Salette Tavares – uma aproximação

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É a caricia da mão na minha face

e o meu olhar repousado

o sorriso que passa

rápido

de mim a ti.

 

É toda uma ternura que nos chama

é a desolada solidão de quem se ama

e conhece o espaço

que fica

de aqui ali.

 

É uma inclinação suspensa

por toda a pele que nos limita o corpo

gemido, doçura, pena

como o poema

a chamar por mim.

 

Integrando o pequeno grupo de grandes poetas portugueses do século XX, a poesia de Salette Tavares (1922-1994) é pouco conhecida. Espero ter o tempo para a ela regressar de forma circunstanciada.

Por agora, além do poema de abertura, deixo-vos com outro poema de amor, ambos de Espelho Cego primeiro livro da autora publicado em 1957.

 

Aqui onde chegaste

a tua voz trocou-se,

diz-me

onde puseste

o amor com que te sei.

 

Meridiano do meu corpo

mundo escorrido limite

raiz encharcada d’água

a respirar-me no peito.

 

Vela de cera acendida

no teu olhar que morreu

eu sei-me

água, terra, morte, vida,

cor do vento sobre a pele,

eu sei-te

luz do ar do meu cabelo.

 

Em despedida aqui fica um exemplo da sua poesia concreta, arranhisso, em que a disposição das palavras nos remete visualmente para o bicho.

 

 

Noticias biográficas sobre a autora podem ser facilmente encontradas na net.

Carregado de mim ando no mundo – o lado sério de Gregório de Matos

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Embora conhecido sobretudo pelas suas sátiras corrosivas e amiúde obscenas, Gregório de Matos (1633-1696), foi também poeta de reflexão.

Com a obra poética para além dos sonetos  aguardando uma edição critica (ao que suponho) que separe a produção própria da de outros, nomeadamente Tomás Pinto Brandão, Gregório de Matos é um poeta mal-amado.

Temos hoje, como no passado, dificuldade em lidar com a obscenidade posta em letra de forma, ainda que, na maior parte dos casos,  a realidade a que é aplicada não possua outra forma igualmente lapidar de se lhe referir.

Transcrevo nesta breve visita dois sonetos  com o lado sério de Gregório de Matos.

Começo com este  Carregado de mim ando no mundo, cujos primeiros versos em muitos de nós ganham por vezes intensa acutilância, e alguns há, com demasiada frequência.

Carregado de mim ando no mundo, / E o grande peso embarga-me as passadas / Que como ando por vias desusadas, / Faço crescer o peso, e vou-me ao fundo.

O resto do soneto vai pela mesma qualidade de inspiração.

 Carregado de mim ando no mundo,

 E o grande peso embarga-me as passada,

 Que como ando por vias desusadas,

Faço crescer o peso, e vou-me ao fundo.

 

O remédio será seguir o imundo

Caminho onde dos mais vejo as pisadas,

Que as bestas juntas andam mais ornadas,

Do que anda só o engenho mais fecundo.

 

Não é facil viver entre os insanos,

Erra quem presumir que sabe tudo,

Se o atalho não soube dos seus danos.

 

O prudente varão há de ser mudo,

Que é melhor neste mundo, mar de enganos

Ser louco c’os demais, que só  sisudo.

 

Na edição crítica dos Sonetos de Gregório de Matos preparada por Francisco Topa, estes encontram-se arrumados por temas.Temos sonetos Sacros e Morais onde se inclui o que transcrevi, Encomiásticos, Fúnebres, Amorosos, Satíricos e burlescos, e dois outros, num total de 217 sonetos recenseados e atribuídos formalmente ao poeta. É um corpus vasto de qualidade desigual onde se encontram algumas belas poesias.

Termino transcrevendo de entre os sonetos amorosos,  um soneto-reflexão sobre o tempo da paixão e o sofrimento que ela trás:

Horas contando, numerando instantes,

Os sentidos à dor e à gloria atentos,

Cuidados cobro, acuso pensamentos,

Ligeiros à esperança, ao mal constantes.

 

Quem partes concordou tão dissonantes?

Quem sustentou tão vários sentimentos?

Pois para glória excedem de tormentos,

Para martírio ao bem são semelhantes.

 

O prazer com a pena se embaraça;

Porém quando um com outro mais porfia,

O gosto corre, a dor apenas passa.

 

Vai ao tempo alterando a fantasia,

Mas sempre com vantagem na desgraça,

Horas de inferno, instantes de alegria.

 

A poesia satírica e obscena fica para outra visita.

As mulheres sentadas de Modigliani

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A pintura de Modigliani (1884-1920) decorre num muito reduzido grupo de assuntos e a parte de leão é ocupada pelo retrato onde a inconfundível forma expressiva do pintor atinge por vezes fulgurações não mais igualadas na pintura ocidental.

Um assunto aparentemente tão simples como pintar uma mulher sentada, sem adereços a compor o quadro, tem na arte do mestre uma variedade  surpreendente utilizando os mesmos parâmetros pictóricos.

É a  um exercício do olhar que convido os visitantes do blog, percorrendo alguns dos inúmeros retratos de mulheres sentadas, saídos do pincel de génio do pintor.

A uma escolha inicial de 40 pinturas, retirei este reduzido grupo onde pequenas alterações na pose criam o dinamismo e movimento de cada retrato.

É a linha do desenho, na sua sofisticada curvatura, aliada à invariável melancolia das mulheres retratadas que faz nascer em nós uma ternura por estes personagens aparentemente desamparados naquele universo nu. Sentadas, estas mulheres aguardam o destino.

Os retratos surgem-nos despersonalizados. Não são a senhora A ou B, mas mulheres, onde nem sequer a beleza formal que tenham possuído em vida é posta em valor. É uma espécie de essência do feminino que nestes retratos leio.

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Nota

Ao passar o cursor sobre a foto surgem as setas que permitem gerir o movimento do slideshow.

Termino com esta maternidade, assunto praticamente ausente do conjunto da obra pictórica de Modigliani.

Nous dormirons ensemble – poemas de Louis Aragon e a voz de Jean Ferrat

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Alguma poesia de Louis Aragon (1897-1982) foi musicada e cantada por Jean Ferrat (1930-2010) tendo com isso chegado ao coração de muitos de nós. São canções onde a mulher e o amor irrompem, eivadas da nostalgia dos tempos felizes a maior parte das vezes.

O poeta, resultado de um percurso politico polémico e de uma personalidade incapaz de gerar consensos, continua ainda hoje fora da atenção dos amantes da poesia, pelo menos entre nós.

Servem-nos as canções para um aproximar de uma poesia com uma verdade no sentimento que julgaríamos inacessível à personalidade pública e politica cuja imagem nos chegou.

lamentavelmente não conheço traduções portuguesas dos poemas pelo que segui-los fica ao alcance dos conhecedores de francês. Aos outros restam as belíssimas interpretações de Jean Ferrat, de onde o conteúdo poético pode ser inferido usando a sensibilidade.

Nous dormirons  ensemble

Que ce soit dimanche ou lundi

Soir ou matin, minuit, midi

Dans l’enfer ou le paradis

Les amours aux amours ressemblent

C’était hier que je t’ai dit

Nous dormirons ensemble

C’était hier et c’est demain

Je n’ai plus que toi de chemin

J’ai mis mon coeur entre tes mains

Avec le tien comme il va l’amble

Tout ce qu’il a de temps humain

Nous dormirons ensemble

Mon amour, ce qui fut sera

Le ciel est sur nous comme un drap

J’ai refermé sur toi mes bras

Et tant je t’aime que j’en tremble

Aussi longtemps que tu voudras

Nous dormirons ensemble

Segue-se o poema feito canção por Jean Ferrat e cantado por este.

Acrescento HEUREUX CELUI QUI MEURT D’AIMER 

O mon jardin d’eau fraîche et d’ombre

Ma danse d’être mon coeur sombre

Mon ciel des étoiles sans nombre

Ma barque au loin douce à ramer

Heureux celui qui devient sourd

Au chant s’il n’est de son amour

Aveugle au jour d’après son jour

Ses yeux sur toi seule fermés

Heureux celui qui meurt d’aimer

Heureux celui qui meurt d’aimer

D’aimer si fort ses lèvres closes

Qu’il n’ait besoin de nulle chose

Hormis le souvenir des roses

A jamais de toi parfumées

Celui qui meurt même à douleur

A qui sans toi le monde est leurre

Et n’en retient que tes couleurs

Il lui suffit qu’il t’ait nommée

Heureux celui qui meurt d’aimer

Heureux celui qui meurt d’aimer

Mon enfant dit-il ma chère âme

Le temps de te connaître ô femme

L’éternité n’est qu’une pâme

Au feu dont je suis consumé

Il a dit ô femme et qu’il taise

Le nom qui ressemble à la braise

A la bouche rouge à la fraise

A jamais dans ses dents formée

Heureux celui qui meurt d’aimer

Heureux celui qui meurt d’aimer

Il a dit ô femme et s’achève

Ainsi la vie, ainsi le rêve

Et soit sur la place de grève

Ou dans le lit accoutumé

Jeunes amants vous dont c’est l’âge

Entre la ronde et le voyage

Fou s’épargnant qui se croit sage

Criez à qui vous veut blâmer

Heureux celui qui meurt d’aimer

Heureux celui qui meurt d’aimer

Eis a interpretação de Jean Ferrat, com musica de sua autoria.

Termino com C’EST SI PEU DIRE QUE JE T’AIME

Comme une étoffe déchirée

On vit ensemble séparés

Dans mes bras je te tiens absente

Et la blessure de durer

Faut-il si profond qu’on la sente

Quand le ciel nous est mesure

C’est si peu dire que je t’aime

Cette existence est un adieu

Et tous les deux nous n’avons d’yeux

Que pour la lumière qui baisse

Chausser des bottes de sept lieues

En se disant que rien ne presse

Voilà ce que c’est qu’être vieux

C’est si peu dire que je t’aime

C’est comme si jamais jamais

Je n’avais dit que je t’aimais

Si je craignais que me surprenne

La nuit sur ma gorge qui met

Ses doigts gantés de souveraine

Quand plus jamais ce n’est le mai

C’est si peu dire que je t’aime

Lorsque les choses plus ne sont

Qu’un souvenir de leur frisson

Un écho des musiques mortes

Demeure la douleur du son

Qui plus s’éteint plus devient forte

C’est peu des mots pour la chanson

C’est si peu dire que je t’aime

Et je n’aurai dit que je t’aime

e de novo a musica e interpretação de Jean Ferrat.

Nota

A pintura que ilustra o artigo é de Picasso e chama-se A alegria de viver, tendo sido pintada em 1946.

Tornar à felicidade segundo José Lino Grünewald (1931-2000)

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Entretido a vasculhar a biblioteca em busca de poesia erótica para o meu novo entretém, o blog obelosexo.tumblr.com, tenho descurado o alimento poético dos leitores do vicio da poesia.

Não será ainda hoje a visita circunstanciada à poesia de José Lino Grünewald (1931-2000), que me encanta na sua despretensiosa simplicidade, mas, e sem comentários adicionais, deixo três poemas exteriores à sua poesia visual, da qual já incluí um exemplo em  A culinária chega ao blog com A VIDA de Zelino.


Nestes tempos em que a politica questiona o nosso pseudo civil service, leia-se este soneto burocrático, que em gente com mais idade fará lembrar o formulário dos requerimentos em papel selado, e a todos revela o fascinante mundo do “quanto mais me reporto mais equivalentemente me certifico”:

soneto burocrático

salvo melhor juízo doravante

dessarte data vénia por suposto

por outro lado maxime isso posto

todavia deveras não obstante

 

pelo presente atenciosamente

pede deferimento sobretudo

nestes termos quiçá aliás contudo

cordialmente alhures entrementes

 

sub-roga ao alvedrio ou outrossim

amiúde nesse interim senão

mediante mormente oxalá quão

 

via de regra tê-lo-ão enfim

ipso facto outorgado mas porém

bem substabelecido assim amém

 

Depois de semelhante transtorno, valham-nos as mulheres lembradas neste galanteio

todas as mulheres são

um enlace de perfumes

 

um haikai de ai-ai-ai

um haikai de vai-vai-vai

um haikai de sai-sai-sai

um haikai de cai-cai-cai

e embrulhados em saboroso cai-cai-cai proponho-vos tornar à felicidade

 

tornar à felicidade

quando à hora da saudade

ciciam as aves breves

sob o anelo de ares leves.

 

oh! Quem azul não queria?

quem não quereria e ria?

pára o mundo, baixa a autora

rios sorriem agora.

 

o universo enlaça a festa

cores vibram na floresta.

chega alegre o vate ao mundo

e esquece que é profundo.

Não sei de melhor conselho.

Noticia bibliográfica

Os poemas foram transcritos de  escreviver, edição da obra poética completa do autor, publicada por editora PERSPECTIVA, São Paulo, Brasil, 2008.

Le baiser de Anna de Noailles (1876-1933)

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A espaços passo algumas horas a desenterrar poesia de que nunca ouvi falar. Umas vezes são poetas portugueses, outras poesia nas línguas que conheço.

Trago hoje um poema de uma poetisa francesa que o leitor talvez conheça, mas cuja existência eu desconhecia por completo. Chamou-se Anna de Noailles (1876-1933).

Le baiser

Couples fervents et doux, ô troupe printanière !

Aimez au gré des jours.

– Tout, l’ombre, la chanson, le parfum, la lumière

Noue et dénoue l’amour.

 Épuisez, cependant que vous êtes fidèles,

La chaude déraison,

Vous ne garderez pas vos amours éternelles

Jusqu’à l’autre saison.

 Le vent qui vient mêler ou disjoindre les branches

A de moins brusques bonds

Que le désir qui fait que les êtres se penchent

L’un vers l’autre et s’en vont.

 Les frôlements légers des eaux et de la terre,

Les blés qui vont mûrir,

La douleur et la mort sont moins involontaires

Que le choix du désir.

 Joyeux; dans les jardins où l’été vert s’étale

Vous passez en riant,

Mais les doigts enlacés, ainsi que des pétales,

Iront se défeuillant.

 Les yeux dont les regards dansent comme une abeille

Et tissent des rayons,

Ne se transmettront plus, d’une ferveur pareille,

Le miel et l’aiguillon,

 Les coeurs ne prendront plus, comme deux tourterelles,

L’harmonieux essor,

Vos âmes, âprement, vont s’apaiser entre elles,

C’est l’amour et la mort…

A volubilidade do desejo atravessa o poema, qual brisa conduzindo do enlace inicial ao afastamento, tão belamente descrito nos versos Mais les doigts enlacés, ainsi que des pétales, / Iront se défeuillant, para a seguir referir como os corações já não seguirão, como duas rolas / o harmonioso voo ou, nos versos originais:

Les coeurs ne prendront plus, comme deux tourterelles, / L’harmonieux essor,

Anna de Noailles, tendo publicado o primeiro livro de poemas em 1901, Le Cœur innombrable, poèmes, Calmann-Lévy, possui na sua biografia a particularidade de ter sido a primeira mulher em França a receber a Legião de Honra e a entrar na Academie Francaise. Com outras mulheres, criou em 1904 o prémio “Vie Heureuse”, que mais tarde se transformou no “Prix Femina” ainda hoje existente.

Encontrado o nome, a net acaba por fornecer informação adicional, e para a poetisa, uma admiradora criou uma bela página com abundantes extractos da sua obra, para onde remeto o leitor interessado, e onde encontrará outros poemas, que não o transcrito neste artigo.

http://www.annadenoailles.org/

Viagem com Stockhausen no caminho

Estava lindo no cemitério, hoje. Caminhava para as quatro da tarde. O sol descia para ocidente e derramava sobra a copa das árvores uma luminosidade diáfana, colocando em esplendor dourado o amarelecidos das folhas no Outono. Misturava-se nesta folhagem, onde uma ligeira brisa punha cintilações, o voluptuoso verde dos ciprestes, criando uma harmonia de sufocante beleza contra um céu num azul de Tiepolo, onde, em fundo e ao longe, algumas nuvens como que pintadas em branco e cinzento fechavam o quadro. Do chão erguiam-se as cruzes, anjos e santos em pedra que encimam aqueles centenários jazigos, transmitindo na perenidade da rocha a atmosfera do repouso eterno.

É difícil a nossa relação de ocidentais com a morte. Há o tempo do luto, mas há depois, e enquanto vivemos, o tempo da memória. Seremos vivos enquanto permanecemos na memória dos outros.

Viva, faria hoje anos a minha primeira mulher, e em lembrança deste aniversário deixei junto às suas cinzas uma rosa amarela. Aproveitei o sossego e o esplendor da tarde para reencontrar uma harmonia às vezes esquiva no passar dos dias.

Passaram quarenta anos desde que no seu primeiro aniversario depois de nos conhecemos lhe ofereci rosas amarelas e um disco com a peça Momente de Stockausen, que finalmente tem primeira audicao em Portugal esta semana na Fundação Gulbenkian. Nas palavras do compositor trata-se praticamente de uma opera sobre a Mãe Terra rodeada pelos seus filhos. Momente, a composição musical, pensa-se como o entendimento de que a eternidade não começa no fim dos tempos mas é atingível em cada momento.

A peça, para soprano, coro e orquestra, possui textos cantados de origens diversas onde se encontram fragmentos de  William Blake, Bronislaw Malinowski e outros.

São os caminhos da arte cruzados com a memória que aqui percorro, e na música encontro, tantas vezes, a direcção por onde seguir.

Nota

Pintura de Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770) titulada Uma alegoria com Vénus e o Tempo, pintada em 1754-58, e pertença da National Gallery de Londres.

Soneto 2 de Fernando Assis Pacheco

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Soneto 2

Os trabalhos de amor são os mais leves

de quantos algum dia pratiquei

na cama as alegrias fazem lei

e se me queixo é só de serem breves

 

eu vivo atado às tuas mãos suaves

num nó de que este corpo já não sai

ferve o arco do sol a tarde cai

ardem voando pelo céu as aves

 

mágoas outrora muitas fabriquei

e em países salobros jornadeei

ao dorso das tristezas almocreves

 

a vez em que te amei um outro fui

comigo fiz a paz nada mais dói

e os trabalhos de amor nunca são graves

 Lisboa

12-X93, 23-XII-93

Soneto 2 de Fernando Assis Pacheco (1937-1995) publicado em RESPIRAÇÃO ASSISTIDA, edição Assírio & Alvim, 2003.

 

CINZA ETERNA – Poema de Juan Luis Panero (1942) para a pintura de Giorgio Morandi (1890-1964)

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O quarto decorado em tons pastel lembrava uma pintura de Morandi, transpirava uma atmosfera diáfana e convidava ao repouso. A luz coada pelas cortinas esvoaçantes punha sobre os móveis encerados um dourado acolhedor.

 

Depois deste fragmento de uma ficção em curso, deixo-vos com um poema de Juan Luis Panero (1942) evocativo da pintura de Giorgio Morandi (1890-1964).

CINZA ETERNA

(Giorgio Morandi)

 Musica silenciosa da cor, rumor do pincel e da tela,

simbolo simples, segredo azul e cinzento.

O tempo passa, mas não fere, parece flutuar,

suave nos contornos, detido nas formas,

 reflexos onde a realidade se sonha,

 inventada luz, por isso mais intensa.

Milhares de olhos e um único olhar

para pintar esta garrafa, depurar o branco daquela cerâmica,

despir, transparente pele cálida, fulgor acariciado,

o vidro, a toalha, a madeira, as frágeis flores,

para sonhar diferente e única,

repetida e comum, esta matéria eterna,

as suas marcas de espuma, a sua pálida cinza.

Noticia bibliográfica

O poema foi publicado no livro Antes que llegue la noche (1985) e traduzido por Joaquim Manuel Magalhães. A tradução foi publicada por RELÓGIO D’ÁGUA em 2003, na antologia da obra do poeta, POEMAS, organizada e prefaciada pelo tradutor.

 

Termino com três pinturas de Morandi onde o predomínio do amarelo produziu resultados diversos num intervalo de largos anos, num progressivo abandonar do rigor do desenho até àquela diáfana forma de representar sempre os mesmos objectos.

 

Um dia trivial

Estou sentado frente ao palácio da vila depois de almoçar. A esplanada está semi-ocupada e a chefe de mesa escolheu-me um lugar de privilégio encostado à vedação.

É a esplanada onde tentámos em vão almoçar num nosso passeio a Sintra, lembras-te? Pedi pizza do mar e agora, na pausa final da refeição, aproveito para relatar parte de um dia trivial.

Acordei pouco ante das oito e ainda em sonhos pensei “Hoje o meu amor quando telefonar a acordar-me já estarei pronto do banho”. É claro que este pensamento foi um ápice, voltei logo à realidade. Telefonemas do meu amor, de manhã, agora não há. Perguicei até ás oito  e fui tratar do banho.

Amanheceu sem nuvens e o sol resplandecia numa luz brilhante e límpida. O ar cristalino dava a sensação viva e picante do fresco da manhã. Como é bom despertar com este esplendor. Enquanto me arrumava pus a tocar um disco com árias de operas de Mozart na voz da Berganza. Cantava-me na cabeça desde o levantar a ária de Cherubino “Non so piu” das Bodas. A ária respeita a um rapaz adolescente quando começa a sentir os ardores da puberdade. O papel é para uma voz feminina grave e apesar de já a ter ouvido dezenas de vezes, ao som de “já nem sei o que sou nem o que faço/ todas as mulheres me fazem palpitar…” renova-se-me o encanto de uma ansiedade surpresa e feliz perante a descoberta das novas sensações do corpo e do despertar para a sexualidade. Está tudo na musica, na frescura do canto, na interpretação, no suspirar, enfim, ouvi-la continua a trazer-me uma sensação de renascer.

Ainda na casa de banho, enquanto a ouvia olhei no espelho os estragos do tempo e consegui vislumbrar o ar gaiato do adolescente que teima em permanecer em mim.

Saí para o pequeno-almoço. Troquei bons-dias com a porteira. Hirta como a vassoura a que se encostava, lá se encontrava no seu posto de varrer a entrada do prédio ao longo da manhã, inspeccionando quem sai.

No café, o pequeno-almoço foi uma sandes de fiambre e sumo de laranja (aboli o queijo com receio de ver o colesterol a subir) e depois da conversa com o dono sobre a falta de laranjas e a inevitável subida do preço do sumo, bebi o café, paguei e saí.

No carro tinha a tocar uma compilação de baladas rock, companhia para a viagem. A certa altura Roberta Flack cantou “Jessie come home / there’s a hole in the bed / where you slept/” e pareceu-me ouvir-te na cama, onde àquela hora dormias, a chamar por mim. Ilusões, gostosas de qualquer forma.

Começa a haver algum transito a esta hora da manhã neste meu caminho, mas ainda não há filas. Vantagens de vespera de feirado. Consegui chegar a horas ao primeiro encontro.

Atendeu-me um rapaz em boxer e t-shirt. Tinha trabalhado à noite, disse-me. Como vem sendo hábito os papeis não estavam em ordem. Precisei fazer um enorme esforço para me parecer tudo bem.

A segunda visita foi uma senhora que me reconheceu:

–          Ah, foi o senhor que visitou a casa de minha filha o mês passado.

Tentei não parecer  completamente esquecido da visita e da própria senhora, Afinal estas são situações muito importantes na vida de quem encontro. A casa é num daqueles lugares onde ninguém deseja morar se puder escolher outro sitio. Às primeiras palavras vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Ficou viuva, tinha remodelado a casa com o marido depois da partida dos filhos, entretanto ele morreu, e agora não conseguia ali permanecer. São situações em que nunca sei bem o que dizer e despedi-me.

Segui para a terceira visita e havia encontro prévio numa bomba de gasolina. O destino era para mim desconhecido. Quando cheguei já lá estava. Era uma senhora. Segui-a de carro a caminho de lado nenhum. A certa altura apareceram duas moradias entre baldios e ruínas. Lá chegados constatou que não trazia chave, pois não morava lá. Estava decididamente bem disposto e aceitei lá voltar outro dia para concretizar a visita.

Pensei, do mal o menos, faço a ultima visita mais cedo e passeio na Vila Velha de Sintra.

Subi a calçada onde tinha a visita a fazer. Era cedo e continuei até ao cimo. A paisagem urbana é cheia de surpresas. Numa volta do caminho, subitamente, apareceu uma igreja. Possui um belo portal manuelino cheio de leveza e graça na elegância da coluna central que divide a porta de entrada em duas, e no rendilhado da pedra.

O sol, encoberto por nuvens altas, deixava ver uma luz suave e o ar tépido convidava ao descanso da subida sob as frondosas e altíssimas arvores do largo. Duas das araucárias centenárias eram mais altas que a torre sineira da igreja. Aproveitei para gozar o sossego só cortado por gritos ao longe de miúdos na brincadeira. A igreja pareceu estar sempre fechada. Gostaria de a ver por dentro. Apareceu à janela de uma das casas do largo uma rapariga a sacudir o pano de pó. Perguntei-lhe pela chave da igreja: está na posse de alguém da vizinhança? Afinal a igreja só é aberta para limpeza ou para algum casamento. Que desperdicio.

A rapariga, como vai sendo inevitável, era brasileira, simpática, e gostava de conversar. Ficámos a tagarelar um pouco sobre as condições do trabalho e Portugal. Fizeram-se horas e desci para fazer a visita.

Um casal jovem guiou-me, encantado com as minhas exclamações, pela casa e pelo jardim em socalcos serra acima. A vista a cada passo é deslumbrante sem obstáculos ou construções pela frente. A paisagem mostra ali a razão do encanto permanente de Sintra.

Aproximou-se a hora do almoço e desci à Vila Velha.

O almoço esteve bom. A gentileza do atendimento e a localização privilegiada fazem deste um lugar a que apetece voltar.