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Piaf500pxJe revois la ville en fête et en délire [Revejo a cidade em festa e em delírio]
Suffoquant sous le soleil et sous la joie [Sufocando sob o sol e sob a alegria

Não, não são sobre o delírio do futebol observado em Lisboa a pretexto da vitória contra a França na final do EURO2016, os versos transcritos acima. São o início de uma canção popular — La foule — que Edit Piaf (1915-1963) cantou, frequentemente, de forma fabulosa.
Fala a canção de um encontro de acaso entre um homem e uma mulher desconhecidos,  empurrados para os braços um do outro por uma multidão em festa (o que bem pode ter acontecido a alguém naqueles eufóricos festejos). Enlaçados, os desconhecidos voam levados pelo turbilhão das gentes. Surge súbito a paixão na faísca de um sorriso para logo, na voragem da festa, a multidão os separar e não mais se encontrarem.
Segue a canção, e ao júbilo do amor adivinhado sucede a raiva na voz magoada que ainda hoje toca quem alguma vez entreviu por momentos a paixão, e esta sem remédio se esfumou perante a indiferença do mundo que continuou imperturbável no seu giro.
Desta, como de outras canções, a variada amálgama de sentimentos que a voz de Edit Piaf continua a destilar em quem a ouve, fala de forma superlativa o poema de Jorge de Sena (1919-1978) que a seguir transcrevo.

A Piaf

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça irá”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

in Jorge de Sena, Obras Completas, Poesia 1, edição de Jorge Fazenda Loureirio, Babel, 2013.

 

A canção encontra no YouTube quem tiver curiosidade. No entanto, para mim, a melhor interpretação disponível encontra-se no Disque d’or saído em 2012 e que pode ser ouvido no Spotify.
Para quem leia francês fica a seguir a respectiva letra. Na Wikipédia encontram os leitores a longa história dos variados sucessos da canção.

La Foule

Je revois la ville en fête et en délire
Suffoquant sous le soleil et sous la joie
Et j’entends dans la musique les cris, les rires
Qui éclatent et rebondissent autour de moi
Et perdue parmi ces gens qui me bousculent
Étourdie, désemparée, je reste là
Quand soudain, je me retourne, il se recule,
Et la foule vient me jeter entre ses bras…

Emportés par la foule qui nous traîne
Nous entraîne
Écrasés l’un contre l’autre
Nous ne formons qu’un seul corps
Et le flot sans effort
Nous pousse, enchaînés l’un et l’autre
Et nous laisse tous deux
Épanouis, enivrés et heureux.

Entraînés par la foule qui s’élance
Et qui danse
Une folle farandole
Nos deux mains restent soudées
Et parfois soulevés
Nos deux corps enlacés s’envolent
Et retombent tous deux
Épanouis, enivrés et heureux…

Et la joie éclaboussée par son sourire
Me transperce et rejaillit au fond de moi
Mais soudain je pousse un cri parmi les rires
Quand la foule vient l’arracher d’entre mes bras…

Emportés par la foule qui nous traîne
Nous entraîne
Nous éloigne l’un de l’autre
Je lutte et je me débats
Mais le son de sa voix
S’étouffe dans les rires des autres
Et je crie de douleur, de fureur et de rage
Et je pleure…

Entraînée par la foule qui s’élance
Et qui danse
Une folle farandole
Je suis emportée au loin
Et je crispe mes poings,
Maudissant la foule qui me vole
L’homme qu’elle m’avait donné
Et que je n’ai jamais retrouvé…

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