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Category Archives: Poesia Antiga

Filosofia do amor (Love’s Philosophy) segundo P. B. Shelley

18 Quarta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Fragonard, P. B. Shelley

Ontem deixei um soneto de John Keats, hoje convido-vos a procurar o poema Adonais com que P. B. Shelley (1792-1822) homenageou Keats depois da morte. Amigo e contemporâneo de John Keats, Percy Bisshe Shelley, que também morreu jovem, considerava Adonais o seu melhor poema.
A extensão de Adonais e sua tradução são incompatíveis com o formato do blog pelo que vos sugiro o procureis na net, pelo menos o original. De Shelley, e em alternativa, deixo esta leitura da filosofia do amor, sorrindo com o que naqueles tempos era preciso fazer para conseguir um beijo, ainda que seja evidente ser outra coisa o que o poeta pretendia.

Filosofia do amor (Love’s Philosophy)

Todas as fontes com o rio se fundem
E os rios com o oceano;
Os ventos, pelos ares, uns aos outros se unem
Com fragrante emoção;
Nada fica sozinho neste mundo;
Tudo, por fado antigo,
Entre si se mistura e se confunde:—
Porque não eu consigo?

Olha! As montanhas beijam o firmamento,
A onda, a onda enlaça;
Nenhuma flor-irmã tem valimento
Se o irmão não abraça;
A luz do Sol envolve a terra à roda,
Raios do luar beijam os mares: —
Mas toda esta ternura que me importa
Se tu não me beijares?

Tradução de Herculano de Carvalho

Acrescento o original inglês para os leitores fluentes na língua de Shakespeare.

Love’s Philosophy

The fountains mingle with the river
And the rivers with the ocean,
The winds of heaven mix for ever
With a sweet emotion;
Nothing in the world is single;
All things by a law divine
In one spirit meet and mingle.
Why not I with thine?—

See the mountains kiss high heaven
And the waves clasp one another;
No sister-flower would be forgiven
If it disdained its brother;
And the sunlight clasps the earth
And the moonbeams kiss the sea:
What is all this sweet work worth
If thou kiss not me?

Abre o artigo com A Confissão de Amor de Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). A pintura pertence a um pequeno ciclo actualmente conhecido por Os Progressos do Amor. Aproveito e reúno-os sob esta bandeira poética de Shelley.

Temos primeiro A Perseguição ou A Insistência, como se preferir.

Segue-se-lhe O Encontro.

Temos depois A Confissão de Amor, mostrada a abrir o artigo, e finalmente surge-nos O Amor Coroado.

Esta pintura, reflexo e retrato de um mundo em extinção, goza hoje de pouca reputação, mais por razões ideológicas que estéticas. Olhada sem preconceito vê-se como a atmosfera de um mundo feliz reina nela para a eternidade, e sobre quem olha derrama um banho de prazer.

Há evidentemente a abordagem escolástica: pintura característica do período rococó bla, bla. Os interessados encontram as considerações em qualquer manual de iniciação à história da pintura e poupo os leitores à redundância. Apenas chamo a atenção para o equilíbrio na composição das massas pictóricas de onde provém o dinamismo e movimento que dá às pinturas uma vivacidade perene.

Amanhã haverá outro assunto.

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Paisagens campestres de John Constable (1776-1837) e soneto de John Keats (1795-1821)

16 Segunda-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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John Constable, John Keats

Embalado pela atmosfera campestre exalada dos poemas de Bulhão Pato que li para a escolha anterior, convido os leitores à poesia das paisagens pintadas por John Constable (1776-1837). Pintura herdeira da escola holandesa do século XVII onde a gente humilde ganha direito de cidadania, é a harmonia da vida campestre que aqui se faz assunto.
A algumas das pinturas de John Constable acrescento um detalhe especialmente eloquente da sua atmosfera poética.

Sendo esta pintura contemporânea da poesia de John Keats (1795-1821), o génio que morreu jovem, aproveito e transcrevo o seu soneto XVII.

Happy is England! I could be content
To see no other verdure than its own;
To feel no other breezes than are blown
Through its tall woods with high romances blent:

Yet do I sometimes feel a languishment
For skies Italian, and an inward groan
To sit upon an Alp as on a throne,
And half forget what world or worldling meant.

Happy is England, sweet her artless daughters;
Enough their simple loveliness for me,
Enough their whitest arms in silence clinging:

Yet do I often warmly burn to see
Beauties of deeper glance, and hear their singing,
And float with them about the summer waters.

Veja-se agora o detalhe. do motivo central.

Detalhe do motivo à direita.

Nesta pintura de 1810 é já a pincelada de Claude Monet que se insinua.

Termina aqui esta bucólica viagem pela vida no campo inglês no início do século XIX.

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Bulhão Pato no Monte da Caparica

15 Domingo Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Bulhão Pato

Apenas parcialmente reunida em livro, é vasta a produção poética de Bulhão Pato (1828-1912) espalhada pelas mais diversas publicações. O poeta aguarda ainda o antologiador sem preconceitos, que com gosto e munido de paciência, vasculhe a obra dispersa e dê a ler ao leitor de hoje aquele punhado de poemas que garantem ao autor um lugar na poesia portuguesa.

Da poesia que conheço de Bulhão Pato (1828-1912), e não é fácil conhece-la toda, tão dispersa ela se encontra, o melhor guarda-se no Livro do Monte publicado em 1896, e neste, os poemas arrumados em Geórgicas.

De Livro do Monte (e refere-se a Monte da Caparica onde o poeta viveu retirado os últimos anos de vida) escolho apenas dois poemas, e com eles espero abrir a curiosidade ao leitor para uma obra de qualidade desigual onde abundam as banalidades poéticas, mas onde uma mão cheia de poemas existem que apetece conhecer.

Deliberada homenagem a Virgílio, mas onde sobretudo o eco de Hesíodo e do seu Trabalhos e Dias se ouve, tanto os poemas escolhidos, como outros, são poemas sobre a terra e os homens. Sementeiras e colheitas, trabalhos e actividades de sobrevivência fazem a matéria poética das obras. Comovem e surpreendem, sobretudo quando se constata a constância do clima e prevalência das dificuldades das gentes na vida agarrada ao húmus.

Estiagem

O mar quieto. — Apenas vem
A vaga da maré cheia,
Na Costa, que fica além,
Roçar a espuma na areia.

Rufando as penas doiradas,
Vão as calhandras, palreiras,
Preando insectos, coitadas,
Por não ter um grão nas leiras!

O azul é denso; a luz viva.
O sol referve no mar,
Como na estação estiva.
Virá o tempo a mudar?

O lavrador pensativo –
Menos triste co’a esperança
Que este calor excessivo
Traga, de facto, a mudança.

Mas, quando rompeu o dia,
Era nítido o recorte
Do sol, e uma aragem fria
Vinha do lado do norte!

A lua, nas pontas curvas,
Não t em um ligeiro véu.
E nunca as estrelas turvas!
E sempre lúcido o céu!

Depois de passado Abril,
D’um ano assim não me lembro;
Nem a orvalhada subtil
Cai! — E vamos em Novembro!

Levou a ferocidade
Da canícula fatal
A minguada novidade
Da vinha e mais do olival!

É que o sol triunfador,
Em seis meses de estiagem,
Vai, como um conquistador,
Devastando na passagem.

*

O ganhão da Beira alpestre
Chegou da nativa serra,
Para o trabalho campestre.
Mas como amanhar a terra?

Não entra com ela o arado!…
Queimado o tojal nos montes!
Morto à fome e à sede o gado!
Secas ribeiras e fontes!

O sol alto a dardejar
Abrasou o prado e a selva!
E o cordeirito a balar
Sem ter um palmo de relva!

Não se ouvem cantar as noras…
Nem, no alfobre, umas verduras!…
Vêm repontando as auroras,
E cada em vêm mais puras!

*

O frio aumenta. Já silva,
Às refregas, o aquilão!
Nem no valado uma silva,
Para o cabrito saltão!

Atrás da vaca a novilha,
Já não pula na lezíra!
A mãe não sustenta a filha
Que o leite se lhe exaurira!

O boi bravo, na campina
Erguendo a fronte, pareçe
Que à Providência Divina,
Mugindo faz uma prece!

E até se dirá que tem,
Claramente, proferido
O próprio nome da mãe,
No doloroso mugido!

Sempre coisas misteriosas
Nas mais triviais verdades!…
Porque são joviais as rosas,
E tão tristes as saudades?

Canta, à tarde, um passarito —
E aquele singelo idílio,
Quem lho inspirou, do infinito,
Como um poema a Virgílio?

Trezentos mil eruditos,
Bem debruados de ateus,
Pondo esforços inauditos,
Não deitam abaixo Deus!

*

O lavrador crê e espera!
Hoje o sol ao mergulhar,
Levava enturvada a esfera,
E ao largo bradava o mar!

Morto o vento, de repente!
Tejo dentro, a calmaria!
Uma barra no ponente,
E, do nascente, a lestia!

Já retoiçaram na areia
Os maçaricos da praia.
Trouxe um circo a lua cheia:
Não tarda que a chuva caia!

Novembro de 1890

Inverno

Rondou o vento ao Sul, e é ríspida a lufada!
Temos, não há que ver, a invernia pegada!

Se nos fins do Verão caíram as brandiras,
Nem meia enxada d’água entrou nas terras duras.

Aqui há chão barroso, e chão tão apertado,
Que, sem água a fartar, não vai nem a machado!

Em baixo, ao rés da Costa, às folhas salgadias,
Qualquer chuva lhes basta, — e mau, se a s ventanias
Começam de puxar, que as vagas altaneiras
Alagam, no junção, vinhas e sementeiras!

Nas cepas, isso então — e mais depois das cavas —
É praga que lhes dá, o sal das ondas bravas!

Bem raro o lavrador tem dias sem cuidados;
No monte o tempo é um, outro nos descampados.
Só lhe leva a melhor, no rude labutar,
O marinheiro audaz, nas solidões do mar!

Mas no campo, contudo, há dias prazenteiros:
Agora o céu nublado, e os fortes aguaceiros,
São para o agricultor como manhã de rosas!

Venham chuvas ainda, e venham mais copiosas.
Por todo esse Alentejo, aos novos chaparrais,
Águas a desabar, são rara vez de mais!

Pode a cheia inundar os prados da lezíra;
Índa que venha a flux, por enquanto, não tira;

Com que respeite o gado, e deixe bom nateiro,
Não é nunca fatal antes de entrar Janeiro!

Cogitando em tudo isto, o lavrador, agora,
Alegre esfrega as mãos — e caia chuva, embora!

Porém o cavador, que vive só a enxada,
Como se há de amanhar, faltando-lhe a soldada?

Na casa do ganhão é que a invernia é séria!…
Uns dias sem trabalho… e basta! Entra a miséria!

Na cidade, no campo, enfim, seja onde for,
Para os pobres, a vida é quase sempre a dor!

Vamos a espairecer! Saltou o vento ao norte;
É lâmina da serra, e do mais fino corte!

Lá vem abrindo o sol! Toda a amplidão domina!
Só do vale o saúda o incenso da neblina!

Que animação no campo! A rápida caudal
Serpeia, pela encosta, em cobras de cristal!

No mimoso da várzea, e nas viçosas faldas,
Abrem floritas d’ouro, em chão que é d’esmeraldas!

Os cavalos beirões, de guizos chocalheiros,
Vêm de Sesimbra à venda; atrás os recoveiros.

Tiram o arado os bois. Nos altos e chapadas,
Desbravando o torrão, fuzilam as enxadas!

O passaredo alegre a revoar em bando;
Ao rés da choupanita as crianças brincando;
A mãe, sempre a lidar, ao sol corando as roupas,
Batidas ao sopé das desfolhadas choupas!

O carro gémeos chega dos estevais,
Carregado de tojo e ramas de pinhais.

As vacas no relvão, cabrilhas pelas fragas,
E toda azul ferrete, ao longe, a flor das vagas!

No escuro d’esta lua, a caça entra de certo.
Já saltou galinhola! O mato fica perto.

Deixai que alteie o sol, senão, com a geada,
Vão-se as ventas dos cães, e não fazemos nada!

Anos, e labutar, e lagrimas!… embora!
Auras da juventude, aspiro-vos agora!
Parece que, rompendo o sol na imensidade,
Rompe dentro de mim o sol da mocidade!

*

Na jardia e no souto, a entrada não foi grande;
Nem um pombo trocaz a procurar a glande!

Porém não falta ensejo,— até à Conceição,
Para entrada real, é próspera a sazão!

Agora palestrar, em volta da lareira,
Ao grato crepitar dos tors da azinheira!

Aperta, lá por fora, o límpido nordeste;
Caça de arribação gosta do tempo agreste.

Com sessenta e mais quatro, e quatro bem contados,
Inda rompo com alma os matagais fechados!

Quero que encham ver amanhã, praguentos,
Como bate o montado, a minha Tullia, a ventos!

Novembro de 1895

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A prostituição na poesia (5) – Niquita de Flandres, meretriz egrégia: poema de António Beccadelli, o Panormita (1394-1471)

12 Quinta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Convite à arte, Poesia Antiga

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António Beccadelli, Lucas Cranach

A mais antiga profissão do mundo tem sido assunto poético, de que o século XIX deixou numerosos exemplos, muitos deles de um moralismo repelente. As referências poéticas mais antigas à prostituição feminina são raras.
Este poema de António Beccadelli (1394-1471) dito o Panormita por ter nascido em Palermo na Sicília, conta-nos, pela vós da protagonista, do orgulho de uma profissão onde os juízos morais estão ausentes: apenas a ênfase no gosto de sexo por dinheiro se nota. Leia-se então este Epitáfio de Niquita de Flandres, meretriz egrégia

Se te demoras lendo estes gravados versos,
conhecerás a croia que é sepulta aqui.
Da pátria em que nasci, por vãs promessas falsas,
raptada fui, donzela, em tenra idade, um dia.
A Flandres me gerou, andei o mundo inteiro
até estabelecer-me nesta Siena plácida.
Meu nome, e conhecido, era Niquita. Fui
a estrela do bordel, entre as demais primeira.
Fui bela e fui graciosa, e perfumada, e tinha
mais alvo do que a neve o deslumbrante corpo.
Taís nenhuma em Siena melhor que eu movia
em sábios movimentos as vibrantes ancas.
Os homens minha língua em beijos exauria
dados ainda depois de consumado o gozo.
Coberto era o meu leito de uma colcha vasta,
e a minha mão aos nervos percutia branda.
Para lavar-me tinha uma bacia sempre,
e os flancos me lambia cadelinha mansa.
Uma noite, assaltou-me um bando de rapazes,
que me teve cem vezes, sem me saciarem.
Fui doce e amena, e a muitos minha arte era grata.
Mas mais doce me foi o quanto me pagavam.

Tradução de Jorge de Sena.

Entre os grandes mestres da pintura ocidental antiga, foi o nosso já conhecido Lucas Cranach o Velho (1472-1553), quem deixou algumas pinturas figurando a prostituição. Uma abre o artigo, com outras o fecho.

Termino com o que é um caso raro na pintura ocidental, a figuração provável da prostituição maculina.

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As Mulheres – versão de Gabriele D’Annunzio

12 Quinta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Botticelli, Gabriele D'Annunzio

Depois de tão longa ausência, regresso com As Mulheres, fonte de tanta da nossa alegria, contadas pela poesia de Gabriele D’Annunzio (1863-1938).

Serenas, alumiadas, tão frágeis, outras reacendendo-se de amor até à medula, de todas nos fala o poema, E maravilhosamente / eu as conheci.
(ao lembrá-lo ainda as veias me tremem de ternura) diz-se no poema com que esta evocação inominada termina.

As Mulheres

Houve mulheres serenas,
de olhos claros, infinitas
no seu silêncio,
como largas planícies
onde um rio ondeia;
houve mulheres alumiadas
de ouro, émulas do Estio
e do incêndio,
semelhantes a searas
luxuriantes
que a foice não tocou
nem o fogo devora,
sequer o dos astros sob um céu
inclemente;
houve mulheres tão frágeis
que uma só palavra
as tornava escravas,
como no bojo de uma taça
emborcada
se aprisiona uma abelha;
outras houve, de mãos incolores,
que todo o excesso extinguiam
sem rumor;
outras, de mãos subtis
e ágeis, cujo lento
passatempo
era o de insinuar-se entre as veias,
dividindo-as em fios de meada
e tingindo-as de azul marinho;
outras, pálidas, cansadas,
devastadas pelos beijos,
mas reacendendo-se de amor
até à medula,
com o rosto em chamas
entre os cabelos oculto,
as narinas como
asas inquietas,
os lábios como
palavras de festa,
as pálpebras como
violetas.
E houve outras ainda.
E maravilhosamente
eu as conheci.

Depois desta evocação passemos à memória de um especial encontro relatado nesta primeira elegia romana:

[Da Primeira Elegia Romana]

Quando (ao lembrá-lo ainda as veias me tremem de ternura)
meio ébrio saí de sua casa amada,

através de ruas efervescentes dos últimos labores do dia,
de rumores, carruagens, roucos gritos,

súbito senti, do fundo peito, toda a alma elevar-se,
cupidamente, e no alto vi, sobre os estreitos muros,

romper a ígnea zona por onde o crepúsculo do Outono,
céu húmido e vastas nuvens, incendiava Roma.

Nem da hora nem dos lugares me sentia consciente. Seria
um sonho falaz a possuir-me? Ou todas minhas cônscias

alegrias eram coisas a produzir em torno um insólito lume?
Não o sabia. Mas todas as coisas produziam lume.

Imóveis, ardiam as nuvens, e, qual sangue de monstros
assassinados, de seus flancos rompam rubros rios.

Abre o artigo com uma reprodução de O nascimento de Vénus de Sandro Botticelli (1445-1510), êxtase primeiro de uma remota visita em 1978 à Galeria Uffizi em Florença.

A pretexto, ou provocado por ela, escreveu Jorge de Sena os Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena publicados a fechar o livro Metamorfoses (Lisboa, 1963) e que convido o leitor a procurar.

Termino o artigo com 2 detalhes desta deslumbrante pintura:

Primeiro a personificação de Vénus (ou Afrodite para os Gregos), a deusa do amor,

depois o par  Zéfiro e Aura soprando a suave brisa que empurra para terra a deusa e a faz reinar entre os homens.

Noticia bibliográfica

Os poemas de Gabriele D’Annunzio (1863-1938) são traduções de David Mourão-Ferreira, publicados no volume III de Vozes da Poesia Europeia, Colóquio Letras nº165.

Sobre a vida e a obra de Sandro Botticelli, continua sem rival o estudo de Ronald Lightbown, publicado pela primeira vez em 1978 e sucessivamente reeditado, possuindo algumas das edições luxuoso complemento fotográfico.

Este Nascimento de Vénus possui 172,5 x 278,5 cm e terá sido pintado entre 1484-86.

 

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O poeta salvo pelo amor – 6 sonetos de Bocage

17 Domingo Jun 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Bocage, Francois Boucher

De Bocage, contemporâneo de Goethe de quem deixei antes o livro do amor, chegam hoje alguns sonetos escritos na graça peculiar da poesia arcádica, dando conta dos transtornos da paixão.
Sonetos onde a música do verso e a exemplaridade da construção estrófica se sobrepõem à estranheza para os nosso ouvidos do século XXI, desta particular forma de dizer.

De suspirar em vão já fatigado, o poeta sonha que a morte o visita. Mas não será aí o fim do poeta.

Ao ver a morte erguer Curva foice no punho descarnado, enquanto lhe dizia:

“Eu venho terminar tua agonia: / Morre, não penes mais, ó desgraçado.”

surge o deus Amor, e imperioso ordena à Morte:

“Emprega noutro objecto os teus rigores,
Que esta vida infeliz está guardada
Para vitima só de meus furores.”

Para aqui chegarmos, vamos primeiro acompanhar o poeta na descoberta do amor,

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

e no desejo da sua consumação:

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

(e já noutro dia, com o poema de Parny, vimos o que nesta poesia do século XVIII significa Destas copadas árvores o abrigo.)

Enquanto espera, consome-se nas ânsias loucas da paixão:

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.

Leremos do sofrimento sem esperança a que o amor conduz, fazendo o sofredor apenas desejar a morte:

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

para que no final, salvo dela pelo deus Amor, possamos participar da ansiedade com que aguarda a consumação sexual da sua paixão.

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz: longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores
Hei-de, enfim, possuir; porém segredo.

Durante a espera pede segredo aos ventos, Zéfiros, para que não levem a Júpiter o eco dos frouxos ais, brandos queixumes ouvidos durante o sexo, pois Júpiter, com a sua reputação de come tudo, irá querer reservar para si o banquete do amor de Nise:

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Nao leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o Pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.

Nos sonetos temos Marília, Nise, Jónia, nomes convencionais para uma mesma ou varias paixões. É irrelevante. São poesias desligadas de destinatário, onde apenas a forma de dar corpo ao sentimento conta. E esse, no século XVIII como agora, é o mesmo. Tal como é a mesma, a forma de o viver. Apenas como o exprimimos mudou.

Vamos então aos poemas que já é tempo.

I

Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu Fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!

Ó ledos olhos, cuja luz parece
Ténue raio do Sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vénus? É mentira:
Sois de Marília, sois dos meus Amores.

II

Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores,
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste.

Varrendo os ares o subtil Nordeste,
Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!

III

Enquanto o Sábio arreiga o pensamento
Nos fenómenos teus, ó Natureza,
Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
Volve o subtil geométrico instrumento;

Enquanto alçando a mais o entendimento,
Estuda os vastos céus, e com certeza
Reconhece dos astros a grandeza,
A distância, o lugar, e o movimento;

Enquanto o Sábio, enfim, mas sabiamente
Se remonta nas asas do sentido
À corte do Senhor omnipotente;

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.

IV

Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a Noite escura e feia:
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas costumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

V

De suspirar em vão já fatigado,
Dando tréguas a meus males, eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
Da Morte o gesto lívido e mirrado.

Curva foice no punho descarnado
Sustentava a cruel e me dizia:
“Eu venho terminar tua agonia:
Morre, não penes mais, ó desgraçado.”

Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada,
Que armado de cruentos passadores
Aparece, e lhe diz com voz irada:

“Emprega noutro objecto os teus rigores,
Que esta vida infeliz está guardada
Para vitima só de meus furores.”

VI

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz: longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores
Hei-de, enfim, possuir; porém segredo.

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Nao leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o Pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.

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Ovídio — tarde de amores

17 Quinta-feira Maio 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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David Mourão-Ferreira, Ovídio, Renoir

Sabe quem a pratica, do gozo, do aconchego da sesta. De toda a volúpia que o principio da tarde desvela após refeição prazenteira. Um peixe grelhado, um vinho, suculenta fruta em remate, e depois o leito.

E aperto-a contra mim… Que sucedeu depois?
Fatigados, por fim, repousámos os dois…

São segredos que as terras quentes conhecem desde a mais remota antiguidade, sobremaneira apetecidos nestas escaldantes tardes de verão. É a essa antiguidade que hoje vou buscar um relato poético de Ovídio (43 a.C – 17 d.C. ) dando conta dos prazeres de uma dessas tardes de prazer, e com o poeta comungo:

Que sempre se repita, em todos os meus dias,
um meio-dia igual a este meio-dia!

Eis a bela tradução de David Mourão-Ferreira (1927-1996)

Era intenso o calor. Do meio-dia passava.
Deitei-me sobre a cama a ver se repousava…
Na cerrada janela apenas uma fresta
permitia filtrar-se uma luz de floresta;
ou, antes, uma luz que mais par’cia irmã
da que antecede a noite ou precede a manhã…
É a luz que convém à jovem reservada,
para que em seu pudor não fique perturbada.

Eis que chega Corina, a túnica cingida,
sobre o pescoço branco uma trança caída…
(Semirámis? Laís? Dir-se-ia uma delas…
Só pode comparar-se às que foram mais belas!)
A túnica lhe arranco, embora de tão leve
nem sequer me constranja o tecido que a veste.
Tenta ainda lutar a fim de se cobrir,
mas o que mais deseja é deixar-se despir…
E quando fica, enfim, de pé, sem nenhum véu,
nem um defeito só vejo no corpo seu!
Oh, que ombros divinais! Oh, que braços divinos!
Que ventre tão perfeito! E que peitos erguidos!
Coxas tão juvenis! Ancas? Bem mais maduras…
Pra quê enumerar, se toda é formosura?
E aperto-a contra mim… Que sucedeu depois?
Fatigados, por fim, repousámos os dois…

Que sempre se repita, em todos os meus dias,
um meio-dia igual a este meio-dia!

Amores, Livro I, 5

Foi ao pintor da gente feliz, Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), que fui buscar a ilustração para esta bela memória poética.

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Versos de Parny e tradução portuguesa de E.A. Vidal

10 Quinta-feira Maio 2012

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga, Poesia Francesa, Poesia Portuguesa sec XIX

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E.A. Vidal, Parny

Chegados os dias de verão como o que hoje nos assaltou, surge uma irresistível vontade de correr para os parques e namorar à sombra das árvores.

Hoje, a vida urbana, os hábitos e a gente em redor, tudo está longe do que acontecia séculos passados. Apesar disso, desses tempos remotos chegam-nos por vezes relatos em que uma frescura quase nossa contemporânea se conserva. É o caso do poema que hoje vos trago, na versão original francesa do último quartel do século XVIII e a sua tradução/adaptação portuguesa de meados do século XIX.

Dá ele conta da inscrição numa árvore de um momento de felicidade irrepetível (?) e afinal, é ainda uma prática usual nos nossos dias.

VERSOS

Entalhados numa laranjeira
(Trad. de Parny)

Laranjeira que encobriste

Os meus êxtases d’amor,

Guarda em ti sempre estes versos:

São de ternura um penhor.

 

E dize aos que a tua sombra

Buscarem na primavera,

Que, se o júbilo matasse,

Há muito que eu já morrera!

Agosto de [18]64
 

O poema traduz, com adaptação, uma das POÉSIES ÉROTIQUES do Chevalier de Parny, publicadas em 1778 tinha o autor 25 anos.

A tradução, respeitando no espírito o original, muda a árvore de murta para laranjeira. No entanto, os dois últimos versos estão consideravelmente atenuados em relação ao original:

Que si l’on mouroit de plaisir, / Se de prazer se morresse,
Je serois mort sous ton ombrage. / À tua sombra eu já morrera.

Mas veja-se o poema original:

VERS GRAVÉS SUR UN MYRTE.

Myrte heureux, dont la voûte épaisse

Servit de voile à nos amours,

Reçois et conserve toujours

Ces vers enfans de ma tendresse;

Et dis à ceux qu’un doux loisir

Amènera dans ce bocage

Que si l’on mouroit de plaisir,

Je serois mort sous ton ombrage.

Como curiosidade refiro que, mais à frente no livro POÉSIES ÉROTIQUES, o poeta num outro poema apaga as inscrições na árvore, pois afinal “o tempo desuniu os corações que a casca da árvore ainda unia”.

A versão portuguesa do poema é de E. A. Vidal, na verdade Eduardo Augusto Vidal (1841-1907) e escreveu-a quando moço nos 23 anos.

Apresentado à sociedade e ao mundo por Bulhão Pato nas páginas da Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, Eduardo Augusto Vidal, que assina E. A. Vidal, aí deixou alguns poemas e prosas, das quais a segunda e terceira das Cartas Obscuras são um prodígio de graça, sobre o casamento de um Sr. Esperidião.

Este nosso poeta editou poesia em livro, Harmonias da Madrugada (1859), Folhas Soltas (1865) e Cantos do Estio (1868) de onde retirei o poema transcrito. A um talvez sucesso de estima seguiu-se um provavelmente merecido repouso de esquecimento que agora perturbei para trazer aos leitores do blog esta sua poesia.

 Sobre o autor do poema original, Chevalier Evariste de Forges de Parny  (1753-1814) hoje pouco se sabe e lê, ainda que tenha sido provavelmente popular entre os românticos portugueses, pela presença aqui e ali nas obras dos nossos poetas, de versões de poemas seus.

Deixo-vos com mais um poema de Parny, O Dia Seguinte, recolhido no mesmo conjunto de poesias eróticas, acompanhado de uma versão literal para os leitores não familiarizados com a lingua francesa.

Trata o poema do dia seguinte à estreia nos prazeres do sexo da nossa já conhecida Leonor, a qual, como seria de norma, ao doce remorso do “encantador pecado” acrescenta o desejo de a ele voltar.

Le Lendemain /O Dia Seguinte

” Enfin, ma chère Eléonore, / “Enfim, querida Leonor,

Tu l’as connu ce péché si charmant. / Conheceste-o, este encantador pecado.

Que tu craignais même en le désirant : / Que temias mesmo ao desejá-lo:

En le goûtant, tu le craignais encore. / Tendo-o saboreado, ainda o temes.

Eh bien, dis-moi, qu’a-t-il de si effrayant? / Pois bem, diz-me, que tem de tão assustador?

Que laisse-t-il après lui dans ton âme? / Que te fica na alma depois dele?

Un léger trouble, un tendre souvenir, / Uma ligeira turbação, uma terna lembrança,

L’étonnement de sa nouvelle flamme, / A surpresa da sua nova chama,

Un doux regret, et surtout un désir. ” / Um doce remorso, e sobretudo un desejo”


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Soneto de Tomás de Iriarte

28 Sábado Abr 2012

Posted by viciodapoesia in Poesia Antiga

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Tomás de Iriarte

Com este soneto, Tomás de Iriarte (1750-1791) leva-nos, com o não dito pela fala da narradora, dos preliminares à consumação do acto sexual, evidenciando uma mestria absoluta na técnica de contrução do poema, fazendo-nos percorrer, ao acompanhar a narração, o conjunto das emoções, receios, preconceitos e entrega ao prazer, vividos pela protagonista. Apenas uma palavra aqui, uma exclamação acolá, uma reticência, e o ambiente está criado. De Mestre!

Señor don Juan, quedito, que me enfado:

besar la mano es mucho atrevimiento;

abrazarme… don Juan, no lo consiento.

Cosquillas… ay Juanito… ¿y el pecado?

 

Qué malos son los ombres… mas, cuidado,

que me parece, Juan, que pasos siento…

no es nadie…, despachemos un momento.

¡Ay, qué placer… tan dulce y regalado!

 

Jesús, qué loca soy, quién lo creyera

que con un hombre yo… siendo cristiana

mas… que… de puro gusto… ¡ay… alma mia!

 

Ay, qué vergüenza, vete… ¿aún tienes gana?

Pues quando tú lo pruebes otra vez…

pero, Juanito, ¿volverás mañana?

 

E agora a tradução portuguesa de José Paulo Paes:

Senhor D. João, quietinho, que me enfado:

beijar a mão é muito atrevimento;

abraçar-me… isso não, que me apoquento.

Cosquinhas… ai Joãozinho… e o pecado?

 

Como são maus os homens… mas cuidado

que me parece ouvir passos lá dentro…

não é ninguém… apressa o teu momento.

Ai que prazer… tão doce e regalado!

 

Jesus, sou uma louca, quem diria

que com um homem eu… sendo cristã

mas… que… de puro gozo… ai! vida minha!

 

Quanta vergonha… Vai-te… Queres mais?

O que tivestes não te satisfaz?

Oh meu Joãozinho, voltas amanhã?

Noticia bibliográfica

A tradução e o poema original encontram-se publicados em Poesia Erótica em tradução, com selecção, tradução, introdução e notas de José Paulo Paes, numa edição Companhia Das Letras, 1990.

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Girassóis, Van Gogh, o mistério genético e um soneto de Camões

31 Sábado Mar 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Camões, Van Gohg

Está aparentemente esclarecido o mistério genético dos girassóis mutantes pintados por Van Gogh, fazendo fé numa noticia de hoje.

Esclarecido o fenómeno cientifico, permanece o mistério da arte no esplendor da sua imorredoira atracção.

Motivo de paixão, algumas das pinturas de girassóis de Van Gogh foram e continuam ser a porta de entrada para a fruição plástica desde a mais tenra idade.

Nas minhas primeiras tentativas de pintar a óleo, foi uma jarra com três girassóis que tentei passar à tela, procurando concretizar o fascínio que as reproduções conhecidas das pinturas de Van Gogh lançavam.

Anos vai, no auge do poderio financeiro do Japão, foi noticia de espanto pelo mundo, o valor astronómico por que uma das pinturas de girassóis de Van Gogh foi comprada em leilão, e a seguir encerrada num cofre para ser protegida de roubos. Triste destino para a beleza! Parece-me, até, que esta venda foi o pontapé de saída para outras vendas por valores absurdos no mercado da arte, tendo levado pessoas a pensar que investir em arte apenas valia ou vale a pena olhando ao nome do artista.

Mas voltando aos girassóis, a atenção de poetas tem-se demorado nesta inflorescência, dando conta da complexidade de emoções que tais flores provocam. Pretexto para subtilezas em casos de amor, a ele não escapou no longínquo século XVI o génio de Camões, o que me permite acrescentar a esta nota um seu soneto.

No soneto, o poeta comparando-se ao girassol, cujo comportamento descreve na primeira parte, chama a amada de Meu Sol e diz-lhe como vê-la o faz viver :

Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,, e … em não vos vendo, entristecida / Se murcha, e se consome em grão tormento /

Uma admirável erva se conhece

Que vai ao Sol seguindo de hora em hora

Logo que ele do Eufrates se vê fora,

E quando está mais alto, então floresce

 

Mas quando ao oceano o carro desce

Toda a sua beleza perde Flora

Porque ela se emurchece, e se descora

Tanto co’a luz ausente se entristece.

 

Meu Sol, quando alegrais esta alma vossa,

Mostrando-lhe esse rosto que dá vida,

Cria flores em seu contentamento

 

Mas logo, em não vos vendo, entristecida

Se murcha, e se consome em grão tormento

Nem há quem vossa ausência sofrer possa.

Transcrevi a versão do soneto XXVIII da Centúria II (incluindo as virgulas) publicada por Manuel de Faria Y Sousa na sua edição das Rimas Varias de Camões (1685), com modernização da ortografia.

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