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Henri GISSEY - Luis XIV com Apolo no Ballet de la nuit 1653 480pxChegado a uma idade em que os sonhos se realizaram ou estão desfeitos, salvo seja, dei comigo, no sossego da sauna, a pensar que se voltasse por qualquer processo a viver de novo desde a juventude, o que mais me custaria seria a perda dos sonhos pelo caminho. Provavelmente efeitos do calor excessivo.

Escreveu Antonio Gedeão no poema Pedra Filosofal: Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida / tão concreta é definida / como outra coisa qualquer / … Eles não sabem, nem sonham / que o sonho comanda a vida., e na verdade assim é. Com a expectativa da realização do(s) sonho(s) corre a vida, mesmo quando em cacos alguns ficam pelo caminho, como bem nos faz recordar Mofina Mendes na canção do auto do mesmo nome, escrito por Gil Vicente (c. 1465-1536) em 1534.

A canção é um pouco mais pessimista quando na coda final generaliza, concluindo pelo efémero de qualquer prazer ou bem-estar humano:

 

Pastores não me deis guerra;

Que todo o humano deleite,

Como o meu pote d’azeite

Há-de dar consigo em terra

 

 

Eis a história:

Mofina Mendes, guardadora de gado desleixada, depois de ter perdido o gado que guardava, é despedida. Como paga do trabalho recebe um pote de azeite. Com ele à cabeça dança e canta como segue:

 

Vou-me à feira de Trancoso

Logo, nome de Jesu,

E farei dinheiro grosso.

 

Do que este azeite render

Comprarei ovos de pata

Que é a coisa mais barata

Qu’eu de lá posso trazer.

E estes ovos chocarão;

Cada ovo dará um pato,

E cada pato um tostão.

Que passará de um milhão

E meio, a vender barato.

 

Casarei rica e honrada

Por estes ovos de pata.

E o dia em que for casada

Sairei ataviada

Com um brial d’escarlata,

E diante o desposado,

Que me estará namorando:

Virei de dentro bailando

Assim dest’arte bailado

Esta cantiga cantando.

 

Estas coisas diz Mofina Mendes com o pote de azeite à cabeça e andando enlevada no baile, cai-lhe o pote

 

 

Vai-se Mofina Mendes, cantando:

 

Por mais que a dita* m’engeite,

Pastores não me deis guerra;

Que todo o humano deleite,

Como o meu pote d’azeite

Há-de dar consigo em terra.

 

* dita — sorte, fado, destino

Modernizei ligeiramente a ortografia da edição de 1572.

Desconheço a fonte de inspiração directa de Gil Vicente para este episódio tomando o certo pelo incerto, mas o mesmo tem origens remotas e foi glosado diversas vezes, nomeadamente, e já depois de Gil Vicente, na fábula de La Fontaine sobre a Leiteira e o pote de leite.

Tanto quanto consegui apurar, a fonte mais antiga com esta ideia será um dos contos de Panchatantra, antiquíssima compilação indiana de apólogos, e mais precisamente o conto 9 do livro 5, cuja história é a seguinte:

Um brâmane pobre vai juntando a farinha que lhe sobra das esmolas num pote de barro pendurado da parede por cima da cama. Quando o pote está cheio começa a sonhar com o que fará depois de vender a farinha. Embarca-lhe a fantasia numa sucessão de bons negócios até ficar rico e casar. A certa altura do devaneio, gesticula, e com a perna dá um pontapé no pote. Este cai, parte-se, e toda a farinha se espalha, perdendo-se no ar, desfazendo assim os sonhos de uma vida melhor.

Aqui fica, pois, a lição sobre a cautela aconselhável aos devaneios, cautela tanto maior quanto a fronteira entre sonho e realidade se dilua no calor excessivo, o que se pode revelar de péssimo conselho.

Nota iconográfica

Abre o artigo um desenho aguarelado mostrando o rei de França Luis XIV (1638-1715) como Apolo, no bailado Balett de la nuit, onde participou ainda jovem (15 anos) em 1653. Encorajado desde muito jovem pelo Cardeal Mazarino a praticar a dança, terá visto o sonho de bailarino desfeito, levado pela obrigação de reinar. Voltas que a vida tece…

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