Pintura (2) – Mestre de Heiligenkreuz

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Do Mestre de Heiligenkreuz, autor da pintura sobre a Anunciação com que abre o artigo anterior, eis uma extraordinária pintura de grupo ilustrando a morte de Santa Clara.

Pintor austríaco de quem pouco se sabe, terá estado activo no século XV.

MASTER of Heiligenkreuz - A morte de Santa Clara 1410Santa Clara de Assis, seguidora de S.Francisco de Assis, foi a fundadora da ordem das Clarissas. No momento da morte terá chamado ao leito as suas irmãs e seguidoras para as exortar a continuarem o caminho de pobreza proclamado pela ordem.

Para o apreciador de pintura, hoje, a história representada passa para segundo plano e impõe-se a reduzida paleta cromática transmitindo austeridade ao assunto. O desenho das silhuetas, na sua sofisticada elegância traduz uma modernidade estética que surpreende. Há um dinamismo na pintura proveniente do leve inclinar do corpo das protagonistas e da géstica de braços e mãos, que quase faz ouvir a conversa.

Banhada de uma serena beleza trazida pelas esbeltas mulheres que nela figuram, a pintura convida a um demorado olhar na pesquisa do segredo da sua tranquila paz.

Para Santa Clara de Assis escreveu Sophia de Mello Breyner Andressen (1919-2004) um poema / homenagem publicado do livro No Tempo Dividido, 1ª edição 1954, e que agora transcrevo.

SANTA CLARA DE ASSIS

Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.

Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.

Anunciação e Advento – A Palavra da Biblia e a pintura ocidental

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MASTER of Heiligenkreuz 1410Vou hoje ao encontro daqueles pesquisadores da net sobre o Advento, que os motores de busca enviam para o blog, e onde sobre o assunto pouco há.

As religiões cristãs celebraram no primeiro domingo de Dezembro, o inicio do Advento, ou a esperada vinda de Jesus à terra, que ocorrerá com o Natal, nascimento de seu significado.

A expectativa desta chegada, fixada no calendário litúrgico para as quatro semanas que antecedem o Natal, liga-se indissociavelmente ao anúncio feito a Maria pelo Anjo Gabriel, de que iria ser mãe do Filho de Deus, acontecimento conhecido como Anunciação.

Desde que consumada a divisão de cristãos entre católicos e as diferentes confissões reformadas, se para os católicos romanos a Anunciação se celebra a 25 de Março (com pequenas variações em função do período de Quaresma), nove meses antes do nascimento do Filho de Deus, para os seguidores da religião cristã reformada a omnipotência de Deus não exige esta duração, e as celebrações acabam por se confundir, associando-se Anunciação e Advento.

Na verdade, com a fixação dogmática pela Igreja Católica do dia 8 de Dezembro como celebração da Imaculada Concepção, as datas deste calendário acabam por criar alguma confusão ao leigo.

Nada nos Evangelhos permite uma calendarização, o que é natural, e em S. Lucas,I, 26:38, onde a Anunciação se relata na forma mais detalhada, estas questões de calendário não se colocam. Terão sido, talvez, necessidades de organização da pratica do culto a ditá-lo.

Aproveito e transcrevo a tradução da passagem de Lucas, I, 26:38, por João Ferreira Annes d’Almeida (primeiro tradutor da Bíblia para português no século XVI), na fixação do texto levada a cabo por José Tolentino Mendonça.

Lucas,I, 26:38

26 E no sexto mês foi o Anjo Gabriel enviado de Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré:

27. A uma virgem desposada com um varão, cujo nome era José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria.

28. E entrando o Anjo a ela, disse: Gozo hajas em graça aceita, o Senhor [é] contigo, bendita tu entre as mulheres.

29. E vendo[-o] ela, turbou-se muito de suas palavras, e considerava que saudação seria esta.

30. E disse-lhe o Anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus.

31. E vês aqui conceberás em o ventre, e parirás um filho, e chamarás seu nome Jesus.

32. Este será grande, e Filho do Altíssimo será chamado; E dar-lhe-á o Senhor Deus o trono de David seu pai.

33. E reinará em a casa de Jacob eternamente, e de seu Reino não haverá fim.

34. E disse Maria ao Anjo: Como se fará isto? Porquanto varão não conheço.

35. E respondendo o Anjo, disse-lhe: O Espirito Santo sobre ti virá, e a virtude do Altíssimo com sua sombra te cobrirá. Pelo que também o Santo que de ti há-de nascer, Filho de Deus chamado será.

36. E vês aqui Elisabeth tua prima também tem concebido um filho em sua velhice; e este é o sexto mês daquela, que a estéril chamada era.

37. Porque nenhuma coisa será a Deus impossível.

38. Entonces disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo tua palavra. E o Anjo se partiu dela.

Este passo dos Evangelhos foi largamente glosado na pintura ocidental. Seguem as imagens de uma escolha pessoal entre algumas das mais tocantes dessas obras e, porventura, menos conhecidas.

Mestre Alemão desconhecido 1330

Fra Fillipo Lippi 2

Irmãos Limbourg - Anunciação - 1410-16

Simone Martini 1333

FRANCESCO DI SIMONE DA SANTACROCE 1504

Book of Hours of Marie of Guelders Annunciation 1415

É hoje conhecimento apenas de especialistas a clara significação de cada um dos motivos que preenchendo o cenário, quadra os protagonistas desta história sacra. Entre outros, permanece para mim inexplicado o motivo porque em todas estas pinturas Maria se encontra a ler, ou com um livro aberto por perto, no momento da aparição do Anjo. Haverá algum leitor que o elucide?

 

 

Pensamentos sobre o tempo – Paul Fleming (1609-1640)

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O mundo cigiadoAinda que a colagem de abertura nos remeta para o nosso vigiado tempo, o convite poético é para uma reflexão intemporal sobre o enigma do tempo que a cada um cabe viver.

O poema de Paul Fleming (1609-1640) que vos trago, Pensamentos sobre o tempo, pode parecer a uma leitura superficial, apenas trocadilho em torno ao tempo, mas em segunda leitura, a reflexão desenvolve-se a seu pretexto:

E que será esse outro que de vós fará nada?

É à interrogação sobre a eternidade:

Ah, viesse aquele tempo em que tempo não há,
P’ra nos levar do nosso para os tempos de lá

e ao nosso efémero, que o poema nos conduz:

O tempo é o que vós sois, vós sois o que o tempo é,
Mas bem menos sois vós que aquilo que o tempo é.

Leia-se a totalidade do poema.

Pensamentos sobre o tempo

Vós viveis no tempo e o tempo não conheceis;
Do que sois e onde estais, vós, homens, não sabeis.
O que sabeis é só que num tempo nascestes
E que haveis de partir num tempo, tal viestes.
Mas o que foi o tempo que em si vos deu guarida?
E que será esse outro que de vós fará nada?
O tempo é tudo e nada, o homem a ele igual;
Mas sobre o tudo e o nada a duvida é geral.
O tempo morre em si, e de si renasceu.
Um vem de mim e de ti, outro és tu e sou eu.
O homem é no tempo, este nele também.
E no entanto o homem, quando ele fica, vai.
O tempo é o que vós sois, vós sois o que o tempo é,
Mas bem menos sois vós que aquilo que o tempo é.
Ah, viesse aquele tempo em que tempo não há,
P’ra nos levar do nosso para os tempos de lá
E a nós de nós mesmos, para podermos ser
Iguais àquele tempo que já deixou de ser!

Tradução de João Barrento

Dois Epigramas de Angelus Silesius (i.e. Johannes Scheffler)

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Rosa azul

A rosa é sem porquê, está em flor porque é flor,
Não perguntes se a vemos, de ti não quer saber.

Deus é como uma fonte: derrama-se sem fim
Nas suas criaturas, e fica sempre em Si.

(De: O Peregrino Querubínico ou Epigramas Espirituais)

Tradução  de João Barrento

Um poema de amor de Manuel de Freitas

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go 118a2Z1 530Já aqui escrevi da surpresa e admiração pela poesia de Manuel de Freitas (1972), excepção na poesia mimética que hoje por Portugal se escreve. Quando lancei um olhar abrangente sobre a sua poesia, ficou de fora o livro GAME OVER. A ele vou hoje buscar um poema de amor, que no meu desconhecimento supus, o poeta não escreveria.

IN VAIN THE AM’ROUS FLUTE

Estas escadas tinham degraus
onde por acaso nos sentámos
à espera de não ver gaivotas,
com livros abertos
quando as mãos chegavam.

De novo e despercebida e só,
acendia-se para morrer na tarde
a inútil figuração do desejo.

E éramos outra vez nós
os seus irrepetíveis figurantes,
escondidos num poema
que o tempo pisou, deixa lá
– o recomeçado amor descendo.

Nota talvez desnecessária

O título do poema remete para a Ode para o dia de Santa Cecília de 1692, Hail, bright Cecilia! Z 328, de Henry Purcell (1659-1695), onde se encontra a parte para dois tenores “In vain the am´rous flute and soft guitar”.

Vale a pena sentir o poema ganhar uma especial emoção e harmonia ao ouvi-la. A ardência do desejo no pudor da linguagem sobressai se se souber o que na ária se canta:

In vain the am´rous flute and soft guitar
Jointly labour to inspire
Wanton heat and loose desire
Whilst thy chaste airs do gently move
Seraphic flames and heav’nly love.

A fotografia que abre o artigo não evoca nada. Apenas o calor da luz sobre a desolação me fez escolhê-la.

Noticia bibliográfica

GAME OVER foi publicado por &etc em 2002, com capa de Luis Manuel Gaspar, paginação e composição de Olímpio Ferreira.

O sorriso da Mona Lisa num poema de Kurt Tucholsky

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Leonardo da Vinci - Mona LisaHá diálogos poéticos com a pintura que muitas vezes iluminam a obra iluminando-nos a nós, leitores dela, qual seja este poema de Kurt Tucholsky (1890-1935), contemporâneo de Fernando Pessoa, em que o sorriso de Mona Lisa, pintura de Leonardo da Vinci (1452-1519), se ilumina.

O sorriso da Mona Lisa

Não posso desviar de ti o olhar.
Pois, por sobre o homem que te guarda,
Estás suspensa, as mãos cruzadas devagar,
E sorris, calada.

És célebre como a tal Torre de Pisa,
O teu sorriso passa por ironia.
Sim… porque é que ri a Mona Lisa?
Ri-se de nós, por nós, apesar de nós, contra nós –
Ou que mais o teu riso diria?

Calma nos ensinas o que tem de acontecer.
Porque o teu retrato, Lisa, claro no-lo diz:
Quem deste mundo tanto pôde ver –
Cruza as mãos, cala e sorri, como tu sorris.

Tradução de Paulo Quintela

Para os leitores que dominem o alemão aqui fica o original do poema.

Das Lächeln der Mona Lisa

Ich kann den Blick nicht von dir wenden.
Denn über deinem Mann vom Dienst
hängst du mit sanft verschränkten Händen
und grienst.

Du bist berühmt wie jener Turm von Pisa,
dein Lächeln gilt für Ironie.
Ja … warum lacht die Mona Lisa?
Lacht sie über uns, wegen uns, trotz uns, mit uns, gegen uns –
oder wie –?

Du lehrst uns still, was zu geschehn hat.
Weil uns dein Bildnis, Lieschen, zeigt:
Wer viel von dieser Welt gesehn hat –
der lächelt, legt die Hände auf den Bauch und schweigt.

Como habitualmente, os leitores com curiosidade de saber mais sobre o poeta, encontram na Wikipédia informação fidedigna a que não sei acrescentar mais nada.

Uma Ode de Ricardo Reis

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Em resposta à angústia da crise venho com uma Ode de Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa (1888-1935), para quem o e a desconheça.

Na famosa carta a Adolfo Casais Monteiro, que outro dia transcreverei, Fernando Pessoa conta assim o aparecimento do heterónimo Ricardo Reis:

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, …
É o heterónimo Alberto Caeiro, o Mestre a quem o poeta se dirige a abrir a Ode:

Mestre, são plácidas / Todas as horas / Que nós perdemos, / Se no perdê-las, / Qual numa jarra, / Nós pomos flores.

Afirmado ao que vem: a placidez do viver é erigida como propósito, na ausência de estremecimentos vãos ou sobressaltos,

Mas decorrê-la, / Tranquilos, plácidos, / Tendo as crianças / Por nossas mestras, / E os olhos cheios / De Natureza…

é na oposição viver a vida / passar por ela, que a Ode se desenvolve,

Não há tristezas / Nem alegrias / Na nossa vida. / Assim saibamos, / Sábios incautos, / Não a viver,

e destacá-lo mais seria esquartejar o poema. Vamos pois, a ele, sem delongas.

Ode

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quasi
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

12-06-1914

Edição de Manuela Parreira da Silva

Outono de Russell Edson (n.1935)

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É sempre preciso o maior cuidado com o que se diz. Raramente somos compreendidos.

O poema de hoje dá, na sua simplicidade alegórica, a extensão desta incomunicação, mesmo entre os que são próximos.

Entre o gesto e a aparência corre um mundo de significados cuja compreensão nos escapa em grande parte.

Deixo-vos com a interrogação maior: quando alguém fala, quem houve, ouve o quê?

Outono

Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.

Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.

Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.

Mas os pais disseram olha é outono

Segue-se o original em inglês

The Fall

There was a man who found two leaves and came
indoors holding them out saying to his parents
that he was a tree.

To which they said then go into the yard and do
not grow in the living room as your roots may
ruin the carpet.

He said I was fooling I am not a tree and he
dropped his leaves.

But his parents said look it is fall.

Poema publicado em O TÚNEL, com tradução do poeta José Alberto Oliveira, edição ASSÍRIO & ALVIM, Lisboa 2002.

Obra Digital (2002-2003)

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Obra Digital (2002-2003)

No inicio da década de 2000, com a vulgarização das primeiras máquinas fotográficas digitais e o aparecimento de programas de computador com ferramentas de desenho e manipulação de imagem, entreguei-me entusiasmado à criação digital. Esse trabalho culminou com uma exposição em Lisboa no ano de 2003.

São alguns dos trabalhos então expostos, e outros nunca mostrados publicamente que agora se reúnem em livro, constituindo um corpus de criação digital nos primórdios de uma nova era.

Entroncam estas criações na tradição da arte ocidental, em diálogo com ela, explorando o embrião do que viria a ser o mundo novo que hoje, dez anos passados, conhecemos.

O livro pode ser visto seguindo o link abaixo:

(fazendo click no icon mais à direita abaixo do livro, este pode ser visto em ecran inteiro)

Visualizar o livro em computador: aqui!

Pode ainda fazer download gratuito para iPad

Download para iPad aqui!

Enjoy!

Sobre tradução de poesia – poema de Zbigniew Herbert

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Ao escolher poemas noutras linguas para o blog algumas vezes encontro versões em português, outras não sei que existam e aí, traduzi-los seria o caminho óbvio. Acaba por ser muitas vezes o receio de perder as subtilizas da língua original de um poema o que me tolhe quando coloco esses poemas no blog sem qualquer tradução a acompanhar.

Na labuta de aproximação à nossa língua de um poema que nos encanta, há muito dos trabalhos de sedução no processo amoroso: há um terreno virgem a percorrer no encontrar a palavra certa para flanquear o caminho do verso, culminando no prazer final de atingir o auge que é a conclusão de um poema.

De toda esta empreendedora tarefa nos dá conta em belas imagens na luta do besouro com a flor, o poema de Zbigniew Herbert (1924-1998)Sobre tradução de poesia – que hoje vem ao blog, vertido em português pela genialidade de Herberto Hélder.

Herberto Hélder, além da sua obra poética singular, tem um conjunto vasto de poemas de diversas proveniências, mudados para português, como o próprio se lhes refere, dos quais este saboroso e dúplice tratado sobre tradução poética é um dos meus preferidos.

Sobre tradução de poesia
(Zbigniew Herbert)

Zumbindo um besouro pousa
numa flor e encurva
o caule delgado
e anda por entre filas de pétalas folhas
de dicionários
e vai direito ao centro
do aroma e da doçura
e embora transtornado perca
o sentido do gosto
continua
até bater com a cabeça
no pistilo amarelo

e agora o difícil o mais extremo
penetrar floralmente através
dos cálices até
à raiz e depois bêbado e glorioso
zumbir forte:
penetrei dentro dentro dentro
e mostrar aos cépticos a cabeça
coberta de ouro
de pólen

Tradução de Herberto Helder publicada a abrir o livro OUOLOF poemas mudados para português por Herberto Helder, Assírio & Alvim, Lisboa 1997.

A tradução poética continua matéria de controvérsia, ainda que para mim, enquanto leitor, a preferência vá sempre para a tradução que em português fala comigo, a uma qualquer versão em que a fidelidade lexical seja o propósito. As versões de Herberto Hélder são certamente um caso extremo no afastamento da fidelidade lexical, e, com rara felicidade, são sempre novos poemas acrescentados à língua portuguesa, como se nela tivessem sido criados de raiz. Para o avaliar convido o leitor a seguir a versão portuguesa do mesmo poema que hoje nos ocupa, agora por Jorge Sousa Braga:

SOBRE A TRADUÇÃO DE POESIA

Como um abelhão desajeitado
pousa numa flor
vergando o frágil caule
abre caminho com os cotovelos
através duma fileira de pétalas
através das folhas de um dicionário
quer chegar
onde se concentram a fragrância e a doçura
e embora esteja constipado
e sem gosto
continua a tentar
até que a cabeça choca
contra o pistilo amarelo

e não consegue ir mais longe
é tão duro
forçar a coroa
até chegar à raiz
por isso levanta voo
emerge pavoneando-se
zumbindo
eu estive lá
e aqueles
que não acreditam nisso
olhem para o seu nariz
amarelo de pólen

Versão de Jorge Sousa Braga a partir da versão inglesa de Czeslaw Milosz. Publicado em Zbigniew Herbert, Escolhido pelas Estrelas, antologia poética, Assírio & Alvim, Lisboa 2009.

Ilustra o artigo a pintura de Giorgio De Chirico, As Musas Inquietas (eventualmente inquietas com os problemas levantados pela tradução de poesia).