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Category Archives: Poesia Antiga

Pensamentos Nocturnos – poema de Li Po também conhecido por Li Bai ou Li Pai

04 Quinta-feira Ago 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Li Bai, Li Pai, Li Po

Lemos com as ferramentas de que dispomos: a nossa experiência e os nossos conhecimentos e cultura.
Para um leitor ocidental não familiarizado com a civilização chinesa, o encontro com a sua poesia clássica é quase sempre um choque. A simplicidade da linguagem aliada à profundidade da ideia transmitem-lhe uma irresistível atracção. Penetrar-lhe a historia e a dimensão filosófica,  isso é trabalho de uma vida.

Chega ao blog a poesia chinesa clássica  com um poema de Li Po (701-762) ou Li Bai ou ainda Li Pai consoante as edições, e também conhecido por Li T’ai-po, que segundo Arthur Cooper, tradutor para a Penguin de Li Po e Tu Fu, deve ser o mais conhecido de todos os poemas da literatura chinesa, e, sobretudo, entre os chineses da Diáspora. Diz ainda o tradutor, enfatizando esta sua opinião, que pode acontecer ao leitor ser surpreendido pela declamação do poema por um qualquer empregado de restaurante mais amistoso.

O poema faz parte  da colecção de poesia clássica chinesa  Ch’ien-chia-shih que literalmente significa Poemas de um Milhar de Mestres, apesar de conter poesias de cerca de 100 poetas e comummente traduzida por Poemas dos Mestres.

É um dos clássicos da literatura chinesa e durante oito séculos esta antologia da poesia dos períodos Tang (618-907)  e Song (960-1279) fez parte da educação de qualquer estudante na China.

A versão que transcrevo de Pensamentos Nocturnos é a de Gil de Carvalho publicada em Uma Antologia de Poesia Chinesa por Assírio & Alvim em 2010.

PENSAMENTOS NOCTURNOS

 Diante da cama

Brilha o luar

Que mais parece

Gelo no chão.

 

Se levanto a cabeça

Contemplo a Lua.

Ao baixá-la

Sonho com a terra natal.

Acrescento 3 versões em inglês, uma de Arthur Cooper, outra de David Hinton e uma terceira de Red Pine, todos eles conceituados tradutores de poesia clássica chinesa no mundo anglo-saxónico.

QUIET NIGHT THOUGHTS  (versão de Arthur Cooper)

 Before my bed

there is bright moonlight

So that it seems

like frost on the ground:

 

Lifting my head

I watch the bright moon,

Lowering my head

I dream that I’m home.


THOUGHTS IN NIGHT QUIET   
(versão de David Hinton)

Seeing moonlight here at my bed,

and thinking it’s frost on the ground,

 

I look up, gaze at the mountain moon,

then back, dreaming of my old home.

 

Deixei para o final a versão em inglês de que mais gosto, pois conseguindo traduzir o poema, simultaneamente escreve poesia de direito próprio em inglês, o que acontece para português com a leitura superlativa de Gil de Carvalho:

 

THOUGHTS ON A QUIET NIGHT  (versão de Red Pine)

Before my bed the light is so bright

it looks like a layer of frost

lifting my head I gaze at the moon

lying back down I think of home

Se existirem leitores do blog que leiam chinês, encontram a seguir o poema em caracteres chineses, e se porventura quiserem tentar um outra versão em português, ela é bem-vinda.

 

Noticia sobre a vida de Li Po encontra-se na net com abundância, sendo certo que as divergências que possam surgir decorrem também do desconhecimento factual que subsiste sobre ela, existindo ainda controversia sobre a parte de realidade e a parte de fábula.

Noticia bibliográfica:

 Uma Antologia de Poesia Chinesa – por Gil de Carvalho, edição Assírio & Alvim, 2010

 LI PO and TU FU Poems – Selecção e tradução de Arthur Cooper, edição Penguin Classics, 1973

 The Selected Poems of Li Po – Translated by David Hinton, edição ANVIL PRESS POETRY, 1998

 Poems of the Masters – China’s Classic Anthology of T’ang and Sung Dynasty Verse – translated by RED PINE, edição Copper Canyon Press, 2003

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Casar só uma mão ou a defesa do adultério segundo Bernardim Ribeiro

29 Quarta-feira Jun 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Bernardim Ribeiro

Não sou casado, senhora,/…/ não casei o coração.

Assim começa uma cantiga de Bernardim Ribeiro (14?? – 15??) que é uma fascinante legitimação do adultério.

Casou o poeta antes de conhecer aquela que agora ama, e para justificar o desejo desta nova amada, serve-se do inesperado argumento de que afinal só casou uma mão:

Antes que vos conhecesse, / sem errar contra vós nada, / uma só mão fiz casada,

Assistimos ao longo da canção à apresentação das razões que legitimam o adultério, quais sejam:

Dizem que o bom casamento / se há de fazer de vontade.
…
se a outrem dei a mão, / dei a vós o coração.
…
Como, senhora, vos vi, / sem palavras de presente / na alma vos recebi, / onde estareis para sempre,

Por detrás destas conversas poéticas espreita sempre o que já sabemos,

O casar não fez mudança /… / nem me negou a esperança / do galardão esperado.

e tentando obtê-lo termina o poeta:

Não me engeiteis por casado, / que, se a outra dei a mão, / a vós dei o coração.

Segue-se a Cantiga na integra:

Cantiga

Não sou casado, senhora,
que ainda não dei a mão,
não casei o coração.

Antes que vos conhecesse,
sem errar contra vós nada,
uma só mão fiz casada,
sem que mais nisso metesse.
Dou-lhe que ela se perdesse!
solteiros e vossos são
os olhos e o coração.

Dizem que o bom casamento
se há de fazer de vontade.
Eu, a vós, a liberdade
vos dei, e o pensamento.
Nisto só me achei contento:
que, se a outrem dei a mão,
dei a vós o coração.

Como, senhora, vos vi,
sem palavras de presente
na alma vos recebi,
onde estareis para sempre,
não de palavra somente;
nem fiz mais que dar a mão,
guardando-vos o coração.

Casei-me com meu cuidado
e com vosso desejar.
Senhora, não sou casado,
não mo queirais acuitar!
que servir-vos e amar
me nasceu do coração
que tendes em vossa mão.

O casar não fez mudança
em meu antigo cuidado,
nem me negou a esperança
do galardão esperado.
Não me engeiteis por casado,
que, se a outra dei a mão,
a vós dei o coração.

Ó quão constante é entre os homens, independentemente das épocas, a dicotomia entre amor e casamento.

A versão transcrita do poema de Bernardim Ribeiro retirei-a da antologia Poesia de Amor organizada por José Régio e Alberto de Serpa, e publicada em 1945 pela Livraria Tavares Martins do Porto.

Sobre a biografia do poeta nada se sabe com exactidão ainda que pela net continuem a circular as fantasias que têm passado por dados biográficos do poeta.

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Sonhei-a! A mulher imaginada dos Romanticos (um exemplo)

19 Domingo Jun 2011

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Poesia Antiga

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Luis Augusto Palmeirim

Os transportes de paixão abundam na poesia romântica e pós-romantica até à fragorosa chegada do modernismo à poesia, no inicio do século XX.

Não constituindo o seu único assunto, nem sequer, diria, o mais importante, são quase sempre formas encapotadas de dirigir declarações de amor a alguém, pois nestas gerações, os poetas foram-no, quase sempre, apenas enquanto moços.

Quando não estamos perante a louvação dos encantos de quem se ama, surgem-nos retratos da mulher idealizada por estes jovens no século XIX, que acabam por nos transmitir uma imagem de mulher sonhada, num paradigma que hoje nos é estranho.

No poema que escolhi, Sonhei-a!   temos  no inicio, como componentes do retrato: Era triste, mas serena,

 e a terminar

Era triste como eu gosto; / Era linda como aposto / Que não havia outra igual;

…

Sonhei-a como uma fada, / Que tem vivido encantada / Sozinha – na solidão!

Que ficaremos a saber desta mulher?

Era tão linda a donzela, / Que eu ficaria ao pé dela / A minha vida…, a sonhar!

e ainda

Rezava que quem a visse, / Pode ser que a confundisse / Com algum anjo do céu.

 

Descrita de forma impalpável, a mulher sonhada pelo poeta mostra-se um ser etéreo, em quem não são perceptíveis qualidades que não corar ao dizer Algumas falas de amor:

Já de mansinho dizia / Algumas falas de amor.

…

Dizia-as sempre corando, / Repetia-as soluçando /D’olhos pregados no chão;

…

E depois envergonhada, / De não ser mais recatada, / Corava ainda outra vez!

 

 

Transtornado por este quadro diz-nos o nosso poeta o que fez:

 Beijei-lhe a mão com respeito; / Arfava-lhe o lindo peito, / Batia-lhe o coração.

 

 

Aqui chegados, fica por perceber com quem sonhou o poeta.

Talvez a leitura integral do poema ajude, e ele aí fica.

Sonhei-a!

 

Sonhei-a! Tenho na mente

O seu retrato inocente

A falar-me ao coração.

Sonhei-a como uma fada,

Que tem vivido encantada

Sozinha na solidão.

 

Sonhei-a d’olhos pisados,

Porque os prantos magoados

Lh’os tinham pisado assim:

Era triste, mas serena,

Como a gentil açucena,

Rainha do meu jardim.

 

Sonhei-a triste: – a tristeza

Tem nos olhos da beleza

Encantos qu’eu não direi.

Sonhei-a linda – trigueira,

Como se pinta a ceifeira,

Como eu pintá-la não sei.

 

Sonhei-a no fim do dia,

Quando tudo é melodia,

Quando tudo fala em Deus.

Vi-a sozinha pensando,

Talvez com prantos regando

Alguns pobres versos meus.

 

Sonhei-a como eu pequeno,

Naquele sonhar ameno,

Sonhava tudo o que é bom.

Cuidei vê-la que me olhava,

Tão triste que não falava

Nem da voz lhe ouvia o som.

 

Sonhei-a vindo da guerra,

A falar da minha terra

Como fala o trovador;

Mas então já se sorria,

Já de mansinho dizia

Algumas falas de amor.

 

Dizia-as como quem sente,

Não altas, mas como a gente

As diz em coisas assim:

Dizia-as como as diria

Beatriz quando as sentia

Falando de Bernardim.

 

Dizia-as sempre corando,

Repetia-as soluçando

D’olhos pregados no chão;

Dizia-as como eu jurara,

Que ninguém ainda amara

No mundo com tal paixão.

 

E depois envergonhada,

De não ser mais recatada,

Corava ainda outra vez!

Corava… corava ainda

Cada vez era mais linda,

Mais linda, que Deus a fez!

 

Qu’ria falar não podia,

Que a vergonha lh’impedia

De poder usar a voz.

Era então que se lembrava

De que o mundo a censurava

De nos ver falar a sós.

 

Sonhei-a depois rezando,

Talvez em segredo orando

Pela terra em que nasceu;

Rezava que quem a visse,

Pode ser que a confundisse

Com algum anjo do céu.

 

Tinha as tranças desprendidas,

Levemente sacudidas

Por ligeira viração.

Dos labios lhe baloiçava

Uma oração que rezava

Do fundo do coração.

 

Vista assim, em tal postura,

Crescia-lhe a formusura,

Se ela pudesse crescer.

Não podia, nem num canto

Se pode tamanho encanto

Com verdade descrever.

 

Sonhei em sonho fagueiro

Que era um amor verdadeiro

Aquele tão casto amor;

Costumado à desventura,

Só em sonhos a ventura

Visitou o trovador!

 

Falei-lhe tão meigas falas,

Que nunca as damas das salas

M’as podem ouvir assim:

Ela era linda, inocente,

Falei-lhe como quem sente,

Falei-lhe pouco de mim.

 

Beijei-lhe a mão com respeito;

Arfava-lhe o lindo peito,

Batia-lhe o coração.

Jurei-lhe… não digo a jura;

Tenho medo que a ventura

Me não deixe a discrição!

 

Sonhei-a então pensativa,

Como fica a sensitiva

Se lhe vão no pé tocar:

Era tão linda a donzela,

Que eu ficaria ao pé dela

A minha vida…, a sonhar!

 

Era triste como eu gosto;

Era linda como aposto

Que não havia outra igual;

Sendo tantas como as rosas,

As filhas belas, mimosas,

Das terras de Portugal!

 

Sonhei-a: se foi mentira

Cantei-a de mais na lira,

Morri por ela de mais.

Se o sonho foi verdadeiro,

Nem o canto é lisonjeiro,

Nem as trovas desleais.

 

Sonhei-a! Tenho na mente

O seu retrato inocente

A falar-me ao coração!

Sonhei-a como uma fada,

Que tem vivido encantada

Sozinha – na solidão!

Esta mulher sonhada, foi-o na pena de Luis Augusto Palmeirim (1825-1893).

Embora cronologica e estilisticamente poeta da segunda geração romântica, Luis Augusto Palmeirim não integrou nem o grupo de O Trovador, nem o grupo de O Bardo, ou sequer o grupo de O Novo Trovador. A poesia Sonhei-a! foi publicada em Poesias, pela primeira vez em 1851 com um retrato do poeta que reproduzo a seguir.

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Luis Augusto Palmeirim — uma Arte Poética do Romantismo

09 Quinta-feira Jun 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Luis Augusto Palmeirim

Este Portugal, mantido e conservado pelas classes omnipotentes, não é um cadáver ilustre, é apenas um moribundo, aterrado pela ideia da morte, mas sem coragem para se abraçar com a vida…

Isto escrevia Lopes de Mendonça há 160 anos, em 1851, na apresentação das Poesias de Luis Augusto Palmeirim (1825-1893), e continuava:

… três séculos de monarquia absoluta esgotaram-lhe a glória: dezassete anos de realeza representativa desbotartam-lhe a fé: estas revoluções parciais, sem elevados intuitos, nem ideias definidas, definharam-lhe a esperança, e entregaram o seu destino à mais horrivel das fatalidades – aos acasos tremendos da insurreição popular, cega nas suas cóleras, implacável nos seus desejos, atroz, quase sempre, nas explosões omnipotentes da sua vontade.

Quem levou o problema politico até estes fatais extremos? Quem é que podendo encaminhar a sociedade, pausada e progressivamente, a coloca no fim de tantos anos perto das calamidades duma dissolução iminente?

Não somos nós, decerto, os homens da geração nova, que protestamos todos os dias contra as torpezas e desvaríos dessa raça espoliadora e inepta, que ou no poder ou na oposição, apenas se agita no prurido de vaidades turbulentas, e de interesses perversos, que havemos de carregar com essa responsabilidade.

…

Todos sois cúmplices; progressistas medrosos, conservadores corruptos, absolutistas cépticos, devoristas insaciáveis.

O que fizestes durante dezassete anos?

O silêncio da ignomínia é a vossa sentença final.

Foi longa a citação mas a actualidade dos juizos justifica-a. E tudo isto escrevia o nosso penetrante e respeitado critico para a seguir referir:

E todavia, meu caro poeta, se há alguma coisa que possa sobreviver no meio desse cataclismo, que eu prevejo, e que não olho sem terror, é a arte, é a poesia, são esses cantos, que a tua musa (perdoa a trivialidade da expressão) fiou descuidosa e tranquila, ao canto da lareira, nas noites de inverno, e que o nosso povo repete desde os pântanos do Ribatejo até às formosas várzeas de Trás-os-Montes.

Enganou-se o escritor pois hoje Luis Augusto Palmeirim é apenas um nome referido en passant em histórias de literatura, e nem sequer frequente em nomes de rua, como a outros acontece.

Reivindicando-se poeta da Liberdade, Luis Augusto Palmeirim, militar formado no Colégio Militar, foi actor activo das lutas da Maria da Fonte:

Sou um poeta soldado, / Não sei à missão mentir;/ Neste canto magoado,/ Disse tudo sem fingir./ Poeta da liberdade./ Fiz dessa nova deidade/ A dama do meu pensar

Dificilmente conseguimos imaginar hoje a popularidade de que gozou à época a poesia de Palmeirim recitada e declamada em privado e em público.

 A tranquilidade da vida e o progresso material conhecidos na sociedade portuguesa com a Regeneração, acontecida pouco depois da publicação da primeira edição destas poesias, recolocaram socialmente os tipos populares nela saudados, vindo a empurrar para o esquecimento estes poemas de exaltação do heroísmo ditados pela guerra civil e suas peculiaridades.

Poesia maioritariamente escrita nas formas populares de sextilhas e décimas, em versos de cinco (redondilha menor) e sete sílabas (redondilha maior), o ritmo da métrica e a sonoridade da rima proporcionam uma leitura fluida e encantatória, onde a singeleza de ideias e assunto garantem uma aprazivel leitura.

Dir-se-á que hoje se pede mais à poesia. Talvez. Mas o prazer de leitura que esta proporciona permanece à nossa espera.

Poesia

 Vou cantar, foi minha sina

Cantando levar a dor:

Hei-de cumpri-la. É divina

A missão do trovador.

Quiz-me Deus por seu profeta,

Fadou-me, fez-me poeta,

Deu-me este mago condão;

Não hei-de mentir à lira,

Nem envolver na mentira

As vozes do coração.

 

Não hei-de; que a poesia

Dentro d’alma me nasceu,

Tão casta como a sentia

O namorado Dirceu.

Tão pura como desliza

Das palavras d’Heloísa

A descrever Abeilard;

Tão robusta, tão provada,

Como contam da espada

Do Camões – a guerrear!

 

Brotou-me puro e singelo

O meu singelo trovar,

Como nasce o lirio belo

Sem cultura à beira-mar.

Nunca teve outro cimento,

Que não fosse o sentimento

D’este mundo desleal;

Nunca teve outra alegria,

Senão em sonhar um dia

Venturas a Portugal.

 

Cantei em trovas sentidas,

Como cantou Bernardim,

Todas as juras mentidas

Que me fizeram a mim!

Fui poeta dos amores;

Como os demais trovadores

Uns lindos olhos cantei;

Como a Tasso desprezado,

Ainda não sei, coitado!

Como à vida me voltei!

 

Mas voltei; tinha saudades

Da minha terra infeliz,

Esqueceram-me as maldades

D’esta nova Beatriz.

Tinha prisões mais doiradas:

Eram as crenças herdadas

Da minha terra natal;

Eram os contos viçosos,

Noutros tempos mais ditosos,

Contados de Portugal.

 

Era tudo o que no peito

Sente quem tem coração;

Era temporal desfeito

De saudades e de paixão;

Ao amor faziam guerra,

As lembranças desta terra

Em que vi, gozei a luz;

Em que, pela vez primeira,

Tive crença verdadeira

Na santa lei de Jesus.

 

Nascera-me dentro d’alma

Um mais forte e puro amor.

Que a todos levava a palma,

Que tinha maior valor.

Eram cantos decorados,

Dos altos feitos marcados

Com o cunho português;

Eram as quinas erguidas,

Nas arestas denegridas

De Ceilão, Ormuz e Fez!

 

De novo voltei à vida,

Saudei o luso pendão,

Numa lágrima nascida

Do fundo do coração!

Chorei o tempo perdido

Nesse amor estremecido,

Que me fora tão cruel;

Chorei antigos delitos,

Como outrora esses proscritos

Sobre a terra d’Israel!

 

Chorei o ter-me esquecido

De tudo o que Deus mandou

Que fosse no mundo tido

Como Ele o ensinou!

Chorei sobre a liberdade,

Que nos braços da beldade

Por pouco que não morreu;

Chorei tudo, chorei tanto,

Que pude com o meu pranto

Lavar o delito meu.

 

Desde então a minha terra

Foi só tudo para mim;

As crenças que o peito encerra,

Depôr-lhas aos pés eu vim.

Nunca mais a minha lira

Se adornou de vã mentira

Dum falso mentido amor;

Ergui-me de pé – altivo,

Depuz ferros de cativo

Por honra do trovador.

 

Sou um poeta soldado,

Não sei à missão mentir;

Neste canto magoado,

Disse tudo sem fingir.

Poeta da liberdade.

Fiz dessa nova deidade

A dama do meu pensar:

Prostrei-me aos pés da donzela,

Hei-de com ela, e por ela,

A minha terra cantar.

 

Hei-de, sim, que as rudes falas

De soldado as puz aqui;

Mentiras que são das salas,

Nunca eu as traduzi.

Não as sei – nem que soubera,

Nestes versos as pusera,

Que todos verdades são;

Nem tem lugar a mentira,

Traduzindo aqui na lira

As vozes do coração!

Para a biografia do poeta remeto o leitor para o competente e informado artigo PALMEIRIM, LUÍS AUGUSTO (XAVIER) de F. Freitas Morna publicado no DICIONÁRIO DO ROMANTISMO LITERÁRIO PORTUGUÊS  editado pela Caminho em 1997.

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Deus e a segunda geração romantica: uma abordagem

25 Quarta-feira Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Almeida Garrett, Camilo Castelo-Branco

IGNOTO DEO

D.D.D.

Creio em ti, Deus: a fé viva

De minha alma a ti se eleva.

És: o que és não sei. Deriva

Meu ser do teu: luz … e trevas,

Em que – indistintas! – se envolve

Este espírito agitado,

De ti vem, a ti devolve,

O Nada, a que foi roubado

Pelo sopro criador

Tudo o mais, o há-de tragar.

Só vive de eterno ardor

O que está sempre a aspirar

Ao infinito donde veio.

Beleza és tu, luz és tu,

Verdade és tu só. Não creio

Senão em ti; o olho nu

Do homem não vê na terra

Mais que a duvida, a incerteza,

A forma que engana e erra.

Essência!  A real beleza,

O puro amor – o prazer

Que não fatiga e não gasta…

Só por ti os pode ver

O que inspirado se afasta,

Ignoto Deus, das ronceiras,

Vulgares turbas: despidos

Das coisas vãs e grosseiras

Sua alma, razão, sentidos,

               A ti se dão, em ti vida,

E por ti vida têm, eu, consagrado

A teu altar, me prostro e a combatida

Existência aqui ponho, aqui votado

Fica este livro – confissão sincera

Da alma que a ti voou e em ti só spera.

O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.

Isto escrevia Almeida Garrett na apresentação de Folhas Caídas, o seu último livro de poesia a que já nos referimos quando começámos este blog de percurso imprevisível.

Regresso a ele para, com o poema de abertura do livro a um deus desconhecido, discretear sobre a presença de Deus na poesia romantica da segunda geração, escrita em português.

Sendo os poetas da geração romantica formados na matriz católica, o Deus invocado na sua poesia é sempre o Deus dos cristãos.

Para além das manifestações de fé poetisadas em torno do acredito porque acredito, surgem aqui e além outras formas de refletir poeticamente sobre Deus, de que a obra-prima absoluta será este IGNOTO DEO.

Mas enquadrado neste poetar com Deus em fundo, surge uma vasta produção que se estende até final do século, comentando os vicios e desmandos, e também algumas santas vidas, de um clero rural ou urbano presente na sociedade portuguesa durante séculos.

O interesse, hoje, desta produção poética é histórico, sendo que uma vez por outra a qualidade da factura e da inspiração fazem esses poemas merecedores de lembrança.

É já passado o romantismo, na sua definição histórico-literária, que encontramos a realização maior neste tema com A Velhice do Padre Eterno de Guerra Junqueiro, onde se inclui o poemeto O Melro, que já aqui referi como um hino por excelência à liberdade.

Nestes primordios dos anos 50 de oitocentos, quando Garrett publicou o seu IGNOTO DEO, é a poesia de Camilo Castelo Branco, reunida em Inspirações de onde destaco A Harpa do Céptico e e nos ciclos de poemas O JUIZO FINAL E O SONHO DO INFERNO,  ou ainda em HOSSANA! PARÁFRASE DOS SETE SALMOS PENITENCIAIS, que documenta as variadas perspectivas do sentir da segunda geração romantica sobre a religião e as suas praticas envolvendo a intermediação eclesiástica, e dando conta das interrogações juvenis sobre a crença. Camilo à época era um moço com menos de 30 anos.

Não fica o assunto esgotado e outras produções poética visitaremos.

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Os treze anos – o poema de António Feliciano de Castilho e a voz de Amália

11 Quarta-feira Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Convite à música, Poesia Antiga

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Amália, António Feliciano de Castilho

Neste passeio pela poesia dos românticos faço hoje paragem em António Feliciano de Castilho (1800 – 1875) acompanhado de Amália Rodrigues.

A personalidade literária e humana do poeta é de tal forma gigantesca e o domínio que exerceu sobre o panorama literário português e brasileiro nos 50 anos da vida activa foi tal, que seria estulticia pretender abordá-lo em poucas linhas. Lá virá com o cuidado que merece.

Hoje apenas transcrevo na integra o poema OS TREZE ANOS, cantilena como o autor sub-titulou, composto aos 40 anos, em 1840, e que Amália cantou parcialmente como Pedro Gaiteiro com a musica de Alain Oulman.

Pedro Gaiteiro na voz de Amália

https://s3-eu-west-1.amazonaws.com/viciodapoesiamedia/Am%C3%A1lia+Rodrigues+Maldi%C3%A7%C3%A3o+02+pedro+gaitero.mp3

OS TREZE ANOS

 Cantilena

Hortas da calçada do duque, Páscoa do espírito santo de 1840

Já tenho treze anos, / Que os fiz por Janeiro:

Madrinha, casai-me, / Com Pedro gaiteiro.

 

Já sou mulherzinha; / Já trago sombreiro;

Já bailo ao domingo / Co’as mais no terreiro.

 

Já não sou Anita, / Como era primeiro,

Sou a senhora Ana, / Que mora no outeiro.

 

Nos serões já canto, / Nas feiras já feiro,

Já não me dá beijos / Qualquer passageiro.

 

Quando levo as patas, / E as deito ao ribeiro,

Olho tudo à roda / De cima do outeiro,

 

E só se não vejo / Ninguém pelo arneiro,

Me banho co’as patas / Ao pé do salgueiro.

 

Miro-me nas águas / Rostinho trigueiro,

Que mata d’amores / A muito vaqueiro.

 

Miro-me olhos pretos / E um riso fagueiro,

Que diz a cantiga / Que são cativeiro.

 

Em tudo, madrinha, / Já por derradeiro

Me vejo mui outra / Da que era primeiro.

 

O meu gibão largo / D’arminho e cordeiro

Já o dei à neta / Do Brás cabaneiro,

 

Dizendo-lhe – Toma / Gibão domingueiro,

D’ilhoses de prata, / D’arminho e cordeiro.

 

A mim já me aperta, / E a ti te é laceiro;

Tu brincas co’as outras, / E eu danço em terreiro.

 

Já sou mulherzinha, / Já trago sombreiro;

Já tenho treze anos, / Que os fiz por Janeiro.

 

Já não sou Anita, / Sou a Ana do outeiro;

Madrinha, casai-me, / Com Pedro gaiteiro.

 

Não quero o sargento, / Que é muito guerreiro,

De barbas mui feras, / E olhar sobranceiro.

 

O mineiro é velho; / Não quero o mineiro:

Mais valem treze anos / Que todo o dinheiro.

 

Tão pouco me agrado / Do pobre moleiro,

Que vive na azenha / Como um prisioneiro.

 

Marido pretendo / De humor galhofeiro,

Que viva por festas, / Que brilhe em terreiro.

 

Que em ele assomando / Co’o tamborileiro,

Logo se alvorote / O lugar inteiro.

 

Que todos acorram / Por vê-lo primeiro;

E todas perguntem / Se ainda é solteiro.

 

E eu sempre com ele, / Romeira e romeiro,

Vivendo de bodas, / Bailando ao pandeiro.

 

Ai, vida de gostos! / Ai céu verdadeiro!

Ai Páscoa florida, / Que dura ano inteiro!

 

Da parte, madrinha, / De Deus vos requeiro;

Casai-me hoje mesmo / Com Pedro Gaiteiro.

 

OS TREZE ANOS foi publicada em 1844 no livro Escavações Poéticas, livro que o próprio autor chama no prólogo … um museu de fragmentos desconexos.

Num poema em que o autor faz correr a inspiração para um retrato de adolescente, a sua versificação sem mácula ganha um sabor genuinamente popular.

OS TREZE ANOS não é um poema representativo da obra poética de António Feliciano de Castilho (1800 – 1875), embora estas criações de aparente desenfado surjam uma  vez por outra entre os diversos exercícios poéticos a que se entrega, pretendendo plasmar em português uma arte poética solidamente teorizada.

Noutra ocasião à sua poesia voltarei.

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Meditação poética sobre A Nuvem em 1847

10 Terça-feira Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Luis Correia Caldeira, O Trovador cabr

Com a poesia romântica encontramos pela primeira vez, na literatura em português, a emoção da natureza e da paisagem.

Embora na poesia arcádica a paisagem estivesse presente, e mesmo antes, nomeadamente nas éclogas, tratava-se de um cenário para enquadrar a emoção amorosa do(s) protagonista(s).

É em Glaura: Poemas Eróticos, livro de poemas do brasileiro Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749 – 1814) que a natureza e a paisagem surgem a disputar a  primazia ao relato dos acidentes da paixão, num registo ainda respeitador do cânone arcádico.

Com os românticos, sobretudo da segunda geração, a paisagem e a variedade da natureza são o objecto mesmo da emoção poética.

O luar, a voz e os humores do oceano, a montanha, a variedade da luz no ciclo solar, as paisagens e sons familiares da infância, tudo isto se torna assunto de poesia de par com o questionamento do eu, num registo de meditação, de uma emoção fugaz, de uma saudade.

Ilustro estas considerações com um notável poema A Nuvem, retirado de O Trovador


A NUVEM

Pelo sol ainda afagada,

Pequena nuvem dourada

Vai adejando apressada

Lá nas campinas do ar.

D’onde vens, ó nuvem pura,

Co’a viração, que murmura

Na montanha na verdura,

Na face argentea do mar?

 

Nas asas do meio dia

Vens tu acaso sombria

Perder-te em melancolia

Nos campos de Portugal?

Vens do Tejo ver as flores?

Ou vens matar-me d’amores

Ao rever as tuas cores

No Mondego de cristal?

 

Tu, que os braços vaporosos

Em brancos flocos mimosos

Estendes tão amorosos

Lá para o setentrião;

Vais nos gelos de brilhantes,

Em caverna de diamantes,

Ver uns olhos cintilantes,

Que prendem teu coração?

 

Vais matar uma saudade

Entre a neve em soledade,

Ou vais travar amisade

C’uma estrela glacial?

Ou no polo diamantino

Vais vestir-te d’ouro fino

Lá no brilho purpurino

D’uma aurora boreal?

 

Quanto invejo, ó nuvem leve,

Tuas asas cor de neve,

E o beijo que o céu te deve

D’essas roupas de marfim!

Quanto invejo os vôos teus

Pelos caminhos dos céus,

E o meigo sorrir de Deus

Nesse raio carmesim!

 

Lá do espaço nos retiros

Onde fazes os teus giros,

Não ouves tu os suspiros

Que te envia o trovador?

Ou tu lá nessas alturas

Não te doem magoas duras;

Nem afectos nem ternuras,

Nada move o teu amor?

 

Oh! se à terra tu baixando

Me conduzisses voando

No seio macio e brando

Às etéreas regiões!

Ou se ao menos c’um gemido,

Da pobre lira saido

A um ente estremecido

Desses as minhas canções!

 

Mas tu roças o horizonte,

Ao norte levas a fronte,

Vais já mui longe do monte

Em que te vi despontar;

Corre, corre, ó nuvem pura,

Co’a viração que murmura

Da montanha na verdura,

Na face argentea do mar.

 

Corre, voa, que a tormenta

Sobre as montanhas se assenta,

Já o trovão arrebenta

Nas serranias do norte;

Corre, vôa, que o bafejo

Que ora te dá doce beijo,

Pode num rápido ensejo

Mudar-se em tufão de morte!

Outubro de 1847

Luis Correia Caldeira


Luis Correia Caldeira (1827 – 1859) é hoje um poeta esquecido, com referência fugaz em entrelinhas ou notas de rodapé nas histórias da literatura. Morreu novo, com 32 anos. Foi curta a vida para o génio que os contemporâneos lhe viam.

Ficou-nos uma produção poética escassa, espalhada por revistas da época, de dificil acesso, em que O Trovador recolhe cinco de um período pouco além da adolescencia.

Poesias como A Voz do Oceano ou os poemas que o poeta antevia publicar em Flores da Biblia quais sejam Mar Morto, ou sobretudo Jerusalém, constituem um conjunto raro na poesia portuguesa, e do melhor escrito em português à época, pela elegância do verso, pela originalidade da ideia e pela emoção em crescendo a que a sua leitura conduz.

A extensão destes poemas inviabiliza a sua transcrição no blog. Fica o alerta para os curiosos se porventura com este nome se depararem.

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Os economistas e o senso comum – uma fábula de Henrique O’Neill

09 Segunda-feira Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Camões, Henrique O'Neill

Certo bacharel formado

Depois de muita canseira

Voltou a casa enfronhado

Na ciência financeira,

Com fumaças de estadista,

De sagaz economista,

Inventor de panaceias,

De altos e belos

Castelos,

Tendo só por fundamento

As movediças areias.

A mãe nele se revia

Ao ver tão grande talento.

O pai, que pouco sabia,

Mas tinha clara razão,

Deu-lhe um dia

Uma lição.

Estavam todos três sentados

A jantar.

Vêm franguinhos assados,

Mas só dois; o que notar

O velho fez à mulher.

Quis mostrar

O seu saber

Dizendo então o rapaz:

– “Onde há dois há um também

Que, com os outros, três perfaz.”

Volta-lhe o pai: – “ Dizes bem:

Come pois tu o terceiro,

Que o segundo e o primeiro

Como-os eu mais tua mãe.”

 

Estou velho. E em toda a vida

Sempre vi que nesta lida

De provar

Que pode um povo gastar

À larga mais do que tem,

O futuro antecipando,

Andavam economistas

(ou modernos alquimistas)

Até que vinha a verdade,

Sem piedade

Com tudo em terra pregando,

Fatalmente conseguir

Ficarem  poucos a rir

E a maior parte a chorar.

 

Ou cedo ou tarde descamba

Quem dançar

Na corda bamba.

 

Henrique O’Neill publicou esta fábula na 1ª edição do seu livro In Memorian, em 1887, saído sem identificação do autor.

In Memorian é um livro de poesias e 53 fábulas. Terá havido um 2ªedição do livro em 1889 (que não conheço), de onde foram retiradas as fábulas e acrescentadas mais poesias.

A parte monumental da obra de Henrique O’Neill, é o Fabulário, gigantesca colecção de mais de 300 fábulas, umas de invenção própria, outras adaptadas de assuntos conhecidos desde Esopo e Fedro, que continuam a ler-se, na sua maior parte com o encanto da memória da infância.

Poeta do grupo O Trovador, sobre a sua poesia correm alguns juizos, talvez apressados, de negrume e morbidez, ao não realçarem a ironia que subjaz muitos dos seus poemas.

Como exemplo transcrevo o soneto À minha perna:

À MINHA PERNA

Depois de trinta dias de doença que teve o autor

seis meses de cama e o deixou coxo

Perna minha gentil, nunca te viste

Tanto tempo estendida em cama quente;

Não te vás amuar eternamente

Nem fique eu num só pé, cegonha triste.

 

Desceste escadas tantas e as subiste

A dois e dois degraus, perna valente;

E agora há trinta dias estás doente,

Diabo-coxo a ser me reduziste!

 

Vê lá, cruel, se pode merecer-te

Alguma cousa a desgraçada irmã

Com o peso todo d’este corpo inerte.

 

Se de todo a ciência não for vã:

Possa eu, perna minha, sempre ver-te

Fugir-lhe, caso um dia ficas sã.

O leitor, mesmo desprevenido, terá reparado como o eco do soneto de Camões, Alma minha, gentil, que te partiste, percorre todo este soneto À minha perna, numa saborosa brincadeira entre as perdas: da amada para Camões, da perna para O’Neill.

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Liberdade, um poema romântico

03 Terça-feira Maio 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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A. de Serpa, O Trovador

O único propósito pelo qual o poder pode ser exercido rectamente sobre um qualquer membro de uma comunidade, contra sua vontade, é como forma de prevenir danos sobre outrem…

Sobre si próprio, sobre o seu próprio corpo ou mente, o individuo é soberano.

Apenas há pouco mais de 150 anos foi a ideia de liberdade formulada nestes termos, e foi John Stuart Mill quem a organizou na forma filosófica em que hoje a discutimos.

Publicado em 1859, On Liberty não mais deixou de interrogar os homens confrontando-os com os valores morais que legitimam o ser humano.

No entanto, antes desta notável organização argumentativa, o conceito apresentava-se difuso e dificilmente articulável entre a esfera pessoal, a esfera social, o individuo e o colectivo.

Reflexo desta debilidade conceptual é o poema que hoje escolhi.

A geração que viveu a juventude na primeira metade do século XIX em Portugal, conheceu, vividos ou por memória próxima, os conturbados 50 anos entre as invasões francesas e o triunfo final do constitucionalismo.

Nesta viragem do mundo antigo para uma sociedade nova, triunfou literariamente o romantismo.

Nos seus propósitos de incorporar uma identidade nacional e construir uma linguagem artistica próximo do povo, surgiram criações poéticas despidas de sofisticação conceptual ou de linguagem, mas onde, ainda hoje, encontramos uma saborosa atmosfera de simplicidade.

A versificação aproximou-se das fórmulas populares, os assuntos retomaram a ingenuidade dos romances contados à lareira, a rima procurou-se sonora, e o resultado faz com que a leitura flua. Lidos sem preconceitos de escola ou ideologia, muitos destes poemas proporcionam ao amante de poesia genuinos momentos de prazer.

Em Liberdade, por qualquer padrão uma poesia menor, o atabalhoado dos conceitos e a cadência das imagens, escolhidos com um propósito de metrificação, acaba por nos revelar um jovem a quem a eloquência poética faltou, mas onde o confuso conceito de liberdade espreita para dominar a vida adulta.

Liberdade

Liberdade, nome santo,

Meu primeiro, doce canto,

Minha sacra inspiração,

Nome em glória e sangue imerso,

Que eu ouvia inda no berço

Pronunciar com devoção.

 

Liberdade, eco bendito,

Doce sonho do proscrito,

Do cativo entre grilhões,

Doce sonho d’esperança,

Sonho, às vezes de vingança

Nesta quadra de traições.

 

Mega estrela d’almo[i] alento

Baptizada em mar sangrento,

Ora envolta em claro véu,

Ora pálida, amarela,

Como a lâmpada, que vela

Junto à cruz do mausoléu.

 

Sonho, estrela, nome ou canto,

Que os mortais adoram tanto,

Que adorado sempre tem,

Que adorou já Roma e Grécia,

Que pregou Bruto e Lucrécia,

E o senhor nado em Belém.

 

Liberdade, virgem linda,

– Virgem sim, que ousado ainda

O mortal te não gosou,

– Eu te adoro, ó liberdade,

Como Deus ama a verdade,

Como Cristo a Deus amou.

 

Eu te adoro, virgem bela,

Como a noite adora a estrela,

Como o aflito as solidões,

Como Newton o infinito,

– Como a patria ama o proscrito,

Como a pátria amou Camões;

 

Como a mãe adora o filho,

Como a flor da aurora o brilho,

Como a luz da aurora a flor,

Como o árabe o deserto,

O pirata o mar incerto,

De que é rei, de que é senhor.

 

Adorei-te, ó liberdade,

Quando em frágil, terna idade

– Deus e mãe – balbuciei,

Quando a mãe – Deus – me dizia;

Quando infante eu não sabia

Vã ciência que hoje sei.

 

Quando vi a vez primeira

Vir bater, bater na beira

Livre a onda, livre o mar:

Quando rir, farto e contente,

Vi o rico, e o indigente

Pedir pão e soluçar.

 

Quando após calmoso dia

Ia só, cismar eu ia

Sonhos vãos, doces visões:

Quando negra estava a noite,

Quando o vento era um acoite,

Dando voz às solidões.

 

Quando a meiga donzela,

Mais que o sol, que a aurora bela,

Quando a vez primeira amei,

Quando tive um vão desejo,

Quando quis furtar-lhe um beijo,

Quando ingrata lhe chamei.

 

Quando vi seu riso brando,

Suas lágrimas e quando

Pranto e risos lhe volvi:

Quando em tardes d’almo estio

Fui sentar-me ao pé do rio

No país onde nasci.

 

No murmúrio da corrente,

No raiar do sol ardente,

Nos vãos sonhos que eu sonhei,

No fragor da tempestade,

Sempre, sempre, ó liberdade,

Sempre, sempre, te adorei.

 

Nos sorrisos da donzela,

No fulgir da pura estrela,

Nos rocios[ii] da manhã,

No tugúrio que defeca,

No cair da folha seca,

No pairar da sombra vã.

 

No som do ermo campanário,

Que flutua ao sôpro vário

Da ligeira viração,

No rezar das preces santas,

No tufão que açoita as plantas,

No som rouco do trovão.

 

Liberdade, a luta imensa

Que revolve o mundo, é crença

Na tua santa, eterna lei;

Quando a terra, o céu divino,

Soltam juntos o teu hino,

O teu hino eu cantarei.

 

O clamor da humanidade

Diz bem alto – Liberdade,

Como a brisa, o vento, a flor.

Minha voz não é tão forte,

Mas serei até à morte,

Liberdade, o teu cantor.

 

O autor do poema foi A de Serpa (António de Serpa Pimentel (1825 – 1900)  membro do grupo de O Trovador. Nasceu em Coimbra, onde estudou matemática. Foi professor da Escola Politécnica, chefe do Partido Regenerador a seguir à morte de Fontes Pereira de Melo, ministro de várias pastas e chefe do governo formado na sequência do Ultimatum Inglês de 1890.

Como nota de actualidade refiro que o nosso poeta, enquanto politico activo a partir da queda de Costa Cabral em 1851, teve a iniciativa de propôr a criação da Caixa Geral de Depósitos em meados da década de 70.

Os seus poemas foram reunidos em Poesias (1851).

Este poema Liberdade foi publicado em 1849 a abrir o livro COLLECÇÃO DE POESIAS, com poemas de vários jovens autores, numa edição da Imprensa Nacional.


[i] criador

[ii] orvalho

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Herois e fantasias medievais de regresso com um poema-versão de Alexandre Herculano (1810 – 1877)

30 Sábado Abr 2011

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Alexandre Herculano

O universo medieval, nos seus valores, onde se movem herois maiores que a vida cruzando o sobrenatural, continua popular. É ver o exito actual nos EUA da série Game of Thrones, depois do sucesso planetário, e também em Portugal, da saga literária Song of Ice and Fire de George R.R. Martin que lhe deu origem.

Para quem, como eu, segue as aventuras do Robin dos Bosques de Errol Flynn com um entusiasmo infantil, se embeveceu na adolescência com as aventuras escritas por Sir Walter Scott, e hoje vibra com a paixão e loucura de Lucia di Lammermoor na opera do mesmo nome, encontrar a poesia romântica do primeiro século XIX de atmosfera medieva, onde damas e cavaleiros vivem paixão, ciúme e morte, assombrados por fantasmas de amantes preteridos, é como a descoberta de um novo escritor policial, um prazer inesperado.

Levado por esse prazer, transcrevo hoje a versão livre que Alexandre Herculano (1810 – 1877) fez sobre um poema de M. G. Lewis, Afonso e Isolina, respeitando a sequência do argumento.

 Afonso e Isolina

Balada livremente traduzida do inglês de Lewis pelo Sr. Alexandre Herculano de Carvalho

1

De Isolina a mui formosa

Já se parte o seu guerreiro

–  A Palestina me chama,

Adeus que sou Cavaleiro.

 

2

Sinto senhora, os teus choros,

E nessas lágrimas creio:

Mas hei medo a novo amante,

De inconstâncias me arreceio.

 

3

– Afonso não te arreceies

Não tens que te arrecear:

Juro amar-te vivo ou morto,

Mais ninguém me há-de gozar.

 

4

Tua sombra me apareça

Se eu quebrar o juramento,

Comigo se ponha à mesa

No dia do casamento.

 

5

Ali declare em voz alta

Que o seu direito requer:

Para o sepulcro me arraste,

Gritando – és minha mulher… –

 

6

Largos anos são passados,

Quando extremado infanção

De Isolina a mui formosa

Se afoita a pedir a mão.

 

7

Graças e amores são prendas,

Nele Isolina as vê todas:

Finezas quebraram juras:

Grande turba acode às bodas.

 

8

Rompem com o banquete aplausos,

Aplausos à noiva bela,

Quando entra desconhecido

Que vem sentar-se ao pé dela.

 

9

Seu ar de agoiro, armas negras,

Altura descomunal,

Intimam geral respeito

Infundem terror geral.

 

10

Ninguém conhecê-lo pode

Que o elmo bem o encobria;

Voltado contra Isolina,

Imovel, nada dizia.

 

11

Isolina, a mui formosa,

Convulsa esta fala fez:

– Erguei, Senhor, a viseira,

Deixai a triste mudez.

 

12

Em dia de regozijos

Que vindes vós agoirar?

Cavaleiro que assim usa

Não sabe as armas honrar. –

 

13

Fez-lhe o incógnito a vontade.

Toda a sala absorta pasma!

Que levantada a viseira,

Se viu medonho fantasma.

 

14

Pálido, em pé, e crescendo,

Diz à trémula Isolina: –

Lembrada estarásd de Afonso

Que morreu na Palestina.

 

15

Fugir de novos amores

Outrora lhe prometias,

Juravas que, vivo ou morto,

Leall te conservarias.

 

16

Tu me convidaste à boda,

O teu convite aceitei:

Palavras que me hás ditado

Palavras são que eu direi

 

17

Meu fantasma aqui declara

Que o seu direito requer:

Para a cova me acompanha,

Vem, vem, que és minha mulher… –

 

18

Com a torpe mão arrasta

A infiel que em vão bradava:

Nenhum deles já se via,

Seu clamor inda soava.

 

19

Em prantos de noite e dia

Breve o Infanção se finou:

Lá no Castelo desero

Ninguém depois habitou.

 

20

Salvo que nas longas noites

Noiva em pranto ali se via.

E trás ela hediondo espectro

Que nas garras a prendia.

Noticia bibliográfica

Este poema não foi recolhido nas Poesias de Alexandre Herculano pela primeira vez publicadas em 1850, e onde o autor reuniu a sua produção poética.

 O poema foi publicado em 1836 pela Tipografia Lisbonense inserido no livro.

“A Noite do Castelo e os Ciúmes do Bardo, Poemas seguidos da Confissão de Amélia traduzida de Mlle Delfine Gay”.

As obras do livro são da autoria de António Feliciano de Castilho, e é o próprio quem, em extensa nota, explica a coincidência de o seu poema A Noite do Castelo versar o mesmo assunto do poema de Lewis, e qual a forma como tal veio ao seu conhecimento através de Alexandre Herculano. Daí a inclusão desta versão de Alonzo e Imogene, em português Afonso e Isolina, no livro.

O poema original Alonzo e Imogene foi inserido no romance The Monk, de Matthew Gregory Lewis, publicado em 1796, e encontra-se no seu capitulo 9. O poema surge na história apenas para impressionar os protagonistas, não a integrando no seu desenvolvimento ficcional.

The Monk  é um romance gótico-fantástico contemporâneo dos romances de Ann Radcliff, e faz parte de um género ficcional popular à época, e a seguir desenvolvido por Mary Shelley em romances ainda hoje famosos como Frankenstein.

Os romances de Ann Radcliff penso estarem hoje esquecidos ainda que na minha adolescência se encontrassem traduzidos nas edições Romano Torres, lado a lado com Walter Scott e outros.

Para o leitor curioso, e que domina a língua inglesa, aqui fica o que suponho ser a versão original do poema. A ressalva deve-se apenas a que não tive acesso à 1ªedição do livro e como tal, não garanto que tenha sido esta a versão que Alexandre Herculano conheceu quando do seu exílio em Inglaterra integrando o grupo de refugiados liberais.

A Warrior so bold, and a Virgin so bright
Conversed, as They sat on the green:
They gazed on each other with tender delight;
Alonzo the Brave was the name of the Knight,
The Maid’s was the Fair Imogine.

`And Oh!’ said the Youth, `since to-morrow I go
To fight in a far distant land,
Your tears for my absence soon leaving to flow,
Some Other will court you, and you will bestow
On a wealthier Suitor your hand.’

`Oh! hush these suspicions,’ Fair Imogine said,
`Offensive to Love and to me!
For if ye be living, or if ye be dead,
I swear by the Virgin, that none in your stead
Shall Husband of Imogine be.

`If e’er I by lust or by wealth led aside
Forget my Alonzo the Brave,
God grant, that to punish my falsehood and pride
Your Ghost at the Marriage may sit by my side,
May tax me with perjury, claim me as Bride,
And bear me away to the Grave!’

To Palestine hastened the Hero so bold;
His Love, She lamented him sore:
But scarce had a twelve-month elapsed, when behold,
A Baron all covered with jewels and gold
Arrived at Fair Imogine’s door.

His treasure, his presents, his spacious domain
Soon made her untrue to her vows:
He dazzled her eyes; He bewildered her brain;
He caught her affections so light and so vain,
And carried her home as his Spouse.

And now had the Marriage been blest by the Priest;
The revelry now was begun:
The Tables, they groaned with the weight of the Feast;
Nor yet had the laughter and merriment ceased,
When the Bell of the Castle told, — `One!’

Then first with amazement Fair Imogine found
That a Stranger was placed by her side:
His air was terrific; He uttered no sound;
He spoke not, He moved not, He looked not around,
But earnestly gazed on the Bride.

His vizor was closed, and gigantic his height;
His armour was sable to view:
All pleasure and laughter were hushed at his sight;
The Dogs as They eyed him drew back in affright,
The Lights in the chamber burned blue!

His presence all bosoms appeared to dismay;
The Guests sat in silence and fear.
At length spoke the Bride, while She trembled; `I pray,
Sir Knight, that your Helmet aside you would lay,
And deign to partake of our chear.’

The Lady is silent: The Stranger complies.
His vizor lie slowly unclosed:
Oh! God! what a sight met Fair Imogine’s eyes!
What words can express her dismay and surprize,
When a Skeleton’s head was exposed.

All present then uttered a terrified shout;
All turned with disgust from the scene.
The worms, They crept in, and the worms, They crept out,
And sported his eyes and his temples about,
While the Spectre addressed Imogine.

`Behold me, Thou false one! Behold me!’ He cried;
`Remember Alonzo the Brave!
God grants, that to punish thy falsehood and pride
My Ghost at thy marriage should sit by thy side,
Should tax thee with perjury, claim thee as Bride
And bear thee away to the Grave!’

Thus saying, his arms round the Lady He wound,
While loudly She shrieked in dismay;
Then sank with his prey through the wide-yawning ground:
Nor ever again was Fair Imogine found,
Or the Spectre who bore her away.

Not long lived the Baron; and none since that time
To inhabit the Castle presume:
For Chronicles tell, that by order sublime
There Imogine suffers the pain of her crime,
And mourns her deplorable doom.

At midnight four times in each year does her Spright
When Mortals in slumber are bound,
Arrayed in her bridal apparel of white,
Appear in the Hall with the Skeleton-Knight,
And shriek, as He whirls her around.

While They drink out of skulls newly torn from the grave,
Dancing round them the Spectres are seen:
Their liquor is blood, and this horrible Stave
They howl. — `To the health of Alonzo the Brave,
And his Consort, the False Imogine!’

 

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