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vicio da poesia

Category Archives: Convite à arte

Eurípedes, um fragmento de Ifigénia em Áulide

15 Terça-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Crónicas, Poesia Antiga, Poesia Grega

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Eurípedes, Frans Floris

FLORIS, Frans - O julgamento de Páris 1548Dava hoje noticia a imprensa, de um inquérito não representativo ao Interesse Sexual Masculino, levado a cabo em Portugal, Croácia e Noruega.
A noticia concluía, não sei se o inquérito também, umas coisas variadas, destacando e apontando razões para um suposto desinteresse sexual em mais de 10% dos portugueses homens, na casa dos 30 anos.
Estes estudos explicam-se por si: são ocupação de alguém para durante algum tempo produzir qualquer coisa que permita seguir em frente ganhando a vida.
Expendidos vários argumentos para este resultado, um deles refere a perda de interesse sexual por excesso de convívio com a pornografia. Será! Poupo-vos a comentários. Digo-vos, apenas que ao ler tudo isto me ocorreu um fragmento de Eurípides (480-406a.C.):

Haja para mim graça / comedida e castos amores;
dos dons de Afrodite participe / mas evite os seus excessos.

Deixo-vos com a estrofe da primeira intervenção do coro de Ifigénia em Áulide, poema maravilhoso e cruel tragédia, nas palavras de André Bonnard, onde estes versos se contêm.

Felizes os que, com medida divina           543
e segundo a sabedoria,
tiveram parte nos prazeres de Afrodite,
com calma usando
o aguilhão furioso das paixões
quando Eros de loura cabeleira
os dardos ambos dispara das suas graças,
um para destino de felicidade,
outro para tormento de vida.
A este afasto eu, linda Cípris,
do meu tálamo.
Haja para mim graça
comedida e castos amores;
dos dons de Afrodite participe
mas evite os seus excessos.

A tradução é de Carlos Alberto Pais de Almeida, 2ªedição, FCG/JNICT, 1998

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O poeta pobre – pintura de Carl SPITZWEG

14 Segunda-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Carl SPITZWEG

SPITZWEG, Carl - O poeta pobre 1839A pintura de Carl SPITZWEG (1808-1885), que hoje arquivo no blog dá-nos uma visão do poeta-homem que terá sido, a espaços, verdadeira, para alguns menos afortunados génios. Outros houve que gozaram em vida de popularidade, honras e benesses, e hoje repousam em merecido esquecimento. O século XIX português conheceu esses génios de secretaria em abundância.
Hoje a situação apresenta-se semelhante. Há os génios de “carteirinha”, para usar uma expressão brasileira, e os outros.
A rarefação dos leitores de poesia, faz com que as edições de novos livros, que não os dos poetas best-seller obviamente, conheçam tiragens de 200/300 exemplares, e menos. Com tiragens destas não há poeta que enriqueça, e no recato da sua intimidade, apenas o design do mobiliário terá mudado em relação ao que a pintura de Carl SPITZWEG nos mostra.

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Pintura de David Hockney lida poeticamente por Ana Hatherly

13 Domingo Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Ana Hatherly, David Hockney

Hockney_David-A_Bigger_SplashEmbora sejam até frequentes os poemas escritos a pretexto de pinturas, os poemas que hoje me ocupam têm na ligação poesia-pintura matéria de reflexão adicional. Trata-se de pinturas de David Hockney (1937) e de uma reflexão poética de Ana Hatherly (1929) sobre elas, tanto mais relevante quanto Ana Hatherly é uma notável artista plástica.

É na suposta fidelidade ao real que estas pinturas procuram, que Ana Hatherly se detém:

Porque o real / que esta pintura pinta / e que ele quer que se sinta / é um real que se mente

Nesta reflexão poética em torno da verdade da arte e do real que mente, ou do contrario disto, é a representação das palmeiras a evidência desta dicotomia:

como as magras palmeiras / postas ali para o olhar subir / um pouco / para o longe / para um céu azul que não existe / a não ser como ameaça / latente / na cruel esterilidade / dum real que não mente

Sendo uma pintura de inegável apelo visual na simplicidade da sua geometria e no equilíbrio do colorido, ganhou a dimensão icónica de um mundo que o cinema nos anos sessenta glosou como triunfo da modernidade.

Hoje não nos importa O que esta pintura quer tornar patente. Sabemos já, depois da crise de 2008 que este mundo acabou. Podemos olhá-la como oásis de sonhos perdidos.

Sobre “A Bigger Splash” de David Hockney

É uma tela de 2,44×2,44m
em que o real imaginado
está devidamente enquadrado

Tudo seria plano
como planeado
se não houvesse o splash
a perturbação que anima
a placidez geométrica do fotograma
do freeze-frame
que esta pintura muda
quer ser
e afinal não é

Porque o real
que esta pintura pinta
e que ele quer que se sinta
é um real que se mente
nesta pintura rente

É uma pintura que por nós entra
fina e quase débil
como as magras palmeiras
postas ali para o olhar subir
um pouco
para o longe
para um céu azul que não existe
a não ser como ameaça
latente
na cruel esterilidade
dum real que não mente

O que esta pintura quer tornar patente
não interessa:
É preciso desconfiar des imagens
diz o próprio artista
e num quadro
o sentido vem de toda a parte

E acrescenta:
Amanhã o público
vai querer outra coisa
além do que eu vi

Mas o que é a arte
senão artificio da verdade?

O problema é que
os filósofos modernos
segundo ele
brincaram demais
com a máquina fotográfica

Continua Ana Hatherly a sua reflexão poética pela pintura de David Hockney tomando as palmeiras como pretexto na ironia demolidora com que comenta estas pinturas:

as palmeiras surgem / nos quadros de Hockney / como esguios / inativos espanadores

Hockney_David-A_Lawn_Being_Sprinkled

As Palmeiras de Hockney

Outrora
a palmeira queria dizer
imortalidade
triunfo
e às vezes martírio

Agora
as palmeiras surgem
nos quadros de Hockney
como esguios
inativos espanadores

Agora
a poeira
transformada em chuva ácida
inutiliza
a diligência
das meneantes palmas

E o azul das piscinas
transformado
em estático caleidoscópio
tornou-se um sal vítreo
onde os corpos se partem

Hockney_David-Portrait_of_Nick_Wilder

É a subversão da natureza posta ao serviço da estética naquelas palmeiras de brincar, o que parece desencadear a ironia de Ana Hatherly nesta diatribe contra o real representado. No entanto, são pinturas que na sua opção de classe nos interrogam de múltiplas formas sobre a nossa civilização urbana.

Os poemas foram publicados no livro Itinerários, edição quasi, 2003

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A Prostituição na poesia (6) – As putas da Avenida de Fernando Assis Pacheco

12 Sábado Jan 2013

Posted by viciodapoesia in A mulher imaginada, Convite à arte, Poetas e Poemas

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Egon Schiele, Fernando Assis Pacheco

Dos muchachas en una manta de flecosA cidade transformou-se e a avenida da Liberdade já não é o que era quando Fernando Assis Pacheco (1937-1995) escreveu o soneto As putas da Avenida.

Hoje percorre a avenida o luxo da alta costura e das marcas com que o dinheiro se perfuma, escondendo os cheiros da sua origem. Mas as artérias não se libertam tão facilmente da vida que durante anos a elas se agarrou e, avançada a noite, regressam os ecos deste passado contado com mão de mestre na concisão do soneto.

AS PUTAS DA AVENIDA

Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso da Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo a voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena

Este soneto de Fernando Assis Pacheco encontra-se no livro Variações em Sousa de 1987, republicado em A Musa Irregular, 3ªedição com as correcções do autor, por Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

 

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Regresso à pintura com os nus femininos de Egon Schiele

12 Sábado Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte

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Egon Schiele

Desnudo femenino de pieO encontro em Viena com um alargado número de obras de Egon Schiele (1890-1918) foi de uma profunda perturbação. Na fragilidade do papel, no inacabado da pintura, é a precariedade da vida que se sente.

Reclining Woman with Green Stockings

Falo sobretudo dos nus femininos.

Desnudo con turbante verde

Mulheres torturadas, agressivas, ou despojadas de um mínimo de dignidade,

Mujer sentada

Recliening Female Nude

interrogam-nos umas vezes sobre a existência de uma dimensão sórdida do feminino,

Mujer sentada con la mano izquierda en el cabello

outras dão a ver a inocência atrevida da adolescência.

Egon Schiele 01

Temos quase sempre uma imagem da mulher em que a dimensão do sexo se sobrepõe a outros aspectos do humano existir, surgindo como razão de vida naqueles seres, o apetite dos corpos onde a beleza está ausente.

Desnudo femenino con medias verdes

Há um desvanecer-se de si na coloração fragmentada ou parcial que transmite a fragilidade de todos aqueles seres humanos, a quem a arte, no capricho do desenho do pintor, acrescenta a tortura de existir.

Muchacha desnuda

Deixo-vos com mais algumas escolhas entre as dezenas possíveis.

Desnudo femenino acostado con las piernas separadas

Muchacha desnuda sentada

Semidesnudo femenino de rodillas

Mujer con medias negras 3

Schiele_Egon-Nude 1910

Desnudo femenino agazapado

Joven vienesa desnuda

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Noticia ao entardecer – Gabino Alejandro Carriedo

11 Sexta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Francis Bacon, Gabino Alejandro Carriedo

Bacon_Francis-Study_for_a_Portrait_March_1991A este poema, Noticia ao entardecer, vindo da Madrid do após-guerra, leio-o como eco da devastação de alma que socialmente nos atravessa.

Noticia ao entardecer

Devia ter-te escrito há tempos uma carta
dizendo entre outras coisas: “na província chove,
minha irmã foi para freira,
eu perdi o emprego”.
Possivelmente responderias com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Lamento isso da tua irmã
mas alegro-me com a chuva
que é boa para as colheitas”.
Há tempos, amigo, devia ter-te escrito
para te contar coisas de importância:
por exemplo que estou bastante só
depois daquele amor;
por exemplo que durmo muitas horas
para me esquecer de que existo;
por exemplo que estou bastante triste
mas que em algum país haverá eleições
antes do mês de Janeiro.
Terias respondido com a tua letra:
“Não me agrada o teu estado” ou “é preciso
que sacudas o tédio”.
Terias respondido com a tua letra
miúda sobre o papel:
“Eu conheci um senhor que estava morto…”
Ter-me-ias dito que não importa nada,
não importa estar triste ou solitário
se na província chove,
se as colheitas foram boas este Verão
haverá por aí dinheiro em abundância.
Dir-me-ias: “Amigo, o que importa
é ter vontade; quem quer pode”.
(Eu conheci um senhor que estava morto…)
O tal senhor que estava morto, estava
somente um pouco ferido. Disseram-no
os jornais. Até recordo a data.
Ressuscitou, é certo, mas estava
somente um pouco ferido.
Em troca sinto-me destruído, descentrado;
não tenho remédio; passeio,
Vou à taverna e escrevo
cartas que nunca saem de Madrid.
Não falo com ninguém, nunca pergunto
como acabou a festa.
Diz-me se ainda é possível escrever cartas.
Diz-me se ainda é possível estar mais morto.

A poesia de Gabino Alejandro Carriedo (1923-1981) é um daqueles segredos bem guardados e que vale a pena desvendar. Poesia transversal a escolas, lida hoje surge como nossa contemporânea, tanto na oficina como nos temas onde um “eu e o mundo” se reflecte.

O poema Noticia ao entardecer foi publicado na antologia Poesia Espanhola do Após-Guerra, com escolha e tradução do poeta Egito Gonçalves, editada por Portugália Editora em Lisboa, no inicio dos anos sessenta do século XX.

 

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O Complexo do Armário – Poema de Isabel Meyrelles

11 Sexta-feira Jan 2013

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Isabel Meyrelles, Magritte

Magritte_Rene-The_Key_to_the_Fieldds_La_Clef_de_champsRegressado de férias, com a vida a procurar equilibrar-se no escorregadio deste nosso quotidiano, às vezes a sugestão oferecida por Isabel Meyrelles (1929) em O Complexo do Armário ganha apetitosas cores. Partilho-a com quem a não conheça.

O Complexo do Armário

Se é infeliz,
insone, angustiado,
cardíaco, dipsomaníaco,
melancólico
ou hipocondríaco,
se anda deprimido
pelo tempo morto dos sonhos
e se acredita
que um na mão
vale mais
que dois a voar,
faça como eu:
arranje um armário.
O meu tem protecção
contra o nevoeiro, as traças,
a amnésia.
possui o tudo-é-d’esgo(s)to,
ar condicional
e muros acolchoados
para cabeças sensíveis.
Previ também
uns ganchos no tecto
para o excedente dos bolsos:
óculos, amores mortos,
sapatos velhos,
casa dos antepassados
e várias outras coisas
de que não direi o nome.
Para as horas de ócio,
escolhi um pedaço de mar,
a biblioteca de Babel,
a praça St. Germain des Prés
às 5 da manhã
e uma florestado Plistoceno
com inúmeros mamutes
e macairódus,
sem esquecer o fundo sonoro ad hoc,
rugidos, uivos
e barridos extremamente típicos.
Muito repousante.
Experimente
e depois diga se gostou.

Lido este convite a desligar de tudo e encontrar o casulo ou armário onde guardar o que a vida nos deixou, na espera de que o ócio de prazer ainda seja possível, me despeço.

Noticia bibliográfica

O poema foi originalmente escrito em francês e publicado em Le Livre du Tigre em 1977.

A tradução portuguesa é da autora e a transcrição provém de POESIA, Quasi Edições, 2004.

Este livro, POESIA, reúne a poesia da autora, e contém a abrir um pequeno estudo de Perfecto E. Cuadrado, onde este enquadra, na biografia da artista, a obra escultórica e poética, filha do surrealismo.

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A mosca azul – poema de Machado de Assis

30 Domingo Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poesia Antiga

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Machado de Assis, Miró

Miró Mujer frente al solÉ a elegância da versificação o que primeiro chama a atenção em A mosca azul de Machado de Assis (1839-1908), prosador maior da língua portuguesa. Depois, a repetida leitura é um convite a que não se resiste: levados pela musicalidade encantatória do verso seguimos a fantasia da história contada, nesta metáfora de sonhos desfeitos por excesso de análise.

Sigamos com A mosca azul o aparecimento, apoteose e queda de uma fantástica ilusão, e como metáfora guardêmo-la para as nossas vidas.

A mosca azul

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— “Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?”

Então ela, voando e revoando, disse:
— “Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor”.

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí vai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.

Noticia bibliográfica

A mosca azul foi publicado no livro Ocidentais, talvez em 1880 (não encontrei cópia desta edição, nem informação fidedigna sobre ela), e depois incluído na edição das suas Poesias Completas (1902?), onde reuniu uma escolha alargada de poemas anteriormente saídos nos quatro livros de poesia publicados ao longo da vida.

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Poema de Amor – Natércia Freire, com pintura de Matisse

29 Sábado Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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Matisse, Natércia Freire

Matisse conversa 1908As mulheres são quem faz do mundo um lugar onde apetece viver. Sabem do amor, numa ciência provavelmente inata, todo o alfabeto, e nós homens, com elas, temos apenas que aprender.

Hoje, vou a Natércia Freire (1920-2004) e ao seu Poema de Amor buscar a palavra poética que dá corpo ao que afirmei:

Teu rosto, no meu rosto, descansado. /  Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
…
Meu rosto, no teu rosto de horizontes, / Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

É a total entrega, levando à fusão pelo amor, o que este poema nos trás, a nós, Românticos amantes, viajantes eternos, que nem sempre fazemos ou somos capazes, do que de nós se espera:

olham por nós na hora que se esvai!

Feitas as apresentações, passemos ao poema:

Poema de amor

Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
sem relógio nem espaço proibido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
nos sorriem, nos dizem: Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de águas vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

À ironia da escolha da pintura de Matisse (1869-1964) com que abro o artigo, acrescento a opulência da beleza feminina, tal com vista pelo Mestre na idade madura, em 1935, O Nu Rosa, pintura que me incendeia a imaginação desde a adolescência.

Matisse - O nu rosa 1935

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Com a poesia de Jorge de Sena pelo Natal

25 Terça-feira Dez 2012

Posted by viciodapoesia in Convite à arte, Poetas e Poemas

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GHIRLANDAIO, Jorge de Sena, Natal

GHIRLANDAIO, Domenico 1492Acontecido o nascimento, é para o balbuciar da vida que a atenção do homem se volta. Com Jorge de Sena (1919-1978) é recorrente a atenção aos filhos como na obra-prima Carta aos meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya.
Nos três poemas que seguem, como outros dispersos pela sua obra poética, são reflexões sobre o ciclo vital o que acompanhamos, lendo no mistério da poesia o mistério da vida.

Eternidade

Vens a mim
pequeno como um Deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.
Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

In PERSEGUIÇÃO [1942]

Cantiga de embalar

Tão docemente se ouve um grito de criança,
enquanto a noite cerra o seu passo mais largo
que a névoa branda em torno aos candeeiros.

Até mim chegam indistintos halos
de luzes próximas, talheres fulgindo,
além, por sobre quintais abandonados.

No céu, sem estrelas como um fumo inútil,
espraiam-se olhares, silêncios, cartas esquecidas,
e túmulos perdidos no subsolo das casas.

Um grito de criança. E, no entanto,
há uma guerra, uma paz, armamentos sem fim,
e é importantissimo estudar economia política.

Saberás, meu filho do acaso de outros,
ser diferente sempre, dia a dia?
Saberás bem tudo, e sem saber o quê?
Serás como esta noite de um silêncio grávido
suspenso eternamente sobre as coisas?

In COROA DA TERRA [1946]

Os filhos levam muito tempo a crescer

Precária a vida e consentida a morte.
Quanto eu julguei saber como assim eram!
Mas não sabia.

Morreram-me pessoas queridas
e é como se ausentes permaneçam;
mesmo quando morreram perante mim,
não foi à morte delas que assisti:
outrem morreu, que é outro alguém que morre.

Mas também isto ainda o não sabia,
como o sei agora,
se aos meus filhos  o olhar se turva
se não sorriem logo, prontamente,
ao mais singelo aceno desta vida
que tão precária acena por seus lábios.
A morte é consentida: se a consentem?
Se se desdobram, numa imagem fixa,
que se perde,
e noutra que parte para sempre,
como se só ausente permaneça,
mas que nunca mais volta,
para viver precariamente
e morrer consentidamente
depois de a morte a mim me haver vivido?
Tudo isto meus versos o sabiam,
que não eu.
E agora que o sei tão ansiosamente,
leio estes versos e suspeito
amargamente que estes o não sabem.

1951

In POESIA-I, 1977

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