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Masaccio - Expulsão do Paraiso 1426-27 Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine ANTES DO RESTAURO2Masaccio (1401-1428), génio de curta vida, morreu com 27 anos, tem em Florença, no fresco da Santíssima Trindade em Santa Maria Novelle, a primeira utilização da perspectiva total na pintura ocidental; e nos frescos da Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine, a inovação do uso da luz com forma de definir figuras e adereços, substituindo a iluminação uniforme do quadro, até aí praticada, pela iluminação a partir de um foco, concretamente a suposta luz vida da janela, criando assim um jogo de luz e sombra que desde então funcionou como paradigma neste género pictórico.

Dos seis frescos da Capela Brancacci, o Pagamento do Tributo e a Expulsão do Paraíso são aceites unanimemente como as suas obras primas. É este último fresco, Adão e Eva expulsos do Paraíso que hoje me interessa. Abre o artigo a imagem que dele durante séculos foi vista. Expulsos do Paraíso depois do pecado original, Adão e Eva apresentam-se com umas folhas a cobrir o sexo. Foi o restauro dos frescos entre 1981 e 1989 que revelou o brilho da pintura que se escondia sob séculos de negligência. Acontece que a folhagem cobrindo o sexo de Adão e Eva era uma excrescência acrescentada provavelmente no século XVII, a qual foi removida com o restauro, permitindo hoje a visão sem tabus do corpo, tal como à época era aceite, e hoje ainda é quase matéria de escândalo. Daí a escolha do poema de Jorge de Sena (1919-1978), Sobre a Nudez.
Masaccio - Expulsão do Paraiso 1426-27 Capela Brancacci em Santa Maria del Carmine Após restauro2

Sobre a Nudez

Quoi! Tout nu! dira-t-on, n’avait-il pas de honte?

………………………………………………………………….

Tout est nu sur la terre, hormis l’hypocrisie.

Musset, Namouna

 

Nus nascemos, nus

nos inspecciona o médico,

a tropa, o professor de ginástica.

 

Nus, na mesa de operações,

na cama de hospital,

na da morte.

 

Nus no amor para nos vermos,

sentirmos a pele dos outros corpos e

para mais que penetrarmos

 

termos o choque e o roçar

que nos dizem do quanto penetramos.

Nus sempre, menos no que não importa.

 

Porque há então quem tema tanto

a nudez dos outros? Será

que teme, menos que o feio

 

de muitos, a beleza de

alguns, ou o fascínio das

esplêndidas partes

 

de uns raros? E que, paralisados

(de inveja), deixemos que o mundo e a vida

se soltem à deriva

 

para a nua liberdade?

 

1968-69

 

Tradução da epígrafe

 

O quê! Completamente nu! dir-se-á, não tinha vergonha?

………………………………………………………………………………

Tudo está nu sobre a terra, salvo a hipocrisia.

 

Na capela, frente ao fresco de Masaccio, encontra-se o fresco A Tentação, pintado por Masolino (1383-1447), de resto o pintor a quem foi encomendada a obra na capela e de quem Masaccio era ajudante. Com ele encerro o artigo.

Masolino - Tentação na Capela Brancacci 1426-27B

No contraste entre a amável serenidade do par pintado por Masolino e a expressiva dor nas fisionomias e atitudes corporais representadas por Masaccio está toda a medida da invenção e génio de Masaccio.

 

Pede comparar-se esta Tentação e o conjunto de pinturas que quase cem anos depois pintou sobre o mesmo  assunto Lucas Cranach, o Velho, que noutro artigo se encontram, e permitem ver a variedade expressiva a que o assunto se presta.

 

Nota bibliográfica

 

Como já noutro artigo o escrevi, se os livros de arte são belos objectos onde com prazer nos perdemos, os livros sobre frescos são preciosos, pois a tudo isso acrescentam o permitir ver o detalhe que no local é inacessível, seja pela iluminação, seja pela distância.

Ao leitor interessado recomendo como imperdíveis os volumes (4) Italian Frescoes publicados por Abbeville Press, New York, e para estes frescos em particular, Italian Frescoes, The Early Renaissance 1400-1470, de Steffi Roetgen.

 

O poema Sobre a Nudez foi publicado pela primeira vez em Peregrinatio ad loca infecta 70 poemas, alguns dos quais amáveis, com um epílogo altamente filosófico, e sem prefácio do autor, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969.

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