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Apresento hoje aos leitores do blog que os não conheçam, alguns poemas do Senhor Cogito.

Criatura peculiar, segundo alguns altar ego do poeta Zbigniew Herbert (1924-1998), os seus poemas faiscam. Ao lê-los, muitas vezes o mundo organiza-se dando coerência ao puzzle quotidiano.

Embora a poesia de Zbigniew Herbert (1924-1998) seja mais que os poemas do Senhor Cogito, bastariam estes para nos fazer guardar-lhe a obra e o nome.

Trabalhador do pensamento, o Senhor Cogito imagina, pensa, reflecte, e nós com ele caminhamos pelo mundo substancialmente mais despertos. Ora vejam:

O SENHOR COGITO E A IMAGINAÇÃO

1

O Senhor Cogito sempre desconfiou
dos ardis da imaginação

do piano no cume dos Alpes
do qual saíam notas falsas

não apreciava os labirintos
as esfinges inspiravam-lhe desgosto

habitava uma casa sem cave
sem espelhos nem dialéctica

as selvas de quadros compulsivos
não eram a sua pátria

elevava-se raramente
nas asas da metáfora
para cair de seguida como Ícaro
nos braços da Grande Mãe

adorava tautologias
a explicação
idem per idem

que o pássaro é um pássaro
a servidão servidão
o cutelo um cutelo
a morte morte

amava
o horizonte plano
a linha recta
a atracção exercida pela terra

2

o Senhor Cogito será arrumado
na categoria minores

acolherá com indiferença o veredito
dos homens de letras

utilizava a imaginação
para outros fins
queria fazer dela
um instrumento de compaixão

desejava compreender a fundo

– a noite de Pascal
– a natureza do diamante
– a melancolia dos profetas
– a cólera de Aquiles
– a loucura dos assassinos em massa
– os sonhos de maria Stuart
– o medo neandertaliano
– o desespero dos últimos Aztecas
– a longa agonia de Nietzsche
– a alegria do pintor de Lascaux
– a ascensão e a queda do carvalho
– a ascensão e a queda de Roma

de forma a ressuscitar os mortos
e a manter a aliança

a imaginação do Senhor Cogito
segue um movimento pendular

passa com precisão
de sofrimento para sofrimento

não tem lugar
para fogos de artificio poético

o Senhor Cogito quer permanecer fiel
a uma incerta claridade

O SENHOR COGITO E O PENSAMENTO PURO

O Senhor Cogito esforça-se
por atingir o pensamento puro
ao menos antes de adormecer

mas o esforço
é o início do fracasso

com efeito mal chega
a um estado onde o pensamento é como a água
uma grande água pura
de uma praia impassível

a água de repente encrespa-se
e a onda traz
latas
madeira
uma madeixa de cabelos

na verdade o Senhor Cogito
não está inteiramente imaculado
não podia arrancar
o seu olho interior
da caixa de correio
tinha nas narinas o odor do mar
os grilos acariciavam a sua orelha
e debaixo do cinto sentia a mão ausente

era mediano como outros
pensamentos dotados
a pele da mão tocando os braços da poltrona
uma ruga de sensibilidade
no rosto

um dia
um dia qualquer
logo que arrefecer
atingirá o satori

e será como aconselham os mestres
vazio e
surpreendente

Olhando o fascinante fervilhar de ideias que cruza a nossa sociedade em todas as direcções: politicas, económicas, culturais, ocorre-me a influência nesse movimento da experiência do Senhor Cogito:

e andam em círculos
à procura de um grão

não mudam de lugar
porque não têm aonde ir

O SENHOR COGITO E O MOVIMENTO DAS IDEIAS

As ideias passam pela cabeça
diz uma expressão corrente

a expressão corrente
sobrestima a circulação de ideias

a maior parte delas
permanece imóvel
no meio de uma paisagem pesada
de outeiros ermos
e árvores ressequidas

por vezes atingem
a corrente rápida de outro pensamento
acampam na margem
sobre um só pé
como as garças famintas

com tristeza
recordam-se das nascentes secas

e andam em círculos
à procura de um grão

não atravessam
porque não chegariam a nenhum lado

não mudam de lugar
porque não têm aonde ir

permanecem empoleiradas nas pedras
torcendo as mãos

debaixo do céu
pesado
e baixo
do crânio

Como o mundo não podia ser perfeito, o Senhor Cogito tem um problema com a sua alma:

abandona o seu corpo vivo
sem uma palavra de despedida

durante meses durante anos diverte-se
em outros continentes
para além dos seus limites

não é fácil saber onde se encontra
não dá notícias

mas nos dois poemas que seguem conheceremos não só a evolução do problema como o seu estado actual.

A ALMA DO SENHOR COGITO

Diz-nos a história
que ela abandona o corpo
quando o coração pára de bater

com o último suspiro
parte calmamente
para as pastagens celestiais

a alma do Senhor Cogito
comporta-se de maneira diferente

abandona o seu corpo vivo
sem uma palavra de despedida

durante meses durante anos diverte-se
em outros continentes
para além dos seus limites

não é fácil saber onde se encontra
não dá notícias

evita contactos
não escreve uma carta

não se sabe quando regressará
pode ser que tenha partido para sempre

o Senhor Cogito quer superar
os seus ciúmes primitivos

pensa bem da sua alma
pensa nela com ternura

ela deve poder viver
em outros corpos

não há almas suficientes
para toda a humanidade

o Senhor Cogito aceita o seu destino
sabe que não tem alternativa

nem tenta dizer
– a minha alma

pensa na sua alma com afecto
com uma terna solicitude

e quando ela de repente
regressa
não diz
– ainda bem que estás de volta

olha apenas através do canto do olho
como ela se senta ao espelho
e penteia o cabelo
– emaranhado e cinzento

A POSIÇÃO ACTUAL DA ALMA DO SENHOR COGITO

desde há algum tempo
que o Senhor Cogito
traz a alma
no braço

quer dizer
pronta para voar

colocar
a alma no braço
é uma operação delicada
deve ser feita
sem pressas febris
ou cenas familiares
de guerras
evacuações
cidades sitiadas

a alma gosta de assumir
varias formas
agora é uma pedra
crava as suas garras
no braço esquerdo do Senhor Cogito
e fica à espera

pode abandonar
o corpo do Senhor Cogito
enquanto ele dorme
ou pode partir
à luz do dia
em completa consciência
breve como o assobio
de um espelho quebrado

por agora
senta-se no seu braço
pronta para voar

E voemos nós com ela neste mundo onde o nonsense nos permite alguma alegria.

Nota final

Não sei que significado terá pretendido atribuir o poeta ao nome do seu altar ego, mas agrada-me pensar que o sentido do nome decorre directamente do significado do verbo latino:

cogito, as, are, avi, atum – pensar, reflectir, remoer no espírito.

Versões dos poemas por Jorge Sousa Braga a partir das versões em inglês de Czeslaw Miloz, publicadas em Zbigniew Herbert, Escolhido pelas Estrelas antologia poética, Assírio & Alvim, Lisboa 2009.

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