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Ontem deixei um soneto de John Keats, hoje convido-vos a procurar o poema Adonais com que P. B. Shelley (1792-1822) homenageou Keats depois da morte. Amigo e contemporâneo de John Keats, Percy Bisshe Shelley, que também morreu jovem, considerava Adonais o seu melhor poema.
A extensão de Adonais e sua tradução são incompatíveis com o formato do blog pelo que vos sugiro o procureis na net, pelo menos o original. De Shelley, e em alternativa, deixo esta leitura da filosofia do amor, sorrindo com o que naqueles tempos era preciso fazer para conseguir um beijo, ainda que seja evidente ser outra coisa o que o poeta pretendia.

Filosofia do amor (Love’s Philosophy)

Todas as fontes com o rio se fundem
E os rios com o oceano;
Os ventos, pelos ares, uns aos outros se unem
Com fragrante emoção;
Nada fica sozinho neste mundo;
Tudo, por fado antigo,
Entre si se mistura e se confunde:—
Porque não eu consigo?

Olha! As montanhas beijam o firmamento,
A onda, a onda enlaça;
Nenhuma flor-irmã tem valimento
Se o irmão não abraça;
A luz do Sol envolve a terra à roda,
Raios do luar beijam os mares: —
Mas toda esta ternura que me importa
Se tu não me beijares?

Tradução de Herculano de Carvalho

Acrescento o original inglês para os leitores fluentes na língua de Shakespeare.

Love’s Philosophy

The fountains mingle with the river
And the rivers with the ocean,
The winds of heaven mix for ever
With a sweet emotion;
Nothing in the world is single;
All things by a law divine
In one spirit meet and mingle.
Why not I with thine?—

See the mountains kiss high heaven
And the waves clasp one another;
No sister-flower would be forgiven
If it disdained its brother;
And the sunlight clasps the earth
And the moonbeams kiss the sea:
What is all this sweet work worth
If thou kiss not me?

Abre o artigo com A Confissão de Amor de Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). A pintura pertence a um pequeno ciclo actualmente conhecido por Os Progressos do Amor. Aproveito e reúno-os sob esta bandeira poética de Shelley.

Temos primeiro A Perseguição ou A Insistência, como se preferir.

Segue-se-lhe O Encontro.

Temos depois A Confissão de Amor, mostrada a abrir o artigo, e finalmente surge-nos O Amor Coroado.

Esta pintura, reflexo e retrato de um mundo em extinção, goza hoje de pouca reputação, mais por razões ideológicas que estéticas. Olhada sem preconceito vê-se como a atmosfera de um mundo feliz reina nela para a eternidade, e sobre quem olha derrama um banho de prazer.

Há evidentemente a abordagem escolástica: pintura característica do período rococó bla, bla. Os interessados encontram as considerações em qualquer manual de iniciação à história da pintura e poupo os leitores à redundância. Apenas chamo a atenção para o equilíbrio na composição das massas pictóricas de onde provém o dinamismo e movimento que dá às pinturas uma vivacidade perene.

Amanhã haverá outro assunto.

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