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O Aniversário 1915Se para o mundo, acreditando na sua eternidade, podemos dizer: não há morte nem princípio, para o amor, efémero como o homem, há começar e acabar. O seu fim tanto é matéria de dor, como alívio ou desencanto. Esta simbiose emocional encontra na poesia vasto eco, reflectindo vivências particulares a que a pungência expressiva acrescenta por vezes dimensão avassaladora, qual seja o exemplo dos dois poemas de Manuel de Castro (1934-1971) na sua trabalhada contenção verbal, e que a seguir transcrevo.

Poeta de curta vida, dele poucos leitores saberão. Ao ler-lhe a poesia poder-se-á dizer que o poeta “…não falava / senão de alguma esperança e de poesia.” como escreveu Jorge de Sena num poema em que se lhe refere*:

Nem nada sei das voltas que lhe deu a vida.

Suponho que morreu de doença,de desordem,

miséria talvez, raivosa fúria dia a dia traída

O poema, também violento libelo contra os “poetas oficiais” do tempo, e de um certo estado das letras no Portugal de então, termina referindo-se de novo ao poeta evocado:

E quem não esteja lá, se limpo de assassino,

só pode recordar os olhos do poeta,

a boça retorcida de amargura à espreita,

e os gestos sacudidos com que não falava

senão de alguma esperança e de poesia.

 

Eis os poemas:

 

Carta

 

esqueço-te com a terna complacência do silêncio

habitual das horas no seu movimento

e no entanto restou um perfume quase imperceptível

do olhar por uma vez aceite

em mim, um olhar que julguei

fosse o meu amor, a ilusão

de um gesto que olhamos como

se nos pertencesse e no entanto

nos é alheio.

Eu havia contribuído integralmente.

A terra foi por um instante pura

através do teu corpo elástico e pausado.

 

Último Poema Possivelmente de Amor

 

recorda

como se os dias não fluíssem em dias

e para ti fosse um nítido jogo de músculos

meu braço no teu corpo    anfiteatro

da mais pura derrota rumo às constelações

 

eis-me descoberta

de tudo que se arrisca sem limites

construído pela coloração de globos de vidro

iluminados e submersos

 

para o teu nome

um novo mecanismo de linguagem

para o teu corpo

memória      ciclo perfeito

dos meus desejos de pedra e de violência

 

tu

única para quem fui      adeus      o homem sem comédia

 

in Manuel de Castro, Bonsoir, Madame, Alexandria/Língua Morta, Lisboa, 2013.

* poema de Jorge de Sena datado de 17/6/1972, Lendo uma referência à morte de Manuel de Castro, no “Diário” de Palma-Ferreira, e publicado pela primeira vez em 1974 no livro Conheço o Sal… E Outros Poemas.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Marc Chagall.

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