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Apenas parcialmente reunida em livro, é vasta a produção poética de Bulhão Pato (1828-1912) espalhada pelas mais diversas publicações. O poeta aguarda ainda o antologiador sem preconceitos, que com gosto e munido de paciência, vasculhe a obra dispersa e dê a ler ao leitor de hoje aquele punhado de poemas que garantem ao autor um lugar na poesia portuguesa.

Da poesia que conheço de Bulhão Pato (1828-1912), e não é fácil conhece-la toda, tão dispersa ela se encontra, o melhor guarda-se no Livro do Monte publicado em 1896, e neste, os poemas arrumados em Geórgicas.

De Livro do Monte (e refere-se a Monte da Caparica onde o poeta viveu retirado os últimos anos de vida) escolho apenas dois poemas, e com eles espero abrir a curiosidade ao leitor para uma obra de qualidade desigual onde abundam as banalidades poéticas, mas onde uma mão cheia de poemas existem que apetece conhecer.

Deliberada homenagem a Virgílio, mas onde sobretudo o eco de Hesíodo e do seu Trabalhos e Dias se ouve, tanto os poemas escolhidos, como outros, são poemas sobre a terra e os homens. Sementeiras e colheitas, trabalhos e actividades de sobrevivência fazem a matéria poética das obras. Comovem e surpreendem, sobretudo quando se constata a constância do clima e prevalência das dificuldades das gentes na vida agarrada ao húmus.

Estiagem

O mar quieto. — Apenas vem
A vaga da maré cheia,
Na Costa, que fica além,
Roçar a espuma na areia.

Rufando as penas doiradas,
Vão as calhandras, palreiras,
Preando insectos, coitadas,
Por não ter um grão nas leiras!

O azul é denso; a luz viva.
O sol referve no mar,
Como na estação estiva.
Virá o tempo a mudar?

O lavrador pensativo –
Menos triste co’a esperança
Que este calor excessivo
Traga, de facto, a mudança.

Mas, quando rompeu o dia,
Era nítido o recorte
Do sol, e uma aragem fria
Vinha do lado do norte!

A lua, nas pontas curvas,
Não t em um ligeiro véu.
E nunca as estrelas turvas!
E sempre lúcido o céu!

Depois de passado Abril,
D’um ano assim não me lembro;
Nem a orvalhada subtil
Cai! — E vamos em Novembro!

Levou a ferocidade
Da canícula fatal
A minguada novidade
Da vinha e mais do olival!

É que o sol triunfador,
Em seis meses de estiagem,
Vai, como um conquistador,
Devastando na passagem.

*

O ganhão da Beira alpestre
Chegou da nativa serra,
Para o trabalho campestre.
Mas como amanhar a terra?

Não entra com ela o arado!…
Queimado o tojal nos montes!
Morto à fome e à sede o gado!
Secas ribeiras e fontes!

O sol alto a dardejar
Abrasou o prado e a selva!
E o cordeirito a balar
Sem ter um palmo de relva!

Não se ouvem cantar as noras…
Nem, no alfobre, umas verduras!…
Vêm repontando as auroras,
E cada em vêm mais puras!

*

O frio aumenta. Já silva,
Às refregas, o aquilão!
Nem no valado uma silva,
Para o cabrito saltão!

Atrás da vaca a novilha,
Já não pula na lezíra!
A mãe não sustenta a filha
Que o leite se lhe exaurira!

O boi bravo, na campina
Erguendo a fronte, pareçe
Que à Providência Divina,
Mugindo faz uma prece!

E até se dirá que tem,
Claramente, proferido
O próprio nome da mãe,
No doloroso mugido!

Sempre coisas misteriosas
Nas mais triviais verdades!…
Porque são joviais as rosas,
E tão tristes as saudades?

Canta, à tarde, um passarito —
E aquele singelo idílio,
Quem lho inspirou, do infinito,
Como um poema a Virgílio?

Trezentos mil eruditos,
Bem debruados de ateus,
Pondo esforços inauditos,
Não deitam abaixo Deus!

*

O lavrador crê e espera!
Hoje o sol ao mergulhar,
Levava enturvada a esfera,
E ao largo bradava o mar!

Morto o vento, de repente!
Tejo dentro, a calmaria!
Uma barra no ponente,
E, do nascente, a lestia!

Já retoiçaram na areia
Os maçaricos da praia.
Trouxe um circo a lua cheia:
Não tarda que a chuva caia!

Novembro de 1890

Inverno

Rondou o vento ao Sul, e é ríspida a lufada!
Temos, não há que ver, a invernia pegada!

Se nos fins do Verão caíram as brandiras,
Nem meia enxada d’água entrou nas terras duras.

Aqui há chão barroso, e chão tão apertado,
Que, sem água a fartar, não vai nem a machado!

Em baixo, ao rés da Costa, às folhas salgadias,
Qualquer chuva lhes basta, — e mau, se a s ventanias
Começam de puxar, que as vagas altaneiras
Alagam, no junção, vinhas e sementeiras!

Nas cepas, isso então — e mais depois das cavas —
É praga que lhes dá, o sal das ondas bravas!

Bem raro o lavrador tem dias sem cuidados;
No monte o tempo é um, outro nos descampados.
Só lhe leva a melhor, no rude labutar,
O marinheiro audaz, nas solidões do mar!

Mas no campo, contudo, há dias prazenteiros:
Agora o céu nublado, e os fortes aguaceiros,
São para o agricultor como manhã de rosas!

Venham chuvas ainda, e venham mais copiosas.
Por todo esse Alentejo, aos novos chaparrais,
Águas a desabar, são rara vez de mais!

Pode a cheia inundar os prados da lezíra;
Índa que venha a flux, por enquanto, não tira;

Com que respeite o gado, e deixe bom nateiro,
Não é nunca fatal antes de entrar Janeiro!

Cogitando em tudo isto, o lavrador, agora,
Alegre esfrega as mãos — e caia chuva, embora!

Porém o cavador, que vive só a enxada,
Como se há de amanhar, faltando-lhe a soldada?

Na casa do ganhão é que a invernia é séria!…
Uns dias sem trabalho… e basta! Entra a miséria!

Na cidade, no campo, enfim, seja onde for,
Para os pobres, a vida é quase sempre a dor!

Vamos a espairecer! Saltou o vento ao norte;
É lâmina da serra, e do mais fino corte!

Lá vem abrindo o sol! Toda a amplidão domina!
Só do vale o saúda o incenso da neblina!

Que animação no campo! A rápida caudal
Serpeia, pela encosta, em cobras de cristal!

No mimoso da várzea, e nas viçosas faldas,
Abrem floritas d’ouro, em chão que é d’esmeraldas!

Os cavalos beirões, de guizos chocalheiros,
Vêm de Sesimbra à venda; atrás os recoveiros.

Tiram o arado os bois. Nos altos e chapadas,
Desbravando o torrão, fuzilam as enxadas!

O passaredo alegre a revoar em bando;
Ao rés da choupanita as crianças brincando;
A mãe, sempre a lidar, ao sol corando as roupas,
Batidas ao sopé das desfolhadas choupas!

O carro gémeos chega dos estevais,
Carregado de tojo e ramas de pinhais.

As vacas no relvão, cabrilhas pelas fragas,
E toda azul ferrete, ao longe, a flor das vagas!

No escuro d’esta lua, a caça entra de certo.
Já saltou galinhola! O mato fica perto.

Deixai que alteie o sol, senão, com a geada,
Vão-se as ventas dos cães, e não fazemos nada!

Anos, e labutar, e lagrimas!… embora!
Auras da juventude, aspiro-vos agora!
Parece que, rompendo o sol na imensidade,
Rompe dentro de mim o sol da mocidade!

*

Na jardia e no souto, a entrada não foi grande;
Nem um pombo trocaz a procurar a glande!

Porém não falta ensejo,— até à Conceição,
Para entrada real, é próspera a sazão!

Agora palestrar, em volta da lareira,
Ao grato crepitar dos tors da azinheira!

Aperta, lá por fora, o límpido nordeste;
Caça de arribação gosta do tempo agreste.

Com sessenta e mais quatro, e quatro bem contados,
Inda rompo com alma os matagais fechados!

Quero que encham ver amanhã, praguentos,
Como bate o montado, a minha Tullia, a ventos!

Novembro de 1895

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