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Category Archives: Poesia Antiga

Vozes dos Animais – poema de Pedro Diniz

20 Domingo Dez 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Jan Brueghel o Velho, Pedro Diniz

Jan Brueghel o Velho (1568-1625) - Os animais entrando na arca de Noé 600pxBe a child in Christmas time [Sê criança em tempo de Natal], convida uma popular canção, daí esta poesia adequada à infância de todos os tempos. Podem assim os leitores lê-la a filhos, netos, afilhados ou outros infantes, fazendo com que um dia sejam também leitores de poesia.

O poema foi  escrito por Pedro Diniz (1839?-1896) e recolhido por Antero de Quental no Tesouro Poético da Infância.

Vozes dos Animais

 

Palram pega e papagaio

E cacareja a galinha;

Os ternos pombos arrulham;

Geme a rola inocentinha.

 

Muge a vaca; berra o touro;

Grasna a rã; ruge o leão;

O gato mia; uiva o lobo,

Também uiva e ladra o cão.

 

Relincha o nobre cavalo;

Os elefantes dão urros;

A tímida ovelha bala;

Zurrar é próprio dos burros.

 

Regouga a sagaz raposa

(Bichinho muito matreiro);

Nos ramos cantam as aves;

Mas pia o mocho agoureiro.

 

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar;

Fazem às vezes gorjeios,

Às vezes põem-se a chilrar.

 

O pardal, daninho aos campos,

Não aprendeu a cantar;

Como os ratos e as doninhas,

Apenas sabe chiar.

 

O negro corvo crocita;

Zune o mosquito enfadonho;

A serpente no deserto

Solta assobio medonho.

 

Chia a lebre; grasna o pato;

Ouvem-se os porcos grunhir;

Libando o suco das flores,

Costuma a abelha zumbir.

 

Bramam os tigres, as onças;

Pia, pia o pintainho;

Cucurica e canta o galo;

Late e gane o cachorrinho.

 

A vitelinha dá berros;

O cordeirinho, balidos;

O macaquinho dá guinchos;

A criancinha, vagidos.

 

A fala foi dada ao homem,

Rei dos outros animais.

Nos versos lidos acima,

Se encontram, em pobre rima,

As vozes dos principais.

 

Modernizei a ortografia.

Nota bio-bibliográfica

Não surge na net qualquer referência biográfica esclarecedora sobre o autor, aparte duas traduções de obras de Júlio Verne, daí esta pequena nota.  

Pegando no testemunho de Camilo Castelo Branco em Noites de Insónia, trata-se do mesmo Pedro (Guilherme dos Santos) Diniz que, com o pseudónimo de Amaro Mendes Gaveta, publicou em 1854 uma paródia ao livro de Almeida Garrett, Folhas Caídas, intitulado As Folhas Caídas Apanhadas a Dente e Publicadas em Nome da Moralidade.

Este Pedro Diniz (1829?-1896), génio precoce (alistado na marinha aos 11 anos, em 1850*?), foi colaborador do Palito Métrico ao que escreve, e publicou em 1855 um Livro de Ouro para Uso das Escolas de Educação, do qual não encontrei rasto. É neste livro que o poema transcrito, Vozes dos Animais, se inclui, conforme refere Camilo Castelo Branco na nota biográfica ao poeta no seu Cancioneiro Alegre.

Sobre outros aspectos da biografia do autor pode consultar-se a respectiva entrada (Pedro Dinis) na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

*informa Alexandre Cabral no seu Dicionário de Camilo Castelo Branco, 2ªedição, Caminho, Lisboa 1988.

Verificada a diversidade da obra produzida pelo autor na década de 50, tratar-se-ia de uma precocidade inaudita, a ser verdade tudo isto, daí que deva existir qualquer gralha em datas algures, parecendo mais provável o nascimento do homem em 1829, e não 1839 como decorre do documento citado por Alexandre Cabral.

Nota iconográfica

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Jan Brueghel o Velho (1568-1625) – Os animais entrando na arca de Noé.

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O poema XVI de Catulo e o calão em poesia

27 Sexta-feira Nov 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Catulo

Palices - Gravura ponta de aço sec xviii 600pxO poema XVI de Catulo (84 a. C.-  54 a. C.) coloca ainda hoje diversas questões sumamente interessantes.

Trata-se de um poema insultuoso para dois visados, Aurélio e Fúrio, em resposta a uma apreciação destes sobre a menor virilidade de que Catulo daria provas ao escrever. O poeta não gostou, e fazendo uso do vocabulário obsceno que julgou adequado ao insulto, mimou-os com este:

 

Pedicabo ego vos et irrumabo,

Aureli pathice et cinaede Furi,   

qui me ex versiculis meis putastis,   

quod sunt molliculi, parum pudicum.

nam castum esse decet pium poetam   

ipsum, versiculos nihil necessse est;

qui tum denique habent salem ac leporem,

si sunt molliculi ac parum pudici,

et quod pruriat incitare possunt,

non dico pueris, sed his pilosis   

qui duros nequeunt movere lumbos.   

vos, quod milia multa basiorum

legistis, male me marem putatis?

Pedicabo ego vos et irrumabo.   

 

Tradução I

 

O cu e a boca vos foderei eu,

Aurélio, minha bicha, Fúrio, meu paneleiro,

que pelos meus versinhos me julgais

pouco virtuoso, por tão delicadinhos serem.

É que casto deve ser o bom poeta,

não têm de o ser os seus versinhos,

que além do mais têm picante e graça,

sendo tão delicadinhos e pouco virtuosos,

e porque podem provocar comichões,

não digo aos miúdos, mas a estes peludos

que não conseguem mexer as duras piças.

Vós, lá por “muitos milhares de beijos”

terdes lido, achais que sou pouco macho?

O cu e a boca vos foderei eu!

Tradução de José Pedro Moreira e André Simões.

Desde logo o poema levanta a questão perene de assimilação entre autor e obra: o autor é a obra ou sempre o fingidor que de forma genial Pessoa definitivamente explicitou no poema Autopsicografia? Catulo afirma claramente a diferença:

Vós, lá por “muitos milhares de beijos”

terdes lido, achais que sou pouco macho?

…

 

É que casto deve ser o bom poeta,

não têm de o ser os seus versinhos,

 

Depois, surge a questão de género e a afirmação de virilidade que o poema também é, separando as águas entre machos e efeminados, aqui com a leitura social de comportamentos sexuais, dando o poema conta de como na sociedade da antiga Roma se distinguia e valorava de forma diferente uma atitude activa ou passiva no sexo anal entre homens adultos, sendo esta última humilhante para um homem, e atingindo o máximo da humilhação, quando seguida de sexo oral (e por esta ordem), o que Catulo explicita no verso de abertura e fecho do poema

 

Pedicabo ego vos et irrumabo,

 

e que eu diferentemente de outros tradutores transporia por:

 

Enrabar-vos-ei e na boca vos enfiarei,

 

Temos ainda a questão do uso de calão em poesia. Se por um lado o uso de vocabulário obsceno em poesia reveste sempre um carácter chocante para o leitor, o contexto pode tolerar e por vezes exigir a sua utilização. Este poema é paradigmático da sua exigência: sem o escabroso da afirmação inicial não seria explicitada a indignação nem haveria insulto aos visados, isto tudo na concisão do verso latino que em português se perde.

Se na poesia latina da Roma antiga o uso de palavras obscenas foi prática corrente quando se tratava de chamar os bois pelos nomes, como abundantemente poemas de Catulo ou Marcial, nomeadamente, mostram, quando chegamos à tradução surgem os embaraços, com eufemismos que retiram ao poema a violência verbal do insulto pretendido. Mesmo Jorge de Sena quando traduziu este poema, conservou sem tradução o verso de abertura e fecho que acima traduzi.

Transcrevo a seguir a versão Jorge de Sena, a qual, fugindo à letra da obscenidade original, realça um aspecto importante da poesia erótica em geral, qual seja, provocar excitação no leitor. Leiam-se os versos:

…

Licença e desvergonha são o sal

Com que versos se fazem. Assim excitem,

Senão crianças, ao menos os pilosos

Que enferrujados já não movem lombos.

…

sendo que os pilosos / Que enferrujados já não movem lombos. são obviamente os velhos já incapazes para o sexo.

 

Tradução II

 

“Pedicabo ego vos et irrumabo”,

Aurélio sem dentes, Fúrio sem fundo,

Que de mim dizeis, porque são meus versos

Tão livres assim, que sou depravado.

Casto consigo deve ser o poeta,

Mas nada obriga a que a poesia o seja.

Licença e desvergonha são o sal

Com que versos se fazem. Assim excitem,

Senão crianças, ao menos os pilosos

Que enferrujados já não movem lombos.

E vós, porque de muitos mil de beijos

Lestes, que não sou macho andais dizendo?

“Pedicabo ego vos et irrumabo”.

Tradução de Jorge de Sena.

Concluo com uma outra tradução que não foge à explicitação da obscenidade verbal.

 

Tradução III

 

Ó Aurélio brochista, ó Fúrio paneleiro,

a vós que, sendo meus leves versos voluptuosos,

por eles devasso me julgastes,

eu vos hei-de enrabar e embrochar.

Ora se um autêntico poeta casto deve ser,

não é força que seus versos o sejam.

Estes afinal sabor e encanto hão-de ter,

se forem galantes e nada cândidos,

e capazes de aguilhoar desejos,

não digo nos moços, mas nesses pilosos

que não podem já os engrunhidos rins mover.

Vós, lá porque lestes muitos milhares de beijos,

acaso me considerais falto de virilidade?

Pois hei-de vos enrabar e embrochar

Tradução de J. Lourenço de Carvalho.

As traduções transcritas permitem apreender quanto a passagem de um poema para outra língua depende, para além do domínio da língua de origem, do talento do tradutor em construir uma versão fluida, respeitando o original, que o leitor sinta como um poema na língua de chegada.

Nota bibliográfica

Tradução de José Pedro Moreira e André Simões em Catulo, Carmina, Livros Cotovia, Lisboa 2012. Tradução admirável da obra completa de Catulo.

Tradução de Jorge de Sena em Poesia de 26 Séculos, Fora do Texto, Coimbra 1993.

Tradução de J. Lourenço de Carvalho em Antologia da Poesia Latina Erótica e Satírica, Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite, 1975.

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A Eternidade — poema de Rimbaud em versão de Augusto de Campos

19 Quinta-feira Nov 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Arthur Rimbaud, Maria Helena Vieira da Silva

Vieira da Silva (1908 – 1992) - Caminhos da Paz 1985 600pxA eternidade, como não-tempo, não tem história, portanto, não tem acontecimentos. A humanidade perante o horror deste vazio foi preenchendo o conceito através das diversas religiões com o que mais gostava, qual casa de bonecos acrescentada dos enfeites mais variados, e tem-lhe chamado paraíso. Seguiu-se-lhe uma moral fixando o processo de poder usufruir deste paraiso e a ele aceder, definindo-se para isso o bem e o mal.

Ao longo da história a imposição do paraíso de uns tem sido o inferno de outros, fazendo da vida uma luta por vezes sem quartel, na imposição do bem de uns aos outros que não o querem, ou não o reconhecem.

Para lidar com este abstruso conceito — Lá não há esperança / E não há futuro — socorro-me de um poema de Arthur Rimbaud (1854-1891), de cuja poesia escrevia Paul Verlaine (1844-1896): a língua é clara e mantém-se límpida mesmo quando a ideia se turva ou o sentido se torna obscuro.

A Eternidade

 

De novo me invade.

Quem? — A Eternidade.

É o mar que se vai

Com o sol que cai.

 

Alma sentinela,

Ensina-me o jogo

Da noite que gela

E do dia em fogo.

 

Das lides humanas,

Das palmas e vaias,

Já te desenganas

E no mar te espraias.

 

De outra nenhuma,

Brasas de cetim,

O Dever se esfuma

Sem dizer: enfim.

 

Lá não há esperança

E não há futuro.

Ciência e paciência,

Suplício seguro.

 

De novo me invade.

Quem? — A Eternidade.

É o mar que se vai

Com o sol que cai.

Maio 1972

 

Versão de Augusto de Campos, Rimbaud Livre, Editora Perspectiva S.A., São Paulo, Brasil, 1992.

 

Poema original

 

L’Éternité

 

Elle est retrouvée.

Quoi ? – L’Éternité.

C’est la mer allée

Avec le soleil.

 

Âme sentinelle,

Murmurons l’aveu

De la nuit si nulle

Et du jour en feu.

 

Des humains suffrages,

Des communs élans

Là tu te dégages

Et voles selon.

 

Puisque de vous seules,

Braises de satin,

Le Devoir s’exhale

Sans qu’on dise : enfin.

 

Là pas d’espérance,

Nul orietur.

Science avec patience,

Le supplice est sûr.

 

Elle est retrouvée.

Quoi ? – L’Éternité.

C’est la mer allée

Avec le soleil.

 

Rimbaud, Poésies completes, Librairie Générale Française, 1998.

 

Abre o artigo a imagem de uma pintura de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), Caminhos da Paz, de 1985.

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Meio milhão de visitas ao blog

23 Sexta-feira Out 2015

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga

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Nietzsche

Meio milhão visitas ao blogFoi hoje ultrapassado o meio milhão de visitas ao blog na contagem do wordpress.

Aventura pessoal de escrita e escolha iconográfica ao sabor das disponibilidades de tempo e disposição, é gratificante saber que tanta gente, de tantos pontos do mundo encontra no blog algo que lhe interessa ou agrada, percorrendo-o ao sabor de acasos e curiosidade.

Este bloco-notas aberto ao mundo tem sido para mim um lugar de prazer e descanso, ocupação de ócios e reflexão, afinal registo de minudências ao lado das turbações do incerto quotidiano.

Há, de alguma forma, um paradoxo nos nossos dias: por um lado a apologia da competitividade na profissão com a exigência de permanente disponibilidade para atender ao trabalho sob pena de se ficar para trás e ser olhado como incompetente ou falhado, e por outro a profusão de solicitações para o lazer vindas do que Gilles Lipovetsky chama o “capitalismo artístico”. Entre o universo omnipresente do trabalho e a vertigem do consumo “estético” corremos o risco de a certa altura parar, ver como o tempo passou, e com ele a vida.  

É um desafio de todos os dias a escolha entre o trabalho e o ócio, sabendo-se como a vivência dos afectos interfere nestas escolhas. E é aqui que as nossas opções, filosóficas, diria, ganham todo o sentido, fazendo-nos, ou não, caminhar por uma vida feliz.

Entendendo cultura como interiorização reflectida de conhecimento e saber, que lugar deixamos esta ocupar na nossa vida é a pergunta que coloco a quem me lê.

meio milhão visitas ao blog

Termino com um poema de Friedrich Nietzsche (1844-1900) mais tarde incluído em Assim Falava Zaratustra, de onde o transcrevo.

 

Pretendente à verdade? Tu? — escarneciam —

Não! Apenas um poeta!

Um animal, e astuto, rapinante, furtivo,

Que tem de mentir,

Que tem, ciente e voluntariamente, de mentir:

Cobiçando a presa,

Mascarado de várias cores,

Máscara para si próprio,

Para si próprio presa…

Isto, o pretendente à verdade?

Não! Apenas louco! Apenas poeta!

Proferindo só discursos confusos,

Gritando desordenadamente por detrás de máscaras de bobo,

Andando por cima de mentirosas pontes de palavras,

Por cima de arco-íris multicolores,

Entre falsos céus e falsas terras,

Vagueando, pairando por aí…

Apenas louco! Apenas poeta!

 

Tradução de Paulo Osório de Castro.

in Friedrich Nietzsche, Assim Falava Zaratustra, Relogio D’Água Editores, Lisboa, 1998.

 

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Prazeres — de Brecht a Lucrécio

17 Sábado Out 2015

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Bertolt Brecht, Lucrécio, Picasso

Guernica 600px

PRAZERES

O primeiro olhar da janela de manhã

O velho livro de novo encontrado

Rostos animados

Neve, o mudar das estações

O jornal

O cão

A dialética

Tomar duche, nadar

Velha música

Sapatos cómodos

Compreender

Música nova

Escrever, plantar

Viajar, cantar

Ser amável.

 

Nem todos partilharemos da hierarquia, nem da enunciação dos prazeres descritos neste poema de Bertolt Brecht (1898-1956), datado de 1954.

Poema da meia-idade, e para o poeta, perto do fim da vida; vida que viu as duas guerras mundiais, conheceu o sucesso entre guerras na Alemanha, experimentou exílio com a chegada do nazismo, primeiro europeu e depois nos EUA, e terminou os dias num regresso à então Alemanha comunista. Dir-se-á: de tanta experiência, que mínimos prazeres para lembrar…

Na verdade, a vida vivida, para além da intensidade das experiências profissionais e afectivas, conduz-nos a certa altura à evidência do que todos os dias é realmente importante.

A pressão do consumo, a posse material de coisas, o quadro social quotidiano com os seus valores onde a presença do dinheiro pesa, tudo faz perder de vista o que na verdade é simples: vivemos bem com muito, mas precisamos de muito pouco para viver bem.

Termino com alguns versos do epicurista Lucrécio (sec. I a. C.), extraídos desse poema maior, Da Natureza das Coisas [De rerum natura], a que outro dia voltarei.

 

Ó infelizes mentes dos homens, ó corações cegos!

Em que tenebrosa existência e em quantos perigos se passa

esta breve vida! Então não vêem que a natureza

nada reclama para si, com impetuosos gritos,

senão que a dor fique afastada do corpo e que se usufrua

de uma mente livre de cuidados e do medo, com um sentimento de prazer?

Portanto, vemos que poucas coisas são absolutamente necessárias

à natureza do corpo: todas as que eliminam a dor

e também as que possam proporcionar muitos deleites.

 

Livro II, vv 14-22

Notícia bibliográfica

Bertolt Brecht, Poemas, versão portuguesa de Paulo Quintela, Asa Editores, Porto, 2007.

Lucrécio, Da Natureza das Coisas, tradução de Luís Manuel Gaspar Cerqueira, Relogio D’Água, Lisboa, 2015.

Nota

A imagem de abertura reproduz a pintura Guernica (1937), de Picasso (1871-1973).

Tendo como pretexto directo bombardeamentos alemães à aldeia Basca de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola, a pintura é para o século XX o ícone contra a barbárie o e terror da guerra.

É preciso lembrá-lo sempre.

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A Criação da Mulher por Americo Elysio

23 Quarta-feira Set 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Raros/Curiosos

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Americo Elysio, José Anastácio da Cunha, José Bonifácio de Andrade e Silva

Boucher - Venus e Amor com pombas e maçã pastelSatisfazendo simultaneamente o meu gosto pela poesia antiga e a curiosidade sobre o que não sei que existe, mergulho algumas vezes na produção poética da segunda metade de setecentos.

Vasto universo de banalidades poéticas, como qualquer outra época, uma vez por outra surge um poema ignorado que pela originalidade na abordagem do tema, desenvoltura do ritmo, ou especial cuidado no tratamento da ideia, apetece resgatar do pó dos arquivos.

É agora a vez de um poema do brasileiro Americo Elysio (José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838)), A Criação da Mulher. Nele o poeta desenvolve o deambular solitário do primeiro Homem, e o seu desnorte nesta solidão. O deus pagão, Jove, dando conta de quanto este infeliz não desfrutava das belezas do mundo natural, vagueando, sem encontrar contentamento, convocou os outros deuses. Para resolver o problema decidiram criar a mulher dotada das belezas de Vénus. E ei-la que desce à Terra.

Ao vê-la o homem / Pasma, estremece! / Quer abraçá-la, / Corre, enlanguece!

 

“Quem és? és Deusa? / (O homem lhe grita) / Ah! se pudesses /Trazer-me dita!”

 

Ela responde: / “Sou tua esposa; / Deixa a tristeza, / Ama-me, e goza.”

 

Saboreai agora o poema:

 

A CREACÃ0 DA MULHER

 

Já tinha o Mundo

Jove formado,

E rei de tudo

O Homem criado.

 

Mas solitário

Este se achava:

Brusca tristeza

O dominava.

 

Com mão profusa

A natureza

Em vão mostrava

Tanta beleza!

 

Cantavam aves,

Bulia o vento:

Tudo infundia

Contentamento.

 

Florido o vale

Reverdecia:

De aromas mil

O ar se enchia.

 

Manhã serena

Leda brilhava:

Manto de estrelas

A noite ornava.

 

E todavia,

Qual duro tronco,

O Homem jazia

Sisudo e bronco.

 

Covas escuras,

Mata enredada,

Nelas fazia

Sua morada.

 

No solio eterno

Jove sentado,

Então aos Deuses

Fala pousado:

 

“Mortal soberbo

Com o entendimento

Sondar pretende

Mistérios cento:

 

“Só, pensativo

Se desalenta;

Do mundo inteiro

Nada o contenta.

 

“Eu distraí-lo

Quero piedoso;

Beba sua alma

Nectar gostoso.”

 

Forma então Jove

Nova creatura;

De Venus bela

Fiel pintura.

 

Esbelto talhe,

Meneo brando,

Mil amorinhos

Vão rebanhando!

 

De oiro madeixas,

Ao vento soltas,

Ameigam feras,

Que andam revoltas.

 

Os Cupidinhos

Dos verdes olhos

Duros despedem

Setas a molhos.

 

Covas da face

Branca e rosada,

Vós sois das Graças

Gentil morada!

 

Vozes suaves,

Que as almas prendem ,

De fio em fio

Dos beiços pendem.

 

Ah! são seus beiços

Fontes de vida!

Em neve pura

Romã partida!

 

As alvas tetas

De marfim puro

Ah! são mais rijas

Que cristal duro!

 

Carne mimosa

Que a vista enleva,

Onde o desejo

Em vão se ceva!

 

Ao vê-la o homem

Pasma, estremece!

Quer abraçá-la,

Corre, enlanguece!

 

“Quem és? és Deusa?

(O homem lhe grita)

Ah! se pudesses

Trazer-me dita!”

 

Ela responde:

“Sou tua esposa;

Deixa a tristeza,

Ama-me, e goza.”

No contexto da produção poética da época, o poema traz algumas novidades que o tornam notável: a forma adoptada é a da redondilha menor, cultivada na idade média, fugindo assim ao cânone formal defendido pelas várias academias da época do autor; o assunto, por um lado vestindo ainda uma capa da mitologia, remete para o imaginário cristão e a criação de Adão e Eva no paraíso terreal; por outro, dá conta de uma leitura da natureza como valor em si, e não como cenário de amores, apanágio da poesia da época; finalmente, ao fechar, entrega a iniciativa amorosa à mulher, despido qualquer pudor, no que será o seu mais surpreendente e original conteúdo:

“Sou tua esposa; / Deixa a tristeza, / Ama-me, e goza.”

Todos estes aspectos fazem do poema um ponto charneira entre a poesia neo-clássica praticada na segunda metade de setecentos e a poesia romântica que o século XIX traria.

Não é aqui o lugar para desenvolver a argumentação em volta do tema. Ficam os tópicos de leitura que, espero, ajudem a destacar o relevo deste Creacão da Mulher.

Usando a forma padronizada do soneto, o poema que segue conta-nos de uma Narcina refrescando-se na fonte.

Partindo do vocabulário comum à época (o desejo espicaçado referido como setas de Cupido envenenadas: Com ponteagudas setas que ela hervara**, /Bando de Cupidinhos revoava.), seguimos o olhar do poeta à medida que percorre o corpo da mulher.  Aí o poema ganha arrojo ao dizer-nos como ela, deixando ver o peito e a coxa, abrasa o poeta ao levantar o vestido, sem que, no entanto,  à vista deixe o sexo, o que o poeta lamenta:

Parte da linda coixa, regaçado, /O cândido vestido descobria; / Mas o templo de amor ficou cerrado:

 

SONETO

Eu vi Narcina um dia que folgava

Na fresca borda de uma fonte clara:

Os peitos, em que Amor brinca e se ampara,

Com aljofaradas* gotas borrifava.

 

O colo de alabastro nu mostrava

A meu desejo ardente a incauta avara.

Com ponteagudas setas que ela hervara**,

Bando de Cupidinhos revoava.

 

Parte da linda coixa, regaçado,

O cândido vestido descobria;

Mas o templo de amor ficou cerrado.

 

Assim eu vi Narcina.—Outra não cria

O poder da Natura, já cansado;

E se a pode fazer, que a faça um dia.

 

*Aljofar — pérola  menos graúda; gotas de água aperoladas.

Aljofarar — ornar de aljofar.

** Hervar — untar com sumos de ervas venenosas.

(Dic. Morais ed 1813)

Com uma invulgar palpitação erótica é a Ode que segue, publicada pelo autor em 1825 e que o editor póstumo em 1861 entendeu suprimir.

Nela, As nítidas maminhas vacilantes / Da sobre-humana Eulina, / Se com férvidas mãos ousado toco, / Ah! que me imprimem súbito / Eléctrico tremor, que o corpo inteiro / Em convulsões me abala!

A Ode vai por aí fora dando conta da perturbação física do homem ao contacto do corpo da mulher, e, depois de um primeiro êxtase, Morro de todo, amada! / Fraqueja o corpo, balbucia a fala! / Deleites mil me acabam!, volta o entusiasmo, e aí o temos voraz outra vez:

Mas ah! que impulso novo, ó minha Eulina! / Resistir-lhe não posso….

terminando com o … morramos, que nesta poesia não é mais que o clímax do êxtase sexual simultâneo:

Deixa com beijos abrasar teu peito: / Une-te a mim…. morramos.

Este final remete-me a memória para uma Ode ao orgasmo simultâneo de José Anastácio da Cunha (1744-1787) que há anos transcrevi no blog.

Foram, um e outro, notáveis homens de ciência, e, talvez por isso, espíritos mais desempoeirados, deram mostra de uma ousada explicitação poética dos prazeres do corpo.

 

ODE

As nítidas maminhas vacilantes

Da sobre-humana Eulina,

Se com férvidas mãos ousado toco,

Ah! que me imprimem súbito

Eléctrico tremor, que o corpo inteiro

Em convulsões me abala!

[O sangue*]  ferve: em catadupas cai-me…;

Brotam-me lume as faces…

Raios vibram os olhos inquietos

Os ouvidos me zunem!

Fugir me quer o coração do peito…

Morro de todo, amada!

Fraqueja o corpo, balbucia a fala!

Deleites mil me acabam!

Mas ah! que impulso novo, ó minha Eulina!

Resistir-lhe não posso…

Deixa com beijos abrasar teu peito:

Une-te a mim… morramos.

 

* Falta a palavra na edição. [O sangue] é suposição minha (C.M.L.).

Nos poemas transcritos modernizei ligeiramente a ortografia e a pontuação para facilitar a leitura aos menos familiarizados com esta poesia antiga.

Noticia bibliográfica

Poesias Soltas de Americo Elysio (José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), Bordeos,1825.

Também existe edição póstuma de 1861 com o título Poesias de Americo Elysio, edição  no Rio de  Janeiro.

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Tempos assim / Tiram lágrimas das flores – um poema de TU FU

07 Segunda-feira Set 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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DU FU, Tu FU

Dando conta dos desastres da guerra, o poema de hoje abarca tudo: a destruição material, a impassível constância da natureza perante os desastres dos homens, a desolação na separação dos afectos, a carestia da vida decorrente da destruição, e, finalmente, a vulnerabilidade dos mais velhos a quem a vida faz viver, mais que aos outros, estas tragédias uma e outra vez repetidas.

Há anos publicado no blog, a tragédia dos refugiados do Médio Oriente, leva-me a lembrá-lo de novo.

Do poema escolhido, OLHANDO A PRIMAVERA, do poeta chinês TU FU (712-770), começo com duas versões, uma em português e outra em castelhano. Ambas se equivalem  na  verdade poética, ainda que a versão em português da autoria de Gil de Carvalho possua dois versos dos mais sublimes que encontrei:

Tempos assim/ tiram lágrimas das flores

Não conheço forma poética mais bela de transmitir a desolação, que a encontrada pelo poeta/tradutor. A impossibilidade material do descrito, fazer chorar as flores,  cria no leitor a dimensão quase cósmica da tragédia, tanto mais quanto as flores podem ser associadas ao mais belo que a natureza pode oferecer, e são, na sua essência, a ausência da violência sobre o mundo. Falo do mundo na medida em que a referência tempos assim remete imediatamente para a história e o fluir dos acontecimentos humanos. Quando o tempo passa estamos no mundo terreno. Fora dele apenas existe a eternidade onde a ausência do fluir do tempo se define.

OLHANDO A PRIMAVERA

O país em ruínas

Rios e colinas permanecem

Cidades na Primavera

Árvores e folhas renascem.


Tempos assim

Tiram lágrimas das flores.

Separado do seu par

Treme o coração da ave.


Os fogos da guerra

Já juntaram três luas.

As novas de casa

Valem agora uma fortuna.


Uma velha cabeça grisalha,

A cada infortúnio dilacerada.

E o cabelo que rareia

Já nem o alfinete o segura.

 

VISIÓN DE PRIMAVERA

En el país derrotado, rios e colinas impassibles.

Ciudad primaveral. Árboles frondosos y hierba abundante.

Complacidas, las flores lloram conmigo;

apenadas, las aves lamentan mi despedida.


Llamas de guerra rugen ya tres meses;

mil piezas de oro cuesta una carta familiar.

Me toco la cabeza de blancos cabellos,

tan escasos que no pueden sostener el broche.

Tradução de Guillermo Danino

 

Há uma linguagem essencial nesta poesia, capaz de nos transmitir o sentido profundo do tempo e do mundo apenas com a meia dúzia de termos que o poema contém.
Esta é uma característica da poesia chinesa clássica que, depois de nos familiarizarmos com ela, parece a linguagem mesma da poesia.

A verbosidade poética acaba por soar estranha ao fim de algum tempo de convívio com estas criações.

Faça-se agora uma leitura comparada das traduções do poema: português // castelhano por forma a penetrar melhor na multiplicidade de sentidos possivel neste poema

OLHANDO A PRIMAVERA // VISIÓN DE PRIMAVERA

O país em ruinas / Rios e colinas permanecem  //  En el país derrotado, rios e colinas impassibles.
Cidades na Primavera / Árvores e folhas renascem. // Ciudad primaveral. Árboles frondosos y hierba abundante.

Tempos assim / Tiram lágrimas das flores. // Complacidas, las flores lloram conmigo;
Separado do seu par / Treme o coração da ave. // apenadas, las aves lamentan mi despedida.

Os fogos da guerra / Já juntaram três luas. // Llamas de guerra rugen ya tres meses;
As novas de casa / Valem agora uma fortuna. // mil piezas de oro cuesta una carta familiar.
Uma velha cabeça grisalha, / A cada infortúnio dilacerada. // Me toco la cabeza de blancos cabellos,
E o cabelo que rareia / Já nem o alfinete o segura. // tan escasos que no pueden sostener el broche.

Acrescento agora três versões em inglês, das quais duas de David Hinton, eminente poeta e premiado tradutor de poesia chinesa. No entanto, os dois versos que me encantam não tem na sua tradução a força nem a profundidade poética contidas na tradução portuguesa:

Blossoms scatter tears thinking of us

nem a possui a tradução de Arthur Cooper que transcrevo mais à frente e nos dá para estes versos:

Though at such times / flowers might drop tears,

embora muito provavelmente Gil de Carvalho a tenha considerado na sua versão.

 

Tradução de David Hinton, 1990:

SPRING LANDSCAPE

Rivers and mountains survive broken countries.

Spring returns. The city grows lush again.

Blossoms scatter tears thinking of us, and this

Separation in a bird’s cry startles the heart.

 

Beacon-fires have burned through three months.

By now, letters are worth ten thousand in gold.

My hair is white and thinning so from all this

Worry-how will I ever keep my hairpin in?

 

Tradução de David Hinton, 2008:
SPRING LANDSCAPE


The country in ruins, rivers and mountains

continue. The city’s grown lush with spring.


Blossoms scatter tears for us, and all these

separations in a bird’s cry startle the heart.

 


Beacon-fires three months ablaze: by now

a simple letter’s worth ten thousand in gold,


and worry’s thinned my hair into such white

confusion I can’t even keep this hairpin in.


Tradução de ARTHUR COOPER, 1973:
LOOKING AT THE SPRINGTIME

In fallen States

hills and streams are found,

Cities have Spring,

grass and leaves abound;


Though at such times

flowers might drop tears,

Parting from mates,

birds have hidden fears:


The beacon fires

have now linked three moons,

Making home news

worth ten thousand coins;


An old grey head

scratched at each mishap

Has dwindling hair,

does not fit its cap!


É vasta, como de vê, a possibilidade de leituras do poema ao transferi-lo para línguas ocidentais, conservando a sua significação original, e esta é uma das dificuldades maiores que a poesia chinesa clássica enfrenta no ocidente, decorrente da ausência de gramática nos poemas,  pois dependendo do génio do tradutor, poderemos estar perante uma banalidade, ou perante um fraseado ininteligível, ou menos frequentemente perante uma obra-prima numa língua ocidental.

O poema terá sido escrito por Tu Fu na primavera de 757, durante a sua segunda estadia na capital, Ch’ang-an, desta vez ocupada pelas tropas do general rebelde An Lu-shan.
Não julgo essencial o conhecimento dos detalhes da história chinesa desta época para apreender a universalidade subjacente ao poema. Quem tenha vivido tempos dramáticos longe dos seus saberá sentir a verdade emocional por detrás de tão comovente síntese poética.

Tu Fu ou Du Fu é, na opinião daqueles qualificados para o dizer, o maior poeta  lírico que sobreviveu em qualquer língua. Serão seus possíveis competidores, na opinião dos mesmos, Catulo e Beaudelaire, e também, de algum modo, Sapho, não fora da poetisa apenas nos terem chegado fragmentos.

Noticia bibliográfica:

Uma Antologia de Poesia Chinesa por Gil de Carvalho, edição Assirio & Alvim, 2010
Tu Fu, Bosque de pinceles, Selección tradución y notas de Guillermo Danino, Ediciones Hiperión, 2006

Classical Chinese Poetry, An Anthology, tradução e edição de David Hinton, 2008

The Selected Poems of Tu Fu, tradução e selecção de David Hinton, 1990

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Lembrar a Grécia com Sólon (séc VII-VI a.C.): Seisachtheia e fragmentos poéticos

16 Terça-feira Jun 2015

Posted by viciodapoesia in Crónicas, Poesia Antiga, Poesia Grega

≈ 3 comentários

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carlos mendonça lopes, Sólon

O esforço quotidiano de tentar meter a vida dentro do orçamento, à medida que este encolhe, tem-me deixado pouco tempo para o blog.

Vivem-se tempos em que as finanças parecem sobrepor-se a tudo e a todos. Em notas escritas há anos, que hoje ganham foros de actualidade, dava eu conta de forma sarcástica, do que entretanto se tornou uma tragédia vivida por muitos. Dizia-se neles:

I
Vieram listas de números deitar certezas supérfluas
na multidão descontente.

II
Comunicou o governo através da televisão:
“Sai caríssima ao Tesouro a vida dos cidadãos.”

E de uma forma sentida a seguir anunciou:
“As dívidas podem ser pagas oferecendo a própria vida.”

III
Acorrem em catadupa Ministros aos funerais.
Trazem prémios para os mortos,
sorriem,
entram em êxtase,
e partem com os jornais.

Esta entrega da própria vida para pagar dívidas leva-me hoje a Sólon e à sua Seisachtheia, a postura legislativa em que a dignidade humana foi preservada pondo fim à escravatura por dividas, ou seja, a consequência de um indivíduo se tornar escravo de um seu credor quando impossibilitado de pagar as suas dividas na sociedade ateniense de há 2600 anos.

Nestes dias em que a Grécia é uma preocupação financeira para a Europa, têm-se ouvido e lido os maiores despautérios e as mais inanes tolices a propósito da história grega.

Dizer que a civilização ocidental ancora na Grécia clássica não é sem fundamento. Foi lá que o homem pensou os deuses à sua imagem e semelhança. Foi lá que as formas de governo no respeito pelo homem se inventaram, foi lá que a vida do espírito no diálogo entre iguais se praticou, e onde as artes se desligaram do sagrado para integrar a vida quotidiana, criando a harmonia que consola quem nela vive.
De muitas das criações gregas chegaram-nos apenas fragmentos. As guerras com vizinhos e as invasões encarregaram-se disso mesmo. Depois do apogeu, a Grécia foi frequentemente terra devastada, alvo da inveja de quem não tinha ou não fora capaz de conceber as maravilhas que deram dignidade e significado ao Ser Humano. Pelos museus da Europa recolhem-se fragmentos dessa devastação.

Herdámos também, ainda que hoje pareça largamente esquecido, um ordenamento jurídico a fazer 2600 anos. Foi Sólon o artífice de semelhante quadro legal, sendo a abolição da escravatura por dividas o de maior significado.

O quadro de cobrança da divida grega que hoje se desenha, configura também ele, a submissão de um povo à escravatura sem alternativa, se quiser sobreviver no xadrez das dependências globais que caracterizam o nosso mundo.
Soubessem os dirigentes, que pretendem submeter a Grécia, agir de acordo com as palavras sábias de Sólon:

E o povo melhor os seus chefes seguirá,
se não for nem muito soerguido nem rebaixado.
A ambição gera, pois, a insolência, quando uma grande riqueza segue
os homens que espírito sensato não possuem.
Fragmento F 6 W

Não se pense, no entanto que com Sólon estamos perante a defesa de qualquer política de nivelamento ou igualdade, pois, noutro fragmento, o político defende:

Riquezas desejo possuir, mas adquiri-las injustamente

não pretendo: sempre, a seguir, vem a justiça.

É esta ideia de lisura na prossecução dos negócios de dinheiro com a Grécia que parece estar ausente em toda a história recente. Sólon escreveu isto no seio de um seu poema onde o homem e a sociedade se pensam, o qual a terminar refere:

Quanto à riqueza, limite visível para os homens não há:
os que agora, entre nós, maior copia de meios têm,
açodam-se a dobrar; quem poderá satisfazê-los a todos?
O lucro, aos mortais concederam-no os imortais,
mas dele provém a perdição, e quando Zeus
a envia, em forma de punição, ora um ora outro a recebe.

Termino com a totalidade conhecida do fragmento poético F 13 W, a que pertencem as citações anteriores, conhecido como elegia das musas, para lembrar como a dignidade humana pode caber no seio destes negócios de dinheiro, e existindo a legitimidade da busca de riqueza, a justiça deve estar sempre presente nos meios de a alcançar. O arbítrio dos deuses é insondável e aos homens não cabe saber dos meandros da justiça divina. Apenas a justiça entre os homens importa.

F 13 W

Filhas esplendorosas de Mnemósine e de Zeus Olímpico,
Musas Piérides, atendei a minha prece.
Bens da parte dos deuses bem-aventurados me dai e que junto de todos
os homens de boa fama sempre goze;
ser, assim, doce aos amigos e aos inimigo amargo,
àqueles respeitável e a estes temível parecer.
Riquezas desejo possuir, mas adquiri-las injustamente
não pretendo: sempre, a seguir, vem a justiça.
A fortuna que os deuses dão fica ao lado do homem,
firme, desde os alicerces à cumeeira.
Porém, a que os homens honram, com insolência, a ordem devida
não segue, mas, levada por injustas acções,
contrafeita vem atrás e, lesta, se lhe junta a perdição.
Pequeno o seu começo é, como o fogo,
primeiro sem valor, mas em aflição acaba,
já que, para os mortais, as obras da insolência não perduram.
Zeus, porém, supervisiona o fim de tudo e, num repente,,
— tal como logo as nuvens dispersa o vento
primaveril, que ao mar escumoso e estéril
as profundezas revolve e pela terra produtora de trigo
destrói as belas lavouras, até que a mansão escarpada dos deuses atinge,
no céu, e o éter limpo de novo deixa contemplar;
rebrilha sobre a terra pingue o sol vigoroso
e belo: então, nuvem alguma se consegue ainda avistar —
assim avança o castigo de Zeus. Não é a cada falta,
como um homem mortal, que se gera a sua ira,
mas, em todo o tempo, não lhe escapa quem culposo
coração possui e sempre, no fim se revela.
Porém um logo expia a culpa. outro mais tarde; quem a evitar
na sua pessoa, sem que golpe da moira dos deuses o alcance,
sempre acabará por chegar. Inocentes, as faltas pagarão
os seus filhos ou os filhos destes, mais tarde.
Nós, os mortais, tanto o nobre como o vilão, temos este pensar:
célere corre a fama que cada um de si possui,
antes de padecer; é então que se lamenta. Mas, até essa altura,
boquiabertos, em vãs esperanças nos deleitamos.
Aquele a quem penosas enfermidades oprimem,
considera somente que vai ficar são;
outro, embora covarde, pessoa valente julga ser
e boa figura pensa o desengraçado possuir;
e se alguém é pobre, ao jugo da miséria forçado,
conseguir grandes riquezas sempre espera.
Cada um se açoda por seu lado: um pelo mar piscoso erra,
em barcos, na ânsia de lucro para casa trazer:
ventos o arrastam, terríveis,
e em poupar a vida nada cura;
outro, retalhando a terra rica em árvores, todo o ano
serve e dos recurvos arados se ocupa;
outro, das obras de Atena e do industrioso Hefestos
conhecedor, com as mãos ganha a vida;
outro é nos dons das Musas Olímpicas versado
e da adorável sabedoria a medida conhece;
a outro, fê-lo adivinho o senhor que fere ao longe, Apolo,
conhece o mal que, distante, sobre o homem avança,
ele a quem os deuses assistem: mas o destino — sempre —
nem o áugure o pode parar nem os sacrifícios.
Outros, que de Péon rico em remédios oficio exercem,
são médicos, mas também eles não atingem o fim.
Muitas vezes, da pequena dor se gera uma grande agonia
que ninguém consegue aliviar aplicando remédios benfazejos;
e ao que lastimosas doenças remoem e terríveis,
tocam-lhe com as mãos e logo fica saudável.
Assim o Destino aos mortais traz o mal e o bem,
inevitáveis são as dádivas dos deuses imortais.
Em todos os trabalhos existe perigo e ninguém sabe
onde conduzirá o projecto iniciado.
Mas o que bem tenta agir, sem contar,
em grande e penosa perdição cai;
e ao que mal actua, o deus em tudo lhe concede
bom sucesso, libertação da sua imprevidência.
Quanto à riqueza, limite visível para os homens não há:
os que agora, entre nós, maior copia de meios têm,
açodam-se a dobrar; quem poderá satisfazê-los a todos?
O lucro, aos mortais concederam-no os imortais,
mas dele provém a perdição, e quando Zeus
a envia, em forma de punição, ora um ora outro a recebe.

A legislação de Sólon terá sido publicada em 594/3 a.C. segundo a maior parte dos estudiosos.
A tradução dos fragmentos poéticos que vos deixo é da autoria de Delfim Ferreira Leão e encontra-se no seu livro Sólon Ética e Política com mais fragmentos poéticos de Sólon traduzidos e comentados. O livro foi publicado pela FCG, Lisboa 2001.

Acompanham o artigo imagens de esculturas gregas contemporâneas de Sólon.

Nota final

Este artigo foi anteriormente publicado no blog (5 Maio 2012). Como não perdeu um grão de actualidade, trago-o de novo à luz, ao encontro dos novos leitores que o blog entretanto ganhou.

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A difícil arte do soneto segundo Lope de Vega, Alexandre O´Neill e Manuel Alegre

10 Domingo Maio 2015

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poetas e Poemas

≈ 2 comentários

Arte do sonetoDesde a sua invenção nunca o soneto deixou de desafiar poetas.

Poema de 14 versos em verso decassílabo rimado, ordenado em quatro estâncias geralmente de duas quadras com dupla rima seguidas de dois tercetos.

No seu desenvolvimento o soneto exige ser construído numa espécie de silogismo, como bem lembrava Manuel Borralho no seu Luzes de Poesia (1724), partindo de premissa(s) e rematando com uma conclusão, sendo o último verso do soneto, a certa altura,  chamado de chave de ouro.

Apresentado o tema na primeira quadra, deverá o poema dar continuidade ao assunto que se propõe, desenvolvendo a ideia que lhe subjaz, e concluindo-se de forma coerente com o argumentado.

Sendo uma forma poética de meu especial agrado, e existindo na literatura portuguesa elevado número de sonetos belíssimos, tenho por diversas vezes  transcrito sonetos. Hoje reúno um conjunto especial em que o assunto é a própria dificuldade em escrever um soneto.

Começo por Lope de Vega (1562-1635) que assim respondeu a Violante quando esta  lhe pediu um soneto:

Un soneto me manda hacer Violante / Um soneto me faz fazer Violante

Y en vida nom me he visto en tal aprieto; / Nunca na vida estive tão inquieto;

Catorce versos dicen que es soneto: / Catorze versos dizem que é soneto,

Burla burlando, van los tres delante. / Brinca brincando vão os três diante.

 

Yo pensé que no hallara consonante / Pensei que não achava consoante

E estoy a la mitad de otro cuarteto; / E a metade estou deste quarteto;

Mas, si me hallo en el primer terceto, / Mas, se me vejo no primeiro terceto,

No hay cosa en los quartetos que me espante. / Nada há nos dois quartetos que me espante.

 

Por el primer terceto voy entrando / pelo primeiro terceto vou entrando

Y aún presumo que entré por pie derecho, / E parece que entrei com o pé direito,

Pues fin con este verso le voy dando. / Pois fim com este verso lhe estou dando.

 

Ya estoy en el segundo y aún sospecho / No segundo já vou e até suspeito

Que estoy los trece versos acabando: / que estou os treze versos acabando;

Contad si son catorze, y esté hecho. / Contai se são catorze e já está feito.

Rima: (ABBA / ABBA / CDC / DCD)  /  (ABBA / ABBA / CDC / DCD)

 

No livro Abandono Vigiado publicado por Alexandre O’Neill (1924-1986) em 1960 encontro o soneto QUATORZE VERSOS tendo como epígrafe o primeiro verso do soneto de Lope de Vega transcrito acima.

Deliberada homenagem a um poeta maior, Lope de Vega, pois o poema anterior é também outra homenagem, essa a

João Cabral de Melo e Neto, / Você não se pode imitar, / mas incita a ver mais perto, / com mais atenção e vagar, / o que está como que em aberto, / …,

 

O soneto QUATORZE VERSOS brinca, também ele, com a arte de escrever sonetos, na qual O’Neill foi exímio como neste SONETOS GARANTIDOS… páginas antes no mesmo livro, e que não resisto a transcrever:

SONETOS GARANTIDOS…

 

Sonetos garantidos por dois anos.

E é muito já, leitor que mos compraste

para encontrar a alma que trocaste

por rádios, frigorificos, enganos…

 

essa tristeza sobre pernas faz-te

temeroso e cruel e tonto e traste.

Nem pior nem melhor que outros fulanos,

não vês a Bomba e crês nos marcianos…

 

e é para ti que escrevo, é para ti

que um verso lanço – ó mão! – como o destino,

nel’ ponho mesura, desatino,

 

rasgo, invenção, lugar-comum protesto?

Antes para soldado ou para resto,

escroto de velho, ronco de suíno…

 

 

Mas voltando à difícil arte do soneto temos então no soneto QUATORZE VERSOS uma eloquente demonstração:

 

QUATORZE VERSOS

 

O primeiro é assim: fica de parte.

No segundo já posso prometer

que no terceiro vai haver mais arte.

Mas afinal não houve… Que fazer?

 

Melhor será calar, pois que dizer

nem no sexto conseguirei destarte.

Os acentos errados é favor não ver;

nem os versos errados, que também sei hacer…

 

Ó nono verso porque vais embora

sem que eu te sublime neste décimo?

Ao décimo-primeiro dediquei uma hora.

 

Errei-o. Mas que importa se a poesia,

mesmo que o não errasse, já não vinha?

É este o último e, como os outros, péssimo…

 

 

Ficaria por aqui não fora Manuel Alegre (1936) no seu livro Sonetos do Obscuro Quê publicado em 1993, vir explicitamente a este soneto de Alexandre O’Neill quando se debruçava sobre a arte de escrever poesia em forma de soneto. Temos então, agora de Manuel Alegre:

 

 

Desata-se-me o verso no primeiro

no segundo de vento vai vestido

no terceiro de mar e marinheiro

no quarto está perdido está perdido.

 

Recupero-o no quinto sem sentido

no sexto deito-o à sombra de um sobreiro.

No sétimo com dante digo:”Guido

sê tu no oitavo verso o companheiro”.

 

Porque não espero de voltar no nono

leva-me O’Neill no décimo a um terceto

que aponte já no onze o sul e o sal.

 

Ao décimo segundo chega o sono.

No treze está a chave do soneto

mas nem sempre o catorze é o final.

 

 

A tradução do poema de Lope de Vega é de José Bento.

Lê-se com proveito o artigo SONETO publicado no DICIONÁRIO DE LITERATURA, sob a direcção de Jacinto do Prado Coelho e assinado por António Coimbra Martins.

 

Nota final

Quatorze ou Catorze? Escolha o leitor. Apenas reproduzi o conteúdo das edições impressas que possuo. Antes do Acordo Ortográfico Quatorze seria para Portugal e Catorze para o Brasil.

 

Artigo publicado inicialmente em Fevereiro de 2011 e agora ligeiramente retocado.

A imagem de abertura mostra uma pintura de Maria Noma Bliss, jovem pintora norte-americana.

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Quadras: do Povo a Fernando Pessoa para a Dança camponesa de Bruegel

17 Sexta-feira Abr 2015

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poetas e Poemas

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Heterónimos de Fernando Pessoa, Pieter Bruegel, Quadras Populares

Bruegel - danças camponesasAEncanta-me a pintura de Pieter Bruegel (1520-1569) no seu colorido e detalhe descritivo. Dando conta de um mundo extinto, muito do que lá se vê ainda por cá acontece. Por exemplo, a festa de camponeses. À parte a roupa, que diferenças de atmosfera encontramos na pintura que não se repitam hoje, logo que a ocasião se proporcione? No fixo da representação a alegria transborda e as gentes conversam, dançam e namoram à nossa frente como se ali estivéssemos a um par de metros.

Na verdade, uma das proezas técnicas da pintura é a localização do observador. Pintada a cena ao nível do nosso olhar, com o uso de uma perspectiva rigorosa, apenas usual em paisagem e não em multidão, é essa posição que nos dá a ilusão de presenciar a festa no momento em que ela decorre.

É uma pintura de onde a ironia, a sátira, e mesmo a metáfora estão ausentes. Representa-se apenas gente vivendo os seus costumes, e o uso da perspectiva central coloca o pintor e nós como parte desta humanidade.

Na representação das figuras, o desenho usa da mais pura técnica clássica, tal qual como se de uma representação religiosa, mística ou de altos personagens se tratasse, e não de gente simples (que à época não era assunto de pintura), dispensando em absoluto o maneirismo ou o anedótico.

A pintura é de grandes dimensões (114x164cm) e vê-la proporciona um imenso prazer. Pintou-a o artista no final da vida, por volta de 1568, e guarda-se no museu de arte antiga de Viena.

Acrescento alguns detalhes para seu maior prazer, leitor.

Bruegel - danças camponesas 1

Bruegel - danças camponesas 2

Bruegel - danças camponesas 3

Bruegel - danças camponesas 4Termino com um grande plano do beijo que na pintura surge ao cimo, à esquerda, acompanhado por populares declarações de amor em quadra, a que entremeio a inspiração de Fernando Pessoa.

Bruegel - danças camponesas 5

Apalpei meu lado esquerdo

Nao achei o coração,

Chegou-me a feliz notícia

Que estava na tua mão.

(Popular)

Quando passo um dia inteiro

Sem ver o meu amorzinho,

Corre um frio de Janeiro

No Junho do meu carinho.

Fernando Pessoa (1920)

Tenho dentro do meu peito

Duas escadas de flores,

Por uma descem suspiros,

Por outra sobem amores.

(Popular)

Se morrendo eu acabar

E nada restar de mim,

Não te esqueças de lembrar

Que só te esqueci assim.

Fernando Pessoa (1934)

O papel em que te escrevo

Tenho-o na palma da mão:

A tinta sai-me dos olhos

E a pena do coração.

(Popular)

Até breve!

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