Retratos extraordinários — Erna Schilling pintada por Kirchner

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Ernst Ludwig Kirchner -  Retrato de Erna Schilling 1913 600pxQuestiono-me ao olhar este retrato de mulher, Erna Schilling, pintado por Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) em 1913. Seca de carnes, não é bela. Numa idade indefinida entre os trinta e os sessenta anos, como a tratou a vida? Alguma elegância no vestir denota um cuidado de aparência em mulher de classe média. Será? Ociosa mulher de casa ou com profissão? Provavelmente sentada, parece não esperar nada. Talvez um pouco míope, um olhar focado na alma fixa um ponto indistinto do passado ou do futuro.

Sem registo de excruciantes angustias, este retrato enigmático apenas dá corpo ao desconhecido de si mesmo que afinal todos somos. Passados os momentos de felicidade ou desgosto que a vida sempre traz, fica esta espectante indiferença que a experiência de viver ensina.

Uma ode de António G. da Silveira Malhão

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Fragonard- A Leitora 600pxA desprezada poesia neo-clássica que pelo século XVIII em Portugal se escreveu, contém exemplos de graça poética, harmonia singela e por vezes inventiva, no cantar os recorrentes assuntos que a ocupam.

Um destes assuntos é a descrição das incomparáveis belezas da amada.

Pouco importa nesta poesia se a mulher objecto da paixão era na verdade assim. Em poesia nunca é a verdade que importa. Reino do subjectivo e não de notícias, a leitura da poesia é do soberano domínio da emoção.

Os olhos do apaixonado assim a vêm e dão-nos conta do tumulto que em si provoca tal visão (real, sonhada ou imaginada).

No leitor, o transporte para o seu universo fará o caminho da procurada empatia.

 

Na curta obra de António Gomes da Silveira Malhão (1758-1785) escolho a Ode VI.

Nesta ode estamos perante algo mais subtil que o louvor da amada. Estamos perante a reunião na mulher de tudo o que mais belo tem a natureza, e ao homem, porque ela existe, apenas a inevitabilidade da paixão e o sofrimento de amor lhe resta.

ODE VI

 

Todos os dotes

De mais beleza

Que tinha ocultos

A natureza,

 

Dos áureos cofres

Amor furtou

E unindo-os todos

Marcia formou.

 

Saiu-lhe a obra

Tão rara, e bela,

Que Amor, formando-a,

Pasmou de vê-la!

 

Depois contente

Por lhe ter feito

Tão lindo o rosto,

Tão alvo o peito,

 

Deu neste dia

Geral perdão

Aos que gemiam

No seu grilhão.

 

Mas se Amor, terno,

Todos soltou,

De novo Márcia

Os cativou!

 

A curta obra de António Gomes da Silveira Malhão foi apenas publicada postumamente por seu irmão, Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão (1757-1816).

Transcrevi a Ode VI, com modernização da ortografia, de Vida e Feitos de Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, Tomo III, Lisboa, 1797.

Notícias biográficas dos dois irmãos podem ser encontradas na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Tomo 16.  

A data da morte do poeta António G. S. Malhão decorre do relatado na obra Vida e Feitos… Tomo III.

Desaparecimento de Luísa Porto — um poema de Carlos Drummond de Andrade

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Dorothea Lange 08É para a mulher e o mundo que nos leva este poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Desaparecimento de Luísa Porto.

Protagonistas, mãe e uma filha, ambas de condição modesta, e nós, o mundo, para quem estas vidas humildes podem não ter relevância.

A ansiedade da mãe perante o desaparecimento da filha, o silêncio, o desamparo, o amor, a necessidade, o descaso dos outros, a vida em suma, tudo corre no poema em versos decantados, onde apenas a secura nos vibra as cordas da alma ao acompanhar o resignado desespero de quem se julga ninguém.

 

Desaparecimento de Luísa Porto

 

Pede-se a quem souber

do paradeiro de Luísa Porto

avise sua residência

À Rua Santos Óleos, 48.

Previna urgente

solitária mãe enferma

entrevada há longos anos

erma de seus cuidados.

 

Pede-se a quem avistar

Luísa Porto, de 37 anos,

que apareça, que escreva, que mande dizer

onde está.

Suplica-se ao repórter-amador,

ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,

a qualquer do povo e da classe média,

até mesmo aos senhores ricos,

que tenham pena de mãe aflita

e lhe restituam a filha volatilizada

ou pelo menos dêem informações.

É alta, magra,

morena, rosto penugento, dentes alvos,

sinal de nascença junto ao olho esquerdo,

levemente estrábica.

Vestidinho simples. Óculos.

Sumida há três meses.

Mãe entrevada chamando.

 

Roga-se ao povo caritativo desta cidade

que tome em consideração um caso de família

digno de simpatia especial.

Luísa é de bom génio, correcta,

meiga, trabalhadora, religiosa.

Foi fazer compras na feira da praça.

Não voltou.

 

Levava pouco dinheiro na bolsa.

(Procurem Luísa.)

De ordinário não se demorava.

(Procurem Luísa.)

Namorado isso não tinha.

(Procurem. Procurem.)

Faz tanta falta.

 

Se, todavia, não a encontrarem

nem por isso deixem de procurar

com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa

e talvez encontrem.

Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.

Luísa ia pouco à cidade

e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.

Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,

é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,

a qual não dá noticia nenhuma,

limitando-se a responder: Não sei.

O que não deixa de ser esquisito.

 

Somem tantas pessoas anualmente

numa cidade como o Rio de Janeiro

que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.

Uma vez, em 1898,

ou 9,

sumiu o próprio chefe de polícia

que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio

e até hoje.

 

A mãe de Luísa, então jovem,

leu no Diário Mercantil,

ficou pasma.

O jornal embrulhado na memória.

Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,

a pobreza, a paralisia, o queixume

seriam, na vida, seu lote

e que sua única filha, afável posto que estrábica,

se diluiria sem explicação.

 

Pela ultima vez e em nome de Deus

todo-poderoso e cheio de misericórdia

procurem a moça, procurem

essa que se chama Luísa Porto

e é sem namorado.

Esqueçam a luta política,

ponham de lado preocupações comerciais,

percam um pouco de tempo indagando,

inquirindo, remexendo.

Não se arrependerão. Não

há gratificação maior do que o sorriso

de mãe em festa

e a paz íntima

consequente às boas e desinteressadas acções,

puro orvalho da alma.

 

Não me venham dizer que Luísa suicidou-se.

O santo lume da fé

ardeu sempre em sua alma

que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.

Ela não se matou.

Procurem-na.

Tampouco foi vítima de desastre

que a polícia ignora

e os jornais não deram.

Está viva para consolo de uma entrevada

e triunfo geral do amor materno

filial

e do próximo.

 

Nada de insinuações quanto à moça casta

e que não tinha, não tinha namorado.

Algo de extraordinário terá acontecido,

terremoto, chegada de rei.

As ruas mudaram de rumo,

para que demore tanto, é noite.

Mas há de voltar, espontânea

ou trazida por mão benigna,

o olhar desviado e terno,

canção.

 

A qualquer hora do dia ou da noite

quem a encontrar avise a Rua Santos Óleos.

Não tem telefone.

Tem uma empregada velha que apanha o recado

e tomará providências.

 

Mas

se acharem que a sorte dos povos é mais importante

e que não devemos atentar nas dores individuais,

se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,

não faz mal, insultem a mãe de Luísa,

virem a página:

Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,

erguerá a enferma, e os membros perclusos

já se desatam em forma de busca.

Deus lhe dirá:

Vai,

procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

 

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.

A mãe de Luísa (somos pecadores)

sabe-se indigna de tamanha graça.

E resta a espera, que sempre é um dom.

Sim, os extraviados um dia regressam

ou nunca, ou pode ser, ou ontem.

E de pensar realizamos.

Quer apenas sua filhinha

que numa tarde remota de Cachoeiro

acabou de nascer e cheira a leite,

a cólica, a lágrima.

Já não interessa a descrição do corpo

nem esta, perdoem, fotografia,

disfarces de realidade mais intensa

e que anúncio algum proverá.

Cessem pesquisas, rádios, calai-vos·

Calma de flores abrindo

no canteiro azul

onde desabrocham seios e uma forma de virgem

intacta nos tempos.

E de sentir compreendemos.

Já não adianta procurar

minha querida filha Luísa

que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo

com inúteis pés fixados, enquanto sofro

e sofrendo me solto e me recomponho

e torno a viver e ando,

está inerte

gravada no centro da estrela invisível

Amor.

Dorothea Lange 06 600px

 

Poema publicado pela primeira vez em Novos Poemas (1946-1947).

Transcrito de Obra Completa, Aguilar Editora, Rio de Janeiro, 1967 e adoptada a ortografia de Portugal conforme publicado em Antologia da Poesia Brasileira, vol III, Lello & Irmão Editores, Porto, 1984.

 

As fotos que abrem e fecham o artigo são de Dorothea Lange (1895-1965).

Aquela Noite contada por Almeida Garrett

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Klimt_Gustav-Allegory_of_SculptureO homem desde que se pensou, sonhou a mulher, e exprimiu-o de forma artística.  Nesta busca pela essência do feminino imaginou-a divina, e em Vénus cristalizou poder, beleza e prazer do sexo, origem e destino da humanidade toda, ou como escreveu aos 22 anos num Hino a Vénus o nosso poeta de hoje, Almeida Garrett (1799-1854):

Tudo o que amável / Encerra o mundo,

Vem do teu espírito / Doce e fecundo.”

 

A Garrett ofereceu a vida bastas oportunidades de experiência, e dela tivemos esse poema maior da nossa literatura Aquela Noite, incluído em Folhas Caídas, livro único de obsessão carnal, sem rodeios de complicações madrigalescas, nem mantos de impostura … como o define José Gomes-Ferreira numa notável introdução à edição comemorativa do centenário da publicação do livro, e  onde o Poeta-com-remorsos-de-amar dá conta de uma certa noite que:

“Não deixou outra memória / Dessa noite de loucura, /

De sedução, de prazer… / Que os segredos da ventura /

Não são para se dizer.”

 

E agora, o poema:

AQUELA NOITE

Era a noite da loucura,

Da sedução do prazer,

Que em sua mantilha escura

Costuma tanta ventura,

Tantas glórias esconder.

Os felizes… e ai! São tantos!…

– Eu por tantos os contava!

Eu que o sinal de meus prantos

Do aflito rosto lavava –

Os felizes presunçosos

Iam nos coches ruidosos

Correndo aos salões doirados

De mil fogos alumiados,

Donde em torrentes saía

A clamorosa harmonia

Que a festa, ao prazer tangia.

Eu sentia esse ruido

Como o confuso bramar

De um mar ao longe movido

Que à praia vem rebentar;

E disse comigo: – “Vamos,

Os lutos d’alma dispamos,

À festa hei-de ir também eu!”

E fui; e a noite era bela,

Mas não vi a minha estrela

Que eu sempre via no céu:

Cobriu-a de espesso véu

Alguma nuvem a ela,

Ou era que já vendado

Me levava o negro fado

Onde a vida me perdeu?

Fui; meu rosto macerado,

A funda melancolia

Que todo o meu rosto revia,

Qual o ataúde levado

A egípcio festim, dizia:

– “Como vós fui eu também;

Folgai que a morte aí vem!”

Dizia-o, sim, meu semblante,

Que, onde eu chegava, o prazer

Cessava no mesmo instante;

E o lábio que ia a dizer

Doçuras de amor gelava;

E o riso que ia a nascer

Na face linda, expirava.

Era eu – e a morte em mim,

Que só ela espanta assim!

Quantas mulheres tão belas

Ébrias de amor e desejos,

Quantas vi saltar-lhe os beijos

Da boca ardente e lasciva!

E eu, que ia chegar-me a elas…

Para logo a fronte esquiva

De recatos se envolvia

E, toda pudor, tremia.

Quantas o seio anelante,

Nu, ardente e palpitante

Andavam como entregando

À cobiça mal desperta,

Gasta já e desdenhosa,

Dos que as estavam mirando

Com vaga luneta incerta

Que diz: – “Aquela é formosa,

Não se me dava de a ter.

E esta? É só baronesa,

Vale menos que a duquesa:

Não sei a qual atender.”

E a isto chamam prazer!

A grande ventura é esta?

Vale a pena vir à festa

E vale a pena viver.

Como então quis à tristura

Do meu viver isolado!

Fique-se embora a ventura,

Que eu quero ser desgraçado.

Levantei alto a cabeça,

Senti-me crescer – e a frente

Desanuviar-se contente

Do feio negrume espesso

Que assustava aquela gente.

Logo os sorrisos caiam

Para o meu lado também;

Já como um dos seus me viam,

Que em mim não viam ninguém.

Eu, de olhos desencantados,

A elas, como as eu via!

Meus entusiasmos passados,

Oh! Como eu deles me ria!

Frio o sarcasmo saia

Dos meus lábios descorados,

E sem dó e sem pudor

A todas falei de amor…

Do amor bruto, degradante

Que no seio palpitante,

Na espádua nua se acende…

Amor lascivo que ofende,

Que faz corar … Elas riam

E oh que não, não se ofendiam!

Mas a orquestra bradou alta:

– “Festa, festa! E salta, salta!”

Os seus guizos delirantes

Sacode louca a Folia…

Adeus, requebros de amantes!

Suspiros, quem nos ouvia?

As palavras meias ditas,

Meias nos olhos escritas,

Voavam todas perdidas

Dispersas, rotas no ar;

Que se foram almas, vidas,

Tudo se foi a valsar.

Quem é esta que mais voltas

Gira, gira sem cessar?

Como as roupas leves, soltas,

Aéreas leva a ondular

Em torno à forma graciosa,

Tão flexível, tão airosa,

Tão fina! – Agora parou,

E tranquila se assentou.

Que rosto! Em linhas severas

Se lhe desenha o perfil;

E a cabeça, tão gentil,

Como se fora deveras

A rainha dessa gente,

Como a levanta insolente!

Vive Deus! Que é ela… aquela,

A que eu vi na tal janela,

E que triste me sorria

Quando passando me via

Tão pasmado a olhar para ela.

A mesma melancolia

Nos olhos tristes – de luz

Oblíqua, viva mas fria;

A mesma alta inteligência

Que da face lhe transluz;

E a mesma altiva impaciência

Que de tudo, tudo cansa,

De tudo o que foi, que é,

E na erma vida só vê

O raio da vaga esp’rança.

– “Pois isto sim que é mulher”

Disse eu – “e aqui há que ver”.

Já vinha a pálida aurora

Anunciando a manhã fria,

E eu falava e eu ouvia

O que até àquela hora

Nunca disse, nunca ouvi…

Toda a memória perdi

Das palavras proferidas…

Não eram destas sabidas,

Nem quais eram não no sei…

Sei que a vida era outra em mim,

Que era outro ser o meu ser,

Que uma alma nova me achei

Que eu bem sabia não ter.

E daí? – Daí, a história

Não deixou outra memória

Dessa noite de loucura,

De sedução, de prazer…

Que os segredos da ventura

Não são para se dizer.


Boécio – um poema de Consolação da Filosofia

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A completude do humano faz-se com o físico e com o espiritual. Depois de desafiar os leitores para a experiência do sexo, venho hoje com a consolação da filosofia, tal como no-la deixou Boécio no livro do mesmo nome.

Texto ímpar na sua intemporalidade, nele seguimos as dúvidas do autor, que tantas vezes identificamos com as nossas,  sobre as vicissitudes e significado da existência, e a resposta filosófica às mesmas.

Alternando prosa e verso (na obra denominado Metro), acompanhamos os azares da fortuna e a resposta que ao desespero a filosofia dá, encontrando nela cada um dos leitores, a consolação por que anseia e às vezes desespera.

Neste caminho de interrogação chegamos inevitavelmente ao Criador invocado no Metro 9 do Livro III:

Ó Criador do céu e da terra,

 que com eterna razão governas o mundo,

Sublime poema agora em tradução portuguesa, nele encontramos uma concepção do Deus Criador:

Tu, na verdade, és a serenidade,

Tu o tranquilo repouso dos piedosos.

 ao qual o homem aspira:

Concede-me, ó Pai, ascender à augusta morada do bem,

concede-me contemplar do bem a fonte,

concede-me que fixe em ti, encontrada a luz,

a clara visão do espírito.

 

Deixo-vos com o poema na sua totalidade e as notas do tradutor.

Ó Criador do céu e da terra,

 que com eterna razão governas o mundo,

que, a partir da eternidade, fazes avançar o tempo

e que, permanecendo imóvel, a tudo dás movimento.

Tu, que causas exteriores não impeliram a criar

a obra da instável matéria,

mas foi antes a beleza intrinseca e imaculada do sumo bem

que Te levou a criar tudo segundo o modelo celeste,

Tu, sendo belissimo Tu próprio, governas o belo mundo

a partir da tua mente, formando-o à tua imagem,

ordenando que partes perfeitas

dêem origem a um todo perfeito!

Tu unes os elementos através de proporções matemáticas,

de modo que os frios se liguem às chamas,

as coisas áridas às líquidas,

de modo que o fogo, mais subtil, não se evole

ou o peso da água empurre para baixo

as terras submersas.

Tu, unindo a alma da tripla natureza(1),

que tudo liga e move,

liberta-la disseminando-a por membros harmoniosos,

a qual quando, separada,

tiver juntado o movimento em dois orbes (2),

a si mesma regressa, envolve a mente profunda

e transforma o céu à sua imagem e semelhança.

Tu crias as almas através de processos semelhantes

e as formas de vida inferiores,

ligando as mais altas a leves carros,

semeia-las pelos céus e terras,

e quando estas se voltam para Ti,

com benévola lei fazes que a Ti regressem,

trazidas pelo fogo.

Concede-me, ó Pai, ascender à augusta morada do bem,

concede-me contemplar do bem a fonte,

concede-me que fixe em ti, encontrada a luz,

a clara visão do espírito.

Dissipa as névoas e os entraves da massa terrenal

e resplandece com o Teu esplendor.

Tu, na verdade, és a serenidade,

Tu o tranquilo repouso dos piedosos.

Contemplar-te é o fim e o princípio,

ó guia, ó chefe, caminho e destino.

(1)Trata-se aqui da Alma do Mundo, anima mundi. A natureza é formada por mens, anima e materia, sendo a anima o elemento de ligação, distribuído por todas as coisas, a que dá movimento e união.
 
(2) A alma divide-se em duas partes, cujos movimentos tomam a forma de dois círculos, que acabam por voltar à sua origem.

Noticia bio-biliográfica

 Anicio Torcato Severino Boécio (480-524 d.C.) viveu os anos finais do Império Romano (historicamente extinto em 476 d.C. com a deposição de Rómulo Augústulo pelas legiões da Gália). Pertenceu à mais alta aristocracia romana, tendo da família dos Anícios, cristã desde o século IV, saído dois papas e um cônsul.

Homem rico e poderoso, o senador Boécio encontrava-se preso em 524, acusado de traição, e com a consciência de que esta acusação o poderia levar à morte. Despojado de tudo, com ele ficou apenas a vasta cultura, fruto da melhor educação possível à época. No estado de espírito que esta história de vida induz, naquela espécie de ante-câmara da morte, escreveu este diálogo entre o homem do mundo e uma figura feminina, a Filosofia, fazendo passar nesta conversa, as interrogações mais fundas de cada homem que se pensa e pensa o mundo.

O livro, Consolação da Filosofia, está finalmente disponível numa deslumbrante tradução moderna  de Luis M. G. Cerqueira, que transforma a obra, para quem a lê, em livro de cabeceira.

A edição é da Fundação Calouste Gulbenkian, em 2011.

A imagem que acompanha o artigo mostra uma pintura de Mark Rothko (1903-1970).

Da solidão no leito em dois poemas medievais

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Iluminura 22x530O começo para esta conversa foi uma velha canção dos anos 70 na voz de Roberta Fack, Jesse. A interpretação tem tudo: na voz, o calor do desejo que queima na espera de quem se ama, dito em palavras que dele dão conta:

Jesse come home, there’s a hole in the bed / Where we slep; …,

Esta marca no colchão leva-nos à evocação de momentos felizes que se desejaria repetir. A canção vai por aí fora e eu levo-vos por outro caminho, que não o das vossas eventuais recordações de solidão no leito. Quem vier, vai ao encontro de outras bem mais antigas falas desta mesma dor da espera por um amor que não chega, quando o desejo arde e a cama teima em permanecer fria.

 

Primeiro, uma Cantiga de Amigo no Cancioneiro Galaico-Português de Juião Bolseiro, poeta provavelmente galego, e activo no terceiro quartel do século XIII, aqui em versão modernizada por Natália Correia:

 

Sem o meu amigo sinto-me sozinha

e não adormecem estes olhos meus.

Tanto quanto posso peço a luz a Deus

e Deus não permite que a luz seja minha.

  Mas se eu ficasse com o meu amigo

  a luz agora estaria comigo.

 

Quando eu a seu lado folgava e dormia

depressa passavam as noites; agora

vai e vem a noite, a manhã demora;

demora-se a luz e não nasce o dia.

  Mas se eu ficasse com o meu amigo

  a luz agora estaria comigo.

 

Diferente é a noite quando me aparece

meu lume e senhor e o dia me traz;

pois apenas chega logo a luz se faz.

Vai-se agora a noite, vem de novo e cresce.

  Mas se eu ficasse com o meu amigo

  a luz agora estaria comigo.

 

Padres nossos já rezei mais de um cento

implorando Àquele que morreu na cruz

que cedo me mostre novamente a luz

em vez destas longas noites de Advento.

  Mas se eu ficasse com o meu amigo

  a luz agora estaria comigo.

 

in Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses, Editorial Estampa, Lisboa, 1970.

 

O outro poema, bem mais velho cerca de 700 anos, foi escrito por Venantius Fortunatus que viveu no século VI (ca. 540-ca. 600). Nele uma mulher fala de amor assim:

 

Sem ti, a noite vem com as asas pesadas;

sem ti, mesmo com sol, o dia é escuridão.

 

a que se acrescenta, em dúbia interpretação, uma nota mística de um conúbio com Cristo, mais tarde amplamente glosado por Santa Teresa de Ávila.

De que forma a linguagem de amor carnal apenas se refere nesta poesia medieval a amores espiritualizados, é matéria que ocupa especialistas. Aos não especialistas fica tão só a emoção que a palavra transmite, e com o nosso sentir joga.

 

A versão portuguesa é de David Mourao-Ferreira.

 

A mística donzela

 

Prostrada, a soluçar, não vejo quem desejo,

e abraço tristemente as pedras contra o peito.

Do esposo privada, aqui, no duro leito,

não o posso abraçar, como era meu desejo.

 

Oh! Dize-me onde estás! Onde te encontrarei?

Em que terra seguir-te, aí de mim, sempre ignota?

Ou terei de buscar nos astros minha rota

a fim de te alcançar, meu senhor e meu rei?

 

Sem ti, a noite vem com as asas pesadas;

sem ti, mesmo com sol, o dia é escuridão.

O lírio, a rosa, o nardo, o narciso não são

capazes de florir minh’alma abandonada.

 

Na esp’rança de te ver, observo cada imagem,

mas amor faz-me errar no alto os olhos vagos.

Chego assim a supor que só ventos pressagos

dirão de meu senhor a exacta paragem…

 

Quero lavar a lage onde puseres os pés,

co’o cabelo enxugar o solo de teus templos.

Só doçura acharei nos mais duros exemplos

se por fim puder ver, meu senhor, quem tu és…

 

Carmina, Livro VIII, 3, vv. 227-46

in Vozes da Poesia Europeia I, Colóquio Letras nº163, Lisboa, Jan-Abr 2003.

 

E agora, num novo salto de cerca de 700 anos em relação ao poema de abertura, a solidão cantada por Roberta Flack em 1971.

 

Jesse

 

Jesse come home, there’s a hole in the bed

Where we slept; now it’s growing cold.

Jesse your face, in the place where we lay

By the hearth, all apart, it hangs on my heart

 

And I’m keeping the light on the stairs

No I’m not scared; I wait for you

Hey Jesse, it’s lonely, come home.

 

Jesse the floors  and the walls, recalling

Your Steps; and I remember too.

All the pictures are fading and shading in grey

But  I still set a place on the table at noon

 

And I’m keeping the light on the stairs

No I’m not scared; I wait for you

Hey Jesse, it’s lonely, come home.

 

Jesse the spread on the bed,

Is like when you left, and I kept it for you.

And all the blues and the greens have been recently cleaned

And are seemingly new; hey Jesse, me and you

 

We’ll swallow the light on the stairs

I’ll fix up my hair, and sleep unaware

Hey Jesse, I’m lonely, come home.

Philip Larkin — Seja assim o poema

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Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 04600pxEntendo, com Philip Larkin (1922-1985), que não há obras poéticas, mas poemas. Que a poesia é uma arte de singulares, e cada poema deve conter em si, da abertura ao fecho, a sua total significação. Fica o poema coxo se para a sua cabal compreensão são necessários conhecimentos de biografia do poeta ou detalhes de escola e enquadramento de época.

Na poesia de Larkin, em cada poema temos uma totalidade, seja um pequeno drama, um relato de frustração ou amargura, desenvolvendo-se em reflexões banhadas por uma ironia cáustica, e o todo contado em versos de uma clareza lapidar.

 

Transcrevo dois poemas, This Be The Verse e Sad Steps, em tradução de Rui Carvalho Homem.

 Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 07600px

Seja assim o poema

 

 

Fodem-te a vida, o papá e a mamã,

  Mesmo que não seja essa a intenção.

Deixam-te todos os vícios que tenham

  E mais dois ou três, por especial atenção.

 

Mas no tempo deles também foram fodidos

  Por tolos trajando jaquetão e coco,

Que quando não estavam piegas ou hirtos

  Saltavam, raivosos, à veia, ao pescoço.

 

E assim é legada a felicidade,

  Vai mais e mais fundo, como o fundo do mar.

Foge mal tenhas oportunidade

  E quanto a teres filhos — isso nem pensar.
Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 06600px

Tristes passos

 

Tropeçando de volta à cama depois de uma mija

Afasto as grossas cortinas e surpreendo-me

Com as nuvens que correm, com a lua tão limpa.

 

Quatro da manhã: jardins de sombras oblíquas, jazendo

Sob um céu cavernoso e rasgado pelo vento.

Há nisto uma faceta ridícula,

 

Na lua a lançar-se através de nuvens fugazes

E soltas como fumo de canhão, para logo se apartar

(A luz pétrea aguçando, cá em baixo, os telhados)

 

Alta e soberba e separada —

Pastilha de amor! Medalhão de arte!

Ó lobos da memoria! Imensidões! É certo,

 

Há um leve arrepio, quando se olha para o alto.

A dureza e a claridade e o alcance,

A singularidade de tão vasto e fixo olhar

 

É lembrança da força e da dor

De ser jovem; do que não se pode ter de novo,

Mas que é vivido por outros, em pleno, nalgum lugar.

 

in Philip Larkin, Janelas Altas, Edições Cotovia, Lisboa, 2004.

 

Termino com um episódio de memória, I Remember, I Remember, fazendo arco com o poema de abertura.

Como não encontrei versão portuguesa do poema, transcrevo apenas o original.

 

Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 01600px

I Remember, I Remember

 

 

Coming up England by a different line

For once, early in the cold new year,

We stopped, and, watching men with number-plates

Sprint down the platform to familiar gates,

“Why, Coventry!” I exclaimed. “I was born here.”

 

I leant far out, and squinnied for a sign

That this was still the town that had been ‘mine’

So long, but found I wasn’t even clear

Which side was which. From where those cycle-crates

Were standing, had we annually departed

 

For all those family hols? . . . A whistle went:

Things moved. I sat back, staring at my boots.

‘Was that,’ my friend smiled, ‘where you “have your roots”?’

No, only where my childhood was unspent,

I wanted to retort, just where I started:

 

By now I’ve got the whole place clearly charted.

Our garden, first: where I did not invent

Blinding theologies of flowers and fruits,

And wasn’t spoken to by an old hat.

And here we have that splendid family

 

I never ran to when I got depressed,

The boys all biceps and the girls all chest,

Their comic Ford, their farm where I could be

‘Really myself’. I’ll show you, come to that,

The bracken where I never trembling sat,

 

Determined to go through with it; where she

Lay back, and ‘all became a burning mist’.

And, in those offices, my doggerel

Was not set up in blunt ten-point, nor read

By a distinguished cousin of the mayor,

 

Who didn’t call and tell my father There

Before us, had we the gift to see ahead

‘You look as If you wished the place in Hell,’

My friend said, ‘judging from your face.’ ‘Oh well,

I suppose it’s not the place’s fault,’ I said.

 

‘Nothing, like something, happens anywhere.’

 

 

Transcrito de Collected Poems, Faber and Faber, Londres, 2003.

Jean-Michel Basquiat (1960-1988) 04a600px

As imagens mostram obras de Jean-Michel Basquiat (1960-1988).

Alguma poesia de Thomas Bernhard

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Richter - Abstração 5Hoje trago-vos um poeta raro, o austríaco Thomas Bernhard (1931-1989), e uma tradução frequentemente fascinante dos seus versos.

Thomas Bernhard, porventura conhecido dos leitores como prosador, é, enquanto poeta, capaz de uma emoção surpreendente na forma como desenvolve um poema. À originalidade do verso acrescenta-se o percurso da ideia no poema, quiçá por vezes autobiográfica, que se resolve numa comoção

 Evidentemente, nem todos os poemas conseguem este efeito no leitor, mas existirem alguns é já uma enorme alegria para quem gosta de ler a vida na poesia. Transcrevo cinco.

 

 

Num tapete de água

Num tapete de água

vou bordando os meus dias,

os meus deuses e as minhas doenças.

 

Num tapete de verdura

vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,

as minhas manhãs azuis,

as minhas aldeias amarelas e os meus pães de mel amarelos também.

 

Num tapete de terra

vou bordando a minha efemeridade.

Nele vou bordando a minha noite

e a minha fome,

a minha tristeza

e o navio de guerra dos meus desesperos,

que vai deslizando p’ra mil outras águas,

para as águas do desassossego,

para as águas da imortalidade.

 

 

 

Altentann

O dia despe a sua camisa.

Sobe, nu, para o canteiro do jardim

e chama a si os pássaros.

Nas poças negras

fica agachado o seu rosto vermelho,

que os camponeses despedaçaram.

A erva crava lanças de sombra

no meu cérebro…

 

Na janela vizinha

está pousado um pássaro

como se fosse o guarda dos meus pensamentos,

até que o rude sono

me descalce os sapatos molhados.

 

 

Chuva de Verão

Pássaros calem-se,

nenhuma tarde

me consola, por cima

da ponte cai a chuva

na minha tristeza, nenhum

rumor de Verão

me faz mudar,

nenhum vento

me impede de dormir…

 

Amanhã de manhã

não quero ir

para debaixo de nenhuma árvore,

as minhas pálpebras anseiam pelo sono

do Inverno e da neve,

quero, à chuva,

regressar

às folhas

e às arcas sombrias.

 

Pássaros, calem-se, tenho frio,

a minha sombra

cresce por cima

da noite

para os bosques,

aí descansam

sob flores negras

os mortos,

os mortos errantes.

 

 

Cansado

Estou cansado…

Com as árvores entabulei conversas.

Com as ovelhas sofri o horror da seca.

Com os pássaros cantei nas florestas.

Amei as raparigas da aldeia.

Ergui os olhos para o Sol.

Vi o mar.

Trabalhei com o oleiro.

Engoli o pó da estrada.

Vi as flores da melancolia no campo do meu pai.

Vi a morte nos olhos do meu amigo.

Estendi a mão para as almas dos afogados.

Estou cansado…

 

 

de Nove salmos

(“A alma de Deus está nos pescadores“)

 

IX

Já não tenho medo.

Não tenho medo

do que há-de vir.

Extingui a minha fome,

bebi o meu tormento até à última gota,

a minha morte torna-me feliz.

Levo os meus peixes

para o monte.

Nos peixes está tudo

o que deixo ficar.

Nos peixes está a minha tristeza,

e o meu fracasso está nos peixes.

Direi

como é esplêndida a Terra, quando eu chegar,

como é esplêndida a Terra…

Sem precisar de ter medo…

Espero

que o Senhor me espere.

Transcritos de Thomas Bernhard, Na Terra e no Inferno, tradução e introdução de José A. Palma Caetano, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000.

Amor, Amores, no Cancioneiro Popular Português

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Jan Steen - Auto-retrato como alaudistaAo Cancioneiro Popular Português fui buscar algumas quadras à volta do amor. Contam elas alegrias e desgostos, falam de amores ligeiros ou eternos, saudades e promessas vãs. Tudo naquela mescla de ingenuidade e sabedoria a que o verso de sete sílabas e a quadra chamada de pé-quebrado (rima abcb) transmite um especial encanto.

Antes dos assuntos sérios do amor, e porque tudo isto é para cantar, façamos um breve intróito à conta da inspiração:

 

Eu sei fabricar cantigas

Mesmo com o pó do chão:

Inda bem não digo uma,

Já vem outra de roldão…

 

E para o poeta que também é tocador, algumas apreciações:

 

O tocador da viola

É bonito, toca bem:

Amigo das raparigas,

É o pior que ele tem!

 

Mas nem sempre o tocador tem o coração volúvel, se não, leiam:

 

Eu dedilho na guitarra

As cordas do coração.

Pela guitarra é que eu tive

A posse da tua mão.

 

E se mulher não há…

 

Guitarra, minha guitarra,

Só tu és a minha amiga:

Ficas comigo na cama,

És a minha rapariga.

LISIEWSKA, Anna Rosina - Alegoria do ouvir 600pxFeito o intróito, passemos ao sério:

 

O amor quando se encontra

Causa penas e dá gosto:

Sobressalta o coração,

Sobem as cores ao rosto.

 

Isto sabido, vamos aos variados estados amorosos:

 

A dúvida:

 

Tenho um dedo que adivinha,

Um dedo que me diz tudo;

Perguntei-lhe se me amavas,

Mas o ladrão ficou mudo…

 

A certeza:

 

Não te amo por um dia

Nem só por uma semana;

Amo-te por toda a vida,

Se o coração não me engana.

 

O estado apaixonado:

 

Mal sabes quanto me alegro

Quando te vejo defronte:

É como quem morre à sede

E põe a boca na fonte!

 

O meu coração do teu

É bem ruim de apartar:

É como a alma do corpo

Quando Deus a vem buscar.

 

Ai, muito custa uma ausência

A quem na sabe sentir!

Mas mais custa uma presença

De ver e não possuir!

 

Dormindo sonho contigo,

De dia contigo estou;

Tua imagem vem comigo

P’ra todo o lado onde vou.

 

Esta noite sonhei eu

Cuidando que era já tua;

Tive tantas alegrias

Como pedras há na rua!

 

O amor e o seu fim:

 

Lá vai o rio correndo

Oh, quem mo dera agarrar!

O amor é como o rio:

Vai-se e não torna a voltar.

 

Ainda que o lume se apague

Na cinza fica o calor;

Ainda que o amor se ausente

No coração fica a dor.

 

Aquele primeiro amor

Que no mundo tem a gente

Não sei que doçura tem

Que lembra constantemente

 

(Var) Que alembra eternamente.

 

Outras variadas formas de viver o amor onde entre peitos e penas surge alguma variedade expressiva:

 

Ó minha bela menina,

Ponha o seu amor só num;

Não traga muitos à trela,

Que pode ficar sem nenhum.

 

 

Ando cansado da vida,

Ando doente do peito;

Dá-me xarope de beijos,

Dá-me chá de amor-perfeito.

 

Esta noite me obrigaram

A dormir c’uma morena;

A pena maior que eu tive:

Ser a noite tão pequena.

 

A pena com que te escrevo

Não é de nenhum pavão,

Criada foi em meu peito,

Junto do meu coração.

 

Despeço-me com vontade de ser o passarinho da quadra final:

 

Que passarinho é aquele,

Que no ar faz ameaços?

Com o bico pede beijos,

Com as asas pede abraços!

 

Uma fábula de Bingre em início de Carnaval

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Dalí - Nu com seios de caracol

No mundo dos nossos dias, repartido entre o intelectualmente pretensioso e a ignorância militante, a fábula é género desprezado. E, no entanto, quanto conhecimento dos homens elas encerram na frescura e aparente inocência das suas formas poéticas.

Conhece a tradição ocidental três conjuntos maiores, que de algum modo se retomam entre si com variações, e são: os fabulários de Esopo e Fedro, vindos da antiguidade grega e romana, e as fábulas de La Fontaine do pós-renascimento, reelaboração de fábulas da antiga Índia compiladas por Roudaki sob o nome Kalilè e Demnè.

Por cá, ainda que surjam pontualmente nos mais diversos autores, foram sobretudo os poetas do neo-clacissismo português que a praticaram, com destaque para Bocage, a Marquesa de Alorna, Cruz e Silva, e Curvo Semedo. Filinto Elisio traduziu para verso português (sem rima) as Fábulas de La Fontaine, e no primeiro quartel do século XIX, Almeida Garrett também a praticou. Mais tarde, Henrique O’Neill reuniu um vasto acervo de apólogos, próprios e alheios, de qualidade poética desigual, num livro, Fabulário, que é hoje raridade de alfarrabista. Pela mesma altura João de Deus criou verdadeiras jóias, e em meados do século XX, Cabral do Nascimento editou um fabulário original, entre o melhor da sua obra.

Mas não será de nenhum destes autores a escolha de hoje. Será antes de Francisco Joaquim Bingre a fábula que lereis: marotice inocente vestida pela zoologia, em início de temporada de Carnaval.

Bingre, companheiro de Bocage na Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia, foi autor de uma obra vastíssima até há pouco desconhecida, e da qual, há semanas, trouxe amostras ao blog.

 

O Caracol e a Lesma

Fábula

 

Um caracol retorcido

Com a lesma era casado:

Que negra vida com ela

Não padecia o coitado!

 

Ele dormia na casca,

Ela pegada à parede;

Um aranhão lhe chupava

A reima, se tinha sede.

 

Nestes encontros noturnos

Gozavam prazeres mornos:

Ao enroscado marido

Nasceram dois lindos cornos.

 

Ele escondia-os no búzio,

Envergonhado do sol.

Quantos não conheço eu,

Com frontes de caracol?!

 

in Obras de Francisco Joaquim Bingre,volume V, poema 711, edição de Vanda Anastácio, Lello Editores, 2003.