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Dalí - Nu com seios de caracol

No mundo dos nossos dias, repartido entre o intelectualmente pretensioso e a ignorância militante, a fábula é género desprezado. E, no entanto, quanto conhecimento dos homens elas encerram na frescura e aparente inocência das suas formas poéticas.

Conhece a tradição ocidental três conjuntos maiores, que de algum modo se retomam entre si com variações, e são: os fabulários de Esopo e Fedro, vindos da antiguidade grega e romana, e as fábulas de La Fontaine do pós-renascimento, reelaboração de fábulas da antiga Índia compiladas por Roudaki sob o nome Kalilè e Demnè.

Por cá, ainda que surjam pontualmente nos mais diversos autores, foram sobretudo os poetas do neo-clacissismo português que a praticaram, com destaque para Bocage, a Marquesa de Alorna, Cruz e Silva, e Curvo Semedo. Filinto Elisio traduziu para verso português (sem rima) as Fábulas de La Fontaine, e no primeiro quartel do século XIX, Almeida Garrett também a praticou. Mais tarde, Henrique O’Neill reuniu um vasto acervo de apólogos, próprios e alheios, de qualidade poética desigual, num livro, Fabulário, que é hoje raridade de alfarrabista. Pela mesma altura João de Deus criou verdadeiras jóias, e em meados do século XX, Cabral do Nascimento editou um fabulário original, entre o melhor da sua obra.

Mas não será de nenhum destes autores a escolha de hoje. Será antes de Francisco Joaquim Bingre a fábula que lereis: marotice inocente vestida pela zoologia, em início de temporada de Carnaval.

Bingre, companheiro de Bocage na Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia, foi autor de uma obra vastíssima até há pouco desconhecida, e da qual, há semanas, trouxe amostras ao blog.

 

O Caracol e a Lesma

Fábula

 

Um caracol retorcido

Com a lesma era casado:

Que negra vida com ela

Não padecia o coitado!

 

Ele dormia na casca,

Ela pegada à parede;

Um aranhão lhe chupava

A reima, se tinha sede.

 

Nestes encontros noturnos

Gozavam prazeres mornos:

Ao enroscado marido

Nasceram dois lindos cornos.

 

Ele escondia-os no búzio,

Envergonhado do sol.

Quantos não conheço eu,

Com frontes de caracol?!

 

in Obras de Francisco Joaquim Bingre,volume V, poema 711, edição de Vanda Anastácio, Lello Editores, 2003.

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