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Jan Steen - Auto-retrato como alaudistaAo Cancioneiro Popular Português fui buscar algumas quadras à volta do amor. Contam elas alegrias e desgostos, falam de amores ligeiros ou eternos, saudades e promessas vãs. Tudo naquela mescla de ingenuidade e sabedoria a que o verso de sete sílabas e a quadra chamada de pé-quebrado (rima abcb) transmite um especial encanto.

Antes dos assuntos sérios do amor, e porque tudo isto é para cantar, façamos um breve intróito à conta da inspiração:

 

Eu sei fabricar cantigas

Mesmo com o pó do chão:

Inda bem não digo uma,

Já vem outra de roldão…

 

E para o poeta que também é tocador, algumas apreciações:

 

O tocador da viola

É bonito, toca bem:

Amigo das raparigas,

É o pior que ele tem!

 

Mas nem sempre o tocador tem o coração volúvel, se não, leiam:

 

Eu dedilho na guitarra

As cordas do coração.

Pela guitarra é que eu tive

A posse da tua mão.

 

E se mulher não há…

 

Guitarra, minha guitarra,

Só tu és a minha amiga:

Ficas comigo na cama,

És a minha rapariga.

LISIEWSKA, Anna Rosina - Alegoria do ouvir 600pxFeito o intróito, passemos ao sério:

 

O amor quando se encontra

Causa penas e dá gosto:

Sobressalta o coração,

Sobem as cores ao rosto.

 

Isto sabido, vamos aos variados estados amorosos:

 

A dúvida:

 

Tenho um dedo que adivinha,

Um dedo que me diz tudo;

Perguntei-lhe se me amavas,

Mas o ladrão ficou mudo…

 

A certeza:

 

Não te amo por um dia

Nem só por uma semana;

Amo-te por toda a vida,

Se o coração não me engana.

 

O estado apaixonado:

 

Mal sabes quanto me alegro

Quando te vejo defronte:

É como quem morre à sede

E põe a boca na fonte!

 

O meu coração do teu

É bem ruim de apartar:

É como a alma do corpo

Quando Deus a vem buscar.

 

Ai, muito custa uma ausência

A quem na sabe sentir!

Mas mais custa uma presença

De ver e não possuir!

 

Dormindo sonho contigo,

De dia contigo estou;

Tua imagem vem comigo

P’ra todo o lado onde vou.

 

Esta noite sonhei eu

Cuidando que era já tua;

Tive tantas alegrias

Como pedras há na rua!

 

O amor e o seu fim:

 

Lá vai o rio correndo

Oh, quem mo dera agarrar!

O amor é como o rio:

Vai-se e não torna a voltar.

 

Ainda que o lume se apague

Na cinza fica o calor;

Ainda que o amor se ausente

No coração fica a dor.

 

Aquele primeiro amor

Que no mundo tem a gente

Não sei que doçura tem

Que lembra constantemente

 

(Var) Que alembra eternamente.

 

Outras variadas formas de viver o amor onde entre peitos e penas surge alguma variedade expressiva:

 

Ó minha bela menina,

Ponha o seu amor só num;

Não traga muitos à trela,

Que pode ficar sem nenhum.

 

 

Ando cansado da vida,

Ando doente do peito;

Dá-me xarope de beijos,

Dá-me chá de amor-perfeito.

 

Esta noite me obrigaram

A dormir c’uma morena;

A pena maior que eu tive:

Ser a noite tão pequena.

 

A pena com que te escrevo

Não é de nenhum pavão,

Criada foi em meu peito,

Junto do meu coração.

 

Despeço-me com vontade de ser o passarinho da quadra final:

 

Que passarinho é aquele,

Que no ar faz ameaços?

Com o bico pede beijos,

Com as asas pede abraços!

 

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