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Category Archives: Poetas e Poemas

La foule — canção por Piaf e o poema de Jorge de Sena

12 Terça-feira Jul 2016

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poetas e Poemas

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Edith Piaf, Jorge de Sena

Piaf500pxJe revois la ville en fête et en délire [Revejo a cidade em festa e em delírio]
Suffoquant sous le soleil et sous la joie [Sufocando sob o sol e sob a alegria

Não, não são sobre o delírio do futebol observado em Lisboa a pretexto da vitória contra a França na final do EURO2016, os versos transcritos acima. São o início de uma canção popular — La foule — que Edit Piaf (1915-1963) cantou, frequentemente, de forma fabulosa.
Fala a canção de um encontro de acaso entre um homem e uma mulher desconhecidos,  empurrados para os braços um do outro por uma multidão em festa (o que bem pode ter acontecido a alguém naqueles eufóricos festejos). Enlaçados, os desconhecidos voam levados pelo turbilhão das gentes. Surge súbito a paixão na faísca de um sorriso para logo, na voragem da festa, a multidão os separar e não mais se encontrarem.
Segue a canção, e ao júbilo do amor adivinhado sucede a raiva na voz magoada que ainda hoje toca quem alguma vez entreviu por momentos a paixão, e esta sem remédio se esfumou perante a indiferença do mundo que continuou imperturbável no seu giro.
Desta, como de outras canções, a variada amálgama de sentimentos que a voz de Edit Piaf continua a destilar em quem a ouve, fala de forma superlativa o poema de Jorge de Sena (1919-1978) que a seguir transcrevo.

A Piaf

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça irá”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

in Jorge de Sena, Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Loureirio, Babel, 2013.

 

A canção encontra no YouTube quem tiver curiosidade. No entanto, para mim, a melhor interpretação disponível encontra-se no Disque d’or saído em 2012 e que pode ser ouvido no Spotify.
Para quem leia francês fica a seguir a respectiva letra. Na Wikipédia encontram os leitores a longa história dos variados sucessos da canção.

La Foule

Je revois la ville en fête et en délire
Suffoquant sous le soleil et sous la joie
Et j’entends dans la musique les cris, les rires
Qui éclatent et rebondissent autour de moi
Et perdue parmi ces gens qui me bousculent
Étourdie, désemparée, je reste là
Quand soudain, je me retourne, il se recule,
Et la foule vient me jeter entre ses bras…

Emportés par la foule qui nous traîne
Nous entraîne
Écrasés l’un contre l’autre
Nous ne formons qu’un seul corps
Et le flot sans effort
Nous pousse, enchaînés l’un et l’autre
Et nous laisse tous deux
Épanouis, enivrés et heureux.

Entraînés par la foule qui s’élance
Et qui danse
Une folle farandole
Nos deux mains restent soudées
Et parfois soulevés
Nos deux corps enlacés s’envolent
Et retombent tous deux
Épanouis, enivrés et heureux…

Et la joie éclaboussée par son sourire
Me transperce et rejaillit au fond de moi
Mais soudain je pousse un cri parmi les rires
Quand la foule vient l’arracher d’entre mes bras…

Emportés par la foule qui nous traîne
Nous entraîne
Nous éloigne l’un de l’autre
Je lutte et je me débats
Mais le son de sa voix
S’étouffe dans les rires des autres
Et je crie de douleur, de fureur et de rage
Et je pleure…

Entraînée par la foule qui s’élance
Et qui danse
Une folle farandole
Je suis emportée au loin
Et je crispe mes poings,
Maudissant la foule qui me vole
L’homme qu’elle m’avait donné
Et que je n’ai jamais retrouvé…

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Sherlock Holmes visto por Jorge Luis Borges

05 Terça-feira Jul 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Jorge Luís Borges

O Meu RevolverDe surpresa, encontro no poema de Jorge Luis Borges (1899-1986) que hoje transcrevo as razões porque pouco me entusiasmam as aventuras de Sherlock Holmes. Simultaneamente, e pelas razões opostas, percebo como me colo às aventuras deslindadas por Maigret. Trata-se, afinal, e tão só, de casos de humanidade neste último personagem e ausência dela no primeiro.
Humanidade reconhecível, desde logo, nos gestos mínimos de comer e amar, e que em Maigret são omnipresentes tanto no carinho sóbrio com que o personagem Maigret trata Madame Maigret como na presença constante do acto de comer enquanto gesto essencial de convívio e partilha com os restantes personagens que povoam os enredos das histórias.
Nada disto existe no personagem Holmes, como bem argumenta Jorge Luis Borges, pleno de razão, no poema Sherlock Holmes, referindo a sua ausência no personagem:

…
É casto. Nada sabe do amor. Não quis.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive só e à parte.
A arte de esquecer também nada lhe diz.

Sonhou-o um irlandês, que nunca lhe quis bem
e que tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Esse homem, só, prossegue, com a lupa na mão,
um destino invulgar de coisa sem além.
…

 

Em Borges vida e literatura são simbiose perfeita, daí que, como sempre no escritor, o poema depois de escalpelizar o personagem nos seus tiques e peculiaridades:

 

…
Espevita no seu lar as inflamadas chamas
ou dá morte nos pântanos a um cão do inferno.
Esse alto cavalheiro ignora que é eterno.
Resolve ninharias, repete epigramas.
…
 

salta para uma serena contemplação do destino humano:
…
Não nos surpreendamos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (são a mesma coisa)
concede a cada um essa sorte curiosa
de ser forma e ser eco a morrer dia a dia.

Até ao dia último em que o esquecimento,
que é a meta comum, nos esqueça de todo.
Antes que nos atinja, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ir sendo.
…

Termina o poema com uma reflexão sobre o que no final a vida nos permite (o livro foi publicado um ano antes da morte do escritor):
 

…
Pensar de tarde em tarde em Sherlock Holmes é uma
dessas boas rotinas que restam. A morte
e a sesta são outras. É a nossa sorte:
convalescer num parque ou contemplar a Lua.
 

 

Nas histórias desenvolvidas a pretexto de um crime, se pela adolescência o puzzle de desenhar a solução a partir de indícios materiais escassos e aparentemente desarticulados (à maneira Ellery Queen) me entusiasmou, cedo passei a preferir o enredo psicológico que transforma por acasos circunstanciais um banal indivíduo num criminoso factual, onde o quadro psicológico e social joga um papel decisivo. E aí cheguei à leitura compulsiva dos romances com o protagonista Maigret.
Com Holmes temos matéria factual de difícil encadeamento para o observador corrente, transformando cada ocorrência em mistério sem solução.
É afinal, sem estranheza, que este personagem bizarro, dotado de faculdades incomuns, é sucessivamente encenado com sucesso em filmes e séries televisivas: a sua aptidão para resolver o que à comum das gentes parece insolúvel dá-nos uma medida da incompreensão do mundo à nossa volta, e intuitivamente explica-nos a falta de sucesso com que frequentemente lidamos com ele.

 

 

Serlock Holmes

Não teve nunca mãe nem ancestrais maiores.
Idêntico é o caso de Quijano e Adão.
Foi feito pelo acaso. Imediato ou à mão,
regem-no os vaivéns de variáveis leitores.

Não é erro pensar que nasce no momento
em que é visto pelo outro que lhe conta a história
e morre sempre em cada eclipse da memória
de todos os que o sonham. Mais vazio que o vento.

É casto. Nada sabe do amor. Não quis.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive só e à parte.
A arte de esquecer também nada lhe diz.

Sonhou-o um irlandês, que nunca lhe quis bem
e que tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Esse homem, só, prossegue, com a lupa na mão,
um destino invulgar de coisa sem além.

Ele não tem relações, mas não o atraiçoa
a devoção do outro, o seu evangelista
e que dos seus milagres nos deixou a lista.
Vive comodamente: em terceira pessoa.

Tomar banho não vai. Também não visitava
esse retiro Hamlet, lá na Dinamarca
sem saber quase nada dessa vã comarca
que é a espada e o mar, o arco e a aljava.

(“Omnia sunt plena Jovis.” Da mesma maneira
diremos desse justo que dá nome aos versos
que a sua fugaz sombra percorre nos diversos
domínios em que foi segmentada a esfera.)

Espevita no seu lar as inflamadas chamas
ou dá morte nos pântanos a um cão do inferno.
Esse alto cavalheiro ignora que é eterno.
Resolve ninharias, repete epigramas.

Chega-nos de uma Londres de gás e neblina,
A Londres que se sabe capital do império
que lhe interessa bem pouco, a Londres de mistério
tranquilo, que não quer sentir que já declina.

Não nos surpreendamos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (são a mesma coisa)
concede a cada um essa sorte curiosa
de ser forma e ser eco a morrer dia a dia.

Até ao dia último em que o esquecimento,
que é a meta comum, nos esqueça de todo.
Antes que nos atinja, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ir sendo.

Pensar de tarde em tarde em Sherlock Holmes é uma
dessas boas rotinas que restam. A morte
e a sesta são outras. É a nossa sorte:
convalescer num parque ou contemplar a Lua.

 

Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Publicado no livro Los Conjurados (1985)
Transcrito de Jorge Luis Borges, Obras Completas 1975-1985, Editorial Teorema, 1988.

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Uma curta visita à poesia de Mário Beirão

29 Quarta-feira Jun 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Emile Bernard, Mário Beirão

Bernard_Emile-Breton_Women_with_Parasols 1892É o pó dos anos que permite à poesia erguer-se das amarras da história que nos seus acontecimentos se sobrepõe ao conteúdo poético. Chegado o tempo, as circunstâncias de biografia do poeta já não participam da recepção dos seus poemas no leitor. Não sei se será já o caso para alguma poesia de Mário Beirão (1892-1965), admirada nos seus primórdios por Fernando Pessoa*, e onde assunto e forma correm marginalmente às correntes inovadoras do século. A outros deixo o quadro de história literária em que ela se desenvolve.

Como refere José Carlos Seabra Pereira no prefácio à edição das Poesias Completas de Mário Beirão: “Entre bucólica e heróica, a poesia de Mário Beirão continua a alcançar momentos de rara consumação da estética neo-romântica, atingindo, adentro dos seus padrões e valores, uma qualidade que não merecia o desgaste pela oratória oficiosa do regime salazarista, nem a ostracização pelo terrorismo cultural da oposição ao Estado Novo — nem, ainda, o alheamento, por ignorância, dos leitores e críticos de hoje.“.

Nesta poesia, além de uma leitura pessoalizada da história pátria, há uma inquietação de si onde a presença do homem religioso se instala. Muitos são os belos poemas onde encontramos uma intensa expressão de sentimento, servidos por uma oficina sem falhas. Escolhi alguns.

Soneto XL

Triste contemplo o vão dobrar dos anos
E fico-me a cismar, de olhos perdidos…
Quimeras, onde pus os meus sentidos,
Agora, não sois mais que desenganos!

Restam desilusões, amargos danos,
De tudo quanto amei, dos sonhos idos!
Surda aos meus rogos, surda aos meus gemidos,
A nau do Tempo solta os largos panos!

Como quem, fascinado pela Morte,
Detém o olhar, em fúnebre transporte,
Num campo de batalha, cheio de ossos;

Assim, os olhos vagos alongando
Sobre o curso do tempo miserando,
Mudamente contemplo os meus destroços!

in A NOITE HUMANA [1928]

Soneto XXV

Pisei o pó de todas as estradas,
— Olhos rasos de sonho e imensidade, —
Em busca dessa esplêndida Verdade,
Que descansa em paragens ignoradas.

Mas do fulgor das místicas jornadas,
Em que pus minha fé, minha ansiedade,
Restam apenas fumos de saudade
E um turbilhão de sombras espantadas!

E, agora, neste cerro, onde Jesus
Me vem falar do Céu e onde eu quisera
Dormir, enfim, o sono perenal;

Vejo, na espuma alvíssima da Luz,
Reaparecer, ao longe, uma quimera,
Que ressuscita ainda por meu mal!

in A NOITE HUMANA [1928]

Incerto

Choro, choro por mim! Uma saudade
E um longo adeus abraçam-se comigo;
Triste espectro da Ausência, eu não consigo
Volver à minha torva humanidade!

Creio ser luz no sonho que me invade:
Acordo em sombras e, entre sombras, sigo…
Oh duro, crudelíssimo castigo
De quem busca nos sonhos a verdade!

Em certa hora triste, a Noite veio,
E, doida, me levou; ainda sinto
O seu beijo de treva e o meu enleio!

Desfeito em sombra, evoco o sol extinto:
Mas — ai de mim! — escuridões tacteio,
Perdido no meu próprio labirinto!

in O ÚLTIMO LUSÍADA [1913]

Outro aspecto na poesia de Mário Beirão, é a pintura do sentimento da paisagem, onde alguns belos poemas surgem:

Fragmento do poema O VENTO

…
Erma planura,
Sem fontes, sem ternura,
Indiferente à vida!
Estagnação de paz; esquecimento;
Palpitações do vento,
De leve, sobre a urze ressequida…
…

in PASTORAIS [1923]

GRANADA

Todo em acentos ásperos, agrestes,
Sobre Granada, à tarde, adeja um canto,
Que se requebra em curvas de ais… enquanto
As roseiras enlaçam os ciprestes!

Oh, que volteios fúnebres são estes?
(Pálida, à tarde torna-se de espanto…)
O canto freme, ondeia… irado e santo,
Verte agruras e lágrimas celestes!

É uma voz de saudade e acerbas penas,
Que relampeja… e, líquida, se entorna,
Em vagas de paixão, na tarde morna…

E um estranho perfume se descerra
De oculta flor… por entre sombras, erra,
Fugindo como o sangue das arenas…

in OIRO E CINZA [1946]

CAIR DA TARDE EM ASTORGA

Cai a tarde em Astorga… À branda aragem
Melancolias íntimas segreda…
Vai-se gastando, desbotando, a seda
Do seu manto translúcido de Imagem…

Morre, deixando em cismas a paisagem:
Certa flor, que emurchece; esta vereda;
O plaino raso; um choupo que se queda,
Vago de outono, — lívida a folhagem…

Os anjos se suspendem para vê-la
Em ascensão, — entre asas, lírios, palmas…
(De mudas preces, de ilusões, se estrela…)

Parte, a sorrir… divinamente absorto,
Tremula o seu sorriso: é cor das almas,
Que velam, noite fora, o Senhor-Morto…

in OIRO E CINZA [1946]

Fragmento de “GRANADINA’

Ficou, na tarde triste,
Um sussurro que, pálido, falece;
E falecendo, logo reaparece;
Já deixa de existir… já, outra vez, existe…
Perfuma de saudade a voz da brisa,
E tudo, em derredor, melancoliza…
…

Termino esta visita breve com o poema AUSÊNCIA, do qual escreveu Jorge de Sena: …é um dos mais perfeitos da nossa língua.

AUSÊNCIA

Nas horas do poente,
Os bronzes sonolentos,
— Pastores das ascéticas planuras —
Lançam este pregão ao soluçar dos ventos,
À nuvem erradia,
Às penhas duras:
— Que é dele, o eterno Ausente,
Cantor da nossa vã melancolia?

Nas tardes duma luz de íntimo fogo,
Rescendentes de tudo o que passou,
Eu próprio me interrogo:
— Onde estou? onde estou?
E procuro nas sombras enganosas
Os fumos do meu sonho derradeiro!

— Ventos, que novas me trazeis das rosas,
Que acendiam clarões no meu jardim?

— Pastores, que é do vosso companheiro?

— Saudades minhas, que sabeis de mim?

in PASTORAIS [1923]

Poemas transcritos de Mário Beirão, Poesias Completas, INCM, Lisboa, 1996.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Emile Bernard (1868-1941), Mulheres Bretãs com guarda-sol, de 1892.

* Cartas de Fernando Pessoa a Mário Beirão

Fernando Pessoa foi admirador confesso da poesia de Mario Beirão quando esta se esboçava e os primeiros poemas surgiam em revista. Dessa admiração deu conta por carta ao poeta, por vezes de forma ditirâmbica, como quando escreve ser a poesia de Mario Beirão à época, superior à poesia de John Keats, sem mais.
Na correspondência havida deixou Fernando Pessoa relato da sua própria fase de criação, em termos e relevância que vale a pena conhecer.
São prosa do melhor do poeta, esclarecedora para o conhecimento da biografia, e preciosa sobre o surgimento dos heterónimos importantes. As cartas correspondem a cerca de ano e meio desde Dezembro de 1912 a Julho de 1914, com maior número durante o ano de 1913. Podem encontrar-se na edição da Correspondência (1905-1922) feita por Manuela Parreira da Silva para Assírio & Alvim, Lisboa 1999.

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O sucesso editorial do livro de Hitler, poemas de Nelly Sachs e Hans Magnus Enzensberger com passagem pelo filme The book thief

24 Sexta-feira Jun 2016

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Felix Nussbaum, Hans Magnus Enzensberger, Nelly Sachs

Felix Nussbaum 4 - O segredo 1939 500pxÉ provável que a coragem dos ingleses em enfrentar o risco, uma vez mais salve a Europa. Não tanto do Holocausto de que falam os poemas de hoje, mas de um colapso induzido pela embriaguez da burocracia europeia empapado no seu próprio poder.

Não sou eurocéptico. Conheci a proibição de sair de Portugal sem autorização militar especial. Experimentei a restrição de apenas poder viajar para o estrangeiro com pouquíssimo dinheiro. Vivi algum tempo, até sufocar, a “felicidade” do sistema soviético na Polónia; por isso, sinto-me o mais feliz entre os homens ao viver a condição de cidadania que Portugal na União Europeia permite. Isto não significa que aprecie a possibilidade de alguém escolher por mim a cor do papel higiénico, forçando a caricatura do caminho para onde a burocracia de Bruxelas aponta, a qual está a conduzir a um processo em vias de extinção o projecto europeu saído das cinzas da guerra contra a Alemanha Nazi.

Assistimos por estes dias ao espectáculo surpreendente de uma multidão esgotar edições do livro de Hitler. Se de alguma coisa é sintoma o sucesso editorial do livro de Hitler, para além de uma legítima curiosidade intelectual, será seguramente preocupante para todos.

Felix Nussbaum 1 - Auto-retrato no atelier 1938 500pxPor um daqueles cruzamentos de acaso, vi uma destas noites o filme The book thief, A rapariga que roubava livros. Como é sabido, no filme a ligação aos livros da menina que não sabia ler começa com um manual de coveiro recolhido por ela junto à campa do irmão, e por onde aprende as primeiras letras. Esta ligação simbólica entre a morte e o renascer pelo livro irão atravessar o filme.

A história desenvolve-se na Alemanha de Hitler, e a etapa seguinte com livros leva-nos à fogueira onde são queimados, e ardem, os livros considerados perigosos pelos sequazes de Hitler, no que foi um momento histórico marcante da Alemanha hitleriana. Abandonado o local pela multidão entre obrigada e entusiasta, a menina aproxima-se da fogueira e retira um livro ainda fumegante, que esconde. Era O Homem Invisível do escritor inglês H. G. Wells (1866-1946), o qual atravessará a história como metáfora, sendo instrumento de esperança e da liberdade de espírito que a doutrina hitleriana pretendeu matar.

Lembrá-lo uma vez e outra nos testemunhos de memória e no estudo da história é tarefa de humanidade para que o horror não se repita.

O Holocausto colocou à literatura alemã o desafio da linguagem: como expressar o horror e o seu tempo. Paulatinamente os escritores foram percorrendo o caminho expressivo que permite na distância sentir o inominável materializado. Escolho dois poemas que dessa expressão são exemplo. Primeiro um poema que Hans Magnus Enzensberger (1929) dedica a Nelly Sachs (1891-1970), Os Desaparecidos, depois, um poema desta, O Teu Corpo Em Fumo Pelo Ar, ambos em tradução de Paulo Quintela.

Felix Nussbaum 3 - Auto-retrato com passaporte judeu 1943 500pxAcompanham os poemas imagens de pinturas de Felix Nussbaum (1904-1944), pintor de génio com uma biografia exemplar: nasceu judeu e foi parar a Auschwitz em 2 de Agosto de 1944, depois de ter vivido fugitivo e escondido durante o período nazi.

Felix Nussbaum 5 - Casal de luto 1943 450pxOs Desaparecidos

 

a terra não os engoliu, foi o ar?

como a areia eles são numerosos, mas não em areia

se tornaram, sim em nada, em bandos

estão esquecidos. aos montes e de mãos dadas,

como os minutos, mais do que nós,

mas sem lembrança. não inventariados,

impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos

estão os seus nomes, colheres e solas.

 

não nos dão pena. ninguém se pode

lembrar deles: nasceram,

fugiram, morreram? ninguém os achou

menos. sem falha

é o mundo, mas unido

por aquilo que ele não abriga,

pelos desaparecidos. estão por toda a parte.

 

sem os ausentes nada existiria.

sem os fugitivos nada era firme.

sem os imensuráveis nada mensurável.

sem os esquecidos nada seguro.

 

os desaparecidos são justos.

assim nos desvanecemos também.

Felix Nussbaum 2 - Tocador de orgão da Barbária 1942-43 500px

O Teu Corpo Em Fumo Pelo Ar

 

E quando esta minha pele estiver desfeita

eu verei Deus sem a minha carne.

Job

 

OH AS CHAMINÉS

Sobre as moradas da morte engenhosamente inventadas

Quando o corpo de Israel desfeito em fumo partiu

Pelo ar —

Como limpa-chaminés uma estrela o recebeu

Que se fez negra

Ou era um raio de sol?

 

Oh as chaminés!

Vias da liberdade para o pó de Jeremias e de Job —

Quem vos inventou e compôs pedra sobre pedra

De fumo o caminho aos fugitivos?

 

Oh as moradas da morte,

De arranjo convidativo

Para o hospedeiro, outrora hóspede —

Ó dedos,

Pondo a soleira de entrada

Como uma faca entre vida e morte —

 

Ó vós chaminés,

Ó vós dedos,

E o corpo de Israel em fumo pelo ar!

in Poemas de Nelly Sachs, antologia, versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela, Portugália Editora, Lisboa, 1967.

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Lição de Coisas — um poema de Guillevic

14 Terça-feira Jun 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Guillevic

Christopher Anderson New York City 2008 500pxRefeito do choque de um acidente grave: despiste, capotamento, e carro para a sucata,  de onde saí ileso, regresso à poesia.

Da multidão de pensamentos que nos assaltam no rescaldo de experiência tão marcante, é a crença no milagre que acaba por preencher o imenso da interrogação.

Se medimos o pulso ao mundo pela nossa experiência pessoal, olhar em volta e colocar em contexto essa experiência é parte essencial de um recentrar a importância do que nos acontece no mais vasto contexto da envolvente. O poema de Guillevic (1907-1997), Lição de Coisas, que a seguir transcrevo, para isso mesmo chama a atenção.

 

Lição de Coisas

 

O sangue é um líquido complicado

Que circula. É de um vermelho

Que aliás não se vê e que muda

Como uma planura sob várias luas.

 

O sangue contém corpos numerosos

Dos quais algumas pessoas sabem a fórmula.

 

É o nosso sangue. É ele

Que anda à volta, que volta,

Que alimenta.

 

O sangue derrama-se facilmente,

Basta-lhe apenas uma abertura.

 

O sangue de um morto por acidente

Não é o mesmo, na rua,

 

Que o de um morto pela liberdade,

Derramado na mesma rua.

 

Tem cada qual um modo particular

De ser vermelho e de gritar.

Tradução de David Mourão-Ferreira

in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras nº165, Set-Dez 2003.

 

Abre o artigo uma foto de Christopher Anderson, fotógrafo da Magnum, intitulada New York City 2008.

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A mão que assinou o papel… — poema de Dylan Thomas

31 Terça-feira Maio 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Dylan Thomas, John Lennon, Max Ernst

Ernst Max - Forma Humana 1931 350pxInfelizmente a guerra não desapareceu do nosso horizonte e é até presença quotidiana um pouco por todo o mundo. Reiterar que ela é apenas resultado da vontade dos homens e não qualquer castigo divino faz parte de uma propedêutica da vida que vale a pena prosseguir.

Os anos passam e o sonho de John Lennon (1940-1980) na sua canção Imagine continua por realizar:

 

…

Imagine all the people / Imagina toda a gente

Living life in peace / Vivendo a vida em paz

 

You may say I’m a dreamer / Podes dizer que sou sonhador

But I’m not the only one / Mas não sou apenas eu

…

 

O poema de Dylan Thomas (1914-1953) que hoje transcrevo — A mão que assinou o papel… — coloca a questão suprema do poder — o poder de decidir da guerra e da paz — de forma exemplar, ao tornar explícito que esse poder é um acto humano de consequências inumanas porque devastadoras:

…

A poderosa mão conduz a um ombro descaído;

sofrem de caimbras as junturas dos dedos engessados.

…

A mão que assinou o tratado engendrou febre,

e aumentou a fome, e vieram gafanhotos:

…

 

E com a beleza que dói e a poesia consegue, termina:

…

Há mãos que regem a piedade, outras o céu:

só não há que vertam lágrimas.

 

ou no original:

A hand rules pity as a hand rules heaven;

Hands have no tears to flow.

 

Eis o poema em tradução de David Mourão-Ferreira:

 

A mão que assinou o papel destruiu uma cidade;

cinco soberanos dedos tributaram a respiração,

de mortos duplicaram o mundo, a meio cortaram um país

estes cinco Reis provocaram a morte de um rei.

 

A poderosa mão conduz a um ombro descaído;

sofrem de caimbras as junturas dos dedos engessados.

Uma pena de pato pôs fim ao morticínio

que tinha posto fim às negociações.

 

A mão que assinou o tratado engendrou febre,

e aumentou a fome, e vieram gafanhotos:

grande é a mão que sobre todos impera

com o gatafunho de um nome.

 

Os cinco reis contam os mortos, mas não acalmam

a crosta das f’ridas nem a fronte afagam.

Há mãos que regem a piedade, outras o céu:

só não há que vertam lágrimas.

 

in Vozes da Poesia Europeia III, Colóquio Letras nº165, Set-Dez 2003.

Abrem e fecham o artigo imagens de duas pinturas de Max Ernst (1891-1976), respectivamente: Forma Humana de 1931 a abrir e Sinal para Uma Escola de Monstros de 1968 a fechar.

Ernst Max - Sinal para uma escola de monstros 1968 500px

 

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Relato sentimental da memória ou Não deites fora as cartas de amor, com Joan Margarit

17 Domingo Abr 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Joan Margarit

Charles Demuth-The Boat Ride from Sorrento 1919O passado aninha-se no fundo das gavetas escreve Joan Margarit (1938) num dos poemas que a seguir transcrevo. São eles contidas reflexões sobre a experiência do viver num arco entre perdas e escolhas erradas, onde, amiúde, versos lapidares dão conta de um sentir que também pode ser o nosso. Afinal o que o poeta escreve no prólogo de apresentação do livro, e cito:

O poema surge do interior do poeta, da sua própria vida, e ainda assim deve falar daqueles subtilíssimos sentimentos que não lhe pertencem a ele apenas, pois nesse caso seria um mau poema, na exacta medida que não poderia interessar a ninguém mais do que a si mesmo. Os poemas devem construir-se a partir de algo que constituindo parte da vida do poeta, pertence igualmente à dos demais.

Não é sem mistério que isto se faz sempre acompanhar de uma exactidão e de uma precisão que radicalmente separam poesia e prosa. Desta exactidão procede o poder de consolação da poesia, pois esta serve para introduzir na nossa solidão alguma mudança que proporcione uma ordem interior mais ampla contra a desordem causada pela vida.

Depois desta limpidez ao descrever uma arte poética para os nossos dias e o papel da poesia na vida de cada um, entrego-vos aos poemas.

 

Relato sentimental da memória

 

Amor e tempo é um conflito

que se resolve sempre com dor e esquecimento.

Porque compreender não quer dizer amar,

mas afastar-se mais: já o suspeitava

há muitos anos, quando ainda exercia arquitectura.

Aprendo tudo de novo.

Agora preciso apenas de lealdade

a alguma coisa vaga e solitária,

dura como uma rocha no meio do mar.

Às vezes a mente dos velhos

engrena com fúria a sua lógica.

Vejam-na deambular pelas suas memórias:

percorre uma costa desolada,

porque compreender não quer dizer amar,

mas afastar-se mais. Aprendo tudo de novo.

 

Chegas tarde ao teu tempo

 

Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras

que escuto agora como uma derrota.

Mas já não sei de nenhum combate,

nem que tempo era o meu. É uma pena

não se ser ninguém, ter errado

o comboio, ter ficado sem malas,

adormecido no banco, passar ao largo,

e achar-se agora sem roupa limpa,

cansado, num hotel reles de uma só

e má estrela, que deve ser a minha.

Prescindirei de tudo menos do poeta

que fica do desastre. Fingirei ver

que no final de contas errei o século:

isto será Paris e eu Verlaine.

 

Aventura doméstica

 

Sozinho em casa procuro nos armários.

Encontro antigos mapas de estradas,

contratos que venceram, esferográficas

que não escreverão mais cartas, velhas calculadoras

sem pilhas, relógios que o tempo derrotou.

O passado aninha-se no fundo das gavetas

como um rato triste. Vazios, os vestidos pendem

como velhas personagens que nos interpretaram.

Mas de súbito encontro a tua lingerie,

da cor da noite, da areia; fina, com pequenos bordados.

Cuecas, soutiens e meias que desdobro

e que me fazem regressar ao brilhante, embora misterioso,

fundo de amor e sexo: é ele que, de facto,

dá vida às casas, como os faróis e as luzes

de barcos e cafés a um porto ignorado.

 

Não deites fora as cartas de amor

 

Elas não te abandonarão.

Passará o tempo, apagar-se-á o desejo

— essa flecha de sombra —

e os rostos sensuais, inteligentes, belíssimos

ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.

Cairão os anos. Cansar-te-ão os livros.

Decairás ainda mais

e perderás até a poesia.

O ruído frio da cidade nos vidros

acabará por ser a tua única música,

e as cartas de amor que tiveres guardado

serão a tua última literatura.

 

Poemas transcritos de Joan Margarit, Misteriosamente FELIZ, selecção, tradução (notável!) e posfácio de Miguel Filipe Mochila, edição Língua Morta, 2015.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Charles Demuth (1883-1935).

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Da Grécia Antiga, um Hino Órfico à Noite em versão de Herberto Hélder

01 Sexta-feira Abr 2016

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Antero de Quental, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Herberto Helder

Paul Klee - Cacodemonic 1916 550pxApenas a Noite, material ou simbólica, nos permite o encontro connosco na verdadeira intimidade do Eu.

Da aproximação do Eu à Noite deram conta os poetas; Fernando Pessoa/Álvaro de Campos com o poema Excertos de Duas Odes: Vem, Noite antiquíssima idêntica,… deu-o de forma genial, tal como genial é a versão de Herberto Hélder para um Hino Órfico à Noite vindo da antiga Grécia: …/ ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho, /…, e que a seguir transcrevo.

Este poema, entre outras leituras, torna claro o apelo à harmonia que a noite permite: …/ escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena, / e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.

Outras menos encantadas invocações à noite haverá, mas não deixo de referir ainda, e mantendo-me na poesia em português, o genial poema de Antero de Quental, Per Amica Silentia Lunae: Eu amo a noite às horas sossegadas/…, recolhido no volume póstumo, Raios de Extinta Luz.

 

Hino Órfico à Noite

 

Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite.

Noite, fonte universal.

Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,

invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,

ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,

e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,

ó Embalador, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,

ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,

ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,

leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.

A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,

ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,

escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,

e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do mundo.

 

Versão de Herberto Hélder

Transcrito de Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Paul Klee (1879-1940).

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A Magnólia — poema de Luiza Neto Jorge

30 Quarta-feira Mar 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Luiza Neto Jorge

Ab3 550pxÉ ao mistério da palavra poética que este poema, A Magnólia, de Luiza Neto Jorge (1939-1989) nos conduz: A exaltação do mínimo, /…/ um mínimo ente magnífico / desfolhando relâmpagos / sobre mim.

Para além da experiência directa da autora, pretexto para a enunciação do poema, ficam as múltiplas pistas que em sucessivas leituras se desdobram, devolvendo a cada palavra o poder de faiscar a imaginação. E temos, talvez o mais importante, o sabor dos versos que gulosamente lemos sem cuidar da sua inteligibilidade imediata: onde a palavra se elide / na matéria — na metáfora — / necessária, e leve, a cada um / onde se ecoa e resvala.

Estamos bem longe daquela espécie de contar a vidinha que em tanta poesia reluz, com maior ou menor fulgor, deixando o leitor sem espaço para fazer a sua imaginação voar.

 

A Magnólia

 

A exaltação do mínimo,

e o magnifico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me a forma

o meu resplendor.

 

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria — na metáfora —

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.

 

A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,

 

um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

 

Transcrito de Luiza Neto Jorge, poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001.

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Alexandre O’Neill num sábio e conciso poema

29 Terça-feira Mar 2016

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Alexandre O'Neill

Artigo em reformulação.

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