• Autor
  • O Blog

vicio da poesia

Category Archives: Poetas e Poemas

Onde… António Ramos Rosa

21 Quarta-feira Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

António Ramos Rosa, William-Adolphe Bouguereau

William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_Biblis_(1884)A750

É uma espécie de itinerário de busca…, de busca da mulher e do amor, o caminho que os poemas de António Ramos Rosa (1924-2013) a seguir transcritos, nos convidam a percorrer.

Os poemas têm, por um lado um aroma de enigma, do enigma das coisas intuídas, e acrescentam-lhe o sabor do ritmo que distingue a poesia de outras formas de dizer.

 

A mulher  A casa

 

A casa é viva

(A mulher dorme)

Dorme na espuma

nas cores puras

Dorme na espuma do silêncio

 

Planos brancos

e cores lisas

 

Dorme no vidro

tranquilo

 

Dorme viva

 

A casa é branca

É mais branca no silêncio

É mais branca entre as árvores

 

A própria cidade é branca

 

A cabra

cheirou a casa

cheirou o branco

 

O puro nó

do silêncio

 

Chego em silêncio

à mulher viva

dormindo

 

A casa é ela

em espiral

rodando

branca

 

É fino o ar

quase sem pó

Uma árvore dá

uma curta sombra

 

Uma brisa lava

a casa fresca

 

A varanda nua

é seca e branca

com sede de mar

 

A varanda é nua

A mulher é nua

 

Da casa branca

vê-se o mar

o fulvo dorso

da praia

nu

 

mulher de areia

deitada e panda

na frescura azul

 

Uma vela branca

de minúcia fresca

 

dá ao olhar a brisa

dá ao silêncio o mar

 

A mulher dorme

viva

na espuma

do silêncio

 

 

Onde o caminho

 

Onde o caminho é a mão que se abre,

a mão que vai.

O silêncio que respiro é o caminho que vem.

 

A mão nova palpa a parede do ar.

Uma parede nova.

 

Caminho para o solo alto.

Desloco a terra.

 

O fragor branco do céu.

 

O dia não estala.

 

Termino com o perfume de erotismo que o poema Onde é aqui exala.

 

 

Onde é aqui

 

Onde é aqui,

o centro,

onde se respira,

a cama limpa

o corpo inteiro e nu.

Onde é a fome e o braço toca

o esplendor.

Respira o ventre,

a vela incha

ao sol e ao mar sem fim.

 

Onde é aqui,

a fome nua,

a árvore exacta

no centro

da alegria,

a luz e o olhar

aberto ao mar.

Poemas transcritos de A Palavra do Lugar, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977.

A imagem de abertura respeita a uma pintura de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905).

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Alberto Pimenta — problema com vista a orientar os interesses infantis para as realidades quotidianas

18 Domingo Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Alberto Pimenta

GaivotaXXXX

Em vez de pôr mãos ao trabalho mal acabado o almoço, peguei ao acaso num livro da estante: eram obras de Alberto Pimenta (1937).

Embalei e pouco fiz do que precisava. Diverti-me e saboreei muita da melhor poesia experimental que por Portugal se fez.

Do muito que li, escolhi para transcrever um poema que me trouxe à memória os desafios matemáticos que no liceu nos ocupavam.

Para os jovens estudantes que procuram frequente e insistentemente o blog em busca de interpretações poéticas, talvez o problema de hoje lhes soe familiar na sua formulação, que não no conteúdo, certamente.

Para os outros leitores, em quem a memória escolar pode já ser difusa, é provável que a brincadeira de Alberto Pimenta (1937) em forma de poema lhes recorde os desafios matemáticos do ensino básico.

E para aqueles que fizeram o liceu até à reforma Veiga Simão no final dos anos 60, e o “Palma Fernandes” causou dores de cabeça, certamente a memória regressará vivíssima.

 

Leiam então o problema proposto por Alberto Pimenta e respectiva solução.

 

problema com vista a orientar os interesses infantis para as realidades quotidianas

sabendo que, no  momento  de  defecar,  a

ave   ia   a  voar   a  50  metros  de   altura

do  solo  e   à   velocidade   de  30 km.  po

r  hora,  acrescendo  que  o  vento,  no mo

mento   da  expulsão  das  fezes,  soprava

na  direcção  do  voo  da  ave  a  25 km.  p

or  hora, e  sabendo  ainda  que  as   feze

s, no momento da expulsão,  pesavam 12

gramas,  calcule   a   distância  a   que  as

fezes  caíram  em  relação   ao  ponto  da

terra   situado     na   vertical   do   ponto

em    que    a    ave    abriu     a     cloaca. I

 

problema com vista a orientar os interesses infantis para as realidades quotidianas

 

I

responder  que  as   fezes  se dissolv

eram no ar é  considerado  uma falta

de respeito para com o professor, po

rque se as fezes se dissolvessem no

ar não haveria problema a não ser o

ar    e s t a r    cheio    d e    f e z e s

 

in metamorfoses do vídeo, José Ribeiro, editor, 1986

 

A gaivota fotografei-a sobre o Gilão há alguns anos.

 

Nota sobre a formatação

No original os versos do poema vêm justificados à esquerda e à direita, o que a formatação do wordpress não me permitiu respeitas. As minhas desculpas.

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

O Livro da Vida por António Feijó

04 Domingo Maio 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

António Feijó

India sec XIX maternidadeA

Vai do nascer ao morrer em cada um de nós, na presença ou na memória, a mãe, razão e mistério de quem somos no acaso da vida.

 

Há um recato que me exigo ao assinalar no blog o Dia da Mãe. E se às mulheres é possível a simultaneidade de serem filhas e mães e com isso viver os sentimentos cruzados que daí derivam, aos homens apenas resta o sentimento filial, e nele incluir o espanto da graça de existir.

 

Por este Dia da Mãe que hoje se comemora em Portugal transcrevo de António Feijó (1859-1917) o poema O Livro da Vida, lição de que à vida, mais vale vivê-la que procurar-lhe nos livros o sentido. Mas é bom seguir na vida acompanhado pelos livros: na experiência dos outros encontramos muito do que em nós por vezes é incompreensível, e a poesia torna evidente.

 

O Livro da Vida

 

Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia…

— Lia o “Livro da Vida, — herança inesperada,

Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria

Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

 

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,

Todo o humano tropel num clamor ululando,

Sem que ele de sobre o Livro erga o seu magro vulto,

Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

 

Passa o estio, a cantar; acumulam-se invernos;

E ele sempre, — inclinada a dorida cabeça, —

A ler e a meditar postulados eternos,

Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

 

Cada página abrange um estádio da Vida,

Cujo eterno segredo e alcance transcendente

Ele tenta arrancar da folha percorrida,

Como da mina obscura a pedra refulgente.

 

Mas o tempo caminha; os anos vão correndo;

Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão…

E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!

E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

 

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:

Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,

Nem o humano sofrer, que outras almas enluta,

Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabelos!

 

Só depois de voltada a folha derradeira,

Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,

É que o Sábio entreviu, como numa clareira,

A luz que iluminou todo o caminho andado…

 

Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas,

Amor, vozes do lar, éstos do sentimento,

— Tudo viu num relance em imagens perdidas,

Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

 

Mas então, lamentando o seu estéril zelo,

Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,

Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,

Sobre ele, para sempre, os olhos cerrou…

 

in Sol de Inverno, ultimos versos, (1915), Aillaud & Bertrand, Paris-Lisboa, 1922

 

A imagem de abertura mostra uma escultura proveniente da Índia, talvez do século XIX.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

A Ceifeira, poema de Luís Augusto Palmeirim com passagem por Sophia

24 Quinta-feira Abr 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

≈ 3 comentários

Etiquetas

Luis Augusto Palmeirim, Malevitch, Sophia de Mello Breyner Andresen

Ceifeiras 1929-33Em outros artigos do blog já referi o que de relevante me pareceu sobre a poesia de Luís Augusto Palmeirim (1825-1893) e o contexto de época em que a escreveu. Hoje venho com um poema onde um tipo de mulher do povo se elogia — A Ceifeira, num tempo em que apenas as burguesas eram matéria de inspiração poética.  

 

Profissão felizmente extinta pela tecnologia, a ceifa era uma actividade duríssima e sobre ela temos vasta produção literária no século XX, sobretudo entre os escritores neo-realistas. Nas lutas dos trabalhadores rurais por melhores condições de vida coube a uma ceifeira, Catarina Eufémia (1928-1954), o destino de heroína, ao cair morta às balas da polícia. É a esta mulher, a certa altura tornada símbolo, que Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) dedica um poema belíssimo e simultaneamente uma notável reflexão sobre Justiça e ser Mulher — inocência frontal que não recua:

 Mulher com pau vermelho 1932-33

Catarina Eufémia

 

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça

E eu penso nesse instante em que ficaste exposta

Estavas grávida porém não recuaste

Porque a tua lição é esta: fazer frente

 

Pois não deste homem por ti

E não ficaste em casa a cozinhar intrigas

Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres

Nem usaste de manobra ou de calúnia

E não serviste apenas para chorar os mortos

 

Tinha chegado o tempo

Em que era preciso que alguém não recuasse

E a terra bebeu um sangue duas vezes puro

 

Porque eras a mulher e não somente a fêmea

Eras a inocência frontal que não recua

Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste

E a busca da justiça continua

 

Publicado em Dual, 1972, transcrito de Obra Poética, Editorial Caminho, Lisboa, 2011.

Raparigas no campo 1928É outro o universo em que o poema de Luís Augusto Palmeirim se move. É a graça feminil da mulher que o poeta canta, realçando como valores de beleza, ao contrário do estereótipo da época, a pele trigueira, queimada pelo sol.

A Ceifeira

 

Há quem diga por inveja

Que és feia por ser trigueira;

Dizem as damas da corte,

Deixai-as dizer ceifeira.

 

Quisera que elas te vissem

Feita senhora festeira,

Que me dissessem depois,

Se eras ou não feiticeira!

 

Que vissem com que requebros

Tu vais a mercar na feira,

Que vissem como inocente

Vais depois pular na eira.

 

Mariquinhas de olhos pretos,

Mimosa—gentil ceifeira,

És bela por caprichosa,

És linda por ser trigueira.

 

Hei-de ir à festa e de longe

Ver-te na dança ligeira,

A ver se coras na dança,

A ver se tens quem te queira.

 

Hei-de ir depois alcançar-te

No atalho, mesmo à beira,

E dizer-te que na dança

Eras gentil, a primeira.

 

A dizer-te que eras linda

Como aurora prazenteira;

A contar-te que na festa

Eras só, sem companheira.

 

A contar-te que não perdes

Por te chamarem trigueira,

A ti, rainha da festa

Mimosa—gentil ceifeira.

 

A ti que eu vi assentada

Ontem à noite à lareira,

Crendo deveras num conto,

Num conto de feiticeira.

 

A ti que vergas a cinta,

Como se verga a palmeira,

Que tens escrita no rosto

Inspiraçâo verdadeira.

 

A ti que dormes com o Cristo  

Pendente da cabeceira;

Que só choraste na vida,

Uma vez—por brincadeira!

 

A quem chamam, por inveja,

A Mariquinhas trigueira;

Porque sabem que és de todas

A mais mimosa ceifeira!

 

Porque tens nos olhos negros

O condão de dar cegueira,

A quem os fita de perto,

Com atenção verdadeira.

 

Só te falta alva capela,

Das flores da laranjeira,

Que a todos diga que a noiva

Era ainda há pouco a festeira.

 

Que nos dê a triste nova,

Que pela vez derradeira,

Vemos de perto tão perto

Aquela fronte fagueira.

 

A quem as mais, por despique,

Vendo a formosa ceifeira,

Diziam — coitada dela

Sendo assim morre solteira!

 

Transcrito de Poesias, 1ª edição, Imprensa Nacional, 1851.

Modernizei a ortografia.

Ceifeiras

No confronto destes poemas surge, gritante, a distância entre a exigência intelectual que a poesia pode ser e ter, e a graciosidade rítmica que consola o leitor poupando-o ao “enfado” da reflexão. E nesse confronto medimos também a distância que separa hoje o gosto do leitor, do gosto dos leitores de há 150 anos, se tivermos em conta quanto ambos os poetas foram populares no tempo que viveram.

 

Acompanham o artigo imagens de pinturas de Kasimir Malevitch (1879-1935).

 

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

A alma com o coração nas mãos — iluminura medieval e poema de Rabindranath Tagore

20 Domingo Abr 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Rabindranath Tagore

Iluminura 07 750px

Na transbordante imaginação pictórica escondida nos manuscritos medievais encontram-se prodígios a que a simbologia do figurado acrescenta uma dimensão metafísica incomparável.

 

Hoje mostro o que será uma representação da alma segurando entre as mãos o coração.

A alma, na forma de mulher-anjo (não sei de “anjas” na mitologia cristã) com asas coloridas, acaricia e interroga(?) o coração. Afinal, o que permanentemente fazemos: Vamos atrás do coração? Seguimos a razão? Ou deixamos que a alma faça a síntese e encontre o caminho que a ambos satisfaz?

 

Exemplar meditação representada, olhemos. E no olhar pensemos: onde está a beleza do mundo que à volta da alma meditativa gira. Em nós está o quê? Como caminhamos neste mundo e dele faremos parte?

 

Boa Páscoa!

Deixo-vos com um poema de Rabindranath Tagore (1861-1941)

 

 

Não voltes atrás

 

Se os portais do meu coração

Estiverem sempre fechados,

Rebenta-os e entra na minha alma,

Senhor, não voltes para trás.

 

Se um dia destes as cordas da minha harpa

Não ressoarem com o teu nome,

Na tua espera digna de piedade,

Senhor, não voltes para trás.

 

Se quando me chamares

A sonolência do meu sono não passar,

Bate-me e acorda-me com o teu trovão,

Senhor, não voltes para trás.

 

Se um dia destes no teu trono

Eu colocar alguém sem pensamentos,

Meu eterno Rei,

Não voltes para trás!

 

Tradução de José Agostinho Baptista

in Rabindranath Tagore, Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004.

 

Nota sobre a pintura

 

Título: A alma dialogando com o seu coração

Pintura sobre pergaminho integrante do livro Mortifiement de vaine plaisance, de René d’Anjou, cerca de 1460.

Fólio 31 do manuscrito 165 da colecção do Fitzwilliam Museum, Cambridge (Mass.).

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Ricardo Reis — Se recordo quem fui, outrem me vejo

16 Quarta-feira Abr 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Fernando Pessoa, Ricardo Reis

O filósofo e o poeta

Tem sido frequente confrontar-me com a memória de mim nos outros e surgir um sentimento de estranheza, ou dizendo com Ricardo Reis, o heterónimo de Fernando Pessoa:

 

Se recordo quem fui, outrem me vejo,

E o passado é um presente na lembrança.

 

A vida vivida aos vinte anos é marca indelével no percurso de cada homem ou mulher. Sabemo-lo quando, passados os cinquenta anos, olhamos para o caminho percorrido e a evidência surge: não vamos voltar a percorrê-lo. O que ficou por fazer não mais se fará.

 

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

 

Ter tido vinte anos em 1974, permitiu-me e a toda uma geração, viver no furacão dos dias, as ideias e as experiências que em outras conjunturas demorariam anos a acontecer ou nem aconteceriam.

 

quem sou e quem fui

São sonhos diferentes

Ter tido vinte anos em Abril e ser estudante universitário em Portugal permitiu já saber o valor das escolhas: a escolha de divergir das ideias toleráveis e enfrentar a prisão por delito de opinião, a escolha de ir à guerra com o prémio da própria vida.

 

Ganhámos, toda uma geração, a consciência, impregnada na própria pele, de que nada vale o direito de estar vivo e livre para fazer as escolhas que a vontade de cada um ditar.

 

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

 

Não sei como se ensina a quem sempre viveu em liberdade e na vida caminhou com estes valores, tendo-os por tão naturais como beber água, que não são naturais. São como bonecas de porcelana, que à menor distracção ou descuido se partem e deixam de existir. Provavelmente apenas ser cerceado deles permite dar-lhes o valor, e cada geração tem que fazer a sua dolorosa aprendizagem.

 

Nada, senão o instante, me conhece.

 

Despeço-me com o poema que por entre a conversa citei.

 

 

Ricardo Reis — Poema 104

 

Se recordo quem fui, outrem me vejo,

E o passado é um presente na lembrança.

Quem fui é alguém que amo

Porém somente em sonho.

E a saudade que me aflige a mente

Não é de mim nem do passado visto,

Senão de quem habito

Por trás dos olhos cegos.

Nada, senão o instante, me conhece.

Minha mesma lembrança é nada, e sinto

Que quem sou e quem fui

São sonhos diferentes

 

26-05-1930

 

in Ricardo Reis, Poesias, edição Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Vida e Destino com Ricardo Reis

13 Domingo Abr 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Fernando Pessoa, Gerhard Richter, Ricardo Reis

Gerhard Richter Abstracção 1990 (2)

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

 

Parafraseando Camilo Castelo Branco, diria que os leitores do blog são bons e pacientes, mas também querem não ser tentados a perder essas excelentes qualidades, por isso deixo de lado as obscuridades poéticas com que me tenho ocupado, e dei exemplo nos últimos artigos, e regresso a Fernando Pessoa na forma do seu heterónimo Ricardo Reis.

Num pequeno grupo de poemas criados de 1916 a 1933, lemos diferentes pontos de vista sobre vida e destino consubstanciáveis nos versos Com que vida encherei os poucos breves / Dias que me são dados?

e que abrem o primeiro poema escolhido.

Mais à frente duas reflexões sobre carpe diem — goza o dia —no poema 61 de 1923:

Goza este dia como / Se a Vida fosse nele.,

e no poema 144 de 1933:

No mesmo hausto / Em que vivemos, morreremos. Colhe / O dia, porque és ele.

Oscilando entre desejar o gozo do efémero e a consciência de viver uma vida Que nem quero nem amo, / Minha porque sou ela. (Poema 145), acontece a recomendação Vê de longe a vida. / Nunca a interrogues. / Ela nada pode /Dizer-te. (Poema 34).

Porque a vida, felizmente, não nos surge sempre da mesma cor, terminemos com um desejo:

Sob a leve tutela / De deuses descuidosos, /Quero gastar as concedidas horas / Desta fadada vida. (poema 170),  

Conduzi a dança, ninfas singelas / Até ao amplo gozo / Que tomais da vida. (poema171).

Feito o intróito, seguem-se os poemas.

Gerhard Richter Abstracção 1991

67

 

Com que vida encherei os poucos breves

Dias que me são dados? Será minha

A minha vida ou dada

A outros ou a sombras?

 

À sombra de nós mesmos quantas vezes

Inconscientes nos sacrificamos,

E um destino cumprimos

Nem nosso nem alheio!

 

Porém nosso destino é o que for nosso,

Quem nos deu o acaso, ou, alheio fado,

Anônimo a um anônimo,

Nos arrasta a corrente.

 

Ó deuses imortais, saiba eu ao menos

Aceitar sem querê-lo, sorridente,

O curso áspero e duro

Da strada permitida.

 

5-5-1925

Gerhard Richter Abstracção 1994 (2)

61

De uma só vez recolhe

As flores que puderes.

Não dura mais que até à noite o dia.

Colhe de que lembrares.

 

A vida é pouco e cerca-a

A sombra e o sem-remédio.

Não temos regras que compreendamos,

Súbditos sem governo.

 

Goza este dia como

Se a Vida fosse nele.

Homens nem deuses fadam, nem destinam

Senão que  ignoramos.

 

24-10-1923

Gerhard Richter Abstracção 1992

144

Uns, com os olhos postos no passado,

Vêem o que não vêem; outros, fitos

Os mesmos olhos no futuro, vêem

O que não pode ver-se.

 

Porque tão longe ir pôr o que está perto —

O dia real que vemos? No mesmo hausto

Em que vivemos, morreremos. Colhe

O dia, porque és ele.

 

28-8-1933

Gerhard Richter Abstracção 1993 (2)

145

Súbdito inútil de astros dominantes,

Passageiros como eu, vivo uma vida

Que nem quero nem amo,

Minha porque sou ela.

 

No ergástulo de ser quem sou, contudo,

De em mim pensar me livro, olhando no atro

Os astros que dominam,

Submisso de os ver brilhar.

 

Vastidão vã que finge de infinito

(Como se o infinito se pudesse ver!) —

Dá-me ela a liberdade?

Como, se ela a não tem?

 

19-11-1933

Gerhard Richter Abstracção 1995 (3)

34

Segue o teu destino,

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

 

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

 

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixar a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

 

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos Deuses.

 

Mas serenamente

Imita o Olímpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.

 

1-7-1916

Gerhard Richter Abstracção 1994 (3)

170

Sob a leve tutela

De deuses descuidosos,

Quero gastar as concedidas horas

Desta fadada vida.

 

Nada podendo contra

O ser que me fizeram,

Desejo ao menos que me haja o Fado

Dado a paz por destino.

 

Da verdade não quero

Mais que a vida; que os deuses

Dão vida e não verdade, nem talvez

Saibam qual a verdade.

171

Sob estas árvores ou aquelas árvores

Conduzi a dança,

Conduzi a dança, ninfas singelas

Até ao amplo gozo

Que tomais da vida. Conduzi a dança

E sê quasi humanas

Com o vosso gozo derramado em ritmos

Em ritmos solenes

Que a vossa alegria torna maliciosos

Para nossa triste

Vida que não sabe sob as mesmas árvores

Conduzir a dança…

Gerhard Richter Abstracção 1995

in Ricardo Reis, Poesias, edição Manuela Parreira da Silva, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Acompanham os poemas imagens de pinturas de Gerhard Richter (1932), tituladas todas abstracção, e pintadas entre 1990 e 1995.

Gerhard Richter Abstracção 1995 (2)

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Lana Turner desmaiou! — acontecimento lido por Frank O’Hara

04 Sexta-feira Abr 2014

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Frank O'Hara, Lana Turner

Lana Turner The Postman Always Rings Twice 1946

A vida, a nossa vida, e a outra, a que os media relatam, têm habitualmente muito pouco a ver entre si.

A poesia de Frank O’Hara (1926-1966) dá frequentemente conta dessa evidência, e no poema que hoje escolhi, eleva-a a caricatura no relato entre a importância do desmaio de Lana Turner e o que o preocupa.

 

Lana Turner 2

Poema

Lana Turner desmaiou!
Eu deambulava e de repente
começou a chover e a nevar
e tu disseste que caía granizo
mas o granizo acerta na cabeça
com força por isso estava a nevar
e a chover e eu tinha tanta pressa
ia ao teu encontro mas o tráfego
comportava-se exactamente como o céu
e subitamente vi um cabeçalho
LANA TURNER DESMAIOU!
não há neve em Hollywood
não há chuva na California
eu estive numa data de festas
e portei-me de forma desgraçada
mas nunca tive um desmaio
oh Lana Turner amamos-te levanta-te

Tradução de José Alberto Oliveira

 

Poem

Lana Turner has collapsed!
I was trotting along and suddenly
it started raining and snowing
and you said it was hailing
but hailing hits you on the head
hard so it was really snowing and
raining and I was in such a hurry
to meet you but the traffic
was acting exactly like the sky
and suddenly I see a headline
LANA TURNER HAS COLLAPSED!
there is no snow in Hollywood
there is no rain in California
I have been to lots of parties
and acted perfectly disgraceful
but I never actually collapsed
oh Lana Turner we love you get up

1962

Lana Turner 1Para os menos familiarizados com o cinema clássico de Hollywood, Lana Turner (1921-1995) foi uma das mais famosas louras platinadas produzidas pelo cinema e arquétipo da mulher fatal ao protagonizar o filme O carteiro toca sempre duas vezes (1946) (foto de abertura). Noutro registo, o do melodrama, foi a vedeta de Imitação da vida (1959), verdadeira máquina de fazer chorar, para os não apreciadores.
Por outro lado, para os adolescestes amantes do filme de aventuras, Lana Turner foi a terrível Milady de Winter na história de Os Três Mosqueteiros filmado em 1948 por George Sidney (1916-2002), com o inesquecível D’Artagnan de Gene Kelly (1912-1996) e a sua dança nas lutas de espada.

The Three Musketeers (1948)

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Torga em três poemas de despedida

26 Quarta-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ Deixe um comentário

Etiquetas

Miguel Torga

O mundo a cores XX

Há por toda a obra de Miguel Torga (1907-1995) uma lucidez que dói e ensina. Nos últimos poemas que publicou (Diário XVI) esta lucidez ganha uma dimensão sobre-humana nas reflexões poéticas com a vida em fundo e o fim que se avizinha. São poemas de despedida de quem ao partir conserva a dignidade que distingue os homens e os faz merecedores de terem vivido. Escolho três.

Solidão

Pouco a pouco, vamos ficando sós,
Esquecidos ou lembrados
Como nomes de ruas secundárias
Que a custo recordamos
Para subscritar
A urgência de um beijo epistolar
Ainda inutilmente apetecido.
Mortos sem ter morrido,
Lúcidos defuntos,
Vemos a vida pertencer aos outros.
E descobrimos, na maneira deles,
Que nada somos
Para além do seu dissimulado
Enfado
Paciente.
E que lá fora, diariamente,
Conforme arde no céu,
O sol aquece
Ou arrefece
Os versáteis e alheios sentimentos.
E que fomos riscados
No rol da humanidade
A que já não pertencemos
De maneira nenhuma.
E que tudo o que em nós era claridade
Se transformou em bruma.

Coimbra 20 de Julho de 1992

 

Termo

Pára, imaginação!
Não há mais aventura, nem poesia.
A hora é de finados,
Com versos apagados
Na lareira onde a fogueira ardia.

Pára, é a lei.
Agora é só cansaço desiludido
E memória teimosa que entristece
O nada que acontece
E o muito acontecido.

Pára, porque findou
O tempo intemporal
Do amor e da graça concedida
A quem nele, no seu barro original,
Modela a própria vida.

Coimbra, 3 de Novembro de 1993

 

Requiem por Mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que dele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.

Coimbra, 10 de Dezembro de 1993

 

Este foi o último poema publicado por Miguel Torga.

A foto foi feita por mim há alguns anos num centro comercial em Lisboa.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...

Mais Jorge de Sena — hoje LISBOA 1971

20 Quinta-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Poetas e Poemas

≈ 2 comentários

Etiquetas

carlos mendonça lopes, Jorge de Sena

Maus tempos 600pxContinuo com a poesia de Jorge de Sena (1919-1978), agora com um certo “ser lisboeta” em Lisboa 1971. O poema traça uma pintura que infelizmente parece ser intemporal, pois não será difícil reconhecer nele o hoje, afora as páginas literárias que não existem, substanciado na fala do taxista que o poema incorporada, e o poeta comenta.

 

O poema foi publicado no livro EXORCISMOS de 1972, e nele, a abrir, o poeta avisa:

AVISO DE PORTA DE LIVRARIA

Não leiam delicados este livro,

sobretudo os heróis do palavrão doméstico,

as ninfas machas, as vestais do puro,

os que andam aos pulinhos num pé só,

com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,

enquanto com a terceira vão tapando a boca

dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

 

E quem de amor não sabe fuja dele:

qualquer amor desde o da carne àquele

que só de si se move, não movido

de prémio vil, mas alto e quase eterno.

De amor e de poesia e de ter pátria

aqui se trata: que a ralé não passe

este limiar sagrado e não se atreva

a encher de ratos este espaço livre

onde se morre em dignidade humana

a dor de haver nascido em Portugal

sem mais remédio que trazê-lo n’alma.

25/1/1972

O que de Amor o livro trata, virá depois. Agora deixo-vos com

LISBOA 1971

O chofer de taxi queixava-se da vida.

Ganha 400$00 por semana, o patrão conta

que ele se arranje do a mais com as gorjetas.

 

Os meus amigos morrem de cancro,

de tédio, de páginas literárias,

vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu

na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele

só queria por enquanto “calçar” uma das

que, artificiais, lhe preparou tão róseas).

As pessoas esperam com raiva surda e muita paciência

o autocarro, aumento de ordenado, a chegada

do Paracleto, bolsas da sopa do convento.

Mas o chofer de taxi contou-me que

discutira com um asno e lhe dissera:

“… V. que nesse tempo ainda andava a fugir

de colhão para colhão do seu pai

para ver se escapava a ser filho da puta…”

E é isto: andam de colhão para colhão

a ver se escapam — e muitos não escapam.

E os outros não escapam aos que não escaparam.

Lisboa, 5/8/1971

Poemas transcritos de Poesia III, 2ªedição, Edições 70, Lisboa, 1989.

Partilhar:

  • Tweet
  • Email a link to a friend (Abre numa nova janela) E-mail
  • Partilhar no Tumblr
  • Share on WhatsApp (Abre numa nova janela) WhatsApp
  • Share on Telegram (Abre numa nova janela) Telegram
Gosto Carregando...
← Older posts
Newer posts →

Visitas ao Blog

  • 2.367.926 hits

Introduza o seu endereço de email para seguir este blog. Receberá notificação de novos artigos por email.

Junte-se a 898 outros subscritores

Página inicial

  • Ir para a Página Inicial

Posts + populares

  • Eugénio de Andrade — Green god
  • Jogos infantis de Bruegel pelo Natal
  • Beijos mil - o poema V de Catulo

Artigos Recentes

  • Sonetos atribuíveis ao Infante D. Luís
  • Oh doce noite! Oh cama venturosa!— Anónimo espanhol do siglo de oro
  • Um poema de Salvador Espriu

Arquivos

Categorias

Create a free website or blog at WordPress.com.

Privacy & Cookies: This site uses cookies. By continuing to use this website, you agree to their use.
To find out more, including how to control cookies, see here: Cookie Policy
  • Subscrever Subscrito
    • vicio da poesia
    • Junte-se a 898 outros subscritores
    • Already have a WordPress.com account? Log in now.
    • vicio da poesia
    • Subscrever Subscrito
    • Registar
    • Iniciar sessão
    • Denunciar este conteúdo
    • Ver Site no Leitor
    • Manage subscriptions
    • Minimizar esta barra
 

A carregar comentários...
 

    %d