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vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Bolor — poema de Carlos de Oliveira

28 Segunda-feira Mar 2016

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Carlos de Oliveira

Bolor 500pxDesço das espiritualidades da Semana Santa para a precariedade dos afectos e a materialidade desfeita do amor, registada no poema Bolor de Carlos de Oliveira (1921-1981) com a mestria que apenas a grande poesia consegue.

 

Bolor

 

Os versos

que te digam

a pobreza que somos,

o bolor

nas paredes

deste quarto deserto,

o orvalho da amargura

na flor

de cada sonho

e o leito desmanchado

o peito aberto

a que chamaste

Amor

 

Poema transcrito de Obras de Carlos de Oliveira, Editorial Caminho, Lisboa, 1992.

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A propósito da palavra Deus — um poema de Mario Trejo

27 Domingo Mar 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Mario Trejo

Gustav Adolph Hennig - Rapariga a lerCom a Páscoa como pretexto, traduzo um poema do argentino Mario Trejo (1926-2012), também autor do arqui-famoso poema Pájaros Perdidos, famoso por obra da música que Astor Piazzolla (1921-1992) para ele compôs.

Ainda que a fé católica seja toda ela vivida numa prática ritual que conforta os crentes, nomear Deus fora do ritual é contudo uma parte importante da transformação do inexplicável em explicado.

 

A propósito da palavra Deus

 

Dizer

Nomear

Pedir

Temer

Olhar

Tocar

Negar

Gritar

 

Creio em todo este caos

Creio em toda esta loucura

Crimes e torturas

Que um dia terminarão

 

Creio em tanta injustiça

E na lei da selva

Viver é uma guerra

Que um dia terminará

 

Creio apesar de tudo

Que no meio do incêndio

Quando tudo está ardendo

Algo há

 

Beleza dos loucos

Crepúsculos em chamas

Infância destroçada

Algo há

 

Labirintos raivosos

Espelhos sem saída

Amor cego

Algo há

 

Roleta de esperanças

Recordações como setas

Domingo interminável

Algo há

 

Beijar a primeira vez

Lutar contra o esquecimento

Inúteis reencontros

Algo há

 

Balas pela boca

O sol negro de pena

Escolher o esquecimento

Algo há

 

Loucura do planeta

Razão do universo

Que ignora o bem e o mal

 

Tambores na noite

Repetem a palavra

Obsessiva como o mar

 

Saber que não há resposta

E dizer apesar de tudo

Algo há Algo há

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Gustav Adolph Hennig (1797-1869).

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Ricardo Reis — Nunca a alheia vontade, inda que grata, cumpras por própria

21 Domingo Fev 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Curvo Semedo, Fernando Pessoa, Filinto Elísio, George de La Tour, José Régio, La Fontaine, Ricardo Reis

George de La Tour (1593-1652)- Ler a Sina (1632-1635) 600pxDe vez em quando Pessoa: hoje um convite assinado Ricardo Reis para a afirmação do eu independente.

Num mundo amplamente condicionante das escolhas de cada um por modas, juízos sociais e pressões afectivas, afirmar o eu é uma tarefa que só na aparência se tem por conseguida. Antes de escolher, olhamo-nos no espelho dos outros, por mais que nos confortemos com a ilusão da nossa singularidade.

 

 

116

Nunca a alheia vontade, inda que grata,

Cumpras por própria. Manda no que fazes,

Nem de ti mesmo servo.

Ninguém te dá quem és. Nada te mude.

Teu íntimo destino involuntário

Cumpre alto. Sê teu filho

 

19-11-1930

 

 

Diz-se neste poema o mesmo que José Régio (1901-1969) exclamava em 1925 no poema Cântico Negro:

 

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

 

…

 

Não sei por onde vou,

 

Não sei para onde vou

 

–  Sei que não vou por aí!

 

 

No tempo em que as fábulas eram prezadas como veículos de aprendizagem de valores e comportamentos, era popular uma versão simplificada da fábula de La Fontaine sobre O velho, o rapaz, e o burro, dando exactamente conta do sem sentido de governarmos o nosso comportamento pela opinião dos outros.

 

O velho, o rapaz, e o burro

 

O mundo ralha de tudo,

Tenha ou não tenha razão,

Quero contar uma história

Em prova desta asserção.

 

Partia um velho campónio

Do seu monte ao povoado;

Levava um neto que tinha,

No seu burrico montado.

 

Encontra uns homens que dizem:

“Olha aquela que tal é!

Montado o rapaz, que é forte,

E o velho, trôpego, a pé!

 

— Tapemos a boca ao mundo,

O velho disse; — rapaz,

Desce do burro, que eu monto,

E vem caminhando atrás.”

 

Monta-se, mas dizer ouve,

“Que patetice tão rata!

O tamanhão, de barrinha,

E o pobre pequeno à pata!

 

— Eu me apeio, diz, prudente,

O velho de boa fé;

Vá o burro sem carrego,

E vamos ambos a pé.”

 

Apeiam-se, e outros lhes dizem:

“Toleirões, calcando a lama!

De que lhes serve o burrinho?

Dormem com ele na cama?

 

— Rapaz, diz o bom do velho,

Se de irmos a pé murmuram,

Ambos no burro montemos,

A ver se inda nos censuram.”

 

Montam, mas ouvem de um lado:

“Apeiem-se almas de breu,

Querem matar o burrinho?

Aposto que não é seu!

 

— Vamos ao chão, diz o velho,

Já não sei que hei-de fazer!

O mundo está de tal sorte,

Que se não pode entender.

 

É mau se monto no burro,

Se o rapaz monta, mau é;

Se ambos montamos é mau,

E é mau se vamos a pé!

 

De tudo me têm ralhado;

Agora que mais me resta?

Peguemos no burro às costas,

Façamos inda mais esta!

 

Pegam no burro; o bom velho

Pelas mãos o ergue do chão,

Pega-lhe o rapaz nas pernas,

E assim caminhando vão.

 

“Olhem dois loucos varridos!

Ouvem com grande sussurro, —

Fazendo mundo às avessas,

Tornados burros do burro!”

 

O velho então pára, e exclama:

“Do que observo me confundo!

Por mais que a gente se mate,

Nunca tapa a boca do mundo.

 

Rapaz, vamos como dantes,

Sirvam-nos estas lições:

É mais que tolo quem dá

Ao mundo satisfações.”

 

Nota bibliográfica e iconográfica

 

Ricardo Reis (nascimento fictício em 19 de Setembro de 1887), Poesia, edição de Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000. O número do poema é o da edição mencionada.

O poema de José Régio foi publicado em Poemas de Deus e do Diabo (1925), e pode ser encontrado no blog acompanhado de uma sua retumbante leitura por João Villaret.

A versão da fábula de La Fontaine, transcrita de uma edição das suas fábulas recreadas em português (Ed. Minerva, Lisboa, s/d), vem atribuída a Curvo Semedo (1766-1838). Infelizmente, nas edições das obras deste poeta que conheço, não encontrei tal versão.

A fábula de La Fontaine (1621-1695) abre o Livro III das Fábulas e chama-se O Moleiro, o Filho e o Burro. Filinto Elísio (1734-1819) traduziu a fábula integralmente em verso branco e consta da edição das suas Obras Completas, Vol VI, Paris, 1818.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de George de La Tour (1593-1652), A Cartomante.

Jogo de olhares e manifestação simultânea de crendice e velhacaria: enquanto a cartomante prende a atenção do rapaz, ávido de saber o que o espera na vida, as duas jovens aproveitam para o roubar. A composição desenvolve-se de forma magistral entre a linguagem dos olhares e a linguagem das mãos, devolvendo todas as cambiantes do significado da cena. Cena de costumes e armadilha exemplar do jovem aprendiz das ratoeiras da vida.

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As Portas — poema de Ruth Fainlight

17 Quarta-feira Fev 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Anna Margit, Ruth Fainlight

Anna Margit- Guardian of Flame 500pxAbro ao acaso a antologia Rosa do Mundo: apenas um poema por poeta, de tempos imemoriais ao século XX, num percurso pelo mundo. Sem enquadramentos literários ou considerações avulsas sobre o seu significado, tão só a força da poesia ao encontro do leitor.

Do acaso de hoje trago o poema As Portas de  Ruth Fainlight (1931) em tradução de Ana Hatherly.

 

As Portas

 

Há o trabalho de dar à luz.

Já o conheci — às vezes

lembro até o esforço de nascer.

Para vir está ainda

o trabalho de deixar a vida. Vi como é difícil

para alguns, enquanto outros,

que estavam presentes num momento

a seguir desapareceram. Passei

a porta da carne. Agora, a espera — quanto ainda? —

para aprender a última tarefa

antes de atravessar a porta da terra.

 

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Anna Margit (1913-1991).

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Agora és um animal que pensa — poema de Daniel Faria

16 Terça-feira Fev 2016

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Daniel Faria, Keith Haring

Haring_Keith- Apocalypse 3 500pxAmei a vida

Como se fora um castigo

 

Cantei-a

Como se fora um feitiço

…

 

 

Intensa meditação sobre a morte em diálogo com Deus, da leitura da obra poética de Daniel Faria (1971-1999) saímos com uma estranha sensação onde a serenidade se enlaça à branda aceitação do destino.

Transcrevo alguns poemas.

 

 

*

Mas tu existes.

Os dias somam ruína à ruína

E o a vir multiplicará

A miséria.

Apodreço não adubando a terra

E cada dia somado a cada hora

Não completa o tempo.

Sei que existes e multiplicarás

A tua falta.

Somarei a tua ausência à minha escuta

E tu redobrarás a minha vida.

 

 

**

Agora és um animal que pensa

Amanhã um animal que dorme

Mas tens uma noite inteira para dormires do mesmo lado

 

Hoje és um dia que começa outra vez

Como se hoje pudesses plantar o dia que não acaba

Um animal que come a sombra diurna daquilo que é pensado

 

És um alimento

Agora és um alimento que dorme

Do mesmo lado da mão direita de quem colhe

 

Como se hoje pudesses plantar-te no que frutifica

E igualares-te no silêncio a uma pedra fechada

Uma pedra em sua natureza humilde de coisa que vive

Em seu mistério de coisa que sem sementes se propaga

 

Agora és um animal que se propaga no sono

Que pesa menos do que o sonho ou um pássaro

Um animal que se eleva em seu instinto de máquina

 

És agora uma máquina montada para a morte

Uma avaria dentro dela que lentamente desgasta.

E fabricas um homem que se afasta

 

Do mundo

 

 

Ezequiel  (Ez12, 1-20)

 

Arruma as tuas alegrias

E faz as malas como se fosses emigrante

 

Leva contigo todas as coisas

E parte de dia como se fosses emigrante

Para que possas levar também a luz

 

Abre a cal. O flanco do muro

Porque vais como emigrante e precisas

De regressar

 

Na parede faz uma abertura

Para que os que passam vejam o teu rosto

E não digam: vai beber ao poço

Vai visitar um parente no estrangeiro

Ninguém chora por razões assim

 

Parte de tarde, dobrando a luz

Cobrindo o rosto de cinza e sombra

Porque és um povo que abandona a tua casa

E nos teus passos eu arraso o teu país

 

 

Cigarra

 

Amei a vida

Como se fora um castigo

 

Cantei-a

Como se fora um feitiço

 

Agora chora

Esse canto calado

Sacie-te a voz

Agasalhe-te o pranto

 

Que fizeste no Verão?

Vendeste o teu canto?

 

Não vendi

Dei-o às aves

A qualquer viandante

 

Oh leva-me flores

Quando já o meu corpo

Caído não cante

 

Poemas transcritos de Daniel Faria, Poesia, Edição de Vera Vouga, Edições quasi, 2003.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Keith Haring (1958-1990), Apocalipse 3.

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St. Valentine’s Day segundo Adília Lopes

14 Domingo Fev 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Adília Lopes

Maria Noma Bliss - CoupleNa poesia de Adília Lopes (1960), obsessivamente prosaica na formulação, frequentemente epigramática no conteúdo, atravessada pela ausência do par, e onde o desconsolo de viver é uma constante, surge esta floração sobre o amor para o Dia dos Namorados:

 

 

St. Valentine’s Day

 

To Michael

 

Roses are red

Violetas are blue

Love is gold

To the happy few

 

in A mulher-a-dias, & etc, 2002

 

Transcrito de Dobra, Poesia Reunida 1983-2014, Assírio & Alvim, 2014.

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W. H. Auden — Ó Contem-me a Verdade do Amor

12 Sexta-feira Fev 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Benjamin Britten, Caravaggio, Virgílio, W. H. Auden

Caravaggio - O Amor supera tudo (Amor vincit omnia) 500pxAinda que raramente, o cinema tem contribuído para a divulgação de poesia junto de largas camadas de público a ela habitualmente alheio. Não falo de O Clube dos Poetas Mortos que fez da poesia o centro do argumento, mas concretamente, hoje, de um poema de W. H. Auden (1907-1973) recitado em Quatro Casamentos e um Funeral, numa cena que se crava fundo na memória de quem alguma vez a viu. Recordo-a: na cerimónia fúnebre de despedida do membro de um casal gay, o companheiro lê o poema Funeral Blues. Nele, os três primeiros versos da terceira estrofe:

 

He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest,

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last for ever: I was wrong.

 

ganham a dimensão de definição absoluta do amor, que é, independentemente de questões de género.

O poema foi, na publicação inicial em livro (Another Time, 1940) o terceiro de um conjunto de quatro intitulado Quatro canções de cabaré para Miss Heldi Anderson.

Do conjunto transcrevo a seguir o segundo poema, O Tell Me the Truth About Love, ou como escolhe a tradução portuguesa que se lerá, Ó Contem-me a Verdade do Amor:

 

…

Estou quase nos trinta e cinco,

E continuo inocente

Sobre essa criatura estranha

Que tanto incomoda a gente.

…

 

Há, neste poema, a mesma atmosfera de sátira, estendida à incompreensão expectante sobre o amor e a sua impossibilidade, decorrente das vicissitudes da vida, que atravessa todo o ciclo.

 

 

Ó Contem-me a Verdade do Amor

 

Há quem diga que o amor é um rapazinho

E quem diga que é uma ave;

Dizem que faz girar o mundo sozinho

Há quem ache um erro grave:

Mas quando quis saber pelo meu vizinho

Que me pareceu entendido,

A sua mulher ficou muito sentida

E disse que era proibido.

 

Será que parece um pijama

Ou um presunto numa estância termal,

Será que o cheiro lembra um lama

Ou tem um perfume floral?

Será áspero como arame farpado

Ou suave como um macio cobertor,

Será cortante ou polido nos lados?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Os livros de história referem-se-lhe

Em crípticos traços românticos,

E é um assunto vulgar

Nos navios transatlânticos;

Já vi o tema abordado

Em relatos suicidários,

E até o vi escrevinhado

Em guias ferroviários.

 

Uiva ele tal lobo esfaimado,

Ou ribomba tal banda da armada,

Será o seu som fielmente imitado

Num serrote ou num Steinway de cauda,

Será que gosta do estilo Clássico

Ou que nas festas é provocador,

Calar-se-á a meu mando tácito?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Procurei na casa de Verão

Mas não o achei desta guisa,

No ar revigorante de Brighton,

Nem em Maidenhead, no Tamisa,

Não entendo a voz da roseira,

Nem sei do melro a canção,

Mas não estava na capoeira

Nem debaixo do colchão.

 

É mestre em caretas sortidas,

Entontece num carrossel,

Ou passa o tempo em corridas,

Brincando com fios de cordel,

Tem ideias sobre o dinheiro,

Defende da pátria o louvor,

Apraz-lhe o humor grosseiro?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Dizem-me que há sempre lembrança

Dos sentimentos que inspira,

Procuro-o desde criança,

E nunca o tive na mira.

Estou quase nos trinta e cinco,

E continuo inocente

Sobre essa criatura estranha

Que tanto incomoda a gente.

 

E quando vier, virá sem avisar

Enquanto eu limpar o nariz,

Vê-lo-ei à porta quando eu acordar,

Ou no autocarro a pisar-me os pés,

Virá como muda a temperatura,

Com lisura ou tortura ou pior,

Mudará minha vida futura?

Ó contém-me a verdade do amor.

 

Tradução de Margarida Vale de Gato

in Outro Tempo, Relógio d’Água Editores, Lisboa, Maio de 2003.

 

Antes da publicação desta tradução, tinha Maria de Lurdes Guimarães publicado uma outra do mesmo poema a partir da recolha tardia, feita pelo poeta, de um conjunto avulso de poemas a que este O Tell Me the Truth About Love dá título (Diz-me A Verdade Acerca do Amor, dez poemas, Relógio d’Água Editores, Lisboa, 1994).

Termino com o poema original publicado inicialmente no livro Another Time, 1940.

 

O Tell Me the Truth About Love

 

Some say that love’s a little boy,

And some say it’s a bird,

Some say it makes the world go round,

And some say that’s absurd,

And when I asked the man next door,

Who looked as if he knew,

His wife got very cross indeed,

And said it wouldn’t do.

 

Does it look like a pair of pyjamas,

Or the ham in a temperance hotel?

Does its odour remind one of llamas,

Or has it a comforting smell?

Is it prickly to touch as a hedge is,

Or soft as eiderdown fluff?

Is it sharp or quite smooth at the edges?

O tell me the truth about love.

 

Our history books refer to it

In cryptic little notes,

It’s quite a common topic on

The Transatlantic boats;

I’ve found the subject mentioned in

Accounts of suicides,

And even seen it scribbled on

The backs of railway guides.

 

Does it howl like a hungry Alsatian,

Or boom like a military band?

Could one give a first-rate imitation

On a saw or a Steinway Grand?

Is its singing at parties a riot?

Does it only like Classical stuff?

Will it stop when one wants to be quiet?

O tell me the truth about love.

 

I looked inside the summer-house;

It wasn’t even there;

I tried the Thames at Maidenhead,

And Brighton’s bracing air.

I don’t know what the blackbird sang,

Or what the tulip said;

But it wasn’t in the chicken-run,

Or underneath the bed.

 

Can it pull extraordinary faces?

Is it usually sick on a swing?

Does it spend all its time at the races,

or fiddling with pieces of string?

Has it views of its own about money?

Does it think Patriotism enough?

Are its stories vulgar but funny?

O tell me the truth about love.

 

When it comes, will it come without warning

Just as I’m picking my nose?

Will it knock on my door in the morning,

Or tread in the bus on my toes?

Will it come like a change in the weather?

Will its greeting be courteous or rough?

Will it alter my life altogether?

O tell me the truth about love.

Janeiro 1938

 

Transcrito de Collected Poems, edição de Edward Mendelson, Faber and Faber, 1994. Nesta edição o poema integra, na Part IV, um grupo de doze poemas, sem o título inicial do conjunto de quatro.

 

Notas finais

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Caravaggio (1571-1610), O Amor tudo vence, Amor vincit omnia.

Trata-se de uma inversão de parte do verso 69 da Bucólica X de Virgílio (70 a.C-19 a.C): omnia vincit amor: et nos cedamus Amori. (O Amor tudo vence: e nós submetamo-nos ao amor.).

Encontra o leitor o verso tanto na tradução em prosa de Bucólicas de Virgílio por Maria Isabel Ribeiro Gonçalves, Verbo, 1996, como na edição de Bucólicas profusamente anotada e comentada de João Pedro Mendes, Construção e Arte das Bucólicas de Virgílio, Almedina, Coimbra, 1997.

Com este conjunto de 4 poemas de Auden compôs Benjamin Britten (1913-1976) um ciclo para voz e piano, Cabaret Songs. O leitor interessado encontra interpretações no YouTube.

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Almada — Rondel do Alentejo

10 Quarta-feira Fev 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Almada Negreiros (1893-1970)

Rondel do Alentejo 450pxEm rescaldo de Carnaval vamos à poesia que dança na estonteante cadência rítmica de Rondel do Alentejo escrito por Almada Negreiros (1893-1970) em 1913.

 

 

Rondel do Alentejo

 

Em minarete

mate

bate

leve

verde neve

minuete

de luar.

 

Meia-noite

do Segredo

no penedo

duma noite

de luar.

 

Olhos caros

de Morgada

enfeitada

com preparos

de luar.

 

Rompem fogo

pandeiretas

morenitas,

bailam tetas,

e bonitas,

bailam chitas

e jaquetas,

são as fitas

desafogo

de luar.

 

Voa o xaile

andorinha

pelo baile,

e a vida

doentinha

e a ermida

ao luar.

 

Laçarote

escarlate

de cocote

alegria

de Maria

la-ri-rate

em folia

de luar.

 

Giram pés

giram passos

girassóis

e os bonés,

e os braços

destes dois

giram laços

ao luar.

 

O colete

desta Virgem

endoidece

como o S

do foguete

em vertigem

de luar.

 

Em minarete

mate

bate

leve

verde neve

minuete

de luar.

 

Transcrito de Almada Negreiros, Obras Completas, Vol.I-Poesia, 2ªEdição, INCM, Lisboa, 1990.

O poema foi publicado em 1922 no nº2 da revista Contemporanea, acompanhado do desenho de Almada que abre o artigo.

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Sete anos de pastor Jacob servia — Génesis, Camões e António Sardinha

20 Quarta-feira Jan 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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António Sardinha, Biblia, Camões, Génesis, Rafael

RAFFAELLO Sanzio - encontro de raquel com jacob 1518-19SONETO de Jacob, pastor antigo,

— soneto de Rachel, serrana bela…

Oh quantas vezes o relembro e digo,

pensando em ti, como se foras ela!

 

Sirvo-me desta primeira quadra de um soneto de António Sardinha (1888-1925) para chegar às origens do relato do amor de homem por mulher na cultura ocidental, o que aconteceu por via do primeiro livro da Bíblia, Génesis. Não falo de Adão e Eva, pois essa é a história da necessidade biológica do sexo e do seu impulso irresistível quaisquer que sejam as consequências, mas da história de Jacob, e do que este aceita fazer para possuir a mulher que quer, neste caso a prima Raquel:

Para obter Raquel, Jacob trabalhou durante sete anos e, pelo amor que lhe tinha, aqueles sete anos pareceram-lhe apenas alguns dias.

 

Conta-se a história em Génesis, capítulo 29.

 

Génesis

29.15

Jacob já estava há um mês em casa de Labão, quando este lhe disse: “É certo que tu és meu parente. Mas até agora tens trabalhado para mim de graça. Diz-me que salário queres.”

29.16

Labão tinha duas filhas, a mais velha chamava-se Lia e a mais nova, Raquel.

29.17

Lia tinha uns olhos muito ternos. Mas Raquel era bonita e elegante.

29.18

Jacob gostava muito de Raquel e por isso respondeu: “Aceito trabalhar para ti, durante sete anos, para casar com Raquel a tua filha mais nova.”

29.19

Labão respondeu: “Está bem. É melhor casá-la contigo que casá-la com outro qualquer. Podes continuar em minha casa.”

29.20

Para obter Raquel, Jacob trabalhou durante sete anos e, pelo amor que lhe tinha, aqueles sete anos pareceram-lhe apenas alguns dias.

 

Camões sintetizou o caso num popular soneto:

 

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

mas não servia ao pai, servia a ela,

e a ela só por prémio pretendia.

 

Os dias na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la;

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

 

Vendo o triste pastor que com enganos

lhe fora assi negada a sua pastora,

como se a não tivesse merecida,

 

começa de servir outros sete anos,

dizendo: “Mais servira se não fora

para tão longo amor tão curta a vida”.

 

Como se vê pelo soneto, a coisa não correu como prometido, e o pai de Raquel começou por roer a corda.

Vejamos, pois, o que de facto aconteceu, com a continuação do relato bíblico:

 

29.21

Depois disse a Labão: “Dá-me a minha mulher, para eu casar com ela, pois já acabou o tempo combinado.”

29.22

Labão convidou toda a gente do lugar e ofereceu um banquete.

29.23

Mas à noite, em vez de Raquel, Labão levou Lia para o quarto dos noivos e foi com ela que Jacob dormiu.

29.24

Labão deu à sua filha Lia a escrava Zilpa, para ficar ao serviço dela.

29.25

Pela manhã, quando Jacob se deu conta de que era Lia foi reclamar a Labão: “Que é que me fizeste? Por amor de Raquel andei a trabalhar para ti. Porque é que me enganaste?”

29.26

Labão respondeu: “Cá na nossa terra não é costume casar a filha mais nova antes da mais velha.

29.27

Mas depois dos sete dias de lua de mel podemos dar-te também a outra em casamento, desde que te comprometas a trabalhar para mim outros sete anos mais.”

29.28

Jacob assim fez. Passaram os sete dias da lua de mel e Labão deu-lhe também a sua filha Raquel como esposa.

29.29

A Raquel, Labão deu Bilá, sua escrava, para ficar ao serviço dela.

29.30

Jacob dormiu também com Raquel e esta era a sua preferida. E durante mais sete anos Jacob ficou ao serviço de Labão.

 

Está assim elucidado o sucesso que levou ao soneto de Camões acima transcrito.

Aqui chegados talvez valha a pena conhecer a história desde o início, e como Jacob conheceu Raquel:

Génesis:

29.4

Jacob perguntou aos pastores: “Amigos, donde são?” E eles responderam: “Somos de Haran.”

29.5

Jacob perguntou de novo: “Por acaso conhecem Labão, descendente de Naor?” “Conhecemos, sim”, responderam eles.

29.6

Jacob perguntou ainda: “Ele está bem?” “Está sim. Olha! A filha dele, Raquel vem aí com o rebanho”, indicaram os pastores.

29.7

Jacob disse: “Ainda é bastante cedo. Ainda não é tempo de recolher o rebanho. Dêem-lhe de beber e levem-no outra vez a pastar,”

29.8

…

29.9

Enquanto estava a falar com eles, chegou Raquel com a ovelhas do seu pai, pois era ela a pastora

29.10

Ao ver Raquel filha do seu tio Labão, com o rebanho do seu tio, Jacob aproximou-se e retirou a pedra de cima do poço e deu água ao rebanho do seu tio Labão.

29.11

Depois saudou Raquel com um beijo e não pôde conter as lágrimas.

29.12

Jacob anunciou a Raquel que ele era parente do pai dela pois era filho de Rebeca. E ela foi a correr levar a notícia ao pai.

29.13

Labão ao ouvir falar do seu sobrinho, Jacob, correu ao encontro dele, abraçou-o, beijou-o e conduziu-o para sua casa. Jacob contou-lhe então tudo o que tinha acontecido.

29.14

E Labão exclamou: “Realmente tu és da minha própria familia.” E Jacob ficou em casa dele.

 

A imagem que abre o artigo mostra uma pintura de Rafael executada em 1518-19 dando conta do encontro entre Jacob e Raquel junto ao poço. Pela mesma época (1515-25) Palma Vecchio ilustrava como segue o beijo destes no poço (Génesis 29.11).

PALMA VECCHIO - O beijo de Raquel e Jacob 1515-25 a

Volto agora ao sonetos abertura onde António Sardinha (1888-1925), partindo de Camões, nos leva, não pela história bíblica, mas pelo desolado da sua existência na ausência da sua amada:

O que eu servira, p’ra viver contigo, / — tão doce, tão airosa e tão singela!

/ Assim, distante do teu rosto amigo, / em torturar-me a ausência se desvela!

E neste eterno retomar do já dito se tecem as voltas da poesia.

Deixo-o, leitor, com o soneto citado. À obra poética de António Sardinha volto outro dia.

 

Velho motivo

 

SONETO de Jacob, pastor antigo,

—soneto de Rachel, serrana bela…

Oh quantas vezes o relembro e digo,

pensando em ti, como se foras ela!

 

O que eu servira, p’ra viver contigo,

—tão doce, tão airosa e tão singela!

Assim, distante do teu rosto amigo,

em torturar-me a ausência se desvela!

 

E vou sofrendo a minha pena amarga,

—pena que não me deixa nem me larga,

bem mais cruel que a de Jacob pastor!

 

Rachel não era dele e sempre a via,

enquanto que eu não vejo, noite e dia

aquela que me tem por seu senhor!

 

Nota bibliográfica

 

A transcrição do episódio bíblico foi feita a partir de “a BÍBLIA para todos, edição literária“, editada por Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2009.

Na transcrição do episódio bíblico introduzi o número dos versículos, os quais não aparecem na edição citada onde o texto é corrido, por forma a permitir o seu cotejo com outras edições do texto.

Luís de Camões, Lírica Completa II, edição de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, Lisboa, 1980.

António Sardinha, Chuva da Tarde, sonetos de amor, Lvmen, Coimbra, 1923.

(Conservei a ortografia de Raquel e a maiúscula inicial em Soneto da edição original.)

Nota final

O relato bíblico da história de Jacob, Raquel e Lia mais as suas escravas, continua, fixando no texto sagrado uma situação poligâmica: decorrendo da incapacidade de Raquel para ter filhos por um lado, e dos ciúmes de Lia, por outro, Jacob acaba também por procriar com as escravas destas, Bilá e Zilpa.

Não sei como cristãos em geral, e António Sardinha, em particular, fervoroso católico que era, e certamente conhecedor do episódio bíblico, lidam com a legitimação da poligamia que o episódio explicitamente cauciona.

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Ainda em tempo de Natal, um poema de Ruy Cinatti

27 Domingo Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Ruy Cinatti

Memling - As 7 alegrias da Virgem BVou ao encontro da transcendência do tempo de Natal, tempo em que simbolicamente podemos voltar a nascer, com um poema de Ruy Cinatti (1915-1986) onde, de par com a alegria, se convoca o que de harmonia pode ter o mundo: o amor, Deus e a sua presença benfazeja, a música e a dança, e a inocência de ser outra vez criança; tudo numa forma poética superior que procura devolver a esperança no viver.

 

Poema

 

Alegria —

Ó minha vida! —

Permaneçe,

Sê ainda amor.

 

Lá no alto

Onde prossegues,

Guia-me…

Sê ainda a chuva benfazeja

Que refresca

A desolada aridez do meu caminho.

 

Estrela

Ou música descendo!

Se eu te fugir

Harpeja só de leve a noite escura

Que eu regressarei,

Contente e mudo

Como se nunca me tivessem exilado.

 

Criança!

Eis-me de novo

Dançando

Uma canção que alguém me está cantando

E eu já esqueci…

— Divina se ia erguendo a prece alada.

 

Alegria —

Ó minha vida! —

Mais profunda do que a julga a agonia

Do homem que padece,

Não sejas a morte,

Sê ainda amor!

 

Ruy Cinatti (1915-), in Nós não Somos Deste Mundo, 2ªed. 1960.

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