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O Meu RevolverDe surpresa, encontro no poema de Jorge Luis Borges (1899-1986) que hoje transcrevo as razões porque pouco me entusiasmam as aventuras de Sherlock Holmes. Simultaneamente, e pelas razões opostas, percebo como me colo às aventuras deslindadas por Maigret. Trata-se, afinal, e tão só, de casos de humanidade neste último personagem e ausência dela no primeiro.
Humanidade reconhecível, desde logo, nos gestos mínimos de comer e amar, e que em Maigret são omnipresentes tanto no carinho sóbrio com que o personagem Maigret trata Madame Maigret como na presença constante do acto de comer enquanto gesto essencial de convívio e partilha com os restantes personagens que povoam os enredos das histórias.
Nada disto existe no personagem Holmes, como bem argumenta Jorge Luis Borges, pleno de razão, no poema Sherlock Holmes, referindo a sua ausência no personagem:


É casto. Nada sabe do amor. Não quis.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive só e à parte.
A arte de esquecer também nada lhe diz.

Sonhou-o um irlandês, que nunca lhe quis bem
e que tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Esse homem, só, prossegue, com a lupa na mão,
um destino invulgar de coisa sem além.

 

Em Borges vida e literatura são simbiose perfeita, daí que, como sempre no escritor, o poema depois de escalpelizar o personagem nos seus tiques e peculiaridades:

 


Espevita no seu lar as inflamadas chamas
ou dá morte nos pântanos a um cão do inferno.
Esse alto cavalheiro ignora que é eterno.
Resolve ninharias, repete epigramas.

 

salta para uma serena contemplação do destino humano:

Não nos surpreendamos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (são a mesma coisa)
concede a cada um essa sorte curiosa
de ser forma e ser eco a morrer dia a dia.

Até ao dia último em que o esquecimento,
que é a meta comum, nos esqueça de todo.
Antes que nos atinja, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ir sendo.

Termina o poema com uma reflexão sobre o que no final a vida nos permite (o livro foi publicado um ano antes da morte do escritor):
 


Pensar de tarde em tarde em Sherlock Holmes é uma
dessas boas rotinas que restam. A morte
e a sesta são outras. É a nossa sorte:
convalescer num parque ou contemplar a Lua.
 

 

Nas histórias desenvolvidas a pretexto de um crime, se pela adolescência o puzzle de desenhar a solução a partir de indícios materiais escassos e aparentemente desarticulados (à maneira Ellery Queen) me entusiasmou, cedo passei a preferir o enredo psicológico que transforma por acasos circunstanciais um banal indivíduo num criminoso factual, onde o quadro psicológico e social joga um papel decisivo. E aí cheguei à leitura compulsiva dos romances com o protagonista Maigret.
Com Holmes temos matéria factual de difícil encadeamento para o observador corrente, transformando cada ocorrência em mistério sem solução.
É afinal, sem estranheza, que este personagem bizarro, dotado de faculdades incomuns, é sucessivamente encenado com sucesso em filmes e séries televisivas: a sua aptidão para resolver o que à comum das gentes parece insolúvel dá-nos uma medida da incompreensão do mundo à nossa volta, e intuitivamente explica-nos a falta de sucesso com que frequentemente lidamos com ele.

 

 

Serlock Holmes

Não teve nunca mãe nem ancestrais maiores.
Idêntico é o caso de Quijano e Adão.
Foi feito pelo acaso. Imediato ou à mão,
regem-no os vaivéns de variáveis leitores.

Não é erro pensar que nasce no momento
em que é visto pelo outro que lhe conta a história
e morre sempre em cada eclipse da memória
de todos os que o sonham. Mais vazio que o vento.

É casto. Nada sabe do amor. Não quis.
Esse homem tão viril renunciou à arte
de amar. Em Baker Street vive só e à parte.
A arte de esquecer também nada lhe diz.

Sonhou-o um irlandês, que nunca lhe quis bem
e que tentou matá-lo, ao que parece. Em vão.
Esse homem, só, prossegue, com a lupa na mão,
um destino invulgar de coisa sem além.

Ele não tem relações, mas não o atraiçoa
a devoção do outro, o seu evangelista
e que dos seus milagres nos deixou a lista.
Vive comodamente: em terceira pessoa.

Tomar banho não vai. Também não visitava
esse retiro Hamlet, lá na Dinamarca
sem saber quase nada dessa vã comarca
que é a espada e o mar, o arco e a aljava.

(“Omnia sunt plena Jovis.” Da mesma maneira
diremos desse justo que dá nome aos versos
que a sua fugaz sombra percorre nos diversos
domínios em que foi segmentada a esfera.)

Espevita no seu lar as inflamadas chamas
ou dá morte nos pântanos a um cão do inferno.
Esse alto cavalheiro ignora que é eterno.
Resolve ninharias, repete epigramas.

Chega-nos de uma Londres de gás e neblina,
A Londres que se sabe capital do império
que lhe interessa bem pouco, a Londres de mistério
tranquilo, que não quer sentir que já declina.

Não nos surpreendamos. Depois da agonia,
o fado ou o acaso (são a mesma coisa)
concede a cada um essa sorte curiosa
de ser forma e ser eco a morrer dia a dia.

Até ao dia último em que o esquecimento,
que é a meta comum, nos esqueça de todo.
Antes que nos atinja, brinquemos com o lodo
de ser durante um tempo, de ser e de ir sendo.

Pensar de tarde em tarde em Sherlock Holmes é uma
dessas boas rotinas que restam. A morte
e a sesta são outras. É a nossa sorte:
convalescer num parque ou contemplar a Lua.

 

Tradução de Fernando Pinto do Amaral
Publicado no livro Los Conjurados (1985)
Transcrito de Jorge Luis Borges, Obras Completas 1975-1985, Editorial Teorema, 1988.

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