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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Retratos extraordinários — Mulher pintada por António Puga

12 Quarta-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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António Puga

Puga_Antonio-Old_Woman_SeatedÉ este retrato de uma mulher quase velha, pintado por António Puga (1602-1648), pintor galego natural de Orense, uma eloquente imagem da dignidade na parcimónia material da vida.

Sentada frente a nós, num interior despido de supérfluo, a mulher medita, e não teremos dificuldade em o imaginar, na dureza da vida e no que é preciso para a levar pela frente.

Pintado no século XVII, num tempo que em Portugal se exercia o domínio espanhol, a mulher  pintada, ainda que sendo eventualmente galega,  bem podia ser portuguesa, e pensaríamos que eram apenas história as dificuldades entrevistas na pintura. Será assim?

A profissão leva-me todos os dias ao encontro dos efeitos sociais da crise económica, e a evidência de como cada um, no silêncio da sua intimidade aceita as dificuldades do dia a dia, é uma lição de quanto os governantes não merecem o povo que governam.

Ser velho hoje, em Portugal, parece ser uma maldição, gritada a cada hora que passa. Interrogo-me, quando o ouço, que país encontrou esta gente ao nascer, quem os alimentou, quem os levou à escola, quem lhes deu o que não tinham e só por nascer ganharam?

 

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A viagem de Brandão ao Paraíso

10 Segunda-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Raros/Curiosos

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Benedeit, Bosch

Triptych of Garden of Earthly Delights (central panel) det8

São os leitores do blog pessoas de austero gosto e ocupadas em elevados pensamentos. Procurando ir ao seu encontro, o que nem sempre se proporciona, transcrevo a visita que Brandão, abade irlandês, terá feito ao paraíso terreal no século VI.

 

…

Eles navegaram quarenta dias no alto-mar

…

Sob a protecção do rei divino

Se acercaram da neblina espessa

Que envolvia aquele lugar do Paraíso.

…

Era a neblina tão cerrada e escura

Que engolia quem nela entrasse

…

Ao acercarem-se viram a nuvem partir-se ao meio

E abrir um espaço com a largura de uma rua

…

Durante três dias navegaram velozes

Por aquele caminho certo e seguro.

…

E ao longe avistaram o Paraíso.

Viram primeiro uma alta muralha

Erguida a direito até às nuvens.

…

Triptych of Garden of Earthly Delights (left wing) det4Introduzidos que estão os leitores no quadro temporal e geográfico da viagem, talvez se perguntem agora:

Mas afinal quem era este Brandão?

 

O Abade Brandão, homem que era

De muito siso, prudente e sagaz,

…

 

E que queria da vida?

 

Queria saber antes ainda da sua morte

Como é a casa onde só os bons podem entrar

E qual o lugar aos maus destinado

Triptych of Garden of Earthly Delights (central panel) det9

Pelos vistos Deus concedeu-lhe o desejo. Aí vai uma parte da história. O resto conta-a Benedeit em A viagem de São Brandão.

 

Visão do Paraíso

 

Abriu-se a porta de par em par

E eles entraram na verdadeira glória.

Seguiu adiante o formoso donzel

Que lhes foi mostrando o Paraíso.

Formosíssimos bosques rios e ribeiras

Cobrem e sulcam aquela terra.

São um jardim as pradarias

Florido tapete das mais belas flores.

Como em lugar piedoso e santo

As flores exalam suaves aromas.

Árvores frondosas flores preciosas

Variados frutos de raro perfume.

Não se vêem ortigas e cardos não há

Não crescem silvas nem matagais.

Árvores e ervas flores e plantas

Tudo desprende suave doçura.

As árvores dão frutos abrem-se as flores

Em cada dia de qualquer estação.

Os dias de verbosas todos os dias

Nas árvores medram as flores e a fruta

Nos bosques pastam veados sem conto

Saborosos peixes nadam nos rios

Nos Campos correm regatos de leite.

É uma terra abundante e farta!

Como o rocio caído do céu

O mel escorre de arbustos e juncos.

Generoso em ouro e pedras de preço

Ergue-se um monte como um tesouro.

Ali é eterno o esplendor do sol

O vento e a brisa não movem um pelo

E não há uma nuvem a pairar no ar

Roubando ao sol claridade e luz.

Quem ali morar penas não sofre

Nem há nenhum mal que lhe toque em sorte

Borrasca ou calor o gelo e o frio

A fome e a sede ou a vil miséria.

A sua riqueza será abundante

De tudo terá mais que à vontade.

Sem nada perder é certo e seguro

No dia a dia tudo há-de achar.

Brandão deleitou-se na alegria

Daquela hora que parece breve.

Ele bem queria ver e gozar

Demorar o olhar sem tempo nem pressa.

O donzel o levou por ali adentro

E muitas coisas lhe foi ensinando

E descrevendo com muitas minúcias

Prazeres e delícias que haverá de gozar.

Foi o donzel com o abade atrás

Até um monte de ciprestes coberto.

Do cume do monte ele viu maravilhas

Que estas palavras não podem contar.

Ele viu os anjos e também os ouviu

Cantar a alegria pela sua chegada.

Jamais escutara tão suave melodia

Tão branda e tão doce que fazia sofrer

E de seu natural não entendia

Não sabia gozar tão imensa glória.

Disse o donzel:  “Regressemos agora!

Mais adiante não vos posso levar

Mais vos mostrar não é permitido

Embora haja ainda muito a saber.

…

Triptych of Garden of Earthly Delights (central panel) det7Tal como Brandão, quando ao paraíso voltar o resto verá, assim os leitores das outras maravilhas saberão quando desta vida partirem…

 

Transcrevi da tradução de José Domingos Morais, edição Assírio & Alvim, Lisboa 2005.

Triptych of Garden of Earthly Delights (central panel) det2Acompanham o artigo imagens do tríptico de Hieronymus Bosch (1450-1516), O Jardim das Delícias.

Bosch_Hieronymus-The_Garden_of_Earthly_Delights

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O sonho, pintura de Picasso, para um soneto – adivinha de Bocage

09 Domingo Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Bocage, Picasso

Pablo Picasso - O sonhoEm momentos de desenfado dá-me para a brejeirice. Fujam os leitores para quem a vida só vale se for sempre a sério.

Hoje cá vem um soneto de Bocage (1765-1805) em forma de adivinha, ou uma adivinha em forma de soneto, como preferirem, e cuja solução se encontra na cabeça da mulher pintada por Picasso (1881-1973) mostrada enquanto se entrega a prazeres solitários.

 

 

Soneto XIII

 

É pau, e rei dos paus, não marmelleiro,

Bem que duas gamboas lhe lombrigo;

Dá leite, sem ser arvore de figo,

Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

 

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;

Occo, qual sabugueiro tem o umbigo;

Brando às vezes, qual vime, está comsigo;

Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

 

Á roda da raiz produz carqueja:

Todo o resto do tronco é calvo e nú;

Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

 

Para carvalho ser falta-lhe um u;

Adivinhem agora que pau seja,

E quem adivinhar metta-o no cu.

 

Nota talvez desnecessária

O verso 12 só faz sentido se tivermos presente que no século XVIII tanto o som u como o som v se escreviam de igual forma com u.

 

Transcrevi este Soneto XIII da 1ª edição das Poesias Eroticas, Burlescas e Satyricas de M. M. de Barbosa du Bocage, respeitando integralmente a sua ortografia.

Trata-se de uma edição clandestina de 1854, feita em Lisboa, e datada de Bruxellas — MDCCCLXL, a qual é dos mais estimados exemplares da minha biblioteca.

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Capas com assinatura pelo Dia da Mulher

09 Domingo Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Espiga Pinto420pxEm poesia surgem no blog os mais variados registos onde a mulher participa, daí que, para não deixar em silêncio o Dia da Mulher, tenha resolvido reunir capas de livros, notáveis na sua realização, algumas por consagrados artista plásticos, de obras escritas por mulheres, ou obras em que mulheres são o assunto.

Abro com uma capa de Espiga Pinto para o livro de um esquecido escritor italiano Ercole Patti, As Mulheres (1959?).

Segue-se a capa de Júlio Pomar para a poesia neo-realista de Sidónio Muralha, Companheira dos Homens (1950).

Pomar 400pxAgora a bela capa da 1ªedição das prosas de Irene Lisboa, Uma mão cheia de nada outra de coisa nenhuma, por Pitum Keil do Amaral (1955).

Keil 600pxPara uma antologia de contos de Dorothy Parker (1945) fez Vitor Palla esta inesquecível capa.

Palla 400pxCom o último livro de poesia publicado por Ana Hatherly, A Neo-Penélope (2007) surge na capa um deslumbrante desenho da artista.

Hatherly 600pxTermino com as páginas de guarda por Paulo Guilherme, da preciosa edição Estúdios Cor de As Mil e Uma Noites (1958) onde se conta como Sheherazade salvou a vida entretendo o rei Xariar com histórias fantásticas e maravilhosas, que esta edição ilustrada devolve no maior esplendor.

1001 noites 600pxNuma espécie de pos-scriptum, as capas para as traduções de Maria Helena da Rocha Pereira de duas obras imortais da antiga Grécia, Antigona de Sófocles e Medeia de Euripedes. As capas, em belo arranjo gráfico, têm motivos inspirados nas pinturas dos vasos gregos.

Antigona 480px

Medeia 600px

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Café — poema de Saúl Dias

07 Sexta-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Júlio, Saúl Dias

Julio - Espera 1930Saúl Dias pseudónimo como poeta de Júlio Maria dos Reis Pereira (1903-1983), irmão de José Régio, viu a sua obra como poeta ficar escondida na sombra gigantesca do irmão, sobressaindo a sua obra plástica. Nesta  (assinada Júlio) há, sobretudo nas aguarelas e desenhos, uma magia e um quase pudor que desencadeia uma imensa ternura. Não assim nos óleos até aos trinta anos onde a crueza do mundo, na agressividade do colorido se impõe.

É na linha desta pintura onde a magia dos desenhos e aguarelas espreita, o poema Café, de 1934 suponho, que mais à frente transcrevo.

Julio - Aspiracao 1926 Por entre os vapores etílicos 

as garrafas dos álcoois e absintos,

em garbos áticos,

oferedam viáticos…

 sonha-se o amor:

julio - A menina e o poeta

 

E ela vem sempre /como naquela hora / estranha, delicada / e debruada a encanto.

Julio - Menina

Café

 

Quando,

à hora do Jazz,

a minha cabeça rola

pelo tecto pintado do café.

a parede em frente é uma visão de escola

onde um menino de bibe e gola

sonha com aquilo que não é.

 

E até os criados

têm ares purificados

como ascetas dum branco ritual.

E os mármores das mesas,

Com desenhos obscenos,

surdinam várias rezas…

 

E as garrafas dos álcoois e absintos,

em garbos áticos,

oferedam viáticos…

 

E há toalhas brancas e há velas acesas!

 

E ela vem sempre

(só a cabeça dela,

que o corpo

perdeu-o, porventura,

nalgum escuro quarto de aluguer).

Ela vem sempre,

Como naquele dia,

serena e amavia,

única e excepcional.

 

O pianista

comeu os dentes do piano

e canta, de pernas para o ar,

uma canção azul.

O violinista adormeceu de pé numa cadeira

e o violino dá som sem ninguém lhe tocar.

 

E ela vem sempre

como naquela hora

estranha, delicada

e debruada a encanto.

Pura como a água, suave como um manto.

 

O dia é Dia Santo…

 

Termino com uma pequena amostra da pintura de Júlio (dos Reis Pereira)  onde ora a influência de Chagall ora a influência de George Grosz se observa.

 

A qualidade e resolução das imagens é a possível entre o material que circula na net, e infelizmente é muito baixa.

 Julio - À janela 1923

 

Julio - Nocturno 1929

 

Julio - O Velho e a menina

 

 

Julio - O burguês e a menina 1931Julio - Serie poeta tinta da china 1960

Julio - Nocturno 1927Julio - Serie poeta Aguarela

 

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Curta visita à poesia de Jorge Sousa Braga

03 Segunda-feira Mar 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Bosh, Gauguin, Goya, Jorge Sousa Braga, Leonardo da Vinci, Picasso

The Cure of Folly (Extraction of the Stone of Madness) 200px

Todos aqueles que nos primeiros dias de Março perscrutavam atentamente o céu ficaram desapontados. Este ano as andorinhas chegarão atrasadas, devido a uma greve dos controladores de voo.

 

Os livros vêm habitualmente ao meu encontro, e aconteceu uma destas tardes de novo. Tencionava sair mas com a invernia lá fora era tudo o que não me apetecia. Peguei ao acaso num livro da estante: era a poesia reunida de Jorge Sousa Braga (1957). Comecei a ler e por um par de horas gozei o que não esperava com a pensada saída para a rua.

 

São familiares aos leitores do blog traduções poéticas de Jorge Sousa Braga, frequentemente grandes poemas em português, mas da sua poesia original nunca aqui falei.

 

Há sobretudo três  motivos que me fazem gostar de muitos dos poemas que escreveu: a concisão do verso, a cultura que subjaz aos poemas, e o não fugir no assunto à crueza da vida. O modo corrosivo de ecos surrealizantes como nos conta a vida em alguns dos poemas acrescenta um sabor irresistível a esta poesia. Em vários poemas da reduzida escolha de hoje o absurdo reina em grande esplendor. Os poemas dispensam comentários de intermediação e aí ficam.

Leonardo da Vinci - Mona Lisa100px

Resolvido o enigma do sorriso da Gioconda: um dos meninos do Botticelli surpreendeu-a, de noite, com um dedo acariciando o baixo ventre.

Um levantino apaixonou-se pelo crepúsculo e estabeleceu aí residência permanente. Vive agora num avião que se desloca em sentido inverso ao da rotação da terra.

As autoridades marítimas investigam o misterioso desaparecimento da linha do horizonte ao longo de toda a costa atlântica.

Alguns enxames de abelhas invadiram o Museu do Louvre e exploraram cuidadosamente todas as naturezas-mortas com flores, não tendo deixado um único grão de pólen.

 

Les Demoiselles d'Avignon - 1907-19 150px

As demoiselles de Avignon foram surpreendidas numa rusga da polícia, nas imediações do museu.

 

Um homem disfarçado de arco-íris assaltou em pleno dia uma agência bancária mesmo no centro da cidade; alvejado a tiro na perseguição que depois lhe foi movida pela polícia, desfez-se numa bátega de chuva.

 

Um homem que se propusera pintar o Monte Branco de azul e que para o efeito comprara várias latas de tinta e um pincel desapareceu no meio de um violento nevão.

 

Passara quarenta anos de binóculos assestados, a seguir as migrações das aves e a tomar estranhos apontamentos num caderno. A última vez que foi visto voava a meia altura em direcção ao sul.

 

Deixara de acreditar nas ciências tradicionais, desde que se sentara em frente de uma montanha e gritava morango e a montanha lhe devolverá cinquenta alperces, e ele gritara vermelho e a montanha lhe devolvera rosa rosa rosa, um rosa cada vez mais ténue.

 

Goya - Os fusilamentos 175px

Cansados de estarem sempre na mesma posição, os fuzilados de Goya resolveram inverter os papéis e são agora eles que seguram os fusos.

Gauguin_Paul-The_Spirit_of_the_Dead_Keep_Watch 200px

Uma das vahinêes do Gauguin estava perdendo a cor de pêra-abacate. O conservador do museu decidiu proporcionar-lhe umas curtas férias de restabelecimento no Taiti.

in A greve dos controladores de voo

 

Escrito na margem de um rio

Nunca ouvi dizer

que alguém tivesse morrido

afogado em esperma

 

Streape-tease

 

Quanto mais me dispo

menos nu

me sinto

in Plano para salvar Veneza

 

De novo o silêncio

O silêncio é como se fosse água. Daquela água pura da montanha que se bebe directamente pelo coração.

 

O guarda-rios

É tão difícil guardar um rio

quando ele corre

dentro de nós

 

Cataratas

Nenhum rio consegue voar durante muito tempo. Uns segundos no máximo e ei-los que se despenham de muitos metros de altura. Ainda mal refeitos da queda, começam logo a correr a uma velocidade vertiginosa. E de novo se despenham. E só desistem quando se lhes depara o mar pela frente.

 

A última pincelada

Viveu em tempos um pintor que nunca conseguia acabar de pintar uma ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça. Quando se preparava para dar a ultima pincelada, ela levantava voo.

 

E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la com o pincel no céu azul…

 

Foz

Com água no bico

aves marinhas combatem

o incêndio do crepúsculo

 

Sete da manhã

o sol acorda

com olheiras enormes

 

Celas

Lua cheia:

com esta moeda de oiro

posso comprar um sorriso

in Os pés luminosos

 

Canção

Este esperma é puro

como a água de um iceberg

 

Colhido por masturbacao

centrifugado capacitado…

 

Bebe deste esperma simples

ou com gelo e limão

 

Só assim conseguirás

a redenção.

 

Tatuagem

Tinha uma rosa negra tatuada

num dos grandes lábios. E o

 

Púbis religiosamente depilado

como se de ervas daninhas se tratasse

in A ferida aberta

 

A erva da fortuna

A erva da fortuna cresce como por encanto nas orelhas dos políticos, o primeiro-ministro proclama a amnistia para os cucos dos relógios, o degelo nas relações internacionais restabelece o nível das águas nas albufeiras, o ministro da energia esfrega as mãos de contente. Embora o boletim meteorológico seja controlado pelo governo, nuvens cor de chumbo toldam frequentemente o horizonte, os pescadores de águas turvas procuram o alto mar, uma chuva de impostos cai de imprevisto, ah a chuva na primavera, escrevem os poetas.

 

As andorinhas podem passar livremente a fronteira. Os policias oferecem grinaldas aos condutores de veículos mal estacionados. O cio invade a assembleia. Os deputados bombardeiam-se com pólen. Um nostálgico do outono argumenta: a primavera de Praga também foi de lagartas nas estradas.

in De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu

 

Os poemas foram originalmente publicados nos livros mencionados e transcritos de O Poeta Nu [poesia reunida], Assírio & Alvim, Lisboa, 2007.

 

As imagens respeitam às pinturas assunto dos poemas excepto para Gauguin em que nenhuma das pinturas do Taiti é explicitamente referida e é escolha minha.

O poeta é profissionalmente médico obstetra e não neuro-cirurgião. A escolha de A extração da pedra da loucura, pintura de Hieronymous Bosch (1450-1516) para abrir o artigo decorre apenas das pistas que a sua poesia me enviou para ler o mundo.

 

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A mulher imaginada em sonetos de Gomes Leal

21 Sexta-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Gomes Leal, Mary Cassatt, Paul Gauguin

Mary Cassatt

Bon-vivant que foi, e ao que consta bem sucedido com as mulheres até à maturidade, Gomes Leal (1848-1921) nunca casou, e teve um final de vida trágico que faz do homem um personagem de romance soberbo. Enquanto poeta, a sua poesia, quando não ligada a assuntos de actualidade, mantém a atracção do inesperado numa oficina sem falhas: era um versificador inspirado tanto no soneto como em longos poemas narrativos.

Abundam na poesia de Gomes Leal as imagens de mulher sonhada ou desejada. Escolho hoje três sonetos onde na variedade de cenários o sonho da mulher surge. Une-os o desejo do poeta de fruir uma virgindade casta e sonhando o prazer do pecado, como à época era entendido. Enquadra esta poesia a mentalidade burguesa de final do século XIX, quando foi sucesso sem limites, e dela nos dá uma leitura esclarecedora.

 

Abro com A Jovem Miss:

 

A Jovem Miss

 

Ela é tão loura, lírica, franzina,

Tão mimosa, quieta, virginal,

Como uma bela virgem dum missal,

Toda dourada, e preciosa, e fina.

 

Não há graça mais casta e feminina

Do que a dela! — Seu riso angelical

Cria em nós todo um mundo de moral,

Melhor que tudo o que Platão ensina!

 

Por isso, e, pela sua castidade,

Deve ser gozo intenso, na verdade,

Sentir fundir-se em nós seus olhos régios…

 

E o gozo de a beijar, trémula, amante,

Deve ser quasi estranho! — e semelhante

Ao de fazer terríveis sacrilégios.

 

Sonhada a virgem angelical a quem apetece beijar, trémula, amante, passemos ao gosto do exótico em dois devaneios em forma de soneto. Em ambos, a seriedade e convicção com que o assunto se desenvolve é rematada de forma inesperada com o banal da realidade e das suas necessidades.

Mulher com flores nas mãos 1899

Phantasias

 

Tenho, às vezes, desejos delirantes

De a todos te roubar, meu lírio amado!…

E levar-te, em voo arrebatado,

Aos países fantásticos, distantes.

 

À Índia, China, ou ao Iran, e os meus instantes

Passá-los a teus pés, grave e encruzado,

Num tapete chinês aveludado,

Com flores ideais e extravagantes.

 

Nossa vida seria, — ó pomba minha! —

Mais leve do que a asa da andorinha,

E, nas horas calmosas, eu e tu…

 

Olhando o mar sereno, o mar unido,

Comeríamos os dois arroz cozido…

— Embalados num junco de bambu!

 

Se neste soneto passamos da fantasia etérea ao arroz cozido, vejamos onde nos leva A Selvagem:

Te Nave Nave Fenua 1892

A Selvagem

 

Às vezes, como os grandes fantasistas,

Sinto o desejo intenso das viagens…

E ir sozinho habitar entre os selvagens,

Como num ermo os ásperos trapistas.

 

As grandes, vastas, límpidas paisagens,

Que sabem ver os imortais artistas…

Teriam novos tons, novas imagens,

Longe do mundo avaro e as suas vistas!

 

Com uma virgem — flor dessas montanhas —

Entre os mil sons das árvores estranhas,

Dos coqueiros, bambús … fôra feliz!…

 

Dormiria em seus braços nus, lustrosos,

E ouviria, entre uns beijos voluptuosos,

— Tilintar-lhe as argolas do nariz.

Quando te casarás 1892

Os sonetos foram transcritos do livro Claridades do Sul, 2ª edição (revista e aumentada), Lisboa, 1901.

Modernizei a ortografia sempre que a eufonia do verso não saiu prejudicada. Conservei a pontuação da edição.

 

Iconografia

À bela jovem, e talvez virgem, pintada por Mary Cassatt no início do artigo, acrescentei as taitianas pintadas por Paul Gauguin, razão da troca de um futuro de banqueiro em França pela vida de paraíso nos confins do Pacífico, materializando talvez fantasias equivalentes aos devaneios poéticos que acabámos de ler.

Contos primitivos 1902

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Dois retratos de mulher por William Carlos Williams

14 Sexta-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Ernst Ludwig Kirchner, William Carlos Williams

Ernst Ludwig Kirchner (German, 1880–1938) 3014 de Fevereiro, Dia de Namorados, que a nossa sociedade mediatizada e sufocada pela publicidade transformou em obrigação de comemorar — mesmo quando entre apaixonados Dia de Namorados são todos os dias — e simultaneamente criou uma desmesurada angústia, sobretudo feminina e adolescente, quando o namorado não existe para celebrar o auspicioso dia. Adiante.

Ernst Ludwig Kirchner (German, 1880–1938) 21O nosso tempo é o que é, e com o nosso comportamento lá o vamos alimentando, hoje com pequeninos corações vermelhos, amanhã com enfeites de outra cor, seguramente.

Deixemo-nos de preâmbulos e passemos à poesia com dois retratos femininos por William Carlos Williams (1883-1963): um Retrato proletário e um Retrato de uma senhora. É a condição social a diferenciar tudo nestes poemas. Para o Retrato proletário apenas os sinais exteriores do vestir desenham o ser humano, num pudor de linguagem que liberta a imaginação para desenhar a mulher por detrás da jovem que procura o prego no sapato:

 Ragazza nel prato; la fligia Langre

Retrato proletário

 

Uma jovem alta sem chapéu

de avental

 

Parada na rua com o cabelo

puxado para trás

 

Um pé com a peúga tocando

a calçada

 

O sapato na mão. Examinando-o

atentamente

 

Retira a palmilha

à procura do prego

 

Que a magoava tanto

 

Tradução do poeta José Agostinho Baptista,

in Antologia Breve, Assírio & Alvim, Lisboa, 1995.

Ernst Ludwig Kirchner (German, 1880–1938). Dodo with a Feather Hat (Dodo mit Federhut), 1911Para o Retrato de uma senhora, é o tapa-destapa que incita o desejo do corpo, o pretexto para o retrato.

Tendo como mote as figuras femininas do século XVIII francês, pintadas por Watteau e Fragonard, e de algum modo arquétipos, até há pouco tempo, da feminilidade na ociosidade do seu viver, cuja  preocupação única seria o cuidado do corpo numa vida sem-que-fazer; eram figuras de mulher onde uma quase evanescência se cristalizava e as peculiaridades de comportamento se aceitavam. Foram modelos de excelência para ajudar à divagação dos homens, e à afirmação de um preciso conceito de masculinidade social. E é exactamente nas sociedades do Novo Mundo que este modelo regressa como paradigma de um viver mítico onde a fantasia em torno ao Dia dos Namorados se enquadra.

 Signora nel bosco; ritrato di Nina Hard a sinistra

Retrato de uma senhora

 

Suas coxas são macieiras

cujas flores tocam o céu.

Que céu? O céu

onde Watteau dependurou

uma sandália de mulher.

E seus joelhos

são uma brisa do sul

— ou uma rajada de neve.

Mas ah! que espécie

de homem era Fragonard?

— como se isso respondesse

a alguma coisa. Ah, sim, abaixo

dos joelhos — pois a canção

cai desse jeito, é um

desses dias brancos de verão,

a erva alta dos tornozelos

adeja por sobre a praia —

Que praia?

Ah, talvez pétalas. Como

saberia eu?

Que praia? Que praia?

Eu disse pétalas de macieira.

 

Tradução do poeta Odylo Costa, filho,

in Cantiga Incompleta, Livraria José Olympio Editora, Rio, 1971.

 

Para o poema Retrato de uma senhora, ocupam-se os estudiosos a dilucidar qual o papel da referência a Watteau, uma vez que a pintura tomada como pretexto é O baloiço de Fragonard. Questão que me parece de somenos, mas para leitores curiosos, e para a pintura de Fragonard, remeto para o artigo do blog com o poema de Jorge de Sena sobre o assunto onde se encontram também as reproduções dos dois quadros de Fragonard com baloiço.

 

Nota sobre as imagens

As imagens reproduzem pinturas de Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938).

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Alguns Fragmentos de Novalis

06 Quinta-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

≈ 2 comentários

Etiquetas

Caspar David Friedrich, Novalis

Caspar David FRIEDRICH 00Existe em nós

um sentido especial para a poesia,

uma disposição poética.

A poesia é absolutamente pessoal,

e por isso indefinível.

Quem não souber nem sentir

de forma imediata

o que é a poesia,

nunca poderá aprendê-lo.

Poesia é poesia.

Diferente, como a noite do dia,

da arte da fala e da palavra.

 

“O fragmento tem um ideal: uma alta condensação, não de pensamento, ou de sabedoria, ou de verdade (como na máxima), mas de música: ao ‘desenvolvimento’ opor-se-ia o ‘tom’, qualquer coisa de articulado e de cantado, uma dicção…“. Citei Roland Barthes a abrir uma escolha de fragmentos de Novalis.

 

 

Ser completo, ser uma pessoa —

é a finalidade

e a pulsão

do ser humano.

Caspar David FRIEDRICH 06

É na oposição à totalidade que o fragmento se situa, quais pedras do mosaico infinito da vida. Dá ele conta de intuições, vestígios, por vezes ilumina um enigma, outras acontece ser veículo de alegorias.

O leitor apreciador de fragmentos é um leitor de começos ( como bem observa João Barrento no ensaio/introdução aos Fragmentos de Novalis (1772-1801) que traduziu, e hoje transcrevo), melancólico por excelência, para quem o perambular é o propósito:

 

 

Procuramos por toda a parte

o que está para lá das coisas,

e o que encontramos

são apenas coisas.

 

 

Quando procuramos o que está para lá das coisas, o que procuramos é a verdade:

 

 

O ser humano afirma-se pela verdade.

Se renuncia à verdade, renuncia a si próprio.

Quem trai a verdade, trai-se a si próprio.

E isto não significa mentir,

mas agir contra as convicções.

Caspar David FRIEDRICH 05

Meditado que está o sentido da verdade, termino com alguns fragmentos sobre o amor:

 

Caspar David FRIEDRICH 00A

 

Todo o objecto amado

é o centro de um paraíso.

 

*

 

O amor é a finalidade final

da história do mundo —

o ámen do universo.

 
*

 

Todo o encantamento é uma loucura

artificialmente provocada.

Toda a paixão é um encantamento

e uma rapariga atraente

uma feiticeira mais real

do que se julga.

 

 

Notícia bibliográfica

Novalis, Fragmentos são Sementes, Selecção, tradução e ensaio de João Barrento, Roma Editora, Lisboa, 2006.

 

Caspar David FRIEDRICH 00B1

 

Acompanham o artigo algumas pinturas de Caspar David Friedrich (1774-1840).

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Sonetos de Reis Quita

03 Segunda-feira Fev 2014

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga, Poesia Portuguesa antiga

≈ 1 Comentário

Etiquetas

Alexandre Cabanel, Carlo Saraceni, Charles-Joseph Natoire, Domingos dos Reis Quita

carlo-saraceni-1600 AEntre as tristezas e as alegrias do amor correm os sonetos de Domingos dos Reis Quita (1728-1770) que escolhi para, pelo mundo, alegrarem os corações dos que amam, na evidência que o sentimento é perene, e que perdido um, outro virá. Pergunta o poeta: Mas quem pode viver de amor isento[?]

 

Comecemos a viagem com o entusiasmo que, em alegoria, os amores de Marte e Vénus dão conta.

carlo-saraceni-1600Encontra-se o nosso poeta empolgado na espera da noite e de um encontro amoroso, pois Entre sombras o dia luminoso / Já se desmaia, já se desfigura.

entusiasma-se uma vez que Já o feliz instante vem chegando, / Já me vejo nos braços da alegria, / Que estou há tantas horas suspirando.

A coisa corre, e afinal a noite passa num ápice: Mas ai, que já lá vem o claro dia!

 

Soneto XXXIII

 

Entre sombras o dia luminoso

Já se desmaia, já se desfigura.

Já vai por toda a terra a noite escura

Espalhando o descanso deleitoso.

 

Já não se escuta mais que o som gostoso

Desta sonora fonte que murmura.

E já vai pouco a pouco a mágoa dura

Fugindo deste coração saudoso.

 

Já o feliz instante vem chegando,

Já me vejo nos braços da alegria,

Que estou há tantas horas suspirando.

 

Agora zombarei da tirania,

Do martírio que estive suportando:

Mas ai, que já lá vem o claro dia!

 

Não terá sido este amor eterno, e veremos a seguir o poeta em angustiosos tormentos, semelhando tenebroso inverno a que os compara. Mas, se no suceder das estações ao rigor invernal sucederá o esplendor da primavera, para as suas lágrimas não vê consolo:

 

Tudo de triste passa a ser contente, / Só nos meus olhos nunca têm desvio / As lágrimas que choro tristemente.

 

como nos conta no Soneto XXIV que segue.

 

Soneto XXIV

 

Tudo cheio de horror e sentimento,

Mostra o rigor do inverno congelado.

O ar de densas nuvens carregado,

Furiosas, desatando chuva e vento.

 

Despojada do verde luzimento

Se vê toda a campina deste prado;

O rio corre turvo, e despenhado;

Tudo parece igual a meu tormento!

 

Mas passado o rigor do inverno frio,

O nublado ar se vê resplandecente,

Florece o campo, e claro corre o rio.

 

Tudo de triste passa a ser contente,

Só nos meus olhos nunca têm desvio

As lágrimas que choro tristemente.

 

E é no meio de todo este imenso desgosto que o homem, passeando, medita, e como tantos de nós, olhando o mar espera encontrar alivio:

 

Os olhos pelas águas estendia, / Porque alívio a seu mal nelas buscava,

 

e nestes belos versos, Em lágrimas banhado assim dizia:

 

Os suspiros, as lágrimas que choro / Levai, ondas, levai, ligeiro vento, / Para onde me levastes quem adoro.

 

 

Soneto XXXIII

 

Ao longo de uma praia um triste dia,

Já quando a luz do sol se desmaiava,

O saudoso Alcino caminhava

Com seus cuidados só por companhia.

 

Os olhos pelas águas estendia,

Porque alívio a seu mal nelas buscava,

E entre os tristes suspiros que exalava,

Em lágrimas banhado assim dizia:

 

Os suspiros, as lágrimas que choro

Levai, ondas, levai, ligeiro vento,

Para onde me levastes quem adoro.

 

Oh, se podeis ter dó do meu tormento,

Que me torneis o bem, só vos imploro,

Que pusestes em longo apartamento*.

 

*[afastamento]

 

Continuemos com estas emoções do coração, espalhadas por suaves versos, mas agora noutro registo.

Inveja o nosso poeta no Soneto LIX o amigo que, no abrigo da cabana, goza delícias de amor e mesa, e para si tão só e sempre esperanças que Ligeiras folhas são, que o vento leva.

 

Soneto LIX

 

Em sonoros chuveiros desatado

Desça o frígido inverno tormentoso.

Que Aristo satisfeito, e venturoso,

Descansa em tecto rústico abrigado.

 

Alegre come o novo grão dourado,

De seu trabalho fruto deleitoso.

Vê no curvo tonel ferver cheiroso

O roxo mosto a Baco consagrado.

 

Só tu, mísero Alcino, nada alcanças:

Em teu rebanho o lobo o dente ceva,

E debaixo do colmo não descansas.

 

Mas cerca-te da forte e escura treva

Sempre o fruto de tuas esperanças:

Ligeiras folhas são, que o vento leva.

 

Embrulhado em nova paixão, clama agora o poeta por uma Márcia que lhe fugiu. De caminho reflete como o amor apenas conduz à dor, neste Soneto LXVI: [Amor] São estes os teus bosques consagrados / Onde só vejo peitos lacerados, / Corações em extremas agonias?

Soneto LXVI

 

Aonde, amor cruel, aonde me guias?

São estes os teus bosques consagrados

Onde só vejo peitos lacerados,

Corações em extremas agonias?

 

Só respondem as duras penedias

A míseros gemidos em vão dados;

Olhos formosos, rostos delicados

São ministros das tuas tiranias.

 

Já me rasgam o peito em mil pedaços:

Marcia me disparou acerbos tiros,

Lá vai fugindo com velozes passos.

 

Suspende, ó ninfa, os apressados giros,

Deixa cruel, ao menos, que em teus braços

Amintas lance os últimos suspiros.

 

Por mais que suspirar nos braços de Márcia o poeta deseje, se ela foge, outra aparece, pois, sabemos bem, sem uma Márcia nos braços não pode um homem viver:

 

quem pode viver de amor isento, / Vendo naquele rosto soberano /De tais olhos o doce movimento?

Natoire - Cabeça de mulher 530Por isso, no Soneto XX com que concluo esta viagem sentimental, aí o temos, de novo apaixonado:

Finalmente outra vez vejo perdida / Às mãos do amor, a doce liberdade

 

Soneto XX

 

Finalmente outra vez vejo perdida

Às mãos do amor, a doce liberdade

Que já livrei da sua crueldade

Como quem de um naufrágio salva a vida.

 

Já no meu coração nova ferida

Abrem os duros golpes da saudade;

E já vive outra vez minha vontade

De esperanças aéreas revestida.

 

Nunca cuidei que visse, amor tirano,

Tão depressa quebrado o juramento

Que fiz no puro altar do desengano.

 

Mas quem pode viver de amor isento,

Vendo naquele rosto soberano

De tais olhos o doce movimento?

 

Termino com o Soneto LXIX inspirado no episódio da Ilha dos Amores de Os Lusíadas.

No mundo de delícias e suspiros, que o amor permite e o desejo empolga, coloca o nosso poeta os marinheiros portugueses do Gama:

 

Na ilha das delícias aportavam / Já cansados, os lusos navegantes. / Os prazeres, as taças espumantes / Em magnífica mesa [as ninfas] preparavam.

 

No entanto Vasco da Gama ardendo em fogo, descarta os gestos convulsos [d]as bacantes / [que] Lascivos ditirambos alternavam.

 

pois, o herói, que de ardores se alimenta, / Sem que toque os vivificos manjares, / Só em Vénus os olhos apascenta.

Alexandre Cabanel (French, 1823–1889) Nascimento de venus 1875 A

Aí o têm, o soneto:

 

Soneto LXIX

 

Na ilha das delícias aportavam

Já cansados, os lusos navegantes.

Os prazeres, as taças espumantes

Em magnífica mesa preparavam.

 

Os amores de mirtos enramavam

Douradas serpentinas rutilantes,

E com os gestos convulsos as bacantes

Lascivos ditirambos alternavam.

 

Eis que o trovão do bronze rompe os ares,

O vitorioso Gama se apresenta

À bela deusa que nasceu dos mares.

 

Mas o herói, que de ardores se alimenta,

Sem que toque os vivificos manjares,

Só em Vénus os olhos apascenta.

 

Noticia bibliográfica

Os Sonetos foram transcritos do Tomo I da 2ªedição correcta e aumentada com as Obras Póstumas e Vida do Autor, Lisboa, na Tipografia Rollandiana, 1781.

Modernizei a ortografia e simplifiquei a pontuação.

Conservei Florece, em uso na época,em vez de Floresce, forma corrente hoje.

 

Nota sobre as imagens

Abre o artigo com o pormenor de uma pintura de Carlo Saraceni (1579-1620) a que se segue a pintura na totalidade. Pelo meio, o retrato da bela jovem foi desenhado por Charles-Joseph Natoire (1700-1777) e será presumivelmente contemporâneo do poeta. No final uma possivel imagem da deusa nascida dos mares (Vénus) onde o olhar de Vasco da Gama se apascenta…, pintada por Alexandre Cabanel (1823–1889).

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