O terrorista… olha — poema de Wislawa Szymborska

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Robert Rauschenberg - sem título 1963Através da aparente banalidade formal dos seus versos, servidos com uma ironia de incomparável elegância, Wislawa Szymborska (1923-2012) leva-nos à profundidade moral por detrás do nosso quotidiano, reflectindo, e nós com ela, sobre comportamentos e valores nas sociedades modernas. E isto desde os poemas iniciais aos últimos publicados, como por exemplo “Confissões de uma máquina de leitura” publicado em 2011, de que apenas conheço a versão inglesa: “Confessions of a Reading Machine“. Aqui, a máquina de traduzir expende a sua perplexidade sobre o significado de palavras como sentimentos, alma, e ser, propondo por exemplo, como significado para alma, uma espécie de nevoeiro supostamente mais duradouro que o corpo humano.

Todos nós, utilizadores da internet, já nos surpreendemos com a criatividade das traduções automáticas, daí a especial acuidade desta reflexão. Mas também é verdade que este esforço tecnológico, ainda nos primeiros passos, será, na sua evolução, uma prodigiosa ferramenta no entendimento humano.

 

Confessions of a Reading Machine

 

I, Number Three Plus Four Divided By Seven,

am renowned for my vast linguistic knowledge.

I now recognize thousands of languages

employed by extinct people

in their histories.

 

Everything that they recorded with their signs,

even when crushed beneath layers of disasters,

I extract, reconstruct

in its original form.

 

Not to boast,

but I even read lava

and scan ashes.

 

I explain on a screen

each object mentioned,

when it was produced,

and what from, and what for.

 

And solely on my own initiative,

I peruse the occasional letter

and correct its

spelling errors.

 

I admit—certain words

do cause me difficulty.

For example I still cannot explain precisely

the states called “feelings.”

 

Likewise “soul,” a peculiar expression.

I’ve determined for now that it is a kind of fog

purportedly more lasting than mortal organisms.

 

But the word “am” gives me the most trouble.

It appears to be an ordinary function,

conducted daily, but not collectively,

in the present prehistoric tense,

specifically, in the continuous,

although as we know discontinued long ago.

 

But will this do for a definition?

I feel rumbling in my linkages and grinding of my screws.

My button to Head Office smokes but won’t light up.

 

Perhaps my pal Two Fifths Of Zero Fractured By Half

might provide some brotherly assistance.

True, he’s a known lunatic,

but he’s got ideas.

 

Tradução de Clare Cavanagh.

in Wislawa Szymborska, MAP, Collected and Last Poems, ed. Houghton Mifflin Harcourt, New York, 2015.

 

Se no poema anterior a tecnologia revela uma preocupação de entender os homens e de os aproximar, vencendo a maldição de Babel que a humanidade carrega, no poema seguinte, O terrorista… olha, a tecnologia está ao serviço da morte, qualquer que seja a roupagem com que se disfarce. E bem avisada anda a poeta, ao retirar do relato qualquer sentimentalidade, dando apenas conta da frieza inerente ao acto de matar com prazo. Acrescenta-se a eloquência com que a arbitrariedade do acaso pode ditar o que por segundos separará viver de morrer.

Ao ler o poema, como saltam vivas, as imagens do que pode ter sucedido nos cafés de Paris em Novembro de 2015!

Robert Rauschenberg - Falcão 1963

O terrorista… olha

 

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.

São neste momento treze e dezasseis.

Alguns conseguem ainda entrar,

alguns sair.

 

O terrorista passou já para o outro lado da rua.

A que distância ficará livre de perigo

e, quanto à vista, é como no cinema:

 

Uma mulher de casaco amarelo… entra.

Um homem de óculos… sai.

Rapazes de jeans… conversam.

Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.

Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,

mais um tipo alto que entra.

 

Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.

Passa uma moça de fita verde nos cabelos.

Só que o autocarro oculta-a.

 

Treze e dezoito.

A rapariga desapareceu.

Se foi bastante estúpida para entrar ou não,

isso se saberá pelas notícias.

 

Treze e dezanove.

Parece que ninguém entra.

Há porém um careca gordo que sai.

Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,

faltam treze segundos para as as treze e vinte,

e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.

 

São treze e vinte.

Como o tempo voa.

Deve ser agora.

Ainda não.

Sim, é agora.

A bomba… explode

 

Tradução de Júlio Sousa Gomes

 

in Wislawa Szymborska, Paisagem com Grão de Areia, Relógio d’Agua Editores, Lisboa 1998.

Robert Rauschenberg - Propriedade 1963

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Robert Rauschenberg (1925-2008).

Televisão e mais poemas de John Updike

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ib-and-her-husband-1992Num último livro com poemas, John Updike (1932-2009) vai-nos dando conta do mundo em redor, sem retórica ou moralidades escusadas. Apenas o olhar de quem por uma vida observou o mundo e sobre ele escreveu com mediania, riscada às vezes por traços geniais, o que afinal devolve os homens à sua verdadeira dimensão.

Com benevolência e alguma desilusão fui lendo parte do que John Updike escreveu desde um juvenil encontro com Rabitt Run, Corre Coelho, numa fascinante tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, nos idos anos 60 (edição Europa-America). Hoje encontro um escorreito livro de poemas, o último escrito, numa competente tradução da poetisa Ana Luisa Amaral, e do qual transcrevo alguns poemas.

São poemas sobre um sentir que nos é próximo, como próximas são as realidades de que falam. Da medicina à arte, passando pela televisão, se compõe a escolha que transcrevo. São assuntos de difícil tratamento poetico: transmitir a ambivalência de sentimentos que nos provocam ao incomodar-nos o seu convívio ou necessidade; e o poeta vai para lá do relato-pretexto, dando-nos poemas com uma dimensão que nos toca intimamente.

naked-man-back-viewColonoscopia

 

E falam eles de intimidade! Preferia que o não fizessem.

No dia anterior, uma luta com a náusea

(BEBE-ME: um litro de líquido doce e enjoativo)

e a diarreia, para nos apresentarmos imaculados

como noiva ao noivo e aos seus instrumentos,

à sua inspecção, uma minúscula câmara de TV,

as palavras delicodoces. Está bronzeado, ele,

voltou de umas férias merecidas

das já familiares partes baixas.

 

Em traje apropriado, reclinados,

vemos, rolando os olhos, o ecrã por onde

o intestino longo, sedado, serpenteia,

os segmentos marcados por pontos de construção

anelar, limpos, como em túnel pré-fabricado

lançado pelo genro do governador.

Um súbito jorro de líquido cintilante brilha

na luz introduzida, e curvas como ganchos de cabelo

surgem mais à frente, para logo fugirem,

impalpáveis; flutuamos, caímos, rodopiamos

nesses corredores suaves e dóceis, explorados

por tudo o que comemos.

Depois, tudo escurece,

tal como Deus o queria, quando selou no abdômen

de Adão o milagre da vida, viscoso, retorcido, de mau

cheiro. A voz do noivo, abaixo do nível de visão,

como tesouro enterrado, anuncia:

“Perfeito. Nem um pólipo. Vemo-nos daqui a

cinco anos.” Cinco anos? Já a feira pode ter sido levantada.

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Lucien Freud

 

(Uma exposição em Veneza, Setembro de 2005)

 

Sim, o corpo é uma coisa hedionda, sobretudo

os pés e os genitais, e não menos a face humana.

Veias azuis desenham serpentes nas costas

das mãos e desfiguram a solidez de mármore

brilhante que têm as coxas. Vale a pena

ver esse peso coalhado depois de séculos

(de Pigmalião a Canova) do nu como a forma

exterior do espírito, uma chama branca: a Psyche.

 

De que forma maravilhosa a elegante Diana

de Saint-Gaudens se equilibra num só pé, no ar,

distante como a lua, e para sempre! Mas não,

a carne arrasta-nos para baixo, a sua terra salpicada,

terreno ávido para o pintor, terra inocentemente feia,

adormecida, pobre nudez, anjo afundado, saco de fleuma.

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Televisão

 

Ligo-a como se fosse uma torneira,

nem frio nem quente, só tépido infotenimento,

e dela jorram as provas cintilantes

de conflitos, misérias, concupiscência,

desatrelados pouco a pouco, em remissões

de publicidade ansiosa que antecipa

para nosso bem a melhor vida dependente

de uma compra, de alguma aquisição indispensável.

 

Um carro lustroso dá curvas na chuva murmurante,

uma praia de alvura óssea acolhe peles bronzeadas,

um toalhete acalma as rugas de uma bela enrugada,

um unguento consola a dor sedentária,

dentes falsos resplandecem, a cerveja provoca alegria,

e cabelos pintados arremessam a cor pelo ecrã:

erupções de luz bebidas pelo meu cérebro,

que depressa se cansa, até ficar sequioso outra vez.

 

in John Updike, Ponto Último e outros poemas, tradução de Ana Luisa Amaral, Civilização Editora, Porto, 2009.

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Lucien Freud (1922-2011).

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O desfazer dos sonhos e a dança de Mofina Mendes

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Henri GISSEY - Luis XIV com Apolo no Ballet de la nuit 1653 480pxChegado a uma idade em que os sonhos se realizaram ou estão desfeitos, salvo seja, dei comigo, no sossego da sauna, a pensar que se voltasse por qualquer processo a viver de novo desde a juventude, o que mais me custaria seria a perda dos sonhos pelo caminho. Provavelmente efeitos do calor excessivo.

Escreveu Antonio Gedeão no poema Pedra Filosofal: Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida / tão concreta é definida / como outra coisa qualquer / … Eles não sabem, nem sonham / que o sonho comanda a vida., e na verdade assim é. Com a expectativa da realização do(s) sonho(s) corre a vida, mesmo quando em cacos alguns ficam pelo caminho, como bem nos faz recordar Mofina Mendes na canção do auto do mesmo nome, escrito por Gil Vicente (c. 1465-1536) em 1534.

A canção é um pouco mais pessimista quando na coda final generaliza, concluindo pelo efémero de qualquer prazer ou bem-estar humano:

 

Pastores não me deis guerra;

Que todo o humano deleite,

Como o meu pote d’azeite

Há-de dar consigo em terra

 

 

Eis a história:

Mofina Mendes, guardadora de gado desleixada, depois de ter perdido o gado que guardava, é despedida. Como paga do trabalho recebe um pote de azeite. Com ele à cabeça dança e canta como segue:

 

Vou-me à feira de Trancoso

Logo, nome de Jesu,

E farei dinheiro grosso.

 

Do que este azeite render

Comprarei ovos de pata

Que é a coisa mais barata

Qu’eu de lá posso trazer.

E estes ovos chocarão;

Cada ovo dará um pato,

E cada pato um tostão.

Que passará de um milhão

E meio, a vender barato.

 

Casarei rica e honrada

Por estes ovos de pata.

E o dia em que for casada

Sairei ataviada

Com um brial d’escarlata,

E diante o desposado,

Que me estará namorando:

Virei de dentro bailando

Assim dest’arte bailado

Esta cantiga cantando.

 

Estas coisas diz Mofina Mendes com o pote de azeite à cabeça e andando enlevada no baile, cai-lhe o pote

 

 

Vai-se Mofina Mendes, cantando:

 

Por mais que a dita* m’engeite,

Pastores não me deis guerra;

Que todo o humano deleite,

Como o meu pote d’azeite

Há-de dar consigo em terra.

 

* dita — sorte, fado, destino

Modernizei ligeiramente a ortografia da edição de 1572.

Desconheço a fonte de inspiração directa de Gil Vicente para este episódio tomando o certo pelo incerto, mas o mesmo tem origens remotas e foi glosado diversas vezes, nomeadamente, e já depois de Gil Vicente, na fábula de La Fontaine sobre a Leiteira e o pote de leite.

Tanto quanto consegui apurar, a fonte mais antiga com esta ideia será um dos contos de Panchatantra, antiquíssima compilação indiana de apólogos, e mais precisamente o conto 9 do livro 5, cuja história é a seguinte:

Um brâmane pobre vai juntando a farinha que lhe sobra das esmolas num pote de barro pendurado da parede por cima da cama. Quando o pote está cheio começa a sonhar com o que fará depois de vender a farinha. Embarca-lhe a fantasia numa sucessão de bons negócios até ficar rico e casar. A certa altura do devaneio, gesticula, e com a perna dá um pontapé no pote. Este cai, parte-se, e toda a farinha se espalha, perdendo-se no ar, desfazendo assim os sonhos de uma vida melhor.

Aqui fica, pois, a lição sobre a cautela aconselhável aos devaneios, cautela tanto maior quanto a fronteira entre sonho e realidade se dilua no calor excessivo, o que se pode revelar de péssimo conselho.

Nota iconográfica

Abre o artigo um desenho aguarelado mostrando o rei de França Luis XIV (1638-1715) como Apolo, no bailado Balett de la nuit, onde participou ainda jovem (15 anos) em 1653. Encorajado desde muito jovem pelo Cardeal Mazarino a praticar a dança, terá visto o sonho de bailarino desfeito, levado pela obrigação de reinar. Voltas que a vida tece…

Manuel de Castro – Carta e Último Poema Possivelmente de Amor

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O Aniversário 1915Se para o mundo, acreditando na sua eternidade, podemos dizer: não há morte nem princípio, para o amor, efémero como o homem, há começar e acabar. O seu fim tanto é matéria de dor, como alívio ou desencanto. Esta simbiose emocional encontra na poesia vasto eco, reflectindo vivências particulares a que a pungência expressiva acrescenta por vezes dimensão avassaladora, qual seja o exemplo dos dois poemas de Manuel de Castro (1934-1971) na sua trabalhada contenção verbal, e que a seguir transcrevo.

Poeta de curta vida, dele poucos leitores saberão. Ao ler-lhe a poesia poder-se-á dizer que o poeta “…não falava / senão de alguma esperança e de poesia.” como escreveu Jorge de Sena num poema em que se lhe refere*:

Nem nada sei das voltas que lhe deu a vida.

Suponho que morreu de doença,de desordem,

miséria talvez, raivosa fúria dia a dia traída

O poema, também violento libelo contra os “poetas oficiais” do tempo, e de um certo estado das letras no Portugal de então, termina referindo-se de novo ao poeta evocado:

E quem não esteja lá, se limpo de assassino,

só pode recordar os olhos do poeta,

a boca retorcida de amargura à espreita,e os gestos sacudidos com que não falava

senão de alguma esperança e de poesia.

 

Eis os poemas:

 

Carta

 

esqueço-te com a terna complacência do silêncio

habitual das horas no seu movimento

e no entanto restou um perfume quase imperceptível

do olhar por uma vez aceite

em mim, um olhar que julguei

fosse o meu amor, a ilusão

de um gesto que olhamos como

se nos pertencesse e no entanto

nos é alheio.

Eu havia contribuído integralmente.

A terra foi por um instante pura

através do teu corpo elástico e pausado.

 

Último Poema Possivelmente de Amor

 

recorda

como se os dias não fluíssem em dias

e para ti fosse um nítido jogo de músculos

meu braço no teu corpo    anfiteatro

da mais pura derrota rumo às constelações

 

eis-me descoberta

de tudo que se arrisca sem limites

construído pela coloração de globos de vidro

iluminados e submersos

 

para o teu nome

um novo mecanismo de linguagem

para o teu corpo

memória      ciclo perfeito

dos meus desejos de pedra e de violência

 

tu

única para quem fui      adeus      o homem sem comédia

 

in Manuel de Castro, Bonsoir, Madame, Alexandria/Língua Morta, Lisboa, 2013.

* poema de Jorge de Sena datado de 17/6/1972, Lendo uma referência à morte de Manuel de Castro, no “Diário” de Palma-Ferreira, e publicado pela primeira vez em 1974 no livro Conheço o Sal… E Outros Poemas.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Marc Chagall.

O poema XVI de Catulo e o calão em poesia

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Palices - Gravura ponta de aço sec xviii 600pxO poema XVI de Catulo (84 a. C.-  54 a. C.) coloca ainda hoje diversas questões sumamente interessantes.

Trata-se de um poema insultuoso para dois visados, Aurélio e Fúrio, em resposta a uma apreciação destes sobre a menor virilidade de que Catulo daria provas ao escrever. O poeta não gostou, e fazendo uso do vocabulário obsceno que julgou adequado ao insulto, mimou-os com este:

 

Pedicabo ego vos et irrumabo,

Aureli pathice et cinaede Furi,   

qui me ex versiculis meis putastis,   

quod sunt molliculi, parum pudicum.

nam castum esse decet pium poetam   

ipsum, versiculos nihil necessse est;

qui tum denique habent salem ac leporem,

si sunt molliculi ac parum pudici,

et quod pruriat incitare possunt,

non dico pueris, sed his pilosis   

qui duros nequeunt movere lumbos.   

vos, quod milia multa basiorum

legistis, male me marem putatis?

Pedicabo ego vos et irrumabo.   

 

Tradução I

 

O cu e a boca vos foderei eu,

Aurélio, minha bicha, Fúrio, meu paneleiro,

que pelos meus versinhos me julgais

pouco virtuoso, por tão delicadinhos serem.

É que casto deve ser o bom poeta,

não têm de o ser os seus versinhos,

que além do mais têm picante e graça,

sendo tão delicadinhos e pouco virtuosos,

e porque podem provocar comichões,

não digo aos miúdos, mas a estes peludos

que não conseguem mexer as duras piças.

Vós, lá por “muitos milhares de beijos”

terdes lido, achais que sou pouco macho?

O cu e a boca vos foderei eu!

Tradução de José Pedro Moreira e André Simões.

Desde logo o poema levanta a questão perene de assimilação entre autor e obra: o autor é a obra ou sempre o fingidor que de forma genial Pessoa definitivamente explicitou no poema Autopsicografia? Catulo afirma claramente a diferença:

Vós, lá por “muitos milhares de beijos”

terdes lido, achais que sou pouco macho?

 

É que casto deve ser o bom poeta,

não têm de o ser os seus versinhos,

 

Depois, surge a questão de género e a afirmação de virilidade que o poema também é, separando as águas entre machos e efeminados, aqui com a leitura social de comportamentos sexuais, dando o poema conta de como na sociedade da antiga Roma se distinguia e valorava de forma diferente uma atitude activa ou passiva no sexo anal entre homens adultos, sendo esta última humilhante para um homem, e atingindo o máximo da humilhação, quando seguida de sexo oral (e por esta ordem), o que Catulo explicita no verso de abertura e fecho do poema

 

Pedicabo ego vos et irrumabo,

 

e que eu diferentemente de outros tradutores transporia por:

 

Enrabar-vos-ei e na boca vos enfiarei,

 

Temos ainda a questão do uso de calão em poesia. Se por um lado o uso de vocabulário obsceno em poesia reveste sempre um carácter chocante para o leitor, o contexto pode tolerar e por vezes exigir a sua utilização. Este poema é paradigmático da sua exigência: sem o escabroso da afirmação inicial não seria explicitada a indignação nem haveria insulto aos visados, isto tudo na concisão do verso latino que em português se perde.

Se na poesia latina da Roma antiga o uso de palavras obscenas foi prática corrente quando se tratava de chamar os bois pelos nomes, como abundantemente poemas de Catulo ou Marcial, nomeadamente, mostram, quando chegamos à tradução surgem os embaraços, com eufemismos que retiram ao poema a violência verbal do insulto pretendido. Mesmo Jorge de Sena quando traduziu este poema, conservou sem tradução o verso de abertura e fecho que acima traduzi.

Transcrevo a seguir a versão Jorge de Sena, a qual, fugindo à letra da obscenidade original, realça um aspecto importante da poesia erótica em geral, qual seja, provocar excitação no leitor. Leiam-se os versos:

Licença e desvergonha são o sal

Com que versos se fazem. Assim excitem,

Senão crianças, ao menos os pilosos

Que enferrujados já não movem lombos.

sendo que os pilosos / Que enferrujados já não movem lombos. são obviamente os velhos já incapazes para o sexo.

 

Tradução II

 

“Pedicabo ego vos et irrumabo”,

Aurélio sem dentes, Fúrio sem fundo,

Que de mim dizeis, porque são meus versos

Tão livres assim, que sou depravado.

Casto consigo deve ser o poeta,

Mas nada obriga a que a poesia o seja.

Licença e desvergonha são o sal

Com que versos se fazem. Assim excitem,

Senão crianças, ao menos os pilosos

Que enferrujados já não movem lombos.

E vós, porque de muitos mil de beijos

Lestes, que não sou macho andais dizendo?

“Pedicabo ego vos et irrumabo”.

Tradução de Jorge de Sena.

Concluo com uma outra tradução que não foge à explicitação da obscenidade verbal.

 

Tradução III

 

Ó Aurélio brochista, ó Fúrio paneleiro,

a vós que, sendo meus leves versos voluptuosos,

por eles devasso me julgastes,

eu vos hei-de enrabar e embrochar.

Ora se um autêntico poeta casto deve ser,

não é força que seus versos o sejam.

Estes afinal sabor e encanto hão-de ter,

se forem galantes e nada cândidos,

e capazes de aguilhoar desejos,

não digo nos moços, mas nesses pilosos

que não podem já os engrunhidos rins mover.

Vós, lá porque lestes muitos milhares de beijos,

acaso me considerais falto de virilidade?

Pois hei-de vos enrabar e embrochar

Tradução de J. Lourenço de Carvalho.

As traduções transcritas permitem apreender quanto a passagem de um poema para outra língua depende, para além do domínio da língua de origem, do talento do tradutor em construir uma versão fluida, respeitando o original, que o leitor sinta como um poema na língua de chegada.

Nota bibliográfica

Tradução de José Pedro Moreira e André Simões em Catulo, Carmina, Livros Cotovia, Lisboa 2012. Tradução admirável da obra completa de Catulo.

Tradução de Jorge de Sena em Poesia de 26 Séculos, Fora do Texto, Coimbra 1993.

Tradução de J. Lourenço de Carvalho em Antologia da Poesia Latina Erótica e Satírica, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1975.

Leonor num poema motard de António Gedeão

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Lambretta 550pxEcoando as glosas de Camões e Francisco Rodrigues Lobo ao mote Descalça vai para a fonte / Lianor pela verdura / Vai fermosa e não segura, (ver aqui artigo no blog), escreveu António Gedeão (1906-1997) uma saborosa viagem motard de uma Leonor com namorado.

Ao realismo da aventura e dos sentimentos que desencadeia, onde o poeta faz uso de um léxico variado que se diria serem termos sem poesia, acrescenta-se uma irrepreensível forma tradicional em redondilha.

Ainda que o poema escrito no final dos anos 50 evoque a popular motoreta italiana, ele dá conta da vertigem e prazer da velocidade sobre rodas que desde essa época não esmoreceu.

Ícone de liberdade, continua, mal chegada a adolescência, a povoar o imaginário com as aventuras do desconhecido, paisagens e amores incluídos.

Lambretta 1963

Deixo-vos com o poema.

 

Poema da auto-estrada

 

Voando vai para a praia

Leonor na estrada preta.

Vai na brasa, de lambreta.

 

Leva calções de pirata,

vermelho de alizarina,

modelando a coxa fina,

de impaciente nervura.

Como guache lustroso,

amarelo de idantreno,

blusinha de terileno

desfraldada na cintura.

 

Fuge, fuge, Leonoreta:

Vai na brasa, de lambreta.

 

Agarrada ao companheiro

na volúpia da escapada

pincha no banco traseiro

em cada volta da estrada.

Grita de medo fingido,

que o receio não é com ela,

mas por amor e cautela

abraça-o pela cintura.

Vai ditosa e bem segura.

 

Como um rasgão na paisagem

corta a lambreta afiada,

engole as bermas da estrada

e a rumorosa folhagem.

Urrando, estremece a terra,

bramir de rinoceronte,

enfia pelo horizonte

como um punhal que se enterra.

Tudo foge à sua volta,

o céu, as nuvens, as casas,

e com os bramidos que solta,

lembra um demónio com asas.

 

Na confusão dos sentidos

já nem percebe, Leonor,

se o que lhe chega aos ouvidos

são ecos de amor perdidos

se os rugidos do motor.

 

Fuge, fuge, Leonoreta

Vai na brasa, de lambreta.

 

Poema publicado pela primeira vez em Máquina de Fogo (1961) e transcrito de Antonio Gedeão, Obra Completa, 2ªedição, Relógio d’Água, Lisboa 2007.

Para os amantes do cinema clássico de Hollywood termino com o poster do filme Roman Holiday (1953), em português, Férias em Roma, de William Wyler, onde a princesa (Audrey Hepburn) se passeia, não em Lambretta mas em Vespa, suponho, guiada pelo jornalista Gregory Peck.

Saborosa comédia romântica com actualidade continuada sobre se um jornalista deve ou não divulgar publicamente o que sabe quando tem relevância pública, e quais as razões a que deve atender para não o fazer.

Para os interessados, o filme pode ser encontrado grátis online.

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Constipações e a receita de Pessoa/Álvaro de Campos

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PronkinNeste Outono de quatro estações, uma grande constipação pode surgir a qualquer de nós, razão para o meu recente prolongado silêncio no blog.

Ao remédio conhecido de mimos e sumo de laranja acrescentei a receita do engenheiro, Álvaro de Campos de seu nome: Preciso de verdade e de aspirina.

A aspirina busquei na farmácia; à verdade, essa vasculhei entre filósofos da minha estima, com Kant e Popper à cabeça. E o que inicialmente foi uma brincadeira com constipação até à metafísica, cresceu bem para lá de qualquer faculdade de julgar, levando-me a febre ao delírio, onde acabei por me perder em conjecturas e refutações, para afinal concluir que é à medida que a vida corre que percebemos como ela é uma busca inacabada.

Aqui chegados, instala-se a dúvida, já nem metódica, mas sistemática, e acabamos por tomar decisões apenas com a certeza do incerto.

Como se compreende, com tamanha barafunda, a poesia, que é sobretudo matéria do sonho, ficou sem espaço enquanto circulei por este país da lógica, tendo até concluído que a crise (em luta com a verdade) não se vence com poesia, porque a poesia não vence nada, a não ser o desanimo, devolvendo às vezes o gosto de estar vivo.*

Vamos então à receita de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos:

 

Tenho uma grande constipação,

E toda a gente sabe como as grandes constipações

Alteram todo o systema do universo,

Zangam-nos com a vida,

E fazem espirrar até à metaphysica.

Tenho o dia perdido cheio de me assoar.

Doe-me a cabeça indistinctamente.

Triste condição para um poeta menor!

Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.

O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

 

Adeus para sempre rainha das fadas!

As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.

Não estarei bem se não me deitar na cama.

Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez du peu… Que grande constipação physica!

Preciso de verdade e de aspirina.

 

 

Nota bibliográfica

Transcrevi, conservando a ortografia, a leitura feita por Teresa Rita Lopes do dactiloscrito datado de 14/3/1931, e sem atribuição de autoria, existente no espólio do poeta. Este poema foi publicado com o nº145 na 2ªedição de ÁLVARO DE CAMPOS  LIVRO DE VERSOS, Edição Crítica, organizado por Teresa Rita Lopes e editado por Editorial Estampa, Lisboa1994.

* esta é uma versão ligeiramente modificada do texto publicado anteriormente no blog em Maio de 2010, desencadeado pelas mesmas causas, mas com enquadramento diferente: nessa data com poemas de Manuel Alegre.

A Eternidade — poema de Rimbaud em versão de Augusto de Campos

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Vieira da Silva (1908 – 1992) - Caminhos da Paz 1985 600pxA eternidade, como não-tempo, não tem história, portanto, não tem acontecimentos. A humanidade perante o horror deste vazio foi preenchendo o conceito através das diversas religiões com o que mais gostava, qual casa de bonecos acrescentada dos enfeites mais variados, e tem-lhe chamado paraíso. Seguiu-se-lhe uma moral fixando o processo de poder usufruir deste paraiso e a ele aceder, definindo-se para isso o bem e o mal.

Ao longo da história a imposição do paraíso de uns tem sido o inferno de outros, fazendo da vida uma luta por vezes sem quartel, na imposição do bem de uns aos outros que não o querem, ou não o reconhecem.

Para lidar com este abstruso conceito — Lá não há esperança / E não há futuro — socorro-me de um poema de Arthur Rimbaud (1854-1891), de cuja poesia escrevia Paul Verlaine (1844-1896): a língua é clara e mantém-se límpida mesmo quando a ideia se turva ou o sentido se torna obscuro.

A Eternidade

 

De novo me invade.

Quem? — A Eternidade.

É o mar que se vai

Com o sol que cai.

 

Alma sentinela,

Ensina-me o jogo

Da noite que gela

E do dia em fogo.

 

Das lides humanas,

Das palmas e vaias,

Já te desenganas

E no mar te espraias.

 

De outra nenhuma,

Brasas de cetim,

O Dever se esfuma

Sem dizer: enfim.

 

Lá não há esperança

E não há futuro.

Ciência e paciência,

Suplício seguro.

 

De novo me invade.

Quem? — A Eternidade.

É o mar que se vai

Com o sol que cai.

Maio 1972

 

Versão de Augusto de Campos, Rimbaud Livre, Editora Perspectiva S.A., São Paulo, Brasil, 1992.

 

Poema original

 

L’Éternité

 

Elle est retrouvée.

Quoi ? – L’Éternité.

C’est la mer allée

Avec le soleil.

 

Âme sentinelle,

Murmurons l’aveu

De la nuit si nulle

Et du jour en feu.

 

Des humains suffrages,

Des communs élans

Là tu te dégages

Et voles selon.

 

Puisque de vous seules,

Braises de satin,

Le Devoir s’exhale

Sans qu’on dise : enfin.

 

Là pas d’espérance,

Nul orietur.

Science avec patience,

Le supplice est sûr.

 

Elle est retrouvée.

Quoi ? – L’Éternité.

C’est la mer allée

Avec le soleil.

 

Rimbaud, Poésies completes, Librairie Générale Française, 1998.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), Caminhos da Paz, de 1985.

Demitir-se da esperança — poemas de Günter Kunert

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Diego Rivera - Dia de FinadosAlguém alertava por estes dias quanto a indiferença é um perigo maior nas sociedades ocidentais hoje. Na verdade, as mortes por centenas correm todos os dias nas televisões sem sobressalto cívico evidente. Apenas a morte à porta de casa ainda consegue mobilizar por momentos a dor. E, no entanto, neste mundo que é o nosso, volta a ser necessário separar as águas entre quem quer viver connosco e quem que se exclui do convívio humano do século XXI.

Foi há menos de trinta anos que na Europa os regimes onde o arbítrio era lei se desmoronaram. Duraram quase cinquenta anos, e enquanto duraram, mesmos para aqueles que acreditaram na verdade das palavras, a esperança foi morrendo, levada pela espera de um paraíso que nunca chegou.

Transcrevo hoje dois poemas de Günter Kunert (1929) poeta alemão que viveu adulto no que foi até 1989 a Alemanha de Leste (RDA), a qual deixou em 1979 fixando-se perto de Hamburgo na RFA. São poemas escritos num contexto de desilusão e perda de ideais, e disso dão conta de forma exemplar.

A Pergunta

 

Esperar o quê

os mortos calam-se ou são silenciados

só nas bichas para lojas vazias

se verifica crescimento contínuo:

A agitação não traz

senão benção

fraternidade em papel de jornal

para embrulhar

 

Nenhuma hora regressa

e cada novo dia executa

o anterior com maior esforço:

 

Uma história curta e brutal

cheia de longas promessas

que já não conseguem abafar

as tuas perguntas

 

Tradução de Ana Tönnies

 

 

(DE)MISSÃO

 

Demitir-se da esperança

como uma carta sem endereço

impossível de entregar e

não dirigida a ninguém

 

Como um peso

Como aquele bloco de mármore

que sempre me fugia

até que eu percebi que não

fazia sentido o esforço

de o empurrar continuamente

para a minha boa consciência

 

Uma esperança incurável

por fim dolorosamente

insuportável

um corpo estranho enquistado

encrostado e endurecido

monstruosidade

que me não pertence e a que

não quero pertencer

 

A mais difícil missão é:

saber demitir-se

Aqueles que começam pela esperança

já aprenderam a sua

lição

 

Tradução de João Barrento

 

 

in 90 Poemas de Günter Kunert, tradução colectiva, com seis desenhos de Mário Botas e um ensaio de João Barrento, edição apáginastantas, Lisboa, 1983.

Orfeu B. — Uma grande superfície de emoções e sentimentos

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Andy Wahrol - 100Campbells soup 1962 450px

Orfeu B. numa brilhante alegoria escrita como poema narrativo, leva-nos a percorrer uma grande superfície comercial, não em busca do prosaico do quotidiano material implicado na necessidade de subsistir, mas na procura(?) dos sentimentos e afectos que dão significado à vida.

O comprador/poeta reconhece alguma da oferta por experiência própria, outra por ouvir dizer. E se nesta viagem é parco nas escolhas, conta-nos o que aos outros compradores atrai.

Com ele visitamos uma secção de sentimentos ambivalentes, a secção das nostalgias e saudades, continuamos pela secção dos artigos relacionados com sentimentos liberados pela poesia, e chegamos à confusão na área reservada às emoções fortes seguida da dos sentimentos gerados por amantes, culminando na secção dos orgasmos. Exausto segue o poeta para as caixas de pagamento. Feito o balanço, promete voltar.

É do nosso tempo que se trata e do entendimento moderno do que devem ser as relações nos afectos — um dar e receber — com contabilidade diária de que cada um recebeu convenientemente em relação ao que pagou. Mas é mais: é a alegoria de que os sentimentos pedem ser mercadoria a que o marketing se aplica e a tecnologia intermedeia.

Lido o poema, da sua dolorosa e mansa ironia fica-nos o sabor da impotência perante a avassaladora presença das leis do mercado na vivência afectiva hoje.

 

Uma grande superfície de emoções e sentimento

 

Logo ao entrar armei-me com um modesto cestinho.

Os corredores eram imperiais e prolongavam-se a perder de vista;

sem ter qualquer plano fui navegando à vista

hesitantemente ganhando coragem

e desenvolvendo algum sentido de orientação.

 

Deparei imediatamente com uma concorrida

secção de sentimentos ambivalentes;

nesta pairava uma pesada ansiedade

e as pessoas passavam e serviam-se automaticamente

com o que havia nas prateleiras:

amores deslocados, repulsas mal definidas, ódios gratuitos,

amor ao próximo.

 

Passei então à secção das nostalgias e saudades.

Fui logo às grandes embalagens,

que por meio de letras coloridas indicavam

família distante, Brasil, desertos,

amigos e amigas espalhados pelo mundo fora,

companheiros e companheiras de física, poesia e futebol.

 

Estava verdadeiramente satisfeito e, de seguida, passei à secção

dos artigos relacionados com sentimentos liberados pela poesia,

que estava deserta.

Havia muita escolha e me servi de variadissimos sentimentos;

não havia nada da minha poesia,

mas pudera, está quase toda em minha casa e

em confuso estado.

 

Por contraste, as secções seguintes eram disputadissimas.

Na área reservada às emoções fortes,

a confusão de pessoas e carrinhos era tremenda.

As pessoas serviam-se avidamente de tudo que estava disponível:

havia cenas de pugilato entre respeitáveis senhores,

distintas senhoras a arrancarem-se os cabelos,

todos na obsessiva disputa das embalagens extra grandes

de paixões arrebatadoras, amores eternos, fúrias homicidas.

 

Surpreendido pela situação que me era completamente estranha,

fui arrastado para o meio da confusão,

sem qualquer hipótese dum pacífico retorno à segurança:

fui empurrado, agredido e derrubado,

contudo, no meio daquela azáfama, ainda fui capaz

de, às duras penas, avançar de gatas

e surripiar uma minúscula embalagem

duma paixão arrebatadora por ruivas.

Não tenho, após o seu uso,

qualquer queixa do produto e do seu fabricante.

 

No corredor seguinte, o dos sentimentos gerados por amantes,

à confusão juntavam-se gritos e insultos,

mas, felizmente, prevenido pela experiência anterior,

consegui escapar aos perigos ali presentes,

e até agarrar no ar um pacote de uma amante recatada,

tamanho médio, que voou na confusão.

Tenho-o sem abrir até hoje lá em casa.

 

À secção dos orgasmos não havia como chegar:

a multidão estava imobilizada pela elevadíssima

taxa de ocupação do exíguo espaço,

mas, à distância, pude apreciar a variedade de formas,

cores e tamanhos disponíveis,

embora, curiosamente, me parecesse que os orgasmos cinzentos

e com formas de sólidos de Platão fossem os mais procurados.

 

Finalmente, completamente exausto,

dirigi-me às caixas de pagamento.

Já na fila, uma senhora que estava logo às minhas costas

rosnou ao marido, referido-se a mim:

“Meu Deus! Que homem mais poupado!”

 

Olhando à volta, não havia dúvidas

que, em termos de quantidade, as minhas compras eram ridículas.

Senti-me intimidado e embaraçado com a situação

mas, apesar de tudo,

penso que passarei também eu a fazer as minhas compras

naquela grande superfície:

há uma boa variedade de produtos a preços acessíveis,

o sítio é conveniente é bem localizado

e sempre dá muito jeito haver um amplo espaço de estacionamento.

in Orfeu B., Instituto de Felicidade Teórica (contos e poemas), Edição Alma Azul, Julho 2002.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Andy Wahrol – 100 latas de sopa Campbell.