Estou sentado frente ao palácio da vila depois de almoçar. A esplanada está semi-ocupada e a chefe de mesa escolheu-me um lugar de privilégio encostado à vedação.

É a esplanada onde tentámos em vão almoçar num nosso passeio a Sintra, lembras-te? Pedi pizza do mar e agora, na pausa final da refeição, aproveito para relatar parte de um dia trivial.

Acordei pouco ante das oito e ainda em sonhos pensei “Hoje o meu amor quando telefonar a acordar-me já estarei pronto do banho”. É claro que este pensamento foi um ápice, voltei logo à realidade. Telefonemas do meu amor, de manhã, agora não há. Perguicei até ás oito  e fui tratar do banho.

Amanheceu sem nuvens e o sol resplandecia numa luz brilhante e límpida. O ar cristalino dava a sensação viva e picante do fresco da manhã. Como é bom despertar com este esplendor. Enquanto me arrumava pus a tocar um disco com árias de operas de Mozart na voz da Berganza. Cantava-me na cabeça desde o levantar a ária de Cherubino “Non so piu” das Bodas. A ária respeita a um rapaz adolescente quando começa a sentir os ardores da puberdade. O papel é para uma voz feminina grave e apesar de já a ter ouvido dezenas de vezes, ao som de “já nem sei o que sou nem o que faço/ todas as mulheres me fazem palpitar…” renova-se-me o encanto de uma ansiedade surpresa e feliz perante a descoberta das novas sensações do corpo e do despertar para a sexualidade. Está tudo na musica, na frescura do canto, na interpretação, no suspirar, enfim, ouvi-la continua a trazer-me uma sensação de renascer.

Ainda na casa de banho, enquanto a ouvia olhei no espelho os estragos do tempo e consegui vislumbrar o ar gaiato do adolescente que teima em permanecer em mim.

Saí para o pequeno-almoço. Troquei bons-dias com a porteira. Hirta como a vassoura a que se encostava, lá se encontrava no seu posto de varrer a entrada do prédio ao longo da manhã, inspeccionando quem sai.

No café, o pequeno-almoço foi uma sandes de fiambre e sumo de laranja (aboli o queijo com receio de ver o colesterol a subir) e depois da conversa com o dono sobre a falta de laranjas e a inevitável subida do preço do sumo, bebi o café, paguei e saí.

No carro tinha a tocar uma compilação de baladas rock, companhia para a viagem. A certa altura Roberta Flack cantou “Jessie come home / there’s a hole in the bed / where you slept/” e pareceu-me ouvir-te na cama, onde àquela hora dormias, a chamar por mim. Ilusões, gostosas de qualquer forma.

Começa a haver algum transito a esta hora da manhã neste meu caminho, mas ainda não há filas. Vantagens de vespera de feirado. Consegui chegar a horas ao primeiro encontro.

Atendeu-me um rapaz em boxer e t-shirt. Tinha trabalhado à noite, disse-me. Como vem sendo hábito os papeis não estavam em ordem. Precisei fazer um enorme esforço para me parecer tudo bem.

A segunda visita foi uma senhora que me reconheceu:

–          Ah, foi o senhor que visitou a casa de minha filha o mês passado.

Tentei não parecer  completamente esquecido da visita e da própria senhora, Afinal estas são situações muito importantes na vida de quem encontro. A casa é num daqueles lugares onde ninguém deseja morar se puder escolher outro sitio. Às primeiras palavras vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Ficou viuva, tinha remodelado a casa com o marido depois da partida dos filhos, entretanto ele morreu, e agora não conseguia ali permanecer. São situações em que nunca sei bem o que dizer e despedi-me.

Segui para a terceira visita e havia encontro prévio numa bomba de gasolina. O destino era para mim desconhecido. Quando cheguei já lá estava. Era uma senhora. Segui-a de carro a caminho de lado nenhum. A certa altura apareceram duas moradias entre baldios e ruínas. Lá chegados constatou que não trazia chave, pois não morava lá. Estava decididamente bem disposto e aceitei lá voltar outro dia para concretizar a visita.

Pensei, do mal o menos, faço a ultima visita mais cedo e passeio na Vila Velha de Sintra.

Subi a calçada onde tinha a visita a fazer. Era cedo e continuei até ao cimo. A paisagem urbana é cheia de surpresas. Numa volta do caminho, subitamente, apareceu uma igreja. Possui um belo portal manuelino cheio de leveza e graça na elegância da coluna central que divide a porta de entrada em duas, e no rendilhado da pedra.

O sol, encoberto por nuvens altas, deixava ver uma luz suave e o ar tépido convidava ao descanso da subida sob as frondosas e altíssimas arvores do largo. Duas das araucárias centenárias eram mais altas que a torre sineira da igreja. Aproveitei para gozar o sossego só cortado por gritos ao longe de miúdos na brincadeira. A igreja pareceu estar sempre fechada. Gostaria de a ver por dentro. Apareceu à janela de uma das casas do largo uma rapariga a sacudir o pano de pó. Perguntei-lhe pela chave da igreja: está na posse de alguém da vizinhança? Afinal a igreja só é aberta para limpeza ou para algum casamento. Que desperdicio.

A rapariga, como vai sendo inevitável, era brasileira, simpática, e gostava de conversar. Ficámos a tagarelar um pouco sobre as condições do trabalho e Portugal. Fizeram-se horas e desci para fazer a visita.

Um casal jovem guiou-me, encantado com as minhas exclamações, pela casa e pelo jardim em socalcos serra acima. A vista a cada passo é deslumbrante sem obstáculos ou construções pela frente. A paisagem mostra ali a razão do encanto permanente de Sintra.

Aproximou-se a hora do almoço e desci à Vila Velha.

O almoço esteve bom. A gentileza do atendimento e a localização privilegiada fazem deste um lugar a que apetece voltar.

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