• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Apostilla por Alvaro de Campos ou a reflexão de Fernando Pessoa sobre carpe diem

05 Terça-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Modigliani

Modigliani_Amedeo-The_Young_Apprentice

Deixei há pouco tempo no blog um artigo em torno da Ode a Leucónoe de Horácio. Nele, a defesa do aproveitar a vida que passa sem preocupação pelo amanhã é o assunto. Carpe diem, é a ideia expressa em latim, e desde Horácio surge a espaços na poesia. Encontrámo-la no poema A vida, de Páladas, que aqui também deixei, e hoje retomo-a com o eco que a expressão encontrou em Álvaro de Campos, no poema Apostilla. Aqui, é a peculiar forma da reflexão Pessoana que se desenvolve através do seu heterónimo, interrogando-se sobre o que aproveitar o tempo significa.

Apostilla

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, para que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho á Virgilio, á Milton…
Mas é tam diffícil ser honesto ou ser superior!
É tam pouco provavel ser Milton ou ser Virgilio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos –
Para com elles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)…
Pôr as sensações em castello de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, egual contra egual,
E a vontade em carambola diffícil…
Imagens de jogos ou de paciencias ou de passatempos –
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida…

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciencia desconheça…
Não ter um acto indefinido nem facticio…
Não ter um movimento desconforme com propositos…
Boas maneiras da alma…
Elegancia de persistir…

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cerebro está prompto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajavas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti
Qual foi o rhythmo do nosso socego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto á vida?)

Aproveitar o tempo!…
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!
Deixem-me ser uma folha de arvore, titillada por brisas,
A poeira de uma estrada, involuntaria e sòsinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O peão do garoto, que vae a parar,
E oscilla, no mesmo movimento que o da terra,
E estremece, no mesmo movimento que o da alma,
E cahe, como cahem os deuses, no chão do Destino.

11/4/1928 – data do testemunho dactilografado.
Poema publicado em O Noticias Ilustrado, 27/2/1928.

Transcrição ortográfica conforme a edição crítica de Teresa Rita Lopes do Livro de Versos de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, Lisboa, 1993.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Alvaro de Campos – O Binómio de Newton

04 Segunda-feira Mar 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas, Prosas

≈ 6 comentários

Etiquetas

Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Newton

Venus de Milo - Louvre

A uns causa estranheza, a outros, onde me incluo, a comparação feita no poema de Alvaro de Campos entre a Vénus de Milo (escultura grega da colecção do museu do Louvre), arquétipo da beleza feminina pelos séculos, e o binómio de Newton, (solução matemática para um problema de cálculo descoberta pelo físico e matemático inglês, Sir Isaac Newton (1643-1727)), parece justíssima e um golpe de génio poético, a sua formulação.

O binomio de Newton é tão bello como a Venus de Milo.
O que ha é pouca gente para dar por isso.

(Alvaro de Campos)

óóóó—óóóóóó óóó—óóóóóóó óóóóóóóó

(O vento lá fóra)

Acompanho o poema com os seus protagonistas: a abrir, uma foto da Vénus de Milo, da colecção do museu do Louvre, e a seguir, a explicitação matemática do binómio de Newton.

A formulação do binómio de Newton escreve-se  da seguinte forma:
onde os coeficientes  são chamados coeficientes binomiais e definem-se como: onde  e  são inteiros,  e  é o fatorial de x.
O coeficiente binomial  traduz, em análise combinatória, o número combinações de n elementos agrupados k a k.

Quando atacado de insónias, leitor(a), é bom remédio manualmente desenvolver o cálculo arbitrando o x e y da vida, e escolher n e k à medida da insónia. (Deixo à vossa imaginação a matemática da coisa). Rapidamente chega o sono repousante.

Bons sonhos!

Nota bibliográfica

Transcrevi a versão ortográfica de Teresa Rita Lopes na sua edição crítica do Livro de Versos de Álvaro de Campos, o heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935), Editorial Estampa, Lisboa, 1993.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

E. E. Cummings — dois poemas

27 Quarta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

E. E. Cummings, Marc Chagall

Chagall_Marc-Russian_Village_under_the_Moon

Em repouso do sublime, trago hoje dois curtos poemas de E. E. Cummings (1894-1962).

São poemas que celebram a mulher amada, nos antípodas da proverbial ironia, ou mesmo sarcasmo, do poeta, cristalizada nos conhecidos versos:

as senhoras de Cambridge que vivem em almas mobiladas
são desgraciosas e têm pensamentos confortáveis
…

Para a mulher amada encontra não uma alma mobilada, mas

a lua esconde-se no /cabelo dela.,

belos versos a que outros se acrescentam:

quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,…

Espero ter-lhe aberto o apetite e deixo-o, leitor, com os poemas na totalidade.

*
quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música,um
pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo
laranja)

contra o silêncio,ou a escuridão….

a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,

devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno

cujos quietos lábios me assassinam subitamente,

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso

—e então somos Eu e Ela….

o que é isso que o realejo toca

**
a lua esconde-se no
cabelo dela.
O
lírio
do céu
cheio de todos os sonhos,
desce

encobre a sua brevidade em canto
cerca-a de intricados débeis pássaros
com margaridas e crepúsculos
Aprofunda-a,

Recita
sobre a sua
carne
as pérolas

da chuva uma a uma murmurando.

Tradução de Cecília Rego Pinheiro, in livrodepemas, ed Assírio & Alvim, 1999.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

A parábola dos cegos de Pieter Brueghel o Velho, e o poema de William Carlos Williams

19 Terça-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Pieter Brueguel o Velho, William Carlos Williams

Parábola dos cegos 01A par dos valores intrinsecamente plásticos na pintura de Pieter Brueguel o Velho (1525-1569), que nos encantam o olhar pelo movimento e colorido das cenas pintadas, existe um lado documental sobre aquele mundo do século XVI longe a vida da corte, que transforma a contemplação desta pintura num mergulho na história e vicissitudes da condição humana.

Escolho para hoje a ilustração da parábola dos cegos, que no terrível da sua representação nos compunge e empurra para a reflexão sobre o que nos nossos dias de semelhante existe.

Enquanto leitura metafórica, a pintura remete-nos para a cegueira com que cada homem caminha na vida, seguindo os outros e não buscando por si o seu caminho, num percurso em que o tropeçar nos erros e no desconhecido é inevitável. Esta cegueira metafórica, no contexto da época do pintor, é sobretudo moral e religiosa, a qual conduz à miséria da vida terrena.

O poeta norte-americano William Carlos Williams (1883-1963) reflectiu em poesia, num famoso livro de 1962, e prémio Pulitzer, Pictures from Brueghel and Other Poems, sobre esta obra. No final transcrevo o poema no original, The Parable of the Blind, desconhecendo se existe alguma versão portuguesa dele.

Agora alguns detalhes de tão fabuloso quadro.

Parábola dos cegos 03

Parábola dos cegos 091

Parábola dos cegos 08

Parábola dos cegos 09

Parábola dos cegos 092

The Parable of the Blind

This horrible but superb painting
the parable of the blind
without a red

in the composition shows a group
of beggars leading
each other diagonally downward

across the canvas
from one side
to stumble finally into a bog

where the picture
and the composition ends back
of which no seeing man

is represented the unshaven
features of the des-
titute with their few

pitiful possessions a basin
to wash in a peasant
cottage is seen and a church spire

the faces are raised
as toward the light
there is no detail extraneous

to the composition one
follows the others stick in
hand triumphant to disaster

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Erros meus… com Camões e a glosa de Gastão Cruz

15 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Camões, Gastão Cruz, Paul Klee

Klee_Paul-SiblingsPor muito que estejamos convencidos do acerto das nossas escolhas, uma vez por outra ou o desânimo, ou as contrariedades, ou a constatação pela evidência do erro, conduzem-nos a reflexões próximas das de Camões no famoso soneto que hoje trago, sem que, evidentemente, as consigamos expressar com a elegante inspiração do nosso génio maior.

As escolhas, os enganos, a sorte, tudo lá está, na concisão que o soneto exige, servido pela admirável simplicidade de uma linguagem que nos faz participar desse destino.

Na perpétua releitura a que os clássicos convidam, os nossos poetas, por vezes, encontram aí inspiração. É o caso, hoje, de Gastão Cruz (1941) que ao famosíssimo soneto de Camões

[Erros meus, má fortuna, amor ardente]

foi buscar âncora para a glosa que o seu poema Erros traduz.

É num diálogo com o soneto de Camões que o poema de Gastão Cruz se inicia, ganhando rapidamente o caminho da interrogação própria do poeta, atendo-se apenas às perplexidades do amor e que o tempo se encarrega de esgotar:

em que tudo era eterno e só durou / o espaço da manhã do teu sorriso

…

frio só porque tudo tem um tempo / até as rosas…

A simplicidade da linguagem acompanha o soneto de Camões, um dos motivos porque ele continua a falar-nos, e a reflexão desencantada de Gastão Cruz termina sem resposta à interrogação inicial:

Não sei se má fortuna erros decerto / erros somente?…

Erros

Não sei se má fortuna erros decerto
erros somente? Pode o amor ardente,
algum tempo omitido, descoberto
cobrir de novo a pele neste presente,

que de pouco já serve a sua chama
lugar comum tão pobre e tão verídico
que sopras e apagas como a cama
negas ao corpo Foge o tempo mítico

em que tudo era eterno e só durou
o espaço da manhã do teu sorriso
como a rosa que tarde já chegou
e pousou devagar no corpo liso

e frio não de morte ou indiferença
frio só porque tudo tem um tempo
até as rosas e não há presença
nem chama do amor que o torne eterno

Para o caso de haver leitores a quem o soneto de Camões não seja familiar, ele aqui fica, sem comentários intrusivos.

Camões

Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas Tejo tão presente
a grande dor das cousas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!

A pintura, de Paul Klee, que abre o artigo, é de 1930.

Noticia bibliográfica

O poema Erros de Gastão Cruz inclui-se no livro Crateras, publicado em 2000, suponho. Esta transcrição foi feita a partir da poesia reunida do poeta OS POEMAS (1960-2006), ed. Assírio & Alvim, 2009.

O soneto de Camões, publicado pela 1ª vez em 1616, é aqui transcrito com actualização ortográfica de Maria de Lurdes Saraiva, e consta de Lírica Completa II, INCM, 1980.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Todas as cartas de amor são ridiculas — Álvaro de Campos

15 Sexta-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ 2 comentários

Etiquetas

Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Konrad Witz

WITZ, Konrad - O rei Salomão e a Rainha do SabáA propósito do comercialmente festivo Dia de S. Valentim, que agora por cá também se comemora, ocorreu-me arquivar no blog o conhecido poema de Fernando Pessoa, assinado Álvaro de Campos cujo inicio reza assim:

Todas as cartas de amor são / Ridiculas.

Há na biografia de Pessoa vasta pastagem sobre a ambivalência da paixão deste por Ofélia Queiroz, a quem escreveu conhecidas cartas de amor, encarregando o heterónimo Álvaro de Campos do contraponto de dúvida sobre essa paixão.

Como habitualmente em Fernando Pessoa, nada é simples, e neste poema sublima-se no propósito de dizer uma coisa e o seu contrario, entregando ao leitor a dúvida, e a escolha da solução.

Não fujo a uma resposta, e antes de vos deixar o poema deixem-me dizer: Felizes os que recebem ridículas cartas de amor. Para esses, todos os dias são Dia dos Namorados, e aqui os felicito.

Vamos ao poema:

Todas as cartas de amor são
Ridiculas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridiculas.

Tambem escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridiculas.

As cartas de amor, se ha amor,
Têm de ser
Ridiculas.

Mas, afinal,
Só as creaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridiculas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridiculas.

A verdade é que hoje
As minhas memorias
D’essas cartas de amor
É que são
Ridiculas.

(Todas as palavras esdruxulas,
Como os sentimentos esdruxulos,
São naturalmente
Ridiculas.)

21/10/1935

Conservei na transcrição a ortografia e acentuação da edição de Teresa Rita Lopes na Edição Critica da poesia de Álvaro de Campos, Editorial Estampa, Lisboa 1993.

Nota sobre a imagem de abertura

Trata-se da imagem de uma pintura de Konrad Witz a reprodução que abre o artigo. Nela representam-se, supostamente, o rei Salomão e a rainha do Sabá.

Não consta da lenda que envolve estes personagens qualquer paixão ou relação amorosa.

A pintura dá-nos conta do momento em que a rainha viajante entrega um opulento presente ao seu real hospedeiro. Revelam as suas expressões um respeito atento e cortês entre iguais e foi a ideia dessa relação de igualdade o motivo porque a escolhi ao assinalar este dia de namorados no blog.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

A dor da guerra em três poemas de Kurt Heynicke

04 Segunda-feira Fev 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Kurt Heynicke, o velho, Pieter Brueghel

Brueghel_Pieter_the_Elder-The_Triumph_of_DeathEscritos em 1917/18, quando a primeira guerra mundial caminhava para o fim, estes poemas  de Kurt Heynicke (1891-1985) dão conta, de forma pungente, da devastação em redor.

Para além das circunstâncias de tempo e lugar, são poemas que falam da dor ao olhar o mundo. E infelizmente, sabemos todos, a guerra é nossa vizinha e visita-mo-la diariamente com a televisão.

Canção sombria

Em redor há a dor
E em redor o mundo que cai sombrio.
Eu sou no negro rio um embalar, para ele jogado em solidão.

Em mim há noite.
Estrela sem
Morte
nem túmulos.
(1918)

Posto de observação

Pelos meus olhos perpassam as colinas,
a floresta pariu a rubra lua-guarda.
Uma metralhadora patinha por detrás das estrelas.
Eu sou uma hora no silêncio.
Dos túmulos
saiu tacteando a manhã.
Um amen
goteja nos meus pensamentos.
(1917)

Despedida

O silencio fala.
Cansados entram os olhares florestas adentro pela noite
e sobre a nossa janela
morre a luz.
Mansamente
todas as sombras deslizam para os longes.
O teu cabelo murcha na minha mão.
Agora
erra o meu tactear em busca do bastão
e da luz do último vapor do rio.
(1917)

Traduções de João Barrento

Ilustra o artigo a pintura de Pieter Brueghel, o velho (1525/30-1569), O triunfo da morte, de 1562.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Ai, a vida! com Miguel Torga

26 Sábado Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Dorothea Lange, Miguel Torga

Dorothea Lange - Foto FSAVesperal

E, contudo, é bonito
O entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
Sobre o tecto macio
Da ramagem
E fica derramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
Parece adormecida
Nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
Sem destino.
E o rumor citadino
Ondula nos ouvidos
Distraídos
Dos que vão pelas ruas caminhando
Devagar
E como que sonhando,
Sem sonhar…

Publicou Miguel Torga (1907-1995), já nos anos 80, uma Antologia Poética da sua poesia surgida em livro, constituindo-se como escolha pessoal da sua obra. A esse grupo acrescentou alguns poemas inéditos, um dos quais este Vesperal, transcrito acima, com que o livro se encerra.

Há na poesia de Torga uma verdade de sentimento ancorada em valores de ombridade, fidelidade à terra, e respeito pelos homens, que encanta e seduz mais e mais a cada leitura. Reflectindo sobre o seu estar no mundo, é com pudor que o poeta deixa transparecer as suas emoções, e é sobretudo nos poemas do final da vida que mais confidente se mostra, ainda que por detrás do verso velado que é a sua forma de se exprimir.

Termino com este MAGNIFICAT de 28 de Novembro de 1981 publicado no volume XIII do Diário.

MAGNIFICAT

Aí, a vida!
Quanto mais me magoa, mais a canto.
Mais exalto este espanto
De viver.
Este absurdo humano,
Quotidiano,
Dum poeta cansado
De sofrer,
E a fazer versos como um namorado,
Sem namorada que lhos queira ler.

Cego de luz, e sempre a olhar o sol
Num aturdido
Deslumbramento.
Cada breve momento
Recebido
Como um dom concedido
Que se não merece.
Aí, a vida!
Como dói ser vivida,
E como a própria dor a quer e agradece.

A foto que abre o artigo é de Dorothea Lange (1895-1965), feita nos EUA, no âmbito do programa FSA nos anos 30 do século XX, e o negativo é propriedade da Biblioteca do Congresso dos EUA.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Foto de Toni Schneiders e poema de Robert Frost

23 Quarta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à fotografia, Poetas e Poemas

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Robert Frost, Toni Schneiders

Toni Schneiders 1957

Sobre a foto de Toni Schneiders (1920-2006) com que abre o artigo, duas notas apenas. Por um lado, relevar o impacto da geometria captada na paisagem, gerando ao olhar de quem vê a emoção do abstracto, onde a linha da estrada define, no seu equilíbrio, a organização espacial no rectângulo da fotografia, deixando para segundo plano o detalhe da realidade fotografada; por outro, olhar a bifurcação, oferecendo uma escolha entre caminhos sem horizonte visível, qual metáfora para o que a vida nos desafia hoje: que caminho seguir quando o horizonte nos surge cortado de qualquer esperança?

É a pretexto desta foto de Toni Schneiders (1920-2006), fotógrafo alemão, que escolhi o poema de Robert Frost (1874-1963) – A estrada que não foi seguida.

O poema fala das escolhas no caminho da vida

Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,
Que pena não poder seguir por ambas
Numa só viagem: …

e de como a escolha, ainda que pareça provisória se torna definitiva:

Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabia como caminhos sucedem a caminhos
E duvidava se alguma vez lá voltaria.

Com efeito, sabe-se tarde, não voltamos para trás. O caminho escolhido a cada decisão é o que nos leva a todas as outras. Percorrer dois caminhos em simultâneo é às vezes uma tentação com resultados que terminam quase sempre em escolhas devastadoras.

E como o poeta, escolhemos um caminho,

Eu segui pela menos viajada / E isso fez a diferença toda

e na hora do balanço fica apenas a dúvida: terá sido o melhor? Interrogação que carregamos connosco.

E basta de conversa, aí fica o poema, traduzido, e o original em inglês.

A estrada que não foi seguida

Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,
Que pena não poder seguir por ambas
Numa só viagem: muito tempo fiquei
Mirando uma até onde enxergava,
Quando se perdia entre os arbustos;

Depois tomei a outra, igualmente bela
E que teria talvez maior apelo,
Pois era relvada e fora de uso;
Embora na verdade, o trânsito
As tivesse gasto quase o mesmo,

E nessa manhã nas duas houvesse
Folhas que os passos não enegreceram.
Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabia como caminhos sucedem a caminhos
E duvidava se alguma vez lá voltaria.

É com um suspiro que agora conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu —
Eu segui pela menos viajada
E isso fez a diferença toda

Tradução do poeta José Alberto Oliveira, in Rosa do Mundo, 2001 poemas para o futuro.

The Road Not Taken

Two roads diverged Ina yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had wom them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever combo back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Música com Hermann Hesse por companhia

20 Domingo Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Hermann Hesse

Egon SchieleNeste melancólico inverno, depois da tempestade chove de mansinho. Apenas o som do violino permite acreditar que o sol virá na próxima semana.

Encostado a esta melancolia, ouço Bach no mágico violino de Viktoria Mullova. E ao folhear dos livros encontro:

Ah, que tristeza é saber / Que o Belo, o encantador / São só sopro, só tremor, / Que o precioso, o feitiço, / Duram apenas instantes.
…
As notas da música que mal nascem / Logo fogem, logo expiram, / São só brisa, torrente, perseguição,
…
O nosso coração entrega-se / Ao que é volátil e fluido. / Entrega-se à vida,
…

versos de um poema de Hermann Hesse (1877-1962), que vos deixo.

Escrito na areia [In Sand geschrieben]

Ah, que tristeza é saber
Que o Belo, o encantador
São só sopro, só tremor,
Que o precioso, o feitiço,
Duram apenas instantes.
Nuvem, flor, bola de sabão,
Foguete e riso infantil,
Mulher que se vê ao espelho,
E muitas mais outras coisas,
Que, mal reveladas, se vão,
Nao duram mais que um momento,
São só perfume, só brisa.
E o que perdura, o eterno,
Não nos é tão caro à alma:
A jóia de fogo frio
E os brilhantes lingotes;
Até as próprias estrelas, incontáveis,
Permanecem distantes, alheias,
Não são como nós, mortais.
Não chegam ao fundo da alma.
Não, o Belo mais íntimo,
E o mais precioso,
Querido, parece destinado
À perdição, sempre prestes a morrer:
As notas da música que mal nascem
Logo fogem, logo expiram,
São só brisa, torrente, perseguição,
Derrubadas pela dor,
Pois é por pouco tempo
Que se deixam apanhar, enfeitiçar;
Ainda há pouco tocadas
As notas desaparecem, esvaziam-se.

O nosso coração entrega-se
Ao que é volátil e fluido.
Entrega-se à vida,
E não ao sólido, ao concreto.
A permanência fatiga,
Rocha, estrela, pedraria,
Levam-nos constantemente a mudar,
Almas de vento, bolas de sabão,
Sem tempo, sem duração,
Qual orvalho na folha da rosa,
Qual namoro de uma ave,
Qual morte da nuvenzinha,
Brilho da neve, arco-íris,
Borboleta a esvoaçar,
Qual sonido de risada,
Que, enquanto vão passando,
Mal nos tocam, não nos prendem,
Nem magoam. Amamos
O que se nos assemelha, e compreendemos
O que o vento escreve na areia.

Segue-se  o original alemão do poema, e no final, três ligações: uma onde o poema pode ser ouvido na voz do poeta, e mais duas ligações youtube, possuindo a segunda acompanhamento musical.

In Sand geschrieben

Dass das Schöne und Berückende
Nur ein Hauch und Schauer sei,
Dass das Köstliche, Entzückende,
Holde ohne Dauer sei:
Wolke, Blume, Seifenblase,
Feuerwerk und Kinderlachen,
Frauenblick im Spiegelglase
Und viel andre wunderbare Sachen,
Dass sie, kaum entdeckt, vergehen,
Nur von Augenblickes Dauer,
Nur ein Duft und Windeswehen,
Ach, wir wissen es mit Trauer,
Und das Dauerhafte, Starre
Ist uns nicht so innig teuer:
Edelstein mit kühlem Feuer,
Glänzendschwere Goldesbarre;
Selbst die Sterne, nicht zu zählen,
Bleiben fern und fremd, sie gleichen
Uns Vergänglichen nicht, erreichen
Nicht das Innerste der Seelen.
Nein, es scheint das innigst Schöne,
Liebenswerte dem Verderben
Zugeneigt, stets nah dem Sterben,
Und das Köstlichste: die Töne
Der Musik, die im Entstehen
Schon enteilen, schon vergehen,
Sind nur Wehen, Strömen, Jagen
Und umweht von leiser Trauer,
Denn auch nicht auf Herzschlags Dauer
Lassen sie sich halten, bannen;
Ton um Ton, kaum angeschlagen,
Schwindet schon und rinnt von dannen.
So ist unser Herz dem Flüchtigen,
Ist dem Fließenden, dem Leben
Treu und brüderlich ergeben,
Nicht dem Festen, Dauertüchtigen.
Bald ermüdet uns das Bleibende,
Fels und Sternwelt und Juwelen,
Uns in ewigem Wandel treibende
Wind- und Seifenblasenseelen,
Zeitvermählte, Dauerlose,
Denen Tau am Blatt der Rose,
Denen eines Vogels Werben,
Eines Wolkenspieles Sterben,
Schneegeflimmer, Regenbogen,
Falter, schon hinweg geflogen,
Denen eines Lachens Läuten,
Das uns im Vorübergehen
Kaum gestreift, ein Fest bedeuten
Oder wehtun kann. Wir lieben,
Was uns gleich ist, und verstehen,
Was der Wind in Sand geschrieben.

O poema lido pelo poeta:

In Sand geschrieben lido por Ulrich Matthes

In Sand geschrieben lido por Annett Louisan

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...
← Older posts
Newer posts →

Visitas ao Blog

  • 2.368.506 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 898 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • As três Graças - escultura de Canova e um poema de Rufino
  • Vozes dos Animais - poema de Pedro Diniz
  • Vasos Gregos

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Site no WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 898 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d