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A espaços passo algumas horas a desenterrar poesia de que nunca ouvi falar. Umas vezes são poetas portugueses, outras poesia nas línguas que conheço.

Trago hoje um poema de uma poetisa francesa que o leitor talvez conheça, mas cuja existência eu desconhecia por completo. Chamou-se Anna de Noailles (1876-1933).

Le baiser

Couples fervents et doux, ô troupe printanière !

Aimez au gré des jours.

– Tout, l’ombre, la chanson, le parfum, la lumière

Noue et dénoue l’amour.

 Épuisez, cependant que vous êtes fidèles,

La chaude déraison,

Vous ne garderez pas vos amours éternelles

Jusqu’à l’autre saison.

 Le vent qui vient mêler ou disjoindre les branches

A de moins brusques bonds

Que le désir qui fait que les êtres se penchent

L’un vers l’autre et s’en vont.

 Les frôlements légers des eaux et de la terre,

Les blés qui vont mûrir,

La douleur et la mort sont moins involontaires

Que le choix du désir.

 Joyeux; dans les jardins où l’été vert s’étale

Vous passez en riant,

Mais les doigts enlacés, ainsi que des pétales,

Iront se défeuillant.

 Les yeux dont les regards dansent comme une abeille

Et tissent des rayons,

Ne se transmettront plus, d’une ferveur pareille,

Le miel et l’aiguillon,

 Les coeurs ne prendront plus, comme deux tourterelles,

L’harmonieux essor,

Vos âmes, âprement, vont s’apaiser entre elles,

C’est l’amour et la mort…

A volubilidade do desejo atravessa o poema, qual brisa conduzindo do enlace inicial ao afastamento, tão belamente descrito nos versos Mais les doigts enlacés, ainsi que des pétales, / Iront se défeuillant, para a seguir referir como os corações já não seguirão, como duas rolas / o harmonioso voo ou, nos versos originais:

Les coeurs ne prendront plus, comme deux tourterelles, / L’harmonieux essor,

Anna de Noailles, tendo publicado o primeiro livro de poemas em 1901, Le Cœur innombrable, poèmes, Calmann-Lévy, possui na sua biografia a particularidade de ter sido a primeira mulher em França a receber a Legião de Honra e a entrar na Academie Francaise. Com outras mulheres, criou em 1904 o prémio “Vie Heureuse”, que mais tarde se transformou no “Prix Femina” ainda hoje existente.

Encontrado o nome, a net acaba por fornecer informação adicional, e para a poetisa, uma admiradora criou uma bela página com abundantes extractos da sua obra, para onde remeto o leitor interessado, e onde encontrará outros poemas, que não o transcrito neste artigo.

http://www.annadenoailles.org/

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