresce numa rosa tão profundamente no meu coração.

 

A tradução dos poemas é do poeta José Agostinho Baptista.

 

Nota sobre a foto

A foto integra um portfólio — Terra Floret — que em tempos reuni, e do qual, a espaços, divulguei algumas fotos no blog, e talvez um dia me decida à sua publicação.

Carlos Mendonça Lopes

 

Alguns Fragmentos de Novalis

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Caspar David FRIEDRICH 00Existe em nós

um sentido especial para a poesia,

uma disposição poética.

A poesia é absolutamente pessoal,

e por isso indefinível.

Quem não souber nem sentir

de forma imediata

o que é a poesia,

nunca poderá aprendê-lo.

Poesia é poesia.

Diferente, como a noite do dia,

da arte da fala e da palavra.

 

O fragmento tem um ideal: uma alta condensação, não de pensamento, ou de sabedoria, ou de verdade (como na máxima), mas de música: ao ‘desenvolvimento’ opor-se-ia o ‘tom’, qualquer coisa de articulado e de cantado, uma dicção…“. Citei Roland Barthes a abrir uma escolha de fragmentos de Novalis.

 

 

Ser completo, ser uma pessoa —

é a finalidade

e a pulsão

do ser humano.

Caspar David FRIEDRICH 06

É na oposição à totalidade que o fragmento se situa, quais pedras do mosaico infinito da vida. Dá ele conta de intuições, vestígios, por vezes ilumina um enigma, outras acontece ser veículo de alegorias.

O leitor apreciador de fragmentos é um leitor de começos ( como bem observa João Barrento no ensaio/introdução aos Fragmentos de Novalis (1772-1801) que traduziu, e hoje transcrevo), melancólico por excelência, para quem o perambular é o propósito:

 

 

Procuramos por toda a parte

o que está para lá das coisas,

e o que encontramos

são apenas coisas.

 

 

Quando procuramos o que está para lá das coisas, o que procuramos é a verdade:

 

 

O ser humano afirma-se pela verdade.

Se renuncia à verdade, renuncia a si próprio.

Quem trai a verdade, trai-se a si próprio.

E isto não significa mentir,

mas agir contra as convicções.

Caspar David FRIEDRICH 05

Meditado que está o sentido da verdade, termino com alguns fragmentos sobre o amor:

 

Caspar David FRIEDRICH 00A

 

Todo o objecto amado

é o centro de um paraíso.

 

*

 

O amor é a finalidade final

da história do mundo —

o ámen do universo.

 
*

 

Todo o encantamento é uma loucura

artificialmente provocada.

Toda a paixão é um encantamento

e uma rapariga atraente

uma feiticeira mais real

do que se julga.

 

 

Notícia bibliográfica

Novalis, Fragmentos são Sementes, Selecção, tradução e ensaio de João Barrento, Roma Editora, Lisboa, 2006.

 

Caspar David FRIEDRICH 00B1

 

Acompanham o artigo algumas pinturas de Caspar David Friedrich (1774-1840).

Sonetos de Reis Quita

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carlo-saraceni-1600 AEntre as tristezas e as alegrias do amor correm os sonetos de Domingos dos Reis Quita (1728-1770) que escolhi para, pelo mundo, alegrarem os corações dos que amam, na evidência que o sentimento é perene, e que perdido um, outro virá. Pergunta o poeta: Mas quem pode viver de amor isento[?]

 

Comecemos a viagem com o entusiasmo que, em alegoria, os amores de Marte e Vénus dão conta.

carlo-saraceni-1600Encontra-se o nosso poeta empolgado na espera da noite e de um encontro amoroso, pois Entre sombras o dia luminoso / Já se desmaia, já se desfigura.

entusiasma-se uma vez que Já o feliz instante vem chegando, / Já me vejo nos braços da alegria, / Que estou há tantas horas suspirando.

A coisa corre, e afinal a noite passa num ápice: Mas ai, que já lá vem o claro dia!

 

Soneto XXXIII

 

Entre sombras o dia luminoso

Já se desmaia, já se desfigura.

Já vai por toda a terra a noite escura

Espalhando o descanso deleitoso.

 

Já não se escuta mais que o som gostoso

Desta sonora fonte que murmura.

E já vai pouco a pouco a mágoa dura

Fugindo deste coração saudoso.

 

Já o feliz instante vem chegando,

Já me vejo nos braços da alegria,

Que estou há tantas horas suspirando.

 

Agora zombarei da tirania,

Do martírio que estive suportando:

Mas ai, que já lá vem o claro dia!

 

Não terá sido este amor eterno, e veremos a seguir o poeta em angustiosos tormentos, semelhando tenebroso inverno a que os compara. Mas, se no suceder das estações ao rigor invernal sucederá o esplendor da primavera, para as suas lágrimas não vê consolo:

 

Tudo de triste passa a ser contente, / Só nos meus olhos nunca têm desvio / As lágrimas que choro tristemente.

 

como nos conta no Soneto XXIV que segue.

 

Soneto XXIV

 

Tudo cheio de horror e sentimento,

Mostra o rigor do inverno congelado.

O ar de densas nuvens carregado,

Furiosas, desatando chuva e vento.

 

Despojada do verde luzimento

Se vê toda a campina deste prado;

O rio corre turvo, e despenhado;

Tudo parece igual a meu tormento!

 

Mas passado o rigor do inverno frio,

O nublado ar se vê resplandecente,

Florece o campo, e claro corre o rio.

 

Tudo de triste passa a ser contente,

Só nos meus olhos nunca têm desvio

As lágrimas que choro tristemente.

 

E é no meio de todo este imenso desgosto que o homem, passeando, medita, e como tantos de nós, olhando o mar espera encontrar alivio:

 

Os olhos pelas águas estendia, / Porque alívio a seu mal nelas buscava,

 

e nestes belos versos, Em lágrimas banhado assim dizia:

 

Os suspiros, as lágrimas que choro / Levai, ondas, levai, ligeiro vento, / Para onde me levastes quem adoro.

 

 

Soneto XXXIII

 

Ao longo de uma praia um triste dia,

Já quando a luz do sol se desmaiava,

O saudoso Alcino caminhava

Com seus cuidados só por companhia.

 

Os olhos pelas águas estendia,

Porque alívio a seu mal nelas buscava,

E entre os tristes suspiros que exalava,

Em lágrimas banhado assim dizia:

 

Os suspiros, as lágrimas que choro

Levai, ondas, levai, ligeiro vento,

Para onde me levastes quem adoro.

 

Oh, se podeis ter dó do meu tormento,

Que me torneis o bem, só vos imploro,

Que pusestes em longo apartamento*.

 

*[afastamento]

 

Continuemos com estas emoções do coração, espalhadas por suaves versos, mas agora noutro registo.

Inveja o nosso poeta no Soneto LIX o amigo que, no abrigo da cabana, goza delícias de amor e mesa, e para si tão só e sempre esperanças que Ligeiras folhas são, que o vento leva.

 

Soneto LIX

 

Em sonoros chuveiros desatado

Desça o frígido inverno tormentoso.

Que Aristo satisfeito, e venturoso,

Descansa em tecto rústico abrigado.

 

Alegre come o novo grão dourado,

De seu trabalho fruto deleitoso.

Vê no curvo tonel ferver cheiroso

O roxo mosto a Baco consagrado.

 

Só tu, mísero Alcino, nada alcanças:

Em teu rebanho o lobo o dente ceva,

E debaixo do colmo não descansas.

 

Mas cerca-te da forte e escura treva

Sempre o fruto de tuas esperanças:

Ligeiras folhas são, que o vento leva.

 

Embrulhado em nova paixão, clama agora o poeta por uma Márcia que lhe fugiu. De caminho reflete como o amor apenas conduz à dor, neste Soneto LXVI: [Amor] São estes os teus bosques consagrados / Onde só vejo peitos lacerados, / Corações em extremas agonias?

Soneto LXVI

 

Aonde, amor cruel, aonde me guias?

São estes os teus bosques consagrados

Onde só vejo peitos lacerados,

Corações em extremas agonias?

 

Só respondem as duras penedias

A míseros gemidos em vão dados;

Olhos formosos, rostos delicados

São ministros das tuas tiranias.

 

Já me rasgam o peito em mil pedaços:

Marcia me disparou acerbos tiros,

Lá vai fugindo com velozes passos.

 

Suspende, ó ninfa, os apressados giros,

Deixa cruel, ao menos, que em teus braços

Amintas lance os últimos suspiros.

 

Por mais que suspirar nos braços de Márcia o poeta deseje, se ela foge, outra aparece, pois, sabemos bem, sem uma Márcia nos braços não pode um homem viver:

 

quem pode viver de amor isento, / Vendo naquele rosto soberano /De tais olhos o doce movimento?

Natoire - Cabeça de mulher 530Por isso, no Soneto XX com que concluo esta viagem sentimental, aí o temos, de novo apaixonado:

Finalmente outra vez vejo perdida / Às mãos do amor, a doce liberdade

 

Soneto XX

 

Finalmente outra vez vejo perdida

Às mãos do amor, a doce liberdade

Que já livrei da sua crueldade

Como quem de um naufrágio salva a vida.

 

Já no meu coração nova ferida

Abrem os duros golpes da saudade;

E já vive outra vez minha vontade

De esperanças aéreas revestida.

 

Nunca cuidei que visse, amor tirano,

Tão depressa quebrado o juramento

Que fiz no puro altar do desengano.

 

Mas quem pode viver de amor isento,

Vendo naquele rosto soberano

De tais olhos o doce movimento?

 

Termino com o Soneto LXIX inspirado no episódio da Ilha dos Amores de Os Lusíadas.

No mundo de delícias e suspiros, que o amor permite e o desejo empolga, coloca o nosso poeta os marinheiros portugueses do Gama:

 

Na ilha das delícias aportavam / Já cansados, os lusos navegantes. / Os prazeres, as taças espumantes / Em magnífica mesa [as ninfas] preparavam.

 

No entanto Vasco da Gama ardendo em fogo, descarta os gestos convulsos [d]as bacantes / [que] Lascivos ditirambos alternavam.

 

pois, o herói, que de ardores se alimenta, / Sem que toque os vivificos manjares, / Só em Vénus os olhos apascenta.

Alexandre Cabanel (French, 1823–1889) Nascimento de venus 1875 A

Aí o têm, o soneto:

 

Soneto LXIX

 

Na ilha das delícias aportavam

Já cansados, os lusos navegantes.

Os prazeres, as taças espumantes

Em magnífica mesa preparavam.

 

Os amores de mirtos enramavam

Douradas serpentinas rutilantes,

E com os gestos convulsos as bacantes

Lascivos ditirambos alternavam.

 

Eis que o trovão do bronze rompe os ares,

O vitorioso Gama se apresenta

À bela deusa que nasceu dos mares.

 

Mas o herói, que de ardores se alimenta,

Sem que toque os vivificos manjares,

Só em Vénus os olhos apascenta.

 

Noticia bibliográfica

Os Sonetos foram transcritos do Tomo I da 2ªedição correcta e aumentada com as Obras Póstumas e Vida do Autor, Lisboa, na Tipografia Rollandiana, 1781.

Modernizei a ortografia e simplifiquei a pontuação.

Conservei Florece, em uso na época,em vez de Floresce, forma corrente hoje.

 

Nota sobre as imagens

Abre o artigo com o pormenor de uma pintura de Carlo Saraceni (1579-1620) a que se segue a pintura na totalidade. Pelo meio, o retrato da bela jovem foi desenhado por Charles-Joseph Natoire (1700-1777) e será presumivelmente contemporâneo do poeta. No final uma possivel imagem da deusa nascida dos mares (Vénus) onde o olhar de Vasco da Gama se apascenta…, pintada por Alexandre Cabanel (1823–1889).

Malevitch suprematista

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malevich.petersburgFalamos de abstração em pintura quando nos encontramos perante uma obra onde não é reconhecível qualquer objecto ou realidade física identificável.

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Tendo a abstracção começado pelo não-figurativo com Kandinsky (1866-1944),  (e o seu ensaio Ponto e Linha sobre o Plano é uma obra iluminante), Mondrian (1872-1944) desenvolveu a partir do valor das cores, a base para uma relação equilibrada enquanto indutora da emoção estética, nas obras do que chamou a Nova Plástica, em detrimento da harmonia, característica da pintura antiga ( veja-se Realidad Natural y Readidad Abstracta, Barral Editores, Barcelona 1973).

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Quando passamos a Malevitch (1879-1935), é no domínio do sem-objecto absoluto que nos encontramos. A representação basta-se a si mesma, e apenas o jogo plástico de cores e formas  transmite a emoção ao observador.

malevich.black-red-squareDe entre os fundadores da abstracção em pintura: Kandinsky, Mondrian, Malevitch, para citar os mais famosos, foi este ultimo quem levou mais longe esta pintura do sem-objecto com O Quadrado Negro sobre fundo Branco em 1915, e Branco no Branco em 1918.

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Entre estas duas obras encontramos um conjunto vasto de obras de cores vivas e contrastadas onde formas de uma geometria quase regular em rectângulos e outras figuras geométricas se justapõem, surgindo a vaguear no espaço da tela, e em que o que conta é o movimento das massas coloridas.

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Surgem estas obras sem propósito outro que dar conta de uma manifestação pictural da natureza enquanto lugar do ser, da vida, deste “Nada” que o pintor liberta sobre a tela. Este acto criador “não é mimético, é um acto puro que agarra a excitação universal do mundo, o ritmo, lá, de onde desapareceram todas as representações figurativas de tempo e espaço e onde não subsiste senão a excitação e a acção que ela condiciona. Excitação sem finalidade.” Citei amplamente o especialista da vanguarda plástica russa, Jean-Claude Marcadé, sobretudo em L’Avant-Garde Russe, Flammarion, Paris, 1995.

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O século XX, com as vanguardas que se sucederam, encarregou-se da normalização de toda esta conversa e hoje olhamos estas obras ou de per se ou em contexto histórico, sendo certo que a arte da pintura não  voltou a ser a mesma depois destas escandalosas (à época) invenções.

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Concluo com mais algumas destas obras picturais, enquanto tal, onde a luz não é aquela, ilusória, do sol, mas a do negro e do branco de onde emanam ou se reúnem todas as outras cores.

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malevich.new-york

malevich.self-2d

malevich.supremus-58Todas as imagens são de obras de Malevitch do periodo Suprematista.

Sobre a Nudez — poema de Jorge de Sena, pretexto para Expulsão do Paraíso por Masaccio

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Masaccio - Expulsão do Paraiso 1426-27 Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine ANTES DO RESTAURO2Masaccio (1401-1428), génio de curta vida, morreu com 27 anos, tem em Florença, no fresco da Santíssima Trindade em Santa Maria Novelle, a primeira utilização da perspectiva total na pintura ocidental; e nos frescos da Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine, a inovação do uso da luz com forma de definir figuras e adereços, substituindo a iluminação uniforme do quadro, até aí praticada, pela iluminação a partir de um foco, concretamente a suposta luz vida da janela, criando assim um jogo de luz e sombra que desde então funcionou como paradigma neste género pictórico.

Dos seis frescos da Capela Brancacci, o Pagamento do Tributo e a Expulsão do Paraíso são aceites unanimemente como as suas obras primas. É este último fresco, Adão e Eva expulsos do Paraíso que hoje me interessa. Abre o artigo a imagem que dele durante séculos foi vista. Expulsos do Paraíso depois do pecado original, Adão e Eva apresentam-se com umas folhas a cobrir o sexo. Foi o restauro dos frescos entre 1981 e 1989 que revelou o brilho da pintura que se escondia sob séculos de negligência. Acontece que a folhagem cobrindo o sexo de Adão e Eva era uma excrescência acrescentada provavelmente no século XVII, a qual foi removida com o restauro, permitindo hoje a visão sem tabus do corpo, tal como à época era aceite, e hoje ainda é quase matéria de escândalo. Daí a escolha do poema de Jorge de Sena (1919-1978), Sobre a Nudez.
Masaccio - Expulsão do Paraiso 1426-27 Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine Após restauro2

Sobre a Nudez

Quoi! Tout nu! dira-t-on, n’avait-il pas de honte?

………………………………………………………………….

Tout est nu sur la terre, hormis l’hypocrisie.

Musset, Namouna

 

Nus nascemos, nus

nos inspecciona o médico,

a tropa, o professor de ginástica.

 

Nus, na mesa de operações,

na cama de hospital,

na da morte.

 

Nus no amor para nos vermos,

sentirmos a pele dos outros corpos e

para mais que penetrarmos

 

termos o choque e o roçar

que nos dizem do quanto penetramos.

Nus sempre, menos no que não importa.

 

Porque há então quem tema tanto

a nudez dos outros? Será

que teme, menos que o feio

 

de muitos, a beleza de

alguns, ou o fascínio das

esplêndidas partes

 

de uns raros? E que, paralisados

(de inveja), deixemos que o mundo e a vida

se soltem à deriva

 

para a nua liberdade?

 

1968-69

 

Tradução da epígrafe

 

O quê! Completamente nu! dir-se-á, não tinha vergonha?

………………………………………………………………………………

Tudo está nu sobre a terra, salvo a hipocrisia.

 

Na capela, frente ao fresco de Masaccio, encontra-se o fresco A Tentação, pintado por Masolino (1383-1447), de resto o pintor a quem foi encomendada a obra na capela e de quem Masaccio era ajudante. Com ele encerro o artigo.

Masolino - Tentação na Capela Brancacci 1426-27B

No contraste entre a amável serenidade do par pintado por Masolino e a expressiva dor nas fisionomias e atitudes corporais representadas por Masaccio está toda a medida da invenção e génio de Masaccio.

 

Pede comparar-se esta Tentação e o conjunto de pinturas que quase cem anos depois pintou sobre o mesmo  assunto Lucas Cranach, o Velho, que noutro artigo se encontram, e permitem ver a variedade expressiva a que o assunto se presta.

 

Nota bibliográfica

 

Como já noutro artigo o escrevi, se os livros de arte são belos objectos onde com prazer nos perdemos, os livros sobre frescos são preciosos, pois a tudo isso acrescentam o permitir ver o detalhe que no local é inacessível, seja pela iluminação, seja pela distância.

Ao leitor interessado recomendo como imperdíveis os volumes (4) Italian Frescoes publicados por Abbeville Press, New York, e para estes frescos em particular, Italian Frescoes, The Early Renaissance 1400-1470, de Steffi Roetgen.

 

O poema Sobre a Nudez foi publicado pela primeira vez em Peregrinatio ad loca infecta 70 poemas, alguns dos quais amáveis, com um epílogo altamente filosófico, e sem prefácio do autor, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969.

Por causa de umas quantas canções — poesia de Leonard Cohen

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Blue Nude with Hair in the Wind 1952

Não sou muito de nostalgias, nem de parar a olhar para trás contemplando a vida vivida. Já foi! Fez-me como sou, e para a frente é o caminho. Inevitavelmente o que no passado conheci, as gentes que me encheram a vida mostram-me que o tempo passou, e não foi o mesmo para todos. Confronto-me demasiadas vezes com a memória de mim nos outros diferente do que suponho. São certamente artifícios da construção do eu em cada um.

Já vivi a adolescência num tempo em que as canções marcaram a memória, e de Leonard Cohen (1934), Suzanne, mais que outras, deram-me êxtases que garantiram ao cantor e poeta a minha admiração eterna:

Os beijos começaram nos nossos lábios / E foram terminar em todo o lado /

Com aquele ritmo dolente que ele hoje ainda sabe fazer, criando pura magia quando temos uma mulher nos braços, foi Leonard Cohen (1934) o artífice de bem sucedidas aventuras onde o amor participou.

É por via das suas canções que chego à poesia que escreveu, belíssima frequentemente, relato de vida pessoal que é também relato de vida de uma geração que foi adulta nos últimos 40 anos:

O livro do amor que li estava errado / Tinha um final feliz/

Standing Blue Nude 1952

Agarro-me ao seu Book of Longing, Livro do Desejo em português, traduzido por Vasco Gato, e um pouco ao sabor do acaso escolho alguns poemas.

A Grande Divisão

Nunca gostei da tua forma de amar

Tão tortuosa, tão antiquada

Ainda assim jejuei como um monge

E rezei para ver-te nua

 

Via-te a magoar toda a gente

Um governo de sofrimento

Dizia a mim mesmo “Seja Feita A Tua Vontade

A minha vontade não serve para nada”

 

Bebi bastante perdi o emprego

Vivi como se nada interessasse

E tu, tu nunca apareceste

Nem sequer respondeste

 

Eu era um tempo cego e avariado

E a bondade estava proibida

Creio que tentei apanhar uma boleia

Dos ácidos para a religião

 

Mas todas as guias luminosas tinham desaparecido

Bem como todas as boas direcções

O livro do amor que li estava errado

Tinha um final feliz

 

Mas quando o sistema estava já abalado

Para lá do reconhecimento possível

As coisas simples que eu esquecera

Retomaram a sua doce posição

 

Pensei ver-te com uma criança

Pensei ter-te ouvido a chorar

E o jardim inteiro à tua volta louco

E seguro sob a tua guarda

 

Não me recordo do que aconteceu depois

Mantive-te à distância

Mas emaranhado no nó do sexo

O meu castigo foi levantado

 

Os teus remédios debaixo da minha não

Os teus dedos no meu cabelo

Os beijos começaram nos nossos lábios

E foram terminar em todo o lado

 

E quando me preparava para partir

Tu puxaste-me para o teu lado

Para sermos Adão e Eva

Antes da Grande Divisão

 

E aqui amarrados não conseguimos mexer-nos

Excepto um para o outro

Estendemo-nos e afogamo-nos como os lírios

De lado nenhum para o çentro

 

E aqui não posso erguer uma mão

Para seguir as linhas da beleza

Mas as linhas estão traçadas e o amor está contente

Por ir e vir com tamanha liberdade

 

E aqui nenhum pecado pode ser confessado

Nenhum pecador perdoado

Está escrito que a lei tem de descansar

Antes de a lei ser escrita

 

E aqui o silêncio é apagado

O pano de fundo desmanchado por inteiro

A tua beleza não pode ser comparada

Não há espelho aqui, nem sombra

 

Mas eis que agora chega um vento que arranha

Sem propósito e sereno

Fere-me quando me separo dos teus lábios

Fere-nos pelo meio

 

E agora podem de novo as guerras começar

A tortura e o riso

Choramos alto, como fazem os humanos

Antes da verdade, e depois

 

Não sei como irá terminar

Sempre deixaste isso em aberto

Mas, ah, tu és a única amiga

Que nunca pensei conhecer.

(Tradução de Vasco Gato)

Because of a few songs

Because of a few songs

wherein I spoke of their mistery

women have been

exceptionally kind

to my old age

They make a secret place

in their busy lives

and they take me there.

They become naked

in their different ways

and they say,

“Look at me, Leonard

look at me one last time.”

Then they bend over the bed

and cover me up

like a baby that is shivering.

Por causa de umas quantas canções

Por causa de umas quantas canções

em que falava do mistério delas,

as mulheres têm-se mostrado

excepcionalmente compreensivas

para com a minha idade avançada.

Criam um lugar secreto

nas suas vidas ocupadas

e levam-me até lá.

Despem-se

cada uma à sua maneira

e dizem,

“Olha para mim, Leonard

olha para mim uma última vez.”

Depois inclinam-se sobre a cama

e cobrem-me

como a um bebé que treme.

(Tradução de Vasco Gato)

Half of the world

Every night she’d come to me

I’d cook for her, I’d pour her tea

She was in her thirties then

had made some money, lived with men

We’d lay us down to give and get

beneath the white mosquito net

And since no counting had begun

we lived a thousand years one

The candles burned, the moon went down

the polished hill, the milky town

transparent, weightless, luminous,

uncovering the two of us

on that fundamental ground,

where love’s unwilled, unleashed, unbound

and half the perfect world is found

Metade do Mundo

Todas as noites ela vinha ter comigo

Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá

Ela tinha trinta e tal naquela altura

conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens

Deitávamos-nos para dar e receber

debaixo do mosquiteiro branco

E uma vez que nenhuma contagem começara

viviamos mil anos num só

As velas ardiam, a lua descia

a colina polida, a cidade leitosa

transparente, sem peso, luminosa,

destapando-nos aos dois

naquele chão fundamental,

onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado

e do mundo perfeito se acha metade

(Tradução de Vasco Gato)

the road is too long

the sky is too vast

the wandering heart

is homeless at last

a estrada é demasiado longa

o céu demasiado vasto

o coração vagabundo

está finalmente sem abrigo

(Tradução Carlos Mendonça Lopes)

Standing Blue Nude  1952

Abro um pouco a janela da nostalgia e vou ouvir algumas canções, sobretudo uma, onde a música canta, mais que as palavras, a felicidade de um reencontro fugaz: Tonight Will Be Fine, Esta Noite Correrá Bem, publicada originalmente em 1969, no disco Songs From A Room.

Tonight Will Be Fine

Sometimes I find I get to thinking of the past.

We swore to each other then that our love would surely last.

You kept right on loving, I went on a fast,

now I am too thin and your love is too vast.

But I know from your eyes

and I know from your smile

that tonight will be fine,

will be fine, will be fine, will be fine

for a while.

I choose the rooms that I live in with care,

the windows are small and the walls almost bare,

there’s only one bed and there’s only one prayer;

I listen all night for your step on the stair.

But I know from your eyes

and I know from your smile

that tonight will be fine,

will be fine, will be fine, will be fine

for a while.

Oh sometimes I see her undressing for me,

she’s the soft naked lady love meant her to be

and she’s moving her body so brave and so free.

If I’ve got to remember that’s a fine memory.

And I know from her eyes

and I know from her smile

that tonight will be fine,

will be fine, will be fine, will be fine

for a while.

A edição portuguesa de Livro do Desejo é de Quasi Edições, 2008, é bilingue e editorialmente notável, oferecendo uma paginação onde os desenhos do poeta acompanham e comentam os poemas, proporcionando uma leitura paralela ao impacto que cada poema induz no leitor.

Acompanham o artigo os nus azuis de Matisse (1869-1964). Abre O Nu Azul com Cabelo ao Vento, segue-se o Nu Azul Sentado, e termina com o Nu Azul de Pé, todos de 1952.

Miró, sabe o que é?

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Homem com cachimbo - 1925. Óleo sobre tela. 146 x 114 cm. Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia. Madrid. España.Quando questões de cultura se põem publicamente, invariavelmente os asnos falam:

— Miró!… Quem vive de Miró? Quero lá mirar o Miró!

— Mas afinal que é isso de Miró? Come-se, bebe-se? Deve alguma coisa às finanças? Dá votos?

— Nada disso! AUMENTA AS EXPORTAÇÕES!

— Ena Pá, isso é bom! E há mais? Piró, Liró, por aí adiante? Vendido até às eleições, às tantas punha o défice a zero e a coisa corria-nos bem. Não?

— Isso não sei, mas podiam aproveitar a embalagem e vender também a Torre de Belém. Está para ali sem préstimo, e só a dar despesa…

O pássaro olhando tranquilamente as asas em chamas

Vem esta conversa a propósito das obras de Joan Miró (1893-1983) que o Estado Português pretende vender. Não as conheço, são segredo de alguns.

O gentlemanO Secretário de Estado da Cultura em funções já informou que conservar as obras na posse do Estado não é uma prioridade sua. Será dos portugueses?

Sesta - 1925. Museo Nacional de Arte Moderna. Centre Georges Pompidou. París. FrançaPara amenizar a prosa, termino com mais algumas imagens de obras de Miró, pertença de colecções pelo mundo, onde  valem para além do dinheiro que rendem, e por isso as conservam.

Interior holandês  1928, oleo sobre tela

Personagens na noite guiados pelos rastos fosforescentes dos caracóis

Paisagem catalã com caçador - 1923-1924. Óleo sobre tela 65 x 100 cm - Museo de Arte Moderna  New York

Retrato IV - 1938. Óleo sobre tela. 130 x 97 cm. Colecção privada

Da série A infancia de Ubu 1975

O sorriso das asas flamejantesDepois do Sorriso das asas flamejantes, acabemos com A esperança do condenado à morte III.

A esperança de condenado à morte III

P.S. para os leitores de outras paragens

O Estado Português comprou por via da nacionalização do BPN, em vez da falência do banco, uma colecção de obras de arte até hoje de conteúdo desconhecido dos portugueses, onde se incluem 85 obras do artista catalão Joan Miró. Propõe-se agora o Estado Português vendê-las em leilão em Londres, agendado já para Fevereiro de 2014. Espera, segundo a imprensa, obter 35 milhões de euros com essa venda.

O irrisório do dinheiro face à importância artística de semelhante património para o país, levou-me ao desabafo do artigo de hoje.

Acrescento ainda em post scriptum A mão apresentando um pássaro, óleo de 1926.

Mão apresentando um pássaro - 1926. Óleo sobre tela Colecção privada.

Francisco Brines — O mais formoso território

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Simon Vouet - Venus adormecidaQuando confrontado com a ausência, cruzo, como agora, a memória com o mais formoso território, poeticamente descrito por Francisco Brines (1932):

 

Y porque estás ausente, eres hoy el deseo / de la tierra que falta al desterrado, / de la vida que el olvidado pierde, / y sólo por engaño la vida está en mi cuerpo, / pues yo sé que mi vida la sepulté en el tuyo.

 

O mais formoso território é para cada um de nós o corpo da mulher amada, fonte e consolo da mais intensa experiência do viver:

O intimidad de un tallo, y una rosa, en el seto, / en el posar cansado de un ocaso apagado.

Cantá-lo em variadas formas é apenas um acto de humilde homenagem.

 

Deixo-vos com o poema original antecedido da tradução de José Bento publicada em Ensaio de uma despedida, Antologia (1960-86), edição Assírio & Alvim, Lisboa, 1987.

 

O Mais Formoso Território

O cego desejo percorre com os dedos

as linhas venturosas que inebriam seu tacto,

e nada o apressa. O roçar faz-se lento

no vigor curvado de umas coxas

que encontram sua unidade em breve moita perfumada.

Ali, na escura luz dos mirtos,

enreda-se, palpitante, a asa de um gorrião,

o feliz corpo vivo.

Ou o íntimo de um caule e uma rosa, na sebe,

no pousar fatigado de um ocaso apagado.

 

Do estreito lugar da cintura,

reino de sesta e sono,

ou reduzido prado

de lábios delicados e dedos ardentes,

por igual, separadas, espreguiçam-se linhas

que afundam, graciosas, o vigor feliz da idade,

e deixam alto um peito, simétrico e escuro.

São duas sombras róseas esses mamilos breves

em vasto campo liso,

águas para beber ou fazê-las tremer.

E um fino canal sulca, para a sede benévola da língua,

um campo adormecido, e chega a um breve poço,

que é sorriso infantil,

breve dedal no ar.

 

Nessa rectidão de uns ombros potentes e sensíveis

ergue-se o pescoço altivo que serena,

ou o retraído pescoço a abrandar as carícias,

o tronco de onde brota um vivo fogo negro,

a cabeça: e no ar e perfumado,

sorri um enredado tufo de jasmins,

e o mundo faz-se noite porque habitam aquela

astros cheios e vastos, felizes e benéficos.

E brilham e nos fitam, e queremos morrer

ébrios de adolescência.

Há uma brisa negra que perfuma os cabelos.

 

Eu desci este torso,

a mais descansada de todas as descidas,

que, sendo longa e dura, é de marcha serena,

pois nos conduz ao lugar das delícias.

Na seda mais fresca e mais suave

a mão recreia-se,

neste espaço indizível, que se ergue tão diáfano,

a formosura caluniada, o sítio envilecido

por palavras soezes.

Leito infindável onde reparamos

a sede da beleza da forma,

que é sede apenas de um deus que nos sossegue.

Roço com minhas faces a própria pele do ar,

a dureza da água, que é frescura,

a solidez do mundo que me tenta.

 

Muito secretas, as ladeiras levam

ao lugar aceso da ventura.

Ali o fundo gozo que o viver fortalece,

a realidade magica que vence até o sonho,

experiência tão ébria

que um sábio deus a condena ao olvido.

Conhecemos então que tem morte somente

a queimada formosura da vida.

 

E porque estás ausente, és hoje o desejo

da terra que falta ao desterrado,

da vida que o olvidado perde,

e apenas por engano está a vida em meu corpo,

pois sei que a minha vida a sepultei no teu.

 

El más hermoso territorio

El ciego deseoso recorre con los dedos

las líneas venturosas que hacen feliz su tacto,

y nada le apresura. El roce se hace lento

en el vigor curvado de unos muslos

que encuentran su unidad en un breve sotillo perfumado.

Allí en la luz oscura de los mirtos

se enreda, palpitante, el ala de un gorrión,

el feliz cuerpo vivo.

O intimidad de un tallo, y una rosa, en el seto,

en el posar cansado de un ocaso apagado.

 

Del estrecho lugar de la cintura,

reino de siesta y sueño,

o reducido prado

de labios delicados y de dedos ardientes,

por igual, separadas, se desperezan líneas

que ahondan. muy gentiles, el vigor mas dichoso de la edad,

y un pecho dejan alto, simétrico y oscuro.

Son dos sombras rosadas esas tetillas breves

en vasto campo liso,

aguas para beber, o estremecerlas.

y un canalillo cruza, para la sed amiga de la lengua,

este dormido campo, y llega a un breve pozo,

que es infantil sonrisa,

breve dedal del aire.

 

En esa rectitud de unos hombros potentes y sensibles

se yergue el cuello altivo que serena,

o el recogido cuello que ablanda las caricias,

el tronco del que brota un vivo fuego negro,

la cabeza: y en aire, y perfumada,

una enredada zarza de jazmines sonríe,

y el mundo se hace noche porque habitan aquélla

astros crecidos y anchos, felices y benéficos.

Y brillan, y nos miran, y queremos morir

ebrios de adolescencia.

Hay una brisa negra que aroma los cabellos.

 

He bajado esta espalda,

que es el más descansado de todos los descensos,

y siendo larga y dura, es de ligera marcha,

pues nos lleva al lugar de las delicias.

En la más suave y fresca de las sedas

se recrea la mano,

este espacio indecible, que se alza tan diáfano,

la hermosa calumniada, el sitio envilecido

por el soez lenguaje.

Inacabable lecho en donde reparamos

la sed de la belleza de la forma,

que es sólo sed de un dios que nos sosiegue.

Rozo con mis mejillas la misma piel del aire,

la dureza del agua, que es frescura,

la solidez del mundo que me tienta.

 

Y, muy secretas, las laderas llevan

al lugar encendido de la dicha.

Allí el profundo goce que repara el vivir,

la maga realidad que vence al sueño,

experiencia tan ebria

que un sabio dios la condena al olvido.

Conocemos entonces que sólo tiene muerte

la quemada hermosura de la vida.

 

Y porque estás ausente, eres hoy el deseo

de la tierra que falta al desterrado,

de la vida que el olvidado pierde,

y sólo por engaño la vida está en mi cuerpo,

pues yo sé que mi vida la sepulté en el tuyo.

 

Publicado originalmente em “El otoño de las rosas” 1986 e transcrito de Ensayo de una Despedida Poesía Completa (1960-1997) Tusquets Editores, Barcelona, 1997.

Love Story e outros poemas de Egito Gonçalves

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Mestre de Ferrara retrato de familia 1480 Munique AEntre mulheres e lugares correm os poemas do livro de Egito Gonçalves (1920-2001) E no entanto move-se, que hoje visito.

O livro, publicado em Lisboa em 1995 por Quetzal Editores, recebeu prestigiados prémios quando da publicação: Prémio de Poesia do Pen Clube, Prémio Eça de Queirós,  Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, e suponho, é hoje um livro esquecido. Se é o caso, é pena. São belos os poemas, há uma sinceridade que emociona, e por vezes, à pouca importância que o poeta a si se atribui subjaz uma cauta ironia que convida o leitor a continuar.

Abro com uma Love Story a contrario: relato desencantado do amor tão só como possibilidade, ou antes, de uma busca do amor que se perdeu nos mistérios da paixão que foge, como a todos tantas vezes acontece.

Love Story

Nunca encontrámos

o lugar onde o amor se forma.

 

Tentámos, aceitando os desencontros,

dançámos em torno,

arrepiámos uma breve carícia,

separámos-nos

sem descobrir o que haveria a descobrir,

o que haveria a atravessar:

uma montanha, um túnel,

ou mina ou arco

de uma ponte.

 

Agora contemplo uma cama

vazia

flutuando numa barragem

longe do lugar

que poderíamos ser.

 

Muitas coisas se partilharam,

as palavras não eram pedras,

o vento alguma vez

nos juntou os cabelos.

Nunca encontrámos

o lugar onde o amor se arma.

 

Foram pedaços de muita coisa:

quando os queria colar

sempre algum era arrastado pela chuva,

sempre algum se perdia em lençóis de sombra.

 

A imagem de cada um de nós

nunca foi suficiente

para criar no outro o relâmpago,

o pássaro ígneo, delirante.

 

Nunca encontrámos

o percurso das águas,

o lugar onde o amor se firma.

10.9.91

Continuo a viagem com o cruzamento da vida com poesia, numa ida ao supermercado, ocupação que bem conheço, e aqui de alguma forma revejo.

Supermercado

No seu aniversário

           ela abriu uma lata de sidra

e comemorou a solidão

tornando a bebida ponto de partida

para um poema:

um presente que oferecia a si mesma.

O alimento tem muito a ver

com a poesia. No supermercado

havia hoje uma prateleira

            de garrafas de sidra

e isso levou-me a pensar

naquela história antiga. Decidi

que o estômago também se encontra no poema

enquanto avançava com o carrinho

pelo meio da multidão

olhando  de soslaio as pernas das mulheres

e de frente um salmão inteiro

que parecia acabado de sair da água.

Comprei-o para assar no forno,

distraindo-me assim de um labor

mais intelectual — afinal

a hora do meu próprio poema tinha passado

e os pensamentos insistiam em tropeçar

nas pernas das mulheres,

satisfeitos com a sua própria incoerência.

2.4.91

Mas, por mais que pernas dêem corda à imaginação,

Um rosto de mulher

é o meio que o coração encontra

para manter a sua sede.

 

Um chá, uma flor, uma paisagem,

 

uma romã aberta,

 

desaparecem na sombra

se não houver um rosto de permeio.

 

Não te queixes

do que supões ausência. Por agora

és tu que mantens o movimento.

 

Sem isso

nem o coração mais pulsaria.

Sábio conselho que não evita a solidão que um Inverno em Viena relata:

Inverno em Viena

Para me aquecer compro postais

(escreverei no aeroporto: a catedral,

um Klimt, um Egon Schiele…). Saio

novamente. A neve

domina a paisagem. Uma descida

lenta, flocos

cobrem no fim da rua o jardim público,

deserto, onde só dois corvos saltitam,

frenéticos,

bicando a neve. Começou

a levantar-se vento. Dou a volta

ao jardim. Regresso. A própria luz

treme de frio. Os dois corvos

continuam ali. Saltitam,

fazem pequenos furos

no colchão branco dos canteiros. Parece-me

o mais inútil dos trabalhos,

embora consciencioso! Mas

que sei eu de corvos? Viro

as costas ao vento. Começo

a tossir. Quatro agulhas de pinheiro

caem. Os corvos

esvoaçam.

5.9.91

Lê-se o livro e no final vem a pergunta: onde a poesia, onde a vida?

Elisabeta

Fiquei ao lado dela por acaso

e vi que me lançava o seu melhor sorriso

como se adivinhasse que eu era um português recém-liberto.

Tinha uns olhos lindos e rugas serenas

de mulher que moldou com segurança a própria vida

num mundo difícil e agressivo. Mais tarde

ofereceu-me um livro de poemas

que eu soube imediatamente serem bons

apesar da hostilidade dos caracteres cirílicos. Assinou

Sófia, Junho de 1977 — Elisabeta Bagriana.

Ao leitor que aqui chegou, terá talvez valido a pena a viagem, e por agora da poesia de Egito Gonçalves me despeço:

De ausência, o tempo sangra

num olhar líquido

mas a alegria não foi toda comida.

Resta ainda alguma

para escapar à morte, para

reinventar os dias. Vê no livro:

há-de haver receitas. Um vestido

estampado no ácido dos caminhos.

O coração bate sem pudor, lembra

gestos, caminhos que contornam

o abismo, desvios súbitos

para encontrar uma matriz.

Um nome que seja possível habitar

sobre um tapete que a alfândega

não descubra no imo do discurso.

Szymborska e os nus de Rubens

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Rubens_Rapto das filhas de LeucipoAAssistimos na arte barroca à representação do excesso. Surgem as pinturas em natureza-morta sobrecarregadas de géneros alimentares; pintam-se cenas de comezainas até ao entorpecimento, como as pintadas por Jan Steen (1626-1679) que há dias trouxe ao blog; o preciosismo e a sobrecarga de adereços no trajar de figurões socialmente importantes são mostrados em retratos hieráticos; e no nu temos as abundâncias carnais, de que as pinturas de Rubens (1577-1640) são o paradigma. Rubens earth-waterA1Para uma mulher  como Wisława Szymborska (1923-2012) em quem a parcimónia parece ser a marca de água, esta pintura não poderia deixar de impressionar, tanto mais quanto viveu o período central da sua vida na Polónia comunista onde a vida material correu entre dificuldades inenarráveis. E assim, num notável poema, Mulheres de Rubens, fala-nos ela de todo este excesso, exactamente a propósito das pinturas de nus femininos de Rubens. Não de uma representação em particular, mas de uma espécie de sobreposição carnal, de onde emerge o essencial da representação. Parte do poema desenvolve-se como comentário ao destino reservado a mulheres onde esta exuberância de carnes está ausente, e que a propria talvez tenha sentido com a sua figura fransina, ainda que as fotos mostrem um belo rosto de mulher.

rubens-1620ADeixo-vos com o poema em tradução de Julio Sousa Gomes e ao longo do artigo podem ver-se algumas dessas pinturas de excesso saídas do pincel de Rubens e seus ajudantes.

 rubens-1614-Venus_and_Adonis-ErmitazA

Mulheres de Rubens

Fauna mulheril de Arrasa-Montanhas,

nuas como um estrondo de barris.

Aninham-se em leitos amachucados,

dormem de bocas abertas como galos para cantar.

Fugiram-lhe as pupilas para as entranhas

e penetram no interior das glândulas,

cujos fermentos se espalham pelo sangue.

 

Filhas gradas do barroco. Cresce o bolo na masseira,

fumegam banhos, ruborescem vinhos,

leitões de neblina galopam no céu,

trompas estrondeiam num físico alarme.

 

Ó aboboradas, ó excessivas

e duplicadas pelo rejeitar das vestes,

e triplicadas pela pose truculenta,

ó gordas iguarias do amor!

 

As suas manas magras ergueram-se mais cedo

antes que no quadro a manhã clareasse.

E ninguém se deu conta da fila em que seguiram

pelo lado da tela por pintar.

 

Banidas do estilo. Costelas contadas,

natureza de ave nas nãos e nos pés.

Tentam erguer voo nas espáduas em quilha.

 

O século XIII dar-lhes-ia um fundo de ouro.

O século XX dar-lhes-ia ecrã de prata.

Em seiscentos não há nada para as chatas.

 

Eu diria até nédio o próprio céu,

nédios os anjos e nédia a divindade,

um bigodudo Febo que num suado

corcel vai penetrando na alcova ardente.

 Rubens_Peter_Paul-The_Three_GracesA1

Nota final

Para os leitores que os não conheçam, deixo os links para os artigos com pintura barroca de retrato, natureza-morta, e comezainas de Jan Steen.

Retrato barroco

Natureza-morta

Jan Steen

Rubens - Alegoria às bençãos da paz