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Category Archives: Poetas e Poemas

Zbigniew Herbert — Poemas do Senhor Cogito

13 Terça-feira Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Zbigniew Herbert

 

Apresento hoje aos leitores do blog que os não conheçam, alguns poemas do Senhor Cogito.

Criatura peculiar, segundo alguns altar ego do poeta Zbigniew Herbert (1924-1998), os seus poemas faiscam. Ao lê-los, muitas vezes o mundo organiza-se dando coerência ao puzzle quotidiano.

Embora a poesia de Zbigniew Herbert (1924-1998) seja mais que os poemas do Senhor Cogito, bastariam estes para nos fazer guardar-lhe a obra e o nome.

Trabalhador do pensamento, o Senhor Cogito imagina, pensa, reflecte, e nós com ele caminhamos pelo mundo substancialmente mais despertos. Ora vejam:

O SENHOR COGITO E A IMAGINAÇÃO

1

O Senhor Cogito sempre desconfiou
dos ardis da imaginação

do piano no cume dos Alpes
do qual saíam notas falsas

não apreciava os labirintos
as esfinges inspiravam-lhe desgosto

habitava uma casa sem cave
sem espelhos nem dialéctica

as selvas de quadros compulsivos
não eram a sua pátria

elevava-se raramente
nas asas da metáfora
para cair de seguida como Ícaro
nos braços da Grande Mãe

adorava tautologias
a explicação
idem per idem

que o pássaro é um pássaro
a servidão servidão
o cutelo um cutelo
a morte morte

amava
o horizonte plano
a linha recta
a atracção exercida pela terra

2

o Senhor Cogito será arrumado
na categoria minores

acolherá com indiferença o veredito
dos homens de letras

utilizava a imaginação
para outros fins
queria fazer dela
um instrumento de compaixão

desejava compreender a fundo

– a noite de Pascal
– a natureza do diamante
– a melancolia dos profetas
– a cólera de Aquiles
– a loucura dos assassinos em massa
– os sonhos de maria Stuart
– o medo neandertaliano
– o desespero dos últimos Aztecas
– a longa agonia de Nietzsche
– a alegria do pintor de Lascaux
– a ascensão e a queda do carvalho
– a ascensão e a queda de Roma

de forma a ressuscitar os mortos
e a manter a aliança

a imaginação do Senhor Cogito
segue um movimento pendular

passa com precisão
de sofrimento para sofrimento

não tem lugar
para fogos de artificio poético

o Senhor Cogito quer permanecer fiel
a uma incerta claridade

O SENHOR COGITO E O PENSAMENTO PURO

O Senhor Cogito esforça-se
por atingir o pensamento puro
ao menos antes de adormecer

mas o esforço
é o início do fracasso

com efeito mal chega
a um estado onde o pensamento é como a água
uma grande água pura
de uma praia impassível

a água de repente encrespa-se
e a onda traz
latas
madeira
uma madeixa de cabelos

na verdade o Senhor Cogito
não está inteiramente imaculado
não podia arrancar
o seu olho interior
da caixa de correio
tinha nas narinas o odor do mar
os grilos acariciavam a sua orelha
e debaixo do cinto sentia a mão ausente

era mediano como outros
pensamentos dotados
a pele da mão tocando os braços da poltrona
uma ruga de sensibilidade
no rosto

um dia
um dia qualquer
logo que arrefecer
atingirá o satori

e será como aconselham os mestres
vazio e
surpreendente

Olhando o fascinante fervilhar de ideias que cruza a nossa sociedade em todas as direcções: politicas, económicas, culturais, ocorre-me a influência nesse movimento da experiência do Senhor Cogito:

e andam em círculos
à procura de um grão
…
não mudam de lugar
porque não têm aonde ir

O SENHOR COGITO E O MOVIMENTO DAS IDEIAS

As ideias passam pela cabeça
diz uma expressão corrente

a expressão corrente
sobrestima a circulação de ideias

a maior parte delas
permanece imóvel
no meio de uma paisagem pesada
de outeiros ermos
e árvores ressequidas

por vezes atingem
a corrente rápida de outro pensamento
acampam na margem
sobre um só pé
como as garças famintas

com tristeza
recordam-se das nascentes secas

e andam em círculos
à procura de um grão

não atravessam
porque não chegariam a nenhum lado

não mudam de lugar
porque não têm aonde ir

permanecem empoleiradas nas pedras
torcendo as mãos

debaixo do céu
pesado
e baixo
do crânio

Como o mundo não podia ser perfeito, o Senhor Cogito tem um problema com a sua alma:

abandona o seu corpo vivo
sem uma palavra de despedida

durante meses durante anos diverte-se
em outros continentes
para além dos seus limites

não é fácil saber onde se encontra
não dá notícias

mas nos dois poemas que seguem conheceremos não só a evolução do problema como o seu estado actual.

A ALMA DO SENHOR COGITO

Diz-nos a história
que ela abandona o corpo
quando o coração pára de bater

com o último suspiro
parte calmamente
para as pastagens celestiais

a alma do Senhor Cogito
comporta-se de maneira diferente

abandona o seu corpo vivo
sem uma palavra de despedida

durante meses durante anos diverte-se
em outros continentes
para além dos seus limites

não é fácil saber onde se encontra
não dá notícias

evita contactos
não escreve uma carta

não se sabe quando regressará
pode ser que tenha partido para sempre

o Senhor Cogito quer superar
os seus ciúmes primitivos

pensa bem da sua alma
pensa nela com ternura

ela deve poder viver
em outros corpos

não há almas suficientes
para toda a humanidade

o Senhor Cogito aceita o seu destino
sabe que não tem alternativa

nem tenta dizer
– a minha alma

pensa na sua alma com afecto
com uma terna solicitude

e quando ela de repente
regressa
não diz
– ainda bem que estás de volta

olha apenas através do canto do olho
como ela se senta ao espelho
e penteia o cabelo
– emaranhado e cinzento

A POSIÇÃO ACTUAL DA ALMA DO SENHOR COGITO

desde há algum tempo
que o Senhor Cogito
traz a alma
no braço

quer dizer
pronta para voar

colocar
a alma no braço
é uma operação delicada
deve ser feita
sem pressas febris
ou cenas familiares
de guerras
evacuações
cidades sitiadas

a alma gosta de assumir
varias formas
agora é uma pedra
crava as suas garras
no braço esquerdo do Senhor Cogito
e fica à espera

pode abandonar
o corpo do Senhor Cogito
enquanto ele dorme
ou pode partir
à luz do dia
em completa consciência
breve como o assobio
de um espelho quebrado

por agora
senta-se no seu braço
pronta para voar

E voemos nós com ela neste mundo onde o nonsense nos permite alguma alegria.

Nota final

Não sei que significado terá pretendido atribuir o poeta ao nome do seu altar ego, mas agrada-me pensar que o sentido do nome decorre directamente do significado do verbo latino:

cogito, as, are, avi, atum – pensar, reflectir, remoer no espírito.

Versões dos poemas por Jorge Sousa Braga a partir das versões em inglês de Czeslaw Miloz, publicadas em Zbigniew Herbert, Escolhido pelas Estrelas antologia poética, Assírio & Alvim, Lisboa 2009.

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Elogio (ou Louvor) da Dialéctica por Bertolt Brecht

11 Domingo Nov 2012

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Bertolt Brecht

Fará por estes dias quarenta anos. Sei-o, pois era o tempo em que punha nos livros a data da compra, mas era sobretudo, e é o que importa, o tempo das descobertas de formação.
Tinha, havia pouco, encontrado a poesia de Herberto Helder e a sua estranheza para um rapaz nos dezoito anos familiarizado com a poesia das selectas do liceu, lida como cânone poético. E foi aí que a poesia de Bertolt Brecht (1898-1956) irrompeu, na novidade dos seus assuntos e na violência da sua mensagem política.
Lê-la hoje, em Portugal, na conjuntura de guerra social surda que atravessamos, devolve-lhe uma acutilância que os tempos de prosperidade do passado recente tinham empurrado para o esquecimento.

A verdade de Elogio (ou Louvor) da Dialéctica, que a seguir transcrevo, não se gasta com a história, embora o esquecimento dela muitas vezes se instale. É um poema de esperança contra a adversidade:

O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.

ou noutra versão

O certo não é certo.
Assim como está, não fica

e de incentivo a cada um tomar o destino nas próprias mãos:

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.

ou noutra versão

De quem depende que a opressão continue? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós.

Deixo-vos com a versão de Arnaldo Saraiva, que primeiro conheci, e que nos tempos da revolução de Abril foi famosa dita por Mário Viegas, e segue-se-lhe a versão de Paulo Quintela publicada posteriormente, em 1975.

Simultaneamente com o desafio reflexivo que o poema convoca, é também à analise da problemática da tradução de poesia que mais uma vez desafio os leitores do blog ao propor-lhes duas versões do mesmo poema fieis ao original e tão dissemelhantes no resultado poético em português.

Elogio da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos.
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Nenhuma voz além da dos que mandam.
E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.
Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque s vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

Tradução de Arnaldo Saraiva

Louvor da Dialéctica

A injustiça caminha hoje com passo firme.
Os opressores instalam-se pra dez mil anos.
A força afirma: Como está, assim é que fica.
Voz nenhuma soa além da voz da dominadores
E nas feiras diz alto a exploração: Agora é que eu começo.
Mas dos oprimidos dizem muitos agora:
O que nós queremos, nunca pode ser.

Quem ainda vive, que não diga: nunca!
O certo não é certo.
Assim como está, não fica
Quando os dominadores tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem se atreve a dizer: nunca?
De quem depende que a opressão continue? De nós.
De quem depende que ela seja quebrada? Igualmente de nós.
Quem for derrubado, que se levante!
Quem estiver perdido, lute!
A quem reconheceu a sua situação, quem poderá detê-lo?
Pois os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
E do Nunca se faz: Hoje ainda!

Tradução de Paulo Quintela

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Outono enfermiço (doente) de Guillaume Apollinaire

17 Quarta-feira Out 2012

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Guillaume Apollinaire, Maria gabriela Llansol

 

Os livros têm destes acasos...
O Outono mostrou-se hoje em Lisboa, quando já vai avançado no calendário. Para entreter a chuva que caía tirando-me a vontade de sair, procurei um policial como remédio.
Nem todas as traduções de policiais são legíveis, algumas há que precisamos largar à segunda página, e por isso vasculhei por um qualquer título em tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, laboriosa tradutora a quem devo largas horas de prazer de leitura em português, graças a traduções escorreitas e tanto quanto possível, fieis ao original. Calhou encontrar um livro com epígrafe do Wozzeck (Alban Berg), coisa assaz rara, que me espevitou a curiosidade.
Termina o livro com um poema de Guillaume Apollinaire (1880-1918), Automne malade, perfeitamente adequado ao dia e por isso o transcrevo numa tradução da poetisa Maria Gabriela Llansol (1931-2008).

Outono mortiço e adorado
Morrerás quando o furacão soprar nos rosais
Quando nos vergéis
Tiver nevado

Pobre outono
Morres em brancura e em riqueza
De neve e de frutos maduros
No fundo do céu
Planam gaviões
Sobre os nixes ingénuos e anões de cabelos verdes
Que nunca amaram

Nas orlas de lá longe
Os veados bramiram

Oh! estação não sabes quanto gosto dos teus rumores
Os frutos caindo sem serem apanhados
O vento e a floresta que choram folha a folha
Todas as suas lágrimas no outono

As folhas
Que pisam
Um comboio
Que passa
A vida
Que se vai

Perante esta tradução vale a pena conhecer o original, e para os leitores que dominem o francês, aqui fica:

Automne malade

Automne malade et adoré
Tu mourras quand l’ouragan soufflera dans les roseraies
Quand il aura neigé
Dans les vergers

Pauvre automne
Meurs en blancheur et en richesse
De neige et de fruits mûrs
Au fond du ciel
Des épreviers planent
Sur les nixes nicettes au cheveux verts et naines
Qui n’ont jamais aimé

Aux lisières lointaines
Les cerfs ont bramé

Et que j’aime ô saison que j’aime tes rumeurs
Les fruits tombant sans qu’on les cueille
Le vent et la forêt qui pleurent
Toutes leurs larmes en automne feuile à feuille

Les feuilles
Qu’on foule
Un train
Qui roule
La vie
S’écoule

O poema de Llansol é quase um novo poema, e as subis alterações acabam por criar em português uma magia nova que o francês talvez nem tenha. Apenas um exemplo:

Aux lisières lointaines  /  Nas orlas de lá longe

A tradução de Fernanda Pinto Rodrigues no policial (Tsing-Boum de Nicolas Freeling) é fragmentada, pois limita-se a traduzir o que do poema o romance contém. No entanto, como é tão mais fiel em português, aqui a arquivo.

Para o exemplo citado atrás, traduz Fernanda Pinto Rodrigues:

Aux lisières lointaines  / Nos bosques longínquos

o que mostra eloquentemente a diferença entre traduzir e escrever poesia em tradução, parece-me.

Vejamos então a tradução próxima do literal:

Outono doente e adorado
Morrerás quando a borrasca soprar nos roseirais
Quando tiver nevado
Nos pomares

Pobre Outono
Morres em brancura e opulência
De neve e frutos maduros…
Alto no céu
Pairam gaviões
…

Nos bosques longínquos
Os cervos bramaram…

Como eu amo, ó estação, como amo os teus rumores
Os frutos a cair sem serem colhidos
O vento e a floresta a chorar
Todas as lágrimas no Outono, folha a folha
…

Noticia bibliográfica

A tradução de Maria Gabriela Llansol e transcrição do original do poema encontram-se em MAIS NOVEMBRO QUE SETEMBRO, edição bilingue de poemas de Guillaume Apollinaire publicado por Relógio d’Água, Lisboa 2001

A tradução de Fernanda Pinto Rodrigues encontra-se em Herança de um Inferno, nº289 da colecção Vampiro, Livros do Brasil, Lisboa, s/d.

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LISBOA por Sophia de Mello Breyner Andresen

14 Domingo Out 2012

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Regressa a poesia ao blog com Lisboa no olhar e poemas de Sophia.

Nestes dias em que a raiva ameaça explodir, se

Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada

e talvez por isso, as manifestações percorrem as ruas no sossego de uma indignação comedida, deixando o pasmo no olhar de quem as segue na televisão.

TEJO

Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada

Julho de 1994

O sortilégio da cidade a que não resiste quem, vindo do sul,  a vê surgir do cimo das pontes, ou do barco que cruza o rio, conta-o Sophia em LISBOA.

LISBOA

Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver

1977

Os poemas foram transcritos de OBRA POÉTICA, Edição de Carlos Mendes de Sousa, Editorial Caminho, Lisboa, 2011.

Coligem-se pela primeira vez nesta edição poemas dispersos por antologias e revistas. Entre eles surge esta obra-prima, onde a magia da palavra faz a musica do “poema” quase absoluto “Pura paixão que não conhece olvido”:

Oblíquo Setembro de equinócio tarde
Que se alonga e depara e vê e mira
Tarde que habita o estar do seu parado
Sol de Sul pelo sal detido

Assim o estar aqui e o haver sido
Quasi a mesma que sou no tão perdido
Morar aberto de um Setembro antigo
Com o mar desse morar em meu ouvido

Pura paixão que não conhece olvido

 

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Revelação e Obrigado – 2 poemas Pedro Homem de Melo

10 Segunda-feira Set 2012

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

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Pedro Homem de Melo

Nestas coisas de amor quando a adolescência floresce, a confusão com a revelação do sexo instala-se, e deslindar sentimentos e prazer de descoberta nem sempre é tarefa fácil e bem conseguida.
Não será o caso neste primeiro poema da inspiração de Pedro Homem de Melo (1904-1984), Revelação: a duvida não existe. O poema é apenas um acto de agradecimento à mulher que o fez, adolescente, entrar no paraíso.

Revelação

Tinha quarenta e cinco… e eu, dezasseis…

Na minha fronte, indómitos anéis

Vinham da infância, saltitando ainda.

 

Contavam dela: — Já falou a Reis!

Tinha quarenta e cinco… e eu, dezasseis…

 Formosa? Não. Mais que formosa: linda.

 

Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser

A verdade planta que os meus dedos tomem!

 

Pela última vez foste mulher…

E eu, pela vez primeira, fui um homem!

No poema que segue não há confusão entre amor e sexo. É amor sem sexo:

Pela ausência da carne em teu afecto,

e o poeta agradece com um

Obrigado

Por teu sorriso anónimo, discreto,
(O meu país é um reino sossegado…)
Pela ausência da carne em teu afecto,
Obrigado!

Pelo perdão que o teu olhar resume,
Por tua formosura sem pecado,
Por teu amor sem ódio e sem ciúme,
Obrigado!

Por no jardim da noite, a horas más,
A tua aparição não ter faltado,
Pelo teu braço de silêncio e paz,
Obrigado!

Por não passar um dia em que eu não diga
— Existo, sem futuro e sem passado.
Por toda a sonolência que me abriga…
Obrigado!

E tu, que hoje és meu íntimo contraste,
Ó mão que beijo por me haver cegado!
Ai! Pelo sonho intacto que salvaste,
Obrigado! Obrigado! Obrigado!

Por aqui fica a poesia hoje, no delicado recorte de um poeta mal-amado.

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Poemas para o Verão: Verão na Cidade de Boris Pasternak

13 Segunda-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Boris Pasternak, Marc Chagall

Longe deste verão que agora desfruto, é o Verão das terras gélidas da Rússia de que nos fala este poema de Boris Pasternak (1890-1960), pertencente ao cancioneiro do Dr. Jivago, Iuri Jivago, publicado no final do romance do mesmo nome, originalmente em Itália.
Em vez de sol são aguaceiros e trovoada os protagonistas a dar a atmosfera poética de um amor tumultuoso, ainda que a poesia surja na manhã onde Só as tílias seculares, / Cheias de perfume e flor, / Nos olham com o olhar / De quem passou mal a noite.

VERÃO NA CIDADE

Conversas a meia voz,
E esse gesto impetuoso
Com que afastas os cabelos
De cima do teu pescoço.

E sob o brilho do pente
É que aparece o olhar,
Debaixo do capacete
Dos cabelos ondulados.

A noite quente, lá fora,
Faz prever um aguaceiro.
Dispersam-se os caminhantes,
Matraqueando os passeios.

Do estrondo da trovoada
Ouve-se rolar o eco.
E o vento faz ondular
As cortinas da janela.

Vem a seguir o silêncio
Mas sufoca-se, e não cessa,
Intermitente, a presença
Dos relâmpagos no céu.

Quando por fim a manhã,
Cintilante, vem secar,
Nas bermas e nas valetas,
A água da tempestade,

Só as tílias seculares,
Cheias de perfume e flor,
Nos olham com o olhar
De quem passou mal a noite.

Versos de Iuri Jivago (1957)
Tradução de David Mourão-Ferreira

 

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Poemas para o Verão – Visita a Alberto Caeiro com László Moholy-Nagy por companhia

09 Quinta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Alberto Caeiro, Fernado Pessoa, László Moholy-Nagy

Alberto Caeiro, dos heterónimos de Fernado Pessoa, será o mais consentâneo com o estado de espírito hedonista que me invade nestas tardes de calor, onde apenas consigo a imobilidade do pasmo.

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa…
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria…
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão …
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos …
…
Fragmento do poema XLI de O Guardador de Rebanhos

Mas por aqui entrado, há um filosofar poético (Cada cousa é o que é) que inevitavelmente surge, mesmo sabendo que Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. / Não me ponho a pensar se ela sente, e o olhar espanta-se.

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
…
Fragmento de Poemas Inconjuntos

Está seguramente certo, respondo eu ao Poeta. E naquele andar em circulo do pensamento parado, a cousa volta de novo:

O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Poema XXIV de O Guardador de Rebanhos
Tão profunda reflexão com este calor só tem uma solução, um mergulho no mar!
E aí vou. Amanhã haverá mais poesia.

Pareceram-me compatíveis com esta poesia as fotos de László Moholy-Nagy (1895 – 1946) feitas em 1925, no âmbito da Bauhaus, e talvez contemporâneas, grosso modo, desta poesia de Alberto Caeiro.

 

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Poemas para o Verão: de novo Sophia com Liberdade e Eugénio de Andrade com As amoras

08 Quarta-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

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Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui nesta praia onde
A minha não é a praia de Sophia onde Não há nenhum vestígio de impureza,
É uma praia popular, onde as multidões se acotovelam quando a maré está alta, ou se espraiam quando chega a baixa-mar.
É uma praia de famílias onde um curioso hiato etário acontece. Encontram-se ausentes os jovens. Apenas nos cruzamos com crianças e adolescentes em idade de ainda acompanharem os pais, ou então casais de meia idade a quem a acessibilidade da praia conforta.
Circulando entre a multidão nos passeios à beira-mar, dou por mim muitas vezes a tentar imaginar as pessoas com que me cruzo, vestidas e ocupadas nos seus afazeres profissionais. Não consigo! Os corpos semi-nus, obesos ou deselegantes, longe dos padrões publicitários como é característico da humanidade, ganham uma identidade que apaga as diferenças existentes entre o banhista do guarda-sol da coca-cola, e o outro que se protege na sombra da dispendiosa palhota da primeira fila, onde repousa na espreguiçadeira.
Mas também nesta minha praia, hoje as Ondas tombando ininterruptamente, / Puro espaço e lúcida unidade, me permitiram sentir, nadando, que Aqui o tempo apaixonadamente / Encontra a própria liberdade.

Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

As pessoas de quem falei acima são quem faz este meu país, e de quem Eugénio de Andrade (1923-2005) também fala no seu poema As amoras.

As amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no Verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Notícia bibliográfica

O poema de Sophia, publicado inicialmente em Mar Novo (1ª edição 1958), foi transcrito de Obra Poética, Editorial Caminho, 2ªedição, 2011.

O poema de Eugénio de Andrade, publicado inicialmente em O Outro Nome da Terra (1ªedição 1988) foi transcrito de Poesia, Rosto Editora, Vila Nova de Gaia, Abril de 2011.

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Juan Gris — o outro cubista, com OS OBJECTOS de Zbigniew Herbert

06 Segunda-feira Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Juan Gris, Zbigniew Herbert

Apesar de ser um nome menos divulgado e a sua pintura menos conhecida, a obra de Juan Gris (1887-1927) permanece como a mais lírica de entre a pintura cubista. Integrando o grupo de Braque e Picasso em 1907, quando as primeiras manifestações cubistas surgiram, a curta vida do pintor fez com que a sua obra de maturidade se centre nesta visão da pintura, de onde a perspectiva a partir de um único ponto observador desapareceu.
Para o que me ocupa no blog, é irrelevante o efectivo papel do pintor na génese desta revolução na arte ocidental e qual a sua posição hierárquica no seio dela.
Gosto da sua pintura, do calor que a paleta transmite aos objectos das suas natureza mortas, e sobretudo da harmonia na composição/decomposição que as suas pinturas respiram.
Autor de alguns retratos abordados do ponto de vista do cubismo, neles observamos o essencial da figura humana, servindo a côr para nos transportar ao calor da personalidade retratada, qual seja o caso desta mulher com cesto que vem a seguir, ou o retrato da mulher do pintor com que o artigo abre.

Deixo-vos agora com um grupo de pinturas de objectos, a que no final OS OBJECTOS de Zbigniew Herbert (1924 – 1998) dará o complemento poético.

OS OBJECTOS

Os objectos inanimados estão sempre em ordem e nós infelizmente não temos nada a censurar-lhes. Nunca vi uma poltrona trocar de pé ou uma cama erguer-se nas pernas traseiras. E as mesas, mesmo quando estão fatigadas, não se põem de joelhos. Suspeito que os objectos se comportam assim por razões pedagógicas: para nos censurarem constantemente pela nossa instabilidade.

Tradução de Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz. Publicado por Assírio & Alvim, Lisboa 2009

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POESIA segundo Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

05 Domingo Ago 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Nicolas de Staël, Sophia de Mello Breyner Andresen

É na poesia de Sophia que encontramos, quase em permanência, o eco da grande poesia clássica grega.
Decantado o verso, sobra apenas o essencial que faz a palavra — Ποίηση — POESIA —, qual esta poética definição dela:

Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem.
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

São as cores mediterrânicas da pintura tardia de Nicolas de Staël (1914-1955) que escolho para acompanhar a Poesia de Sophia.

 

 

 

 

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