Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um excerto:

4,329 films were submitted to the 2012 Cannes Film Festival. This blog had 56.000 views in 2012. If each view were a film, this blog would power 13 Film Festivals

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A mosca azul – poema de Machado de Assis

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Miró Mujer frente al solÉ a elegância da versificação o que primeiro chama a atenção em A mosca azul de Machado de Assis (1839-1908), prosador maior da língua portuguesa. Depois, a repetida leitura é um convite a que não se resiste: levados pela musicalidade encantatória do verso seguimos a fantasia da história contada, nesta metáfora de sonhos desfeitos por excesso de análise.

Sigamos com A mosca azul o aparecimento, apoteose e queda de uma fantástica ilusão, e como metáfora guardêmo-la para as nossas vidas.

A mosca azul

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada,
Filha da China ou do Indostão.
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada.
Em certa noite de verão.

E zumbia, e voava, e voava, e zumbia,
Refulgindo ao clarão do sol
E da lua — melhor do que refulgiria
Um brilhante do Grão-Mogol.

Um poleá que a viu, espantado e tristonho,
Um poleá lhe perguntou:
— “Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho,
Dize, quem foi que te ensinou?”

Então ela, voando e revoando, disse:
— “Eu sou a vida, eu sou a flor
Das graças, o padrão da eterna meninice,
E mais a glória, e mais o amor”.

E ele deixou-se estar a contemplá-la, mudo
E tranqüilo, como um faquir,
Como alguém que ficou deslembrado de tudo,
Sem comparar, nem refletir.

Entre as asas do inseto a voltear no espaço,
Uma coisa me pareceu
Que surdia, com todo o resplendor de um paço,
Eu vi um rosto que era o seu.

Era ele, era um rei, o rei de Cachemira,
Que tinha sobre o colo nu
Um imenso colar de opala, e uma safira
Tirada ao corpo de Vixnu.

Cem mulheres em flor, cem nairas superfinas,
Aos pés dele, no liso chão,
Espreguiçam sorrindo as suas graças finas,
E todo o amor que têm lhe dão.

Mudos, graves, de pé, cem etíopes feios,
Com grandes leques de avestruz,
Refrescam-lhes de manso os aromados seios.
Voluptuosamente nus.

Vinha a glória depois; — quatorze reis vencidos,
E enfim as páreas triunfais
De trezentas nações, e os parabéns unidos
Das coroas ocidentais.

Mas o melhor de tudo é que no rosto aberto
Das mulheres e dos varões,
Como em água que deixa o fundo descoberto,
Via limpos os corações.

Então ele, estendendo a mão calosa e tosca.
Afeita a só carpintejar,
Com um gesto pegou na fulgurante mosca,
Curioso de a examinar.

Quis vê-la, quis saber a causa do mistério.
E, fechando-a na mão, sorriu
De contente, ao pensar que ali tinha um império,
E para casa se partiu.

Alvoroçado chega, examina, e parece
Que se houve nessa ocupação
Miudamente, como um homem que quisesse
Dissecar a sua ilusão.

Dissecou-a, a tal ponto, e com tal arte, que ela,
Rota, baça, nojenta, vil
Sucumbiu; e com isto esvaiu-se-lhe aquela
Visão fantástica e sutil.

Hoje quando ele aí vai, de áloe e cardamomo
Na cabeça, com ar taful
Dizem que ensandeceu e que não sabe como
Perdeu a sua mosca azul.

Noticia bibliográfica

A mosca azul foi publicado no livro Ocidentais, talvez em 1880 (não encontrei cópia desta edição, nem informação fidedigna sobre ela), e depois incluído na edição das suas Poesias Completas (1902?), onde reuniu uma escolha alargada de poemas anteriormente saídos nos quatro livros de poesia publicados ao longo da vida.

Poema de Amor – Natércia Freire, com pintura de Matisse

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Matisse conversa 1908As mulheres são quem faz do mundo um lugar onde apetece viver. Sabem do amor, numa ciência provavelmente inata, todo o alfabeto, e nós homens, com elas, temos apenas que aprender.

Hoje, vou a Natércia Freire (1920-2004) e ao seu Poema de Amor buscar a palavra poética que dá corpo ao que afirmei:

Teu rosto, no meu rosto, descansado. /  Meu corpo, no teu corpo, adormecido.

Meu rosto, no teu rosto de horizontes, / Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

É a total entrega, levando à fusão pelo amor, o que este poema nos trás, a nós, Românticos amantes, viajantes eternos, que nem sempre fazemos ou somos capazes, do que de nós se espera:

olham por nós na hora que se esvai!

Feitas as apresentações, passemos ao poema:

Poema de amor

Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
sem relógio nem espaço proibido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
nos sorriem, nos dizem: Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de águas vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

À ironia da escolha da pintura de Matisse (1869-1964) com que abro o artigo, acrescento a opulência da beleza feminina, tal com vista pelo Mestre na idade madura, em 1935, O Nu Rosa, pintura que me incendeia a imaginação desde a adolescência.

Matisse - O nu rosa 1935

Vejo, vendo-me, o que ninguém vê.

Uma janela da casa onde nasciVejo, vendo-me, o que ninguém vê.
Aqui, sentado na esplanada da minha infância, observo ao longe as palmeiras que morrem lentamente, assassinadas pelo mosquito vindo de África. As gentes passeiam lentamente no empedrado saturado.
Simultâneamente a tudo isso, vejo tendas de feirantes em sábado de aleluia, e miúdos correndo em torno dos tabuleiros de amêndoas confeitas, brancas, rosa e azul, e, centro de atenção e desejo inatingível, os enormes ovos de açúcar com amêndoa ao meio, de todos os mais cobiçados.
Vejo o tempo, o que vivi, e o que antes de mim passou, nestes muros e janelas em volta, impávidos, ao ciclo das estações.
Vejo o que não vê quem ao meu lado conversa e olha com agrado na pausa de curtas férias. E um consolo de alma desce sobre a tarde que lentamente se desvanece.

Com a poesia de Jorge de Sena pelo Natal

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GHIRLANDAIO, Domenico 1492Acontecido o nascimento, é para o balbuciar da vida que a atenção do homem se volta. Com Jorge de Sena (1919-1978) é recorrente a atenção aos filhos como na obra-prima Carta aos meus filhos sobre os Fuzilamentos de Goya.
Nos três poemas que seguem, como outros dispersos pela sua obra poética, são reflexões sobre o ciclo vital o que acompanhamos, lendo no mistério da poesia o mistério da vida.

Eternidade

Vens a mim
pequeno como um Deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.
Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

In PERSEGUIÇÃO [1942]

Cantiga de embalar

Tão docemente se ouve um grito de criança,
enquanto a noite cerra o seu passo mais largo
que a névoa branda em torno aos candeeiros.

Até mim chegam indistintos halos
de luzes próximas, talheres fulgindo,
além, por sobre quintais abandonados.

No céu, sem estrelas como um fumo inútil,
espraiam-se olhares, silêncios, cartas esquecidas,
e túmulos perdidos no subsolo das casas.

Um grito de criança. E, no entanto,
há uma guerra, uma paz, armamentos sem fim,
e é importantissimo estudar economia política.

Saberás, meu filho do acaso de outros,
ser diferente sempre, dia a dia?
Saberás bem tudo, e sem saber o quê?
Serás como esta noite de um silêncio grávido
suspenso eternamente sobre as coisas?

In COROA DA TERRA [1946]

Os filhos levam muito tempo a crescer

Precária a vida e consentida a morte.
Quanto eu julguei saber como assim eram!
Mas não sabia.

Morreram-me pessoas queridas
e é como se ausentes permaneçam;
mesmo quando morreram perante mim,
não foi à morte delas que assisti:
outrem morreu, que é outro alguém que morre.

Mas também isto ainda o não sabia,
como o sei agora,
se aos meus filhos  o olhar se turva
se não sorriem logo, prontamente,
ao mais singelo aceno desta vida
que tão precária acena por seus lábios.
A morte é consentida: se a consentem?
Se se desdobram, numa imagem fixa,
que se perde,
e noutra que parte para sempre,
como se só ausente permaneça,
mas que nunca mais volta,
para viver precariamente
e morrer consentidamente
depois de a morte a mim me haver vivido?
Tudo isto meus versos o sabiam,
que não eu.
E agora que o sei tão ansiosamente,
leio estes versos e suspeito
amargamente que estes o não sabem.

1951

In POESIA-I, 1977

O presépio da minha infância

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UNKNOWN MASTER, German 1420É a poesia de Fernando Pessoa um poço inesgotável, onde a cada mergulho a alma se nos prende e se desvenda. Nesta vasta obra há pouco sobre o Natal, mas basta o arqui-conhecido poema Natal. Na província neva/…, para ficar dito em definitivo o que em desolada solidão sente quem na vida caminha Coração oposto ao mundo.

NATAL  

Natal. Na província neva.
Nos lares aconchegados
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Era pela feira de Outubro que naquele virar dos anos cinquenta a chegada próxima do Natal nos conduzia, crianças de vida modesta numa sociedade de bens escassos.

Aí começava a preparação do presépio com a compra de figurinhas de barro, umas novas para acrescentar variedade à composição, outras para substituir algumas entretanto quebradas. Era o dinheiro amealhado em longos meses, às vezes todo o ano, que permitia essas compras. Depois seguiam-se os trabalhos de preparação e montagem do cenário para o presépio. Tratava-se de uma vasta estrutura com quase dois metros de frente e mais de um metro de fundo construída com réguas de madeira às quais se pregavam raízes de canas. Estas raízes de canas, tuberculos rijos e com formas caprichosas, permitiam uma arquitecuta espacial variada. Pregadas em anfiteatro, desciam das alturas ao fundo, e confluíam na gruta, em baixo e quase ao centro, na frente, onde nasceria o deus menino.
O propósito era criar um vasto cenário deixando imaginar montanhas e vales, por onde andaria e viveria gente, que à chegada do Natal saberiam da boa nova e desciam até à gruta para ver e adorar o deus nascido. Eram esta gente e animais, casas e alfaias, as figurinhas de barro compradas na feira. Ao cenário acrescentava-se musgo e searas (grãos de trigo postos a germinar semanas antes em tacinhas de vidro).
E como se fazia a base do cenário? Pregadas as raízes às tábuas na disposição que iria permitir o relevo, a esta estrutura colava-se papal Kraft, integralmente coberto de um dos lados com cola de farinha, a qual, uma vez seca fixava o papel às raízes e acrescentava-lhe a rigidez e resistência suficiente para nele pousar sem rasgar as figuras de barro.
A cola de farinha era feita com farinha e água, cozida ao fogo. Depois de bem seca a cola, toda a estrutura era pintada com uma solução de dioxénio, a qual por ser de um castanho transparente, permitia nuances de cor sobre o papel creme e já manchado pelo repasse da cola. Uma vez seco o dioxénio e ficando a contento o cenário de montanha que queríamos, tratava-se de polvilhar a estrutura com purpurina dourada e prateada de forma que surgissem reflexos na estrutura, quando iluminada.
Com todo este trabalho tinha passado Outubro e Novembro. Além de carrear todo o material, escolher e ensaiar o cenário a construir, havia também a construção em cartolina do castelo do presépio, e de casas para espalhar pela paisagem. O castelo era a obra-prima de cada ano a fazer, pela vastidão e variedade de torres e ameias, fazendo lembrar um castelo das iluminuras dos irmãos Limbourg, que em tempos deixei algures no blog.
Concluídas as tarefas, e de posse de todos os elementos: figuras, musgo, searas, luzes, tratava-se de as dispor no cenário e inaugurar o presépio, nem sempre no primeiro de Dezembro mas seguramente nos primeiros dias do mês. Quando era montado na montra da loja de meu pai, colocava-se um pano no exterior enquanto a montagem durava, e anos houve em que a miudagem apercebendo-se, ali se juntava e esperava a retirada do pano para primeiro ver o presépio e as suas novidades. Depois, ao longo dos dias, na saída da escola, lá passavam e ficavam a olhar, uns, sem mais, outros discutindo este ou aquele detalhe que gostavam ou não.

Era o tempo de pôr o sapato à chaminé na véspera de Natal à noite, e acreditar que por ali o Pai Natal desceria com um ou dois presentes e pouco mais de meia dúzia de pequenos chocolates, enchendo o sapatinho com os secretos sonhos que só ele conhecia. Hoje, as chaminés vedadas por exaustores não permitem, nem à mais tenra infância, a ilusão da descida do Pai Natal, dando forma a desejos acalentados longamente.

Este acreditar que a magia do bem é possível, acompanha pela vida quem a sentiu, e torna a esperança na felicidade, indestrutível.
Oxalá o mesmo se passe consigo, leitor.

Feliz Natal!

Miguel Torga, um poema de Natal

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GIOTTO di Bondone 1310Embora no Ocidente a comemoração do Natal seja generalizada, a sua natureza e origem religiosa é muito menos tida em conta.
Esperada, organizada, e finalmente celebrada, a festa do Natal, para muitos é feita na ausência de Deus, ou como nos versos de Miguel Torga (1907-1995) se diz, no poema que vos trago:

O homem nem perguntou / Se Deus era necessário… / E Deus não representou.

Natal

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário…
E Deus não representou.

O poema foi publicado num dos volumes do Diário do poeta, que, longe da biblioteca, não consigo identificar, e se não erro, vem datado de 25 de Dezembro de 1950.

Natal num poema de David Mourão-Ferreira

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BRONZINO, Agnolo Adoration of the Shepherds 1539-40Aproxima-se o Natal e apetece visitar a poesia escrita a seu pretexto.
É a possibilidade de recomeçar, deixar para trás os erros e recuperar a magia do futuro com os olhos da infância, o que sobretudo me atrai na espera do Natal e na sua celebração.
Às vezes basta um nada e o reencontro com esse encanto infantil vivido em torno do Natal regressa:

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa, / a trazer-me da água a infância ressurrecta.

A vida leva-nos mais vezes do que nós a ela,

E quanto mais na terra a terra me envolvia / mais da terra fazia o norte de quem erra.

e se a memória se liberta

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

cresce a vontade de encontrar a bússola que por outro caminho nos conduza

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

De tudo isto nos fala David Mourão-Ferreira (1927-1996) no poema Natal à Beira-Rio que acima esquartejei e agora transcrevo na totalidade.

Natal à Beira-Rio

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado…

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia…
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

1960

O poema abre o livro Cancioneiro de Natal que o poeta publicou em 1971 com 10 poemas onde a sua vivência do Natal se reflecte.

Susana e os velhos ou o triunfo da virtude sobre a calúnia

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Alessandro ALLORI

As história mitológicas e sacras permitiram, sem escândalo das consciências, a inclusão de nus femininos na pintura europeia dos séculos XVI e XVII.
Hoje a história que me trás, e foi pretexto de belas obras de arte, é a de Susana, contada na Bíblia, no Livro de Daniel, Capítulo 13, e considerada apócrifa por Protestantes, ainda que os Católicos a aceitem.
Susana, chantageada por dois velhos que a observavam nua no banho, exigindo-lhe que com eles tivesse relações sexuais, recusou. Falsamente acusada, foi condenada à morte. O aparecimento de Daniel a mando de Deus, ao questionar os juizes sobre a fiabilidade da acusação, permitiu conhecer o falso testemunho dos acusadores e salvar Susana da morte.

À parte as questões morais de falso testemunho e do seu móbil, o episódio dá conta da evidência do desejo sexual até bem entrada a velhice, coisa que as nossas sociedades, hoje, tendem a escamotear, o os próprios têm pudor muitas vezes em assumir.

As pinturas escolhidas mostram o momento do assédio dos velhos à bela e jovem Susana relatado no episódio bíblico como segue:

17    [Susana]Disse às jovens: «Trazei-me óleo e unguentos e fechai as por­tas do jardim, para eu tomar banho.»
18    Fizeram o que ela tinha mandado e, tendo fechado as portas do jar­dim, saíram pela porta tra­seira, para irem procurar o que lhes tinha sido pedido; não sabiam que os anciãos estavam lá escondidos.
19    Logo que elas saíram, os dois homens precipitaram-se para junto de Susana
20    e disseram-lhe: «As por­tas do jardim estão fechadas, nin­guém nos vê. Nós ardemos de desejo por ti. Aceita e entrega-te a nós.
21    Se não quiseres, vamos denunciar-te. Di­­re­­­mos que um rapaz estava con­tigo e que foi por isso mesmo que tu man­daste embora as criadas.»
22    Su­sana bradou angustiada: «Estou su­jeita a aflições de todos os lados! Se faço isso, é para mim a morte. Se não o faço, nem mesmo assim vos escapa­rei.
23    Mas é preferível para mim cair em vossas mãos sem ter feito nada, do que pecar aos olhos do Se­nhor.»

É uma instrutiva ocupação degustar a forma como surgem pintadas as mais diversas reacções de Susana ao assédio de que é alvo, dando com isso conta de como a pintura evoluiu da beleza formal de Tintoretto à expressão emocional em Van Dick, no quase século que estas pinturas percorrem.

GENTILESCHI, Artemisia 1610Artemisia GENTILESCHI – 1610

TINTORETTO 1555TINTORETTO – 1555

BADALOCCHIO, Sisto 1609Sisto BADALOCCHIO – 1609

RENI, Guido 1620Guido RENI – 1620

REMBRANDT Harmenszoon van Rijn 1647 detalheREMBRANDT – 1647 (detalhe)

Seguem-se 3 Susanas por Rubens, em 1608, 1610, 1611 respectivamente.

RUBENS, Peter Paul 1608

RUBENS, Peter Paul 1610

RUBENS, Peter Paul 1611

Termino com esta obra-prima de Sir Anthony Van Dyck, onde a cena bíblica ganha a espessura de realidade quotidiana no misto de recusa e medo em Susana e na segurança de autoridade dos velhos, na imposição da vontade.

DYCK, Sir Anthony van 1621

À falta de uma tradução literal do texto, incluo a seguir a versão católica da história de Susana, constante da chamada Bíblia dos Capuchinhos, permitindo o seu conhecimento a quem o não possua.

Inocência de Susana
1    Ha­via um homem chamado Joa­q­uim, que habitava na Babilónia.
2    Ti­­nha desposado uma mulher de nome Susana, filha de Hilquias, mui­­t­­o bela e piedosa para com o Senhor,
3    pois tinha sido educada pelos pais, que eram justos, de har­monia com a Lei de Moisés. 4    Joa­quim era muito rico. Contíguo à sua casa, tinha um pomar; e com frequência se reuniam em casa dele os judeus, pois que entre todos os seus compatriotas gozava de parti­cular consideração.
5    Tinham sido nomeados juízes, naquele ano, dois anciãos do povo. A eles justamente se aplicava a pala­vra do Senhor: «A iniquidade veio da Babilónia, de anciãos e juízes, que passavam por dirigir o povo.»
6    Estas duas personagens frequenta­vam a casa de Joaquim, onde vi­nham pro­curá-los todos os que tinham qual­quer contenda.
7    À hora do meio-dia, quando toda esta gente se tinha reti­rado, Susana ia passear para o jar­dim do marido.
8    Os dois anciãos viam-na todos os dias, por ocasião do passeio, de maneira que a sua paixão se acendeu por ela.
9    Perde­ram a justa noção das coisas, afastaram os olhos para não olha­rem para o céu e não se lembrarem da verdadeira regra de conduta.
10    Os dois consumiam-se de pai­xão por Susana, mas sem contarem um ao outro a sua própria emoção.
11    Ti­nham vergonha de, reciprocamente, comu­ni­ca­rem o desejo que os domi­nava de a possuírem.
12    Todos os dias, inquie­tos, procuravam ocasião para a obser­var.
13    Uma vez, disseram um ao outro: «Vamos para casa, pois é a hora de almoçar.» Saíram cada um por seu lado.
14    Mas voltaram os dois atrás e encontraram-se num mesmo lugar. Ao interrogarem-se mutua­mente sobre o motivo do regresso, conf­essaram um ao outro o seu desejo. Combinaram, então, um mo­mento em que pudes­sem encon­trar Susana só. Eles estuda­vam a oca­sião propícia.
15    Um dia, como de costume, che­gou Susana, acompanhada apenas por duas criadas, e preparava-se para tomar banho no jardim, pois fazia calor.
16    Não havia aí ninguém senão os dois anciãos que, escondi­dos, a es­piavam.
17    Disse às jovens: «Trazei-me óleo e unguentos e fechai as por­tas do jardim, para eu tomar banho.»
18    Fizeram o que ela tinha mandado e, tendo fechado as portas do jar­dim, saíram pela porta tra­seira, para irem procurar o que lhes tinha sido pedido; não sabiam que os anciãos estavam lá escondidos.
19    Logo que elas saíram, os dois homens precipitaram-se para junto de Susana
20    e disseram-lhe: «As por­tas do jardim estão fechadas, nin­guém nos vê. Nós ardemos de desejo por ti. Aceita e entrega-te a nós.
21    Se não quiseres, vamos denunciar-te. Di­­re­­­mos que um rapaz estava con­tigo e que foi por isso mesmo que tu man­daste embora as criadas.»
22    Su­sana bradou angustiada: «Estou su­jeita a aflições de todos os lados! Se faço isso, é para mim a morte. Se não o faço, nem mesmo assim vos escapa­rei.
23    Mas é preferível para mim cair em vossas mãos sem ter feito nada, do que pecar aos olhos do Se­nhor.»
24    Susana, então, soltou altos gri­tos e os dois an­ciãos gritaram tam­bém com ela.
25    E um deles, cor­rendo para as portas do jardim, abriu-as.
26    As pessoas da casa, ao ouvirem esta gritaria, precipitaram-se pela porta traseira para ver o que tinha acontecido.
27    Logo que os anciãos falaram, os criados coraram de ver­go­nha, pois jamais se tinha dito coisa semelhante de Susana.
28    No dia se­guinte, os dois anciãos, dominados pelo desejo criminoso contra a vida de Susana, vieram à reunião que ti­nha lugar em casa de Joaquim, seu marido.
29    Disseram diante de toda a gente: «Que se vá procurar Susana, filha de Hilquias, a mulher de Joa­quim!» Foram procurá-la.
30    E veio com os seus pais, os filhos e os mem­bros da sua família.
31    Susana era de fi­gura delicada e bela de rosto.
32    Por­que estava velada, estes ho­mens per­ver­s­­os, para ao menos se saciarem com a sua beleza, exigiram que levantasse o véu.
33    Choravam todos os seus, ass­im como todos os que a conheciam.

Susana acusada pelos anciãos  
34    Os dois anciãos levantaram-se diante de todo o povo e puseram a mão sobre a cabeça de Susana,
35    en­quanto ela, desfeita em lágrimas, mas de coração cheio de confiança no Senhor, olhava para o céu.
36    Dis­s­eram então os anciãos: «Quando pas­seávamos a sós pelo jardim, entrou ela com duas criadas; e depois de ter fechado as portas, mandou embora as criadas.
37    Então, um jovem, que estava lá escondido, aproximou-se e pecou com ela. 38    Encontrávamo-nos a um canto do jardim. Perante seme­lhante atrevimento, corremos para eles e surpreendemo-los em flagran­te delito.
39    Não pudemos ter mão no rapaz, porque era mais forte do que nós, abriu a porta e escapou-se.
40    A ela apanhámo-la; mas, quando a in­terrogámos para saber quem era esse rapaz, 41    recusou responder-nos. Somos testemunhas disto.»
Dando crédito a estes homens, que eram anciãos e juízes do povo, a assembleia condenou Susana à mor­te.
42    Esta, então, em altos brados dis­se: «Deus eterno, que sondas os segre­dos, que conheces os acontecimentos antes que se dêem,
43    Tu sabes que proferiram um falso testemunho con­tra mim. Vou morrer sem ter feito nada daquilo que maldosamente inventaram contra mim.»

Daniel defende a casta Susana  
44    Deus ouviu a sua oração.
45    Quando a conduziam para a morte, o Senhor despertou a alma límpida de um rapa­zinho, chamado Daniel,
46    que gritou com voz forte: «Estou inocente da morte dessa mulher!»
47    Toda a gente se voltou para ele e disse: «Que é que isso quer dizer?»
48    E, diri­gindo-se para o meio deles, afirmou: «Israe­l­­i­tas! Estais loucos, para con­de­nardes uma filha de Israel, sem examinar­des nem reconhecerdes a verdade?
49    Reco­meçai o julgamento, porque é um falso testemunho o que estes dois homens declararam con­tra ela.»
50    O povo apressou-se a voltar. Os an­­ciãos disseram a Daniel: «Vem, senta-te no meio de nós e esclarece-nos, porque Deus te deu maturi­dade!»
51    Bradou Daniel: «Separai-os para longe um do outro e eu os jul­garei.»
52    Separaram-nos. Daniel, então, chamou o primeiro e disse-lhe: «Ve­lho perverso! Eis que se manifestam agora os pecados que cometeste ou­trora em julgamentos injustos,
53    ao condenares os inocentes, absolvendo os culpados, quando o Senhor disse: ‘Não farás com que morra o inocente ou o justo.’
54    Vamos! Se realmente os viste, diz-nos debaixo de que árvore os viste entreterem-se um com o outro.»
«Sob um lentisco.» – respondeu.
55    Retorquiu Daniel: «Pois bem! Aí está a mentira, que pagarás com a tua cabeça. Eis que o anjo do Se­nhor, conforme a sentença divina, te vai rachar a meio!»
56    Afastaram o homem, e Daniel mandou vir o outro e disse-lhe: «Tu és um filho de Canaã e não um judeu. Foi a beleza que te seduziu e a pai­xão que te per­verteu.
57    É assim que sem­pre tendes procedido com as filhas de Israel, que, por medo, entravam em relação convosco. Uma filha de Judá, porém, não consentiu na vossa perversi­dade.
58    Vamos, diz-me: sob que árvore os surpreendeste em ati­tude de se uni­rem?»
«Sob um carvalho.»
59    Respon­deu Daniel: «Pois bem! Também tu forjaste uma mentira que te vai cus­tar a vida. Eis que o anjo do Senhor, de espada em punho, se dispõe a cortar-te ao meio, para vos aniqui­lar.»
60    Logo a multidão deu grandes bra­dos, e bendizia a Deus que salva os que põem nele a sua esperança.
61    Toda a gente, então, se insurgiu contra os dois anciãos que Daniel tinha convencido de falso testemu­nho, pelas suas próprias declarações e deu-se-lhes o mesmo tratamento que eles tinham infligido ao seu pró­ximo.
62    De harmonia com a Lei de Moisés, mataram-nos. Deste modo, foi poupada naquele dia uma vida ino­c­ente.
63    Hilquias e sua esposa louvaram a Deus por sua filha, Susana, com Joaquim, esposo dela, e todos os pa­rentes, pois não tinham encontrado qualquer desonestidade na sua con­duta.
64    Daniel, daí em diante, gozou de elevada consideração entre os com­patriotas.

O dia deu em chuvoso – Fernando Pessoa pela voz de Álvaro de Campos

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Cailleboute Rua de Paris 1877São parte do quotidiano de todos nós as reflexões sobre o estado do tempo, assunto neutro de comunicação social, sem outra consequência que a troca de algumas palavras em encontros de circunstância. A poucos é pretexto poético que valha a leitura. Não assim a este TRAPO:

Dêem-me o céu azul e o sol visível. / Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

poema de Álvaro de Campos, entre os poucos que Fernando Pessoa publicou em vida.

Trapo

    O dia deu em chuvoso.
    A manhã, contudo, esteve bastante azul.
    O dia deu em chuvoso.
    Desde manhã eu estava um pouco triste.
    Antecipação!  Tristeza?  Coisa nenhuma?
    Não sei: já ao acordar estava triste.
    O dia deu em chuvoso.

    Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
    Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
    Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
    Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
    Dêem-me o céu azul e o sol visível.
    Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
    Hoje quero só sossego.
    Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
    Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
    Não exageremos!
    Tenho efectivamente sono, sem explicação.
    O dia deu em chuvoso.

    Carinhos?  Afectos?  São memórias…
    É preciso ser-se criança para os ter…
    Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
    O dia deu em chuvoso.

    Boca bonita da filha do caseiro,
    Polpa de fruta de um coração por comer…
    Quando foi isso?  Não sei…
    No azul da manhã…

    O dia deu em chuvoso.

    10-09-1930

    Poema publicado na Revista Presença, Nº31-32, Março-Junho, 1931