Fragmento de memória com soneto de Michelangelo

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Vaticano Agosto de 1978 530Viajar é hoje um desejo e um prazer ao alcance de grande número. O mundo está mais pequeno. E embora possamos à distância do dedo num computador ter noticia do mais ínfimo recanto da terra, a vontade de ver e sentir os lugares continua a fazer parte do impulso humano por conhecer.

Testemunho maior dessa avalanche de gente a viajar que os últimos anos trouxeram, é provavelmente, em Roma, a Praça da Basílica de S.Pedro na Cidade do Vaticano, permanentemente ocupada por peregrinos e turistas, gostando de simplesmente ali estar, ou em filas que parecem eternas para visitar a igreja.

E se a uma parte da humanidade viajar não é possível, alguns há que continuam tão só a fugir à guerra ou à fome, como os homens, mulheres e crianças que todos os dias aportam ao largo da costa italiana, e aí por vezes encontram a morte. É ainda desta igreja de S. Pedro que se levanta a voz para lembrar ao mundo a tragédia dessa humanidade que na fuga para um futuro melhor morre às portas do paraíso sonhado.

Os paraíso onde o viver feliz se sonha são isso mesmo, matéria de sonho. E são inesperadas as formas como nos apercebemos quanto o mundo mudou ao longo das nossas vidas levando os paraísos sonhados de um lugar para outro.

Ao viajar por Itália confronto-me com a memória da primeira vez que longamente viajei pelo pais no já distante ano de 1978. Era uma vida diferente, e uma sociedade diferente. O mundo encontrava-se divido em dois blocos e na Europa havia fronteiras entre cada país. O muro de Berlim, de pé, desenhava a fronteira física e psicológica da liberdade.

No ano anterior (1977) tinha vivido por quase dois meses a experiência directa do comunismo na Polónia, paraíso sonhado por muitos e experiência devastadora da crença na possibilidade de um mundo melhor por simples decreto além de preciosa aprendizagem do valor da liberdade.

Quando este ano aterrei no aeroporto da antiga Berlim Leste, foi estranho recordar como 36 anos antes ali estive parado dentro de um avião que seguia para Moscovo com escala em Varsóvia, onde eu desceria, e da janela observava como os passageiros com destino a Moscovo, obrigados a descer do avião, seguiam por uma passadeira entre militares ou policias de espingarda em riste, sabe-se lá para onde. A angústia perante o sem sentido da situação e o absurdo do abuso assombraram-me durante muito tempo.

Foi outra, feliz, e formadora de um gosto, a viagem do ano seguinte a Itália. Ainda há pouco, quando alguém comentava comigo quanto o convívio com as coisas belas acaba por instalar em nós o gosto e o desejo do belo, lembrei dessa viagem um detalhe ocorrido em Verona, que agora recordo.

Representava-se nessa noite na Arena de Verona, majestoso e gigantesco teatro romano ao ar livre, a ópera O Trovador de Verdi. Estando em Veneza, decidi não perder a oportunidade do espectáculo e cedo cheguei a Verona.

Era princípio da tarde e passeando em torno da arena aproximei-me de uma excursão de farnel e garrafão. Eram italianos do sul em viagem de autocarro pelo norte de Itália, na modalidade que ao tempo era habitual entre pessoas de poucas posses: transportar lancheira, fazer piquenique junto ao autocarro, e muitas vezes dormir nele.

Aproximei-me, e a certa altura surpreendi a exclamação de um excursionista para outro: Guarda que bello! (Olha que belo!). Olhava para a arena, extasiado com a beleza do monumento.

Dificilmente entre outros povos, gente da mesma condição económica revelaria em voz alta esta comoção perante o espectáculo da beleza, mesmo que a ela fosse sensível.

O que me comove e surpreende sempre em Itália, é o gosto e carinho com que os italianos vivem o seu património construído e herdado.

Sacrificando o conforto do quotidiano que as construções modernas podem trazer à habitação e ao viver urbano, adoptam os centros históricos e mantêm-nos vivos, criando em quem chega o desejo de ali viver também. Aí vive o comércio tradicional, e a mais sofisticada moda internacional convive quase paredes meias com os géneros alimentares e a venda de arte. E depois as pessoas. Seja Roma, seja uma qualquer cidade média como Pádua, por exemplo, onde num sábado à tarde demoradamente passeei, as pessoas enchem as ruas com comércio, deambulam, param para conversar, vivem o espaço urbano como em Portugal só recordo na longínqua infância, e hoje apenas na zona do Chiado, em Lisboa, acontece.

A foto que hoje arquivo no blog, tirada nessa longínqua visita de 1978, dá conta de uma Praça de S. Pedro vazia durante a tarde, e é uma imagem hoje impossível de conseguir.

Nessa visita, não havia Papa. Tinha morrido Paulo VI e o consistório ainda não escolhera substituto. Os frescos da Capela Sistina ainda não tinham sido devolvidos às cores supostamente originais que hoje podemos admirar. Eram uma acinzentada mancha mal iluminada, onde a custo se divisavam as pinturas que pouco mais de dezena de visitantes observava. Hoje lá estão: esplendorosos, e dificilmente contempláveis entre a compacta multidão que se acotovela e os gritos dos seguranças: é proibido fotografar ou filmar!

Foi Michelangelo (1475-1564) o autor dessas maravilhas artísticas: o projecto da praça, o projecto da igreja e as pinturas do tecto e altar da Capela Sistina.

Artista e espírito da renascença, foi também poeta de génio, e com um seu soneto onde reflecte sobre a pequenez da sua condição humana perante Deus termino este circunlóquio entre o hoje e o mundo de há mais de 30 anos.

“Forse perché d’altrui…”

 

Forçoso é que a piedade enfim me venha,

pra que d’alheias culpas mais não ria,

seguro em meu valor, sem outro guia,

alma perdida que de si desdenha.

 

Nem sei que outra bandeira me mantenha

não vencedor, mas salvo da porfia

com que o tumulto adverso me seguia,

se não é Teu poder que me sustenha.

 

Ó carne, ó sangue, ó lenho, ó dor extrema!

Justo por vós se tome o meu pecado,

do qual nasci e os pais que foram meus.

 

Só Tu és bom: socorra tão suprema

piedade o meu predito iníquo estado:

tão perto a morte, e ainda tão longe Deus.

 

Original italiano

Forse perché d’altrui pietà mi vegna,

perché dell’altrui colpe più non rida,

nel mie propio valor, senz’altra guida,

caduta è l’alma che fu già sì degna.

 

Né so qual militar sott’altra insegna

non che da vincer, da campar più fida,

sie che ’l tumulto dell’avverse strida

non pèra, ove ’l poter tuo non sostegna.

 

O carne, o sangue, o legno, o doglia strema,

giusto per vo’ si facci el mie peccato,

di ch’i’ pur nacqui, e tal fu ’l padre mio.

 

Tu sol se’ buon; la tuo pietà suprema

soccorra al mie preditto iniquo stato,

sì presso a morte e sì lontan da Dio.

Soneto 66 das Rime de Michelangelo

Tradução de Jorge de Sena, in Poesia de 26 Séculos, Fora do Texto, Coimbra, 1993.

As três Graças – escultura de Canova e um poema de Rufino

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António Canova - As três graças 1Há semanas trouxe ao blog a história do Julgamento de Páris. Hoje, a pretexto da bela escultura de António Canova (1757-1822) figurando As Três Graças, venho com um poema de Rufino.

As Três Graças (Gratiae em latim), de seus nomes Eufrosina Talia e Aglaia, são divindades da Beleza e têm como propósito espalhar a alegria na natureza e no coração de homens e deuses (ainda bem que existem, senão, que seria do mundo?).

Habitualmente representadas como três donzelas agarradas umas às outras, duas olham-se entre si e a do meio olha na direcção contrária. A fonte de todo este conhecimento que vos deixo é o precioso Dicionário da Mitologia Grega e Romana de Pierre Grimal. Às graças voltarei, inevitavelmente, tantas sãos as obras de arte que inspiraram.

Por enquanto convido-vos a participar do acontecimento relatado por Rufino.

Rufino, poeta grego contemporâneo de Marcial, como hoje é geralmente aceite, viu-se a certa altura colocado em embaraço semelhante ao de Páris no julgamento da beleza feminina, e da situação deixou-nos a história que segue:

Três beldades me escolheram para julgar-lhes as nádegas,

a mim mostradas no esplendor da nudez.

As de uma, florescendo em alvura veludosa, estavam

marcadas ambas por covinhas graciosas;

a nívea carne das de outra, a de pernas abertas, tinha

rubor mais forte que a púrpura da rosa;

as da terceira, calmaria sulcada de ondas mudas,

palpitavam suaves ao seu próprio impulso.

Se o juiz das deusas, Páris, tivesse visto estas nádegas,

Não quereria saber de mais nenhuma.

Tradução de José Paulo Paes

Acrescento uma outra tradução do mesmo poema, longe, no entanto, do belo efeito poético da anterior. Ressalvo que, se nesta segunda tradução se referem coxas em vez de nádegas, o meu desconhecimento do grego antigo não me permite saber de que parte do corpo constava o julgamento. Posso no entanto referir que José Luís Calvo Martinez, na tradução em castelhano do mesmo poema nos diz a abrir: “Del culo de tres muchachas yo fui juez. …

Vamos então à tradução do poeta Albano Martins

Fui juiz num concurso de coxas de três mulheres. Foram elas

que me escolheram, me mostraram a nudez esplendorosa

dos seus corpos. Marcada de pregas arredondadas,

a branca doçura das coxas de uma floria.

A carne Nevada da outra, de pernas afastadas, tinha uma cor

sanguínea, mais vermelha que uma rosa purpura.

A terceira mostrava-se serena como um mar tranquilo,

com a pele delicada apenas sacudida por estremecimentos involuntários.

Se o árbitro das deusas Tivesse contemplado estas coxas,

não teria querido olhar as primeiras.

Noticia bibliográfica

Este poema consta dos epigramas amorosos incluídos no volume V da Antologia Palatina, à qual jà me referi noutros artigos, e nela possui o número 35.

Traduções de José Paulo Paes em Poesia Erótica em tradução, ed. Companhia das Letras, 1990 e de Albano Martins em do mundo grego outro sol, ed. Asa Editores II , Porto, 2002.

 

Riposte – poema de William Carlos Williams

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Jackiewicz_W_adys_aw-Akt-VO amor, preocupação permanente da humanidade e assunto eterno da poesia, encontra frequentemente formas inesperadas e tocantes de se exprimir.

Em imagens preciosas de limpidez e concisão compara William Carlos Williams (1883-1963) amor e poesia neste seu poema, Riposte, publicado pela primeira vez em 1917, no livro do estreia do poeta, Al Que Quiere!

Riposte

Love is like water or the air

my townspeople;

it cleanses, and dissipates evil gases.

It is like poetry too

and for the same reasons.

 

Love is so precious

my townspeople

that if I were you I would

have it under lock and key—

like the air or the Atlantic or

like poetry!

Acrescento ao original transcrito uma bela tradução do poeta José Manuel Mendes(1948).

 

Réplica

O amor é como a água,

queridos concidadãos;

purifica e dissipa os gases nocivos.

É como a poesia também

e pelas mesmas razões.

 

O amor é um tesouro de tal modo valioso,

queridos concidadãos,

que, no vosso lugar,

a sete chaves o guardaria —

como o ar ou Atlântico ou

como a poesia!

 

Tradução de José Manuel Mendes publicada no livro Cinzas de Véspera, Dezembro de 2012, em edição do autor, fora do mercado, e para oferta.

Saudade é ter presença e afastamento — poema de Ibn ‘Arabî

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Gyarmathy_Tihamer-Two_Continents 1952sentir que cada encontro é uma fome.

A voracidade do amor é isto. E que bem o diz Ibn ‘Arabî (1165-1240) o poeta andaluz de quem hoje vos trago dois poemas escritos naquela linguagem sábia e condensada que dá conta de verdades insofismáveis.

 *

na ausência a saudade me consome

mas também não me sacia o achamento

saudade é ter presença e afastamento

sentir que cada encontro é uma fome.

 

paixão é ter remédio e, todavia

é ter visão de nós que em nós desce

não se pode fugir, a ânsia cresce

vizinha de uma mística harmonia.

 

No poema que segue, através de uma surpreendente parábola, conta-nos o poeta de uma evidência raramente apreendida: amado e amada só o são verdadeiramente quando se sentem apenas um.

 **

um dia um amoroso veio bater

à porta da sua bem-amada

e ela, lá de dentro, veio dizer:

quem é? deu ele em responder:

sou eu, minha adorada!

 

disse ela, de seguida, já irada:

os dois não cabemos nesta casa!

 

no deserto ele foi arder a sua brasa

meditando até de madrugada.

 

voltou à porta dela, e bateu

e, uma vez mais, a voz se ouviu:

quem é? és tu! ele respondeu.

e logo aquela porta então se abriu.

As versões são do nosso arabista e poeta Adalberto Alves, e constam do seu livro de poemas, No Vértice da Noite, belíssima edição Argusnauta (editor Luís Gomes), com ilustrações de Figueiredo Sobral, Lisboa, 2007.

E deste livro escolho para terminar, agora de Adalberto Alves, como se à noite o mar…

 

como se à noite o mar…

numa estranha rota iluminada

deixasse livre o sonho esvoaçar:

os rostos que se foram, em parada,

em silêncio nos vêm visitar.

 

sob chuva distante e torturada

que na nossa tristeza deixa os sais,

rostos amados na sua desfilada,

vão-nos dizendo devagar: jamais!

 

como se à noite o mar…

 

me forçasse a perguntar, oh mágoa,

nesta fria margem de ilusão

porque correm os dias como água,

se não passam nem nunca passarão?

 

silente carícia de uma ignota mão

que marcas nas faces o signo da lua

abre-me a alma, fecha-me a razão

dá-me aquela Presença que é só Tua.

 

Cesariny — romance da praia de moledo e alguns poemas mais

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Cesariny - A Antonin ArtaudAgora que o Verão se despede, alguma poesia de Mário Cesariny (1923-2006) a acompanhar o romance da praia de moledo que a seguir transcrevo

canto da hora do banho

ó mar contente, tão frio

que o verde das ondas é neve

fazes meu corpo tão leve,

no ar, vazio!

meus seios, cabelos, tudo é brando!

na mão do mar talhado cerce

vou, como se a um velho comando

desobedecesse!

e raia de leve um sol macio

que ainda não amadurou

frio

de manhã forte e silente

as minhas mãos nem são de gente

são formas de água, de neve

sobre o maillot

Poema de belos versos, ao lê-lo percorre-nos o arrepio de entrar pela manhã na água gelada do mar do norte de Portugal, —...tão frio / que o verde das ondas é neve— numa sensação quase física, e cito de novo: e raia de leve um sol macio / que ainda não amadurou, apanágio apenas da grande poesia, exista ou não o sublime do assunto.

O poema abre o livro burlescas teóricas e sentimentais.

Continuemos com a poesia de Cesariny, e do livro discurso sobre a reabilitação do real quotidiano transcrevo três poemas.

XI

queria de ti um país de bondade e de bruma

queria de ti o mar de uma rosa de espuma

Ouçamos o poeta ler este poema onde a pausa na leitura após um primeiro queria lhe dá um sentido novo.

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Depois deste encontro de desejo, o relato em partes de um acidente urbano: fala o condutor, falam os mirones e relata-nos o poeta o sucedido; tudo com a mestria da concisão poética.

XIX

ia muito bem a guiar o automóvel

quando ao fazer a mudança ( necessária?)

tudo mudou muito mais do que esperava

o automóvel (embora sempre andando) virou caixote do lixo

 

e ela — aflição — passou a ser apenas

um busto fora do caixote fechado

e a dar à manivela muito depressa.

A rua era comprida? perguntou a quem também estava

 

que contou de repente que com ela era assim: uma escada para o alto que nunca mais acabava.

Também havia quem viajasse muito

todas as noites e no mesmo sentido

 

estava esse muito cansado pois com os comboios normais

basta não querer e pronto mas se é sonho

não há manobra possível tem de se ir mesmo

Termino a viagem a este livro do poeta com o famoso poema X

 X

falta por aqui uma grande razão

uma razão que não seja só uma palavra

ou um coração

ou um meneio de cabeças após o regozijo

ou um risco na mão

ou um cão

ou um braço para a história

da imaginação

 

podemos pois está claro

transferir-nos

imaginar durante um quarto de hora

os séculos que virão

— os séculos um

e dois

da colonização —

depois

depois é este cair na madrugada ardente

na madrugada de constantemente

sem sol

e sem arpão

 

faltas tu faltas tu

falta que te completem

ou destruam

não da maneira rilkeana vigilante mortal solícita e obrigada

— não, de nenhuma maneira resultante!

nem mesmo o amor

não é o amor que falta

 

falta uma grande realmente razão

apenas entrevista durante as negociações

oclusa na operação do fuzilamento cantante

rodoviária na chama dos esforços hercúleos

morta no corpo a corpo do ismo contra ismo

 

falta uma flor

mas antes de arrancada

 

falta, ó Lautréamont, não só que todo o figo coma o seu burro

mas que todos os burros se comam a si mesmos

que todos os amores palavras propensões sistemas de palavras e de propensões

se comam a si mesmos

muitas horas por dia até de manhã cedo

até que só reste o a o b e o c das coisas

para o espanto dos parvos

que aliás não estão a mais

 

isso eu o espero

e o faço

junto à imagem da

criança morta

depois que Pablo Picasso devorou o seu figo

sobre o cadáver dela

e longas filas de bandeiras esperam

devorar Picasso

que é perto da criança, ao lado da boca minha

Caso do vestido — poema de Carlos Drummond de Andrade lido por João Villaret

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Graham_John_D.-Two_Sisters 1944Hoje, um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-87) sobre mulheres, Caso do vestido.

Encontramos aqui um triângulo amoroso entre duas mulheres e um homem de onde resplandece a capacidade infinita de amar de ambas. Não há sofrimento que as canse ou faça soçobrar. Nesta abnegação e entrega ao amor, concentrada em sublime síntese poética, ocorre-me a história de Senso, sobretudo na versão filmada de Visconti, onde uma Alida Valli (a actriz) no papel da condessa, se arrasta do esplendor à maior degradação, traindo os seus, e os valores em que viveu, roubando ouro que lhe confiaram para o entregar e ir atrás do homem que ama e a repudia de forma ignóbil. Que mola move uma mulher a tal abnegação? Nenhum homem é capaz desta desmesura. Também não sei se algum homem quer um amor assim.

Na história poética do Caso do vestido, o homem é afinal um pobre diabo que nunca esteve à altura das mulheres que o amaram.

Ouçamos o poema lido de forma ímpar por João Villaret.

Caso do Vestido

Nossa mãe, o que é aquele

vestido, naquele prego?

 Minhas filhas, é o vestido

de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?

Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.

Vosso pai ai vem chegando.

Nossa mãe, dizei depressa

que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo

ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,

está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido

tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai

palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,

vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,

se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,

se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,

bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,

foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.

Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,

dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,

lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.

Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,

a essa dona perversa,

que tivesse paciência

e fosse dormir com ele…

Nossa mãe, por que chorais?

Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai

chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos

pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei

aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse

de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,

me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele

se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,

não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,

os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,

os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,

de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia

as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,

me curvei… disse que sim.

Saí pensando na morte,

mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,

passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,

não comia, não falava,

tive uma febre terçã,

mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,

fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,

costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,

meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro

pagou conta de farmácia.

Vosso pai sumiu no mundo.

O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba

me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,

com uma trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,

não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.

Mas te dou este vestido,

última peça de luxo

que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,

da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,

ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado

confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.

Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengue,

no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,

me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,

me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,

rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:

vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa

que recorda meu malfeito

de ofender dona casada

pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido

e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,

quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,

quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha

delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados

com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,

boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus

nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho

e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.

Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido

e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.

Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,

era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado

e nem estava mais velho.

O barulho da comida

na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,

um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,

vestido não há… nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço

vosso pai subindo a escada.

Alexandre O’Neill — Ana Brites, Balada tão ao gosto português

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Degas_Edgar-A_Roman_Beggar_Woman

Na poesia de Alexandre O’Neill (1924-1986) o sarcasmo tem presença frequente, e se um corrosivo humor cruza quase toda a sua poesia, o poeta foi por vezes capaz de comovente ternura por alguns desamparados, qual este Ana Brites, Balada tão ao gosto português.

 Ana Brites, Balada tão ao gosto português

Ana Brites, a coitada,

está no seu canto, enfartada,

a brancura do cabelo

na brancura da almofada,

a roupa da cama, pois,

bem dobrada e alinhada.

 

Ana Brites, camponesa

do fundo de Portugal,

com um tubo no nariz,

não pensa nem bem nem mal,

vê imagens, as da vida,

que até agora viveu,

vê a Castanha, a vaquinha,

o que no eido ocorreu,

vê-se em pequena, sozinha,

por esses montes, além,

caminho das letras gordas

também das quatro operações,

vê-se já em rapariga,

a alfinetar corações.

 

Vê o primeiro que pôs

rumores no seu coração,

um moço de grande lábia

sempre alegre e espertalhão.

Vê aquele que a levou,

por uma vez ao altar,

e vai, no seu corpo entrou,

como na casa o ladrão,

para a deixar com um filho

que é a sua devoção.

 

Ana Brites, a coitada,

sente, às vezes, a dor fina.

Apetece-lhe gemer,

mas é muito envergonhada,

além de não ser menina.

 

É então que uma senhora,

branca, de sorriso doce,

aparece em boa hora,

põe-lhe a mão no peito murcho

e vai-se embora só quando

a dor fica aliviada.

 

Ela não sabe quem é,

mas por seu bem ou seu mal,

habituou-se a chamar-lhe:

Senhora do Hospital.

O poema foi transcrito de Alexandre O’Neill, Poesias Completas 1951/1986, 3ª edição revista e aumentada, INCM, Edição do Dia de Portugal, 10 de Junho de 1990.

João de Deus: Noite de amores e Resposta

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Sir Thomas Lawrence - Maguerite,_Countess_of_BlessingtonÀ publicação da 1ªedicão de Campo de Flores de João de Deus (1830-96) por Teófilo Braga (1943-1924) em 1893, dita completa, autêntica e definitiva, seguiu-se um coro de protestos sobre diversos aspectos da edição, nomeadamente por esta alterar versos de forma arbitraria, e também por deixar de fora inúmeras poesias comprovadamente de João de Deus. Uma critica especialmente detalhada e publicada em opúsculo, deveu-se a Trindade Coelho e Alfredo da Cunha.

É nesse opúsculo que encontro este Resposta a propósito de uma Noite de Amores antes publicado por João de Deus e incluído na edição de Campo de Flores.

A resposta foi dada a uma senhora que repreendeu em verso o poeta por aquele seu poema. Não conheço a repreensão poética, mas Noite de Amores e Resposta aqui ficam.

Resposta

À minha bela incógnita inimiga

Eu, mistérios se os profano

Não são nunca de mulher:

Vivi sempre neste engano…

Morrerei, se Deus quiser.

 

Aquela noite de amores,

Aqueles lânguidos ais,

Aquele leito de flores

Foi um sonho e nada mais.

 

Foi um sonho e sonho aéreo

Como os sonhos sempre são;

Nem podia ser mistério

Dos mistérios… da paixão.

 

Se pensei num doce instante

Que ao luar, cândida flor

Dum perfume inebriante

Perfumava o meu amor…

 

Se pensei que um vão desejo

Com que à luz desabrochei,

Me expirava em fim num beijo…

Foi um sonho que sonhei.

 

Foi um sonho! E se eu morresse

Quando à luz do mundo vim;

Se eu uns olhos só tivesse

Que me dessem luz a mim;

 

Não dormia e já velava

Como outro tempo velei,

No bom tempo em que eu gozava

O que ainda nem sonhei!

 

Não faz mal que o pensamento

De quem Deus fadou tão mal

Fuja, em sonho num momento

Desta vida desleal!

 

Que o que a sorte desditosa

Soprou como sombra vã,

Colha em sombras uma rosa

Nos seus sonhos da manhã!

 

Que te custa que deixasse

Uma infeliz: — Fui feliz?

Que fiz eu que te ofendesse,

Que mal foi o que te fiz?

 

Quando a mão dum inocente

Quer a estrela que o seduz,

Ninguém há, tão inclemente,

Que no céu lhe apague a luz.

 

Ah! mulher! custa isso pouco!…

Se não faz mal a ninguém,

Deixa lá que um pobre louco

Sonhe… sonhos que não tem!

Maio de 1859.

Vamos então ler qual foi este sonho contado como Noite de amores.

Noite de amores

Mimosa noite de amores

Mimoso leito de flores

Mimosos, lânguidos ais!

Vergôntea débil ainda,

Tremia! Lua tão linda,

Lembra-me ainda… Jamais!

 

Aquela dália mimosa,

Aquele botão de rosa

Dos lábios dela… Senhor!

Murchavam; mas como a Lua,

Passava a nuvem: “Sou tua”!

Reverdeciam de amor!

 

E aquela estatua de neve

Como é que o fogo conteve

Que não a vi descoalhar?

Ondas de fogo, uma a uma,

Naquele peito de espuma

Eram as ondas do mar!

 

Como os seus olhos me olhavam,

Como nos meus se apagavam,

E se acendiam depois!

Como é que ali confundidas

Se não trocaram as vidas

E os corações de nós dois!

 

Mimosa noite de amores

Mimoso leito de flores

Mimosos, lânguidos ais!

Vergôntea débil ainda,

Tremia! Lua tão linda,

Lembra-me ainda… Jamais!

 

Marianne Moore — Poesia

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Richard Avedon - Foto de Marianne MoorePara pequena pausa dos leitores do blog hoje apenas transcrevo esta reflexão da poetisa norte-americana Marianne Moore (1887-1972) sobre Poesia, acompanhada de uma sua foto de 1958, suponho, magistral, e onde a personalidade da mulher se adivinha, feita por Richard Avedon (1923-2004).

Poesia

Também não gosto.

Lendo-a, no entanto, com um perfeito desprezo por ela,

                                                           descobrimos

nela, apesar de tudo, um lugar para o genuíno.

Tradução de Carlos Mendonça Lopes

Poetry

I, too, dislike it.

Reading it, however, with a perfect contempt for it, one

                                                          discovers in

it, after all, a place for the genuine.

O poema foi publicado em 1935, se não erro, no livro Selected Poems. Há uma versão mais longa desta reflexão, mas fica para outra oportunidade.

Matsuo Bashô — 6 Haiku em versão de Casimiro de Brito

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Okada_Kenzo-Grey 1970*

Velha cidade silenciosa…

O perfume das flores flutuando

e à noite um sino a cantar.

 **

Na ressaca da maré

pequenas conchas brilhantes

matizadas com pétalas de trevo.

 ***

Purificar, gotas de orvalho

em vossa tão breve água

estas mãos escuras e vivas!

 ****

Silêncio profundo!

Até o cantar dos grilos

está escondido nas rochas…

 *****

Acorda! O céu iluminou-se!

Vamos novamente para a rua

amiga borboleta.

 ******

Ouçam o velho tanque.

O ruído de rãs saltando

em águas onde nadei.

 

Poemas de Matsuo Bashô (1644-1694) em traduções de Casimiro de Brito (1938) publicadas em POEMAS ORIENTAIS, hai-cais, 1958-1963.

Transcritos de Ode & Ceia, Poesia 1955-1984, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985.

Acompanha esta poesia uma imagem da pintura de Kenzo Okada (1902-1982).

Pesquisando no blog por Haiku, encontrará o leitor curioso outros poemas e também considerações sobre a técnica do Haiku.