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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Filosofia do amor (Love’s Philosophy) segundo P. B. Shelley

18 Quarta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Fragonard, P. B. Shelley

Ontem deixei um soneto de John Keats, hoje convido-vos a procurar o poema Adonais com que P. B. Shelley (1792-1822) homenageou Keats depois da morte. Amigo e contemporâneo de John Keats, Percy Bisshe Shelley, que também morreu jovem, considerava Adonais o seu melhor poema.
A extensão de Adonais e sua tradução são incompatíveis com o formato do blog pelo que vos sugiro o procureis na net, pelo menos o original. De Shelley, e em alternativa, deixo esta leitura da filosofia do amor, sorrindo com o que naqueles tempos era preciso fazer para conseguir um beijo, ainda que seja evidente ser outra coisa o que o poeta pretendia.

Filosofia do amor (Love’s Philosophy)

Todas as fontes com o rio se fundem
E os rios com o oceano;
Os ventos, pelos ares, uns aos outros se unem
Com fragrante emoção;
Nada fica sozinho neste mundo;
Tudo, por fado antigo,
Entre si se mistura e se confunde:—
Porque não eu consigo?

Olha! As montanhas beijam o firmamento,
A onda, a onda enlaça;
Nenhuma flor-irmã tem valimento
Se o irmão não abraça;
A luz do Sol envolve a terra à roda,
Raios do luar beijam os mares: —
Mas toda esta ternura que me importa
Se tu não me beijares?

Tradução de Herculano de Carvalho

Acrescento o original inglês para os leitores fluentes na língua de Shakespeare.

Love’s Philosophy

The fountains mingle with the river
And the rivers with the ocean,
The winds of heaven mix for ever
With a sweet emotion;
Nothing in the world is single;
All things by a law divine
In one spirit meet and mingle.
Why not I with thine?—

See the mountains kiss high heaven
And the waves clasp one another;
No sister-flower would be forgiven
If it disdained its brother;
And the sunlight clasps the earth
And the moonbeams kiss the sea:
What is all this sweet work worth
If thou kiss not me?

Abre o artigo com A Confissão de Amor de Jean-Honoré Fragonard (1732-1806). A pintura pertence a um pequeno ciclo actualmente conhecido por Os Progressos do Amor. Aproveito e reúno-os sob esta bandeira poética de Shelley.

Temos primeiro A Perseguição ou A Insistência, como se preferir.

Segue-se-lhe O Encontro.

Temos depois A Confissão de Amor, mostrada a abrir o artigo, e finalmente surge-nos O Amor Coroado.

Esta pintura, reflexo e retrato de um mundo em extinção, goza hoje de pouca reputação, mais por razões ideológicas que estéticas. Olhada sem preconceito vê-se como a atmosfera de um mundo feliz reina nela para a eternidade, e sobre quem olha derrama um banho de prazer.

Há evidentemente a abordagem escolástica: pintura característica do período rococó bla, bla. Os interessados encontram as considerações em qualquer manual de iniciação à história da pintura e poupo os leitores à redundância. Apenas chamo a atenção para o equilíbrio na composição das massas pictóricas de onde provém o dinamismo e movimento que dá às pinturas uma vivacidade perene.

Amanhã haverá outro assunto.

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Paisagens campestres de John Constable (1776-1837) e soneto de John Keats (1795-1821)

16 Segunda-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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John Constable, John Keats

Embalado pela atmosfera campestre exalada dos poemas de Bulhão Pato que li para a escolha anterior, convido os leitores à poesia das paisagens pintadas por John Constable (1776-1837). Pintura herdeira da escola holandesa do século XVII onde a gente humilde ganha direito de cidadania, é a harmonia da vida campestre que aqui se faz assunto.
A algumas das pinturas de John Constable acrescento um detalhe especialmente eloquente da sua atmosfera poética.

Sendo esta pintura contemporânea da poesia de John Keats (1795-1821), o génio que morreu jovem, aproveito e transcrevo o seu soneto XVII.

Happy is England! I could be content
To see no other verdure than its own;
To feel no other breezes than are blown
Through its tall woods with high romances blent:

Yet do I sometimes feel a languishment
For skies Italian, and an inward groan
To sit upon an Alp as on a throne,
And half forget what world or worldling meant.

Happy is England, sweet her artless daughters;
Enough their simple loveliness for me,
Enough their whitest arms in silence clinging:

Yet do I often warmly burn to see
Beauties of deeper glance, and hear their singing,
And float with them about the summer waters.

Veja-se agora o detalhe. do motivo central.

Detalhe do motivo à direita.

Nesta pintura de 1810 é já a pincelada de Claude Monet que se insinua.

Termina aqui esta bucólica viagem pela vida no campo inglês no início do século XIX.

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Rostos do século XVI por Lucas Cranach o Velho (1472-1553)

13 Sexta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Lucas Cranach

Mestre singular, Lucas Cranach o Velho (1472-1553), transporta-nos, com a sua pintura, a um mundo social peculiar para o homem do século XXI. Nos gestos, feições e adereços dos retratados surge-nos uma humanidade que estranhamos possa ter existido. Deixo-vos com alguns desses personagens.

Depois desta colecção de beldades chega a vez dos homens. Haverá leitoras do blog capazes de se apaixonar por algum deles? Se tal acontecer, façam-mo saber, por favor!

E que me dizeis do imperador Carlos V, dono do mundo enquanto viveu?

Diz o ditado e é provavelmente verdade: cada ovelha encontra a sua parelha, e os casais que vêem a seguir só podem ter sido felizes.

Encerro esta viagem com os retratos dos Duques da Saxónia em 1514. O duque, garboso moço no seu fato listrado com boina, de fazer inveja à mais delirante moda dos nossos dias, e a duquesa uma santa senhora, certamente, a julgar pelo olhar que nos envia. O conjunto acompanhado por cães a condizer!

Sem mais comentários!

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A prostituição na poesia (5) – Niquita de Flandres, meretriz egrégia: poema de António Beccadelli, o Panormita (1394-1471)

12 Quinta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Convite à arte, Poesia Antiga

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António Beccadelli, Lucas Cranach

A mais antiga profissão do mundo tem sido assunto poético, de que o século XIX deixou numerosos exemplos, muitos deles de um moralismo repelente. As referências poéticas mais antigas à prostituição feminina são raras.
Este poema de António Beccadelli (1394-1471) dito o Panormita por ter nascido em Palermo na Sicília, conta-nos, pela vós da protagonista, do orgulho de uma profissão onde os juízos morais estão ausentes: apenas a ênfase no gosto de sexo por dinheiro se nota. Leia-se então este Epitáfio de Niquita de Flandres, meretriz egrégia

Se te demoras lendo estes gravados versos,
conhecerás a croia que é sepulta aqui.
Da pátria em que nasci, por vãs promessas falsas,
raptada fui, donzela, em tenra idade, um dia.
A Flandres me gerou, andei o mundo inteiro
até estabelecer-me nesta Siena plácida.
Meu nome, e conhecido, era Niquita. Fui
a estrela do bordel, entre as demais primeira.
Fui bela e fui graciosa, e perfumada, e tinha
mais alvo do que a neve o deslumbrante corpo.
Taís nenhuma em Siena melhor que eu movia
em sábios movimentos as vibrantes ancas.
Os homens minha língua em beijos exauria
dados ainda depois de consumado o gozo.
Coberto era o meu leito de uma colcha vasta,
e a minha mão aos nervos percutia branda.
Para lavar-me tinha uma bacia sempre,
e os flancos me lambia cadelinha mansa.
Uma noite, assaltou-me um bando de rapazes,
que me teve cem vezes, sem me saciarem.
Fui doce e amena, e a muitos minha arte era grata.
Mas mais doce me foi o quanto me pagavam.

Tradução de Jorge de Sena.

Entre os grandes mestres da pintura ocidental antiga, foi o nosso já conhecido Lucas Cranach o Velho (1472-1553), quem deixou algumas pinturas figurando a prostituição. Uma abre o artigo, com outras o fecho.

Termino com o que é um caso raro na pintura ocidental, a figuração provável da prostituição maculina.

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As Mulheres – versão de Gabriele D’Annunzio

12 Quinta-feira Jul 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Botticelli, Gabriele D'Annunzio

Depois de tão longa ausência, regresso com As Mulheres, fonte de tanta da nossa alegria, contadas pela poesia de Gabriele D’Annunzio (1863-1938).

Serenas, alumiadas, tão frágeis, outras reacendendo-se de amor até à medula, de todas nos fala o poema, E maravilhosamente / eu as conheci.
(ao lembrá-lo ainda as veias me tremem de ternura) diz-se no poema com que esta evocação inominada termina.

As Mulheres

Houve mulheres serenas,
de olhos claros, infinitas
no seu silêncio,
como largas planícies
onde um rio ondeia;
houve mulheres alumiadas
de ouro, émulas do Estio
e do incêndio,
semelhantes a searas
luxuriantes
que a foice não tocou
nem o fogo devora,
sequer o dos astros sob um céu
inclemente;
houve mulheres tão frágeis
que uma só palavra
as tornava escravas,
como no bojo de uma taça
emborcada
se aprisiona uma abelha;
outras houve, de mãos incolores,
que todo o excesso extinguiam
sem rumor;
outras, de mãos subtis
e ágeis, cujo lento
passatempo
era o de insinuar-se entre as veias,
dividindo-as em fios de meada
e tingindo-as de azul marinho;
outras, pálidas, cansadas,
devastadas pelos beijos,
mas reacendendo-se de amor
até à medula,
com o rosto em chamas
entre os cabelos oculto,
as narinas como
asas inquietas,
os lábios como
palavras de festa,
as pálpebras como
violetas.
E houve outras ainda.
E maravilhosamente
eu as conheci.

Depois desta evocação passemos à memória de um especial encontro relatado nesta primeira elegia romana:

[Da Primeira Elegia Romana]

Quando (ao lembrá-lo ainda as veias me tremem de ternura)
meio ébrio saí de sua casa amada,

através de ruas efervescentes dos últimos labores do dia,
de rumores, carruagens, roucos gritos,

súbito senti, do fundo peito, toda a alma elevar-se,
cupidamente, e no alto vi, sobre os estreitos muros,

romper a ígnea zona por onde o crepúsculo do Outono,
céu húmido e vastas nuvens, incendiava Roma.

Nem da hora nem dos lugares me sentia consciente. Seria
um sonho falaz a possuir-me? Ou todas minhas cônscias

alegrias eram coisas a produzir em torno um insólito lume?
Não o sabia. Mas todas as coisas produziam lume.

Imóveis, ardiam as nuvens, e, qual sangue de monstros
assassinados, de seus flancos rompam rubros rios.

Abre o artigo com uma reprodução de O nascimento de Vénus de Sandro Botticelli (1445-1510), êxtase primeiro de uma remota visita em 1978 à Galeria Uffizi em Florença.

A pretexto, ou provocado por ela, escreveu Jorge de Sena os Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena publicados a fechar o livro Metamorfoses (Lisboa, 1963) e que convido o leitor a procurar.

Termino o artigo com 2 detalhes desta deslumbrante pintura:

Primeiro a personificação de Vénus (ou Afrodite para os Gregos), a deusa do amor,

depois o par  Zéfiro e Aura soprando a suave brisa que empurra para terra a deusa e a faz reinar entre os homens.

Noticia bibliográfica

Os poemas de Gabriele D’Annunzio (1863-1938) são traduções de David Mourão-Ferreira, publicados no volume III de Vozes da Poesia Europeia, Colóquio Letras nº165.

Sobre a vida e a obra de Sandro Botticelli, continua sem rival o estudo de Ronald Lightbown, publicado pela primeira vez em 1978 e sucessivamente reeditado, possuindo algumas das edições luxuoso complemento fotográfico.

Este Nascimento de Vénus possui 172,5 x 278,5 cm e terá sido pintado entre 1484-86.

 

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O poeta salvo pelo amor – 6 sonetos de Bocage

17 Domingo Jun 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Bocage, Francois Boucher

De Bocage, contemporâneo de Goethe de quem deixei antes o livro do amor, chegam hoje alguns sonetos escritos na graça peculiar da poesia arcádica, dando conta dos transtornos da paixão.
Sonetos onde a música do verso e a exemplaridade da construção estrófica se sobrepõem à estranheza para os nosso ouvidos do século XXI, desta particular forma de dizer.

De suspirar em vão já fatigado, o poeta sonha que a morte o visita. Mas não será aí o fim do poeta.

Ao ver a morte erguer Curva foice no punho descarnado, enquanto lhe dizia:

“Eu venho terminar tua agonia: / Morre, não penes mais, ó desgraçado.”

surge o deus Amor, e imperioso ordena à Morte:

“Emprega noutro objecto os teus rigores,
Que esta vida infeliz está guardada
Para vitima só de meus furores.”

Para aqui chegarmos, vamos primeiro acompanhar o poeta na descoberta do amor,

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

e no desejo da sua consumação:

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

(e já noutro dia, com o poema de Parny, vimos o que nesta poesia do século XVIII significa Destas copadas árvores o abrigo.)

Enquanto espera, consome-se nas ânsias loucas da paixão:

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.

Leremos do sofrimento sem esperança a que o amor conduz, fazendo o sofredor apenas desejar a morte:

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

para que no final, salvo dela pelo deus Amor, possamos participar da ansiedade com que aguarda a consumação sexual da sua paixão.

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz: longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores
Hei-de, enfim, possuir; porém segredo.

Durante a espera pede segredo aos ventos, Zéfiros, para que não levem a Júpiter o eco dos frouxos ais, brandos queixumes ouvidos durante o sexo, pois Júpiter, com a sua reputação de come tudo, irá querer reservar para si o banquete do amor de Nise:

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Nao leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o Pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.

Nos sonetos temos Marília, Nise, Jónia, nomes convencionais para uma mesma ou varias paixões. É irrelevante. São poesias desligadas de destinatário, onde apenas a forma de dar corpo ao sentimento conta. E esse, no século XVIII como agora, é o mesmo. Tal como é a mesma, a forma de o viver. Apenas como o exprimimos mudou.

Vamos então aos poemas que já é tempo.

I

Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu Fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!

Ó ledos olhos, cuja luz parece
Ténue raio do Sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vénus? É mentira:
Sois de Marília, sois dos meus Amores.

II

Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores,
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste.

Varrendo os ares o subtil Nordeste,
Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!

III

Enquanto o Sábio arreiga o pensamento
Nos fenómenos teus, ó Natureza,
Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
Volve o subtil geométrico instrumento;

Enquanto alçando a mais o entendimento,
Estuda os vastos céus, e com certeza
Reconhece dos astros a grandeza,
A distância, o lugar, e o movimento;

Enquanto o Sábio, enfim, mas sabiamente
Se remonta nas asas do sentido
À corte do Senhor omnipotente;

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, ó Jónia, a mente:
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.

IV

Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a Noite escura e feia:
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas costumado.

Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.

Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.

V

De suspirar em vão já fatigado,
Dando tréguas a meus males, eu dormia;
Eis que junto de mim sonhei que via
Da Morte o gesto lívido e mirrado.

Curva foice no punho descarnado
Sustentava a cruel e me dizia:
“Eu venho terminar tua agonia:
Morre, não penes mais, ó desgraçado.”

Quis ferir-me, e de Amor foi atalhada,
Que armado de cruentos passadores
Aparece, e lhe diz com voz irada:

“Emprega noutro objecto os teus rigores,
Que esta vida infeliz está guardada
Para vitima só de meus furores.”

VI

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
Sombra propícia aos crimes e aos amores,
Hoje serei feliz: longe, temores,
Longe, fantasmas, ilusões do medo.

Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Furtivas glórias, tácitos favores
Hei-de, enfim, possuir; porém segredo.

Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
Nao leveis, não façais isto patente,
Que nem quero que o saiba o Pai dos numes:

Cale-se o caso a Jove omnipotente,
Porque se ele o souber, terá ciúmes,
Vibrará contra mim seu raio ardente.

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Do banho como fonte de pecado: Leandro de Sevilha (537-600)

01 Sexta-feira Jun 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Prosas

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Escola de Fontainebleau, Henri Cartier-Bresson, Leandro de Sevilha

Escreveu o Bispo Leandro de Sevilha (537-600) o livro “A instrução das virgens” para oferecer a sua irmã Florentina quando esta entrou como monja para um convento.

Vasto acervo de ensinamentos a transmitir por um homem conhecedor do mundo a uma jovem mulher prestes a ser entregue à contemplação do Todo-poderoso, nele respigo um aspecto que hoje talvez passe desapercebido, mas foi matéria de controvérsia por séculos: o banho ou antes, o prazer do próprio corpo decorrente da caricia do banho. São estas, considerações sobre o banho privado, e para sentirem como o bispo tinha provavelmente razão, o artigo vai ilustrado com 2 pinturas da Escola de Fontainebleau de entre o final do século XV e principio do século XVI, quando estas coisas já podiam se pintadas para gáudio e contemplação real.

Vamos então às considerações bispais:

…

Não te hás-de banhar por gosto ou para dar formosura ao corpo, senão apenas como remédio para a saúde. Quer dizer, usarás o banho quando a doença o exija, não quando o prazer o apeteça. Se o tomas quando não seja preciso, pecarás, pois está escrito: Não ponhais a vossa solicitude na concupiscência da carne.

A solicitude carnal que provém da concupiscência conceptua-se como vicio; não, por outro lado, os cuidados necessários para restabelecer a saúde. Por tal motivo, que não te arraste a banhar-te com frequência o prazer corporal, senão somente as exigências da enfermidade, e estarás livre de culpa se unicamente actuares por imperativo da necessidade.

(solicitude é aqui empregue no sentido de “afã ou diligencia em tratar ou conseguir algum fim”, de acordo com o Dicionário De Morais)

Sabeis agora, vós, leitor, que não te arraste a banhar-te com frequência o prazer corporal, e provavelmente é o que acontece com alguns nossos contemporâneos a ajuizar pela atmosfera em hora de ponta no metro ou em certas carreiras de autocarros.

No entanto, os conselhos do bispo não devem ter tido generalizada aplicação, ainda que o espectro do pecado lá estivesse, e o prazer do banho terá continuado a desfrutar-se, falam-nos dele as pinturas aqui mostradas.

Para final de conversa deixo o leitor com a contemplação do visível prazer do banho captado por Cartier-Bresson algures nos anos 30 ou 40.

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Ovídio — tarde de amores

17 Quinta-feira Maio 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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David Mourão-Ferreira, Ovídio, Renoir

Sabe quem a pratica, do gozo, do aconchego da sesta. De toda a volúpia que o principio da tarde desvela após refeição prazenteira. Um peixe grelhado, um vinho, suculenta fruta em remate, e depois o leito.

E aperto-a contra mim… Que sucedeu depois?
Fatigados, por fim, repousámos os dois…

São segredos que as terras quentes conhecem desde a mais remota antiguidade, sobremaneira apetecidos nestas escaldantes tardes de verão. É a essa antiguidade que hoje vou buscar um relato poético de Ovídio (43 a.C – 17 d.C. ) dando conta dos prazeres de uma dessas tardes de prazer, e com o poeta comungo:

Que sempre se repita, em todos os meus dias,
um meio-dia igual a este meio-dia!

Eis a bela tradução de David Mourão-Ferreira (1927-1996)

Era intenso o calor. Do meio-dia passava.
Deitei-me sobre a cama a ver se repousava…
Na cerrada janela apenas uma fresta
permitia filtrar-se uma luz de floresta;
ou, antes, uma luz que mais par’cia irmã
da que antecede a noite ou precede a manhã…
É a luz que convém à jovem reservada,
para que em seu pudor não fique perturbada.

Eis que chega Corina, a túnica cingida,
sobre o pescoço branco uma trança caída…
(Semirámis? Laís? Dir-se-ia uma delas…
Só pode comparar-se às que foram mais belas!)
A túnica lhe arranco, embora de tão leve
nem sequer me constranja o tecido que a veste.
Tenta ainda lutar a fim de se cobrir,
mas o que mais deseja é deixar-se despir…
E quando fica, enfim, de pé, sem nenhum véu,
nem um defeito só vejo no corpo seu!
Oh, que ombros divinais! Oh, que braços divinos!
Que ventre tão perfeito! E que peitos erguidos!
Coxas tão juvenis! Ancas? Bem mais maduras…
Pra quê enumerar, se toda é formosura?
E aperto-a contra mim… Que sucedeu depois?
Fatigados, por fim, repousámos os dois…

Que sempre se repita, em todos os meus dias,
um meio-dia igual a este meio-dia!

Amores, Livro I, 5

Foi ao pintor da gente feliz, Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), que fui buscar a ilustração para esta bela memória poética.

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Peculiares retratos reais dos séc. XV e XVI

29 Domingo Abr 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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É conhecida dos leitores habituais do blog a minha paixão pela pintura de retrato. Na possibilidade de olhar o outro que a pintura de retrato proporciona, encontro o prazer de inventar para os retratados personalidades, gostos e maneiras de ser, que sendo sem correspondência com os observados, dão às pinturas uma vida que outros assuntos não permitem.

Há semanas chegaram ao blog retratos de algumas beldades do século XV. Do que cada retrato me inspirou não contei. Deixei a cada visitante o prazer desse exercício. Prometi regressar com as feias. Eis algumas.

Mulheres poderosas no seu tempo, talvez tenham sido belas, mas os retratos que delas nos chegaram não o deixam perceber. Imaginai, no entanto, leitor, como seria despertar pela manhã e encontrar na almofada ao lado semelhantes rostos. O resto vai por aí.

Para as leitoras, qualquer que seja a beleza do seu rosto, o espelho da realidade parece não trazer limites e permitir que quando perguntado: Há mulher mais feia que eu? O espelho responda sempre: Sim!

Eis a pintura que o comprova.

Nota sobre as pinturas

Como é habitual, os nomes dos ficheiros identificam as retratadas, basta passar o cursor sobre a pintura e o nome surge.

As imagens podem ser vistas ampliadas fazendo click sobre cada uma.

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No Dia Mundial do Livro

23 Segunda-feira Abr 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas

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Irmãos Limbourg

Sucedem-se os dias mundiais a propósito das mais variadas matérias. Acabam por chamar a atenção para assuntos ou realidades de que andava distraído. Não assim com o Dia Mundial do Livro. É para mim uma espécie de aniversário colectivo em que muitos amigos se festejam.

No esforço de segurar a vida tentando acreditar que vale a pena vive-la, é aos livros que recorro, qual Cartas a Lucílio, de Séneca, qual Consolação da Filosofia, de Boécio. Outros há, e na poesia são tantos, em que a alegria de estar vivo se reencontra!

Leio de forma regular desde os oito anos. À época, e estou a falar do principio dos anos sessenta do século XX, a fonte das minhas leituras era a biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian, materializada numa carrinha cheia de livros que às quartas-feiras estacionava no Largo da Praça e onde, ao fim da tarde, eu trocava os livros emprestados e lidos, pelos novos que seriam a alegria da semana seguinte. Encarregava-me o meu pai, nesta troca, do transporte dos livros que para ele também levara. Do que ele lia, não recordo. Apenas o nome de Balzac me vem à memória, pelo peso e tamanho dos livros. Para mim, sim, lembro os livros de contos de príncipes e princesas encantadas, encadernados a tecido com uma estampa pequena, colorida, na capa.

Foi adulto que, com enorme jubilo, encontrei no livro do século XV, Très Riches Heures du Duc de Berry (c. 1416), da autoria dos irmãos Limbourg, as imagens que inspiravam os desenhos desses livros de contos e me alimentaram a imaginação infantil com castelos e personagens fabulosos.

Hoje, à visão de qualquer livro de horas exposto em museu ou galeria, páro embevecido a olhá-los longamente. Foi com desgosto que há dias, em visita a um alfarrabista, não comprei uma belíssima copia fac.-similada em pergaminho, de uma destas obras-primas. A crise não está para aventuras.

Mas voltando à infância, poucos anos passados, com o aumento do nº de leitores, a biblioteca deixou a carrinha itinerante e instalou-se num antigo edifício no interior da cerca moura, adjacente à igreja da Misericórdia. Chegava-se lá por uma rua estreita em escadaria, da época medieval, a que também conduz ao castelo. Quando subia aquelas escadas, a minha imaginação infantil coloria-se, e via cavaleiros a descer por ali abaixo, envoltos em trajes esvoaçantes, arma em riste, a caminho de qualquer batalha ou aventura cavaleiresca de libertar formosa dama de um tirano pai que a mantinha a pão e água no alto de qualquer castelo.

Nunca mais parei de ler. Quando por volta dos catorze anos deixei de encontrar na biblioteca os livros que supunha interessarem-me, passei a comprá-los logo que conseguia juntar o dinheiro suficiente. Assim continuei, e acabei por quase submergir em livros.

Os livros sobrevivem-nos sempre, e agora, chegada a altura das escolhas, decidi passar a outros parte dos livros que por anos me acompanharam. Não ofereço, vendo-os. Quem decide gastar o seu dinheiro num livro, provavelmente deseja-o, e estimá-lo-á. Espero reduzir a biblioteca pessoal a poucos milhares de livros e continuar a ter espaço para os novos livros que chegam.

Hoje, ao toque do carteiro, pensei, mais cartas das Finanças! Afinal não. Para minha grande alegria, era o livro com a edição inglesa dos poemas de Anna Akhmatova, há muito esperado, e que a certa altura julguei perdido, que chegava. Terei ocasião de falar dele, da poetisa e dos seus poemas, mais tarde no blog.

Acredito com Umberto Eco que os livros como os conhecemos não serão substituídos por eBooks no tempo da minha vida. Os suportes variarão, todos teremos as nossa preferências no acto de leitura, mas a criação pela palavra e a sua transmissão entre os homens não vai terminar.
Reflexo da mutação dos tempos que atravessamos, decidi-me finalmente pela edição de parte do que tenho escrito, e assinalo este Dia Mundial do Livro de 2012 com o envio para publicação em eBook  do livro  da fermosa benfeitoria (rimas obscenas). A distribuição do livro estará a cargo de uma empresa dos EUA, e como as rimas são acompanhadas da reprodução de pinturas eróticas japonesas da minha colecção, aguardo a confirmação de aceitação, tendo em conta a censura visual exercida sobre a comunicação electrónica pública no pais da liberdade.

O livro, com uma abertura que remete para a pintura e um epílogo em diálogo com a religião, contém no corpo rimas que evocam alguma da poesia erótica da tradição europeia publicada ao longo dos séculos.

Quando o livro se encontrar disponível para compra, darei noticia no blog.

Releio o que escrevi acima e duas evidências ressaltam: por um lado ao falar de livros é a palavra alegria que sobressai; por outro, seria diferente o texto, e seria eu outra pessoa, se a vida não tivesse cruzado no meu caminho a Fundação Calouste Gulbenkian enquanto cidadão.
Através dela encontrei os livros, são edições da Fundação os livros que me salvaram e devolvem o sentido do viver, foi na colecção de arte da Fundação, exposta no seu museu, que abri os olhos para o belo artístico, aí incluídos tanto os livros de horas, como os livros persas por cujas iluminuras me apaixonei; foi finalmente na Fundação que as experiências musicais marcantes me aconteceram, quais os encontros com a música da vanguarda do século XX e a música antiga, e que outro dia virá à conversa, agora que Montserrat Figueras partiu para encantar os anjos no céu.

São do livro Très Riches Heures du Duc de Berry as imagens que acompanham o artigo.

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